Entrevistão: Hélio Flanders, Vanguart

ENTREVISTÃO DE SETEMBRO

por Marcelo Costa, Marco Tomazzoni e Tiago Agostini
revisão: Murilo Basso
fotos: Liliane Callegari

Hélio Flanders tem apenas 25 anos, mas suas histórias são as de um cara que já viveu ao menos o dobro disso. Ele parece levar a sério aquela máxima do Lobão sobre ser melhor viver 10 anos a mil do que mil anos a dez, mas precisou pisar no freio e agora vive sem pressa, fazendo as coisas totalmente de seu jeito. E ainda assim parece estar sempre dois passos à frente dos demais.

A primeira banda apareceu com 13 anos. Sexo, drogas, glam rock e Oscar Wilde no pacote. Aos 17, surgiu a necessidade de um auto-exílio na Bolívia, em que a loucura maior foi ficar careta. “Eu, artisticamente, na maneira mais simples da palavra, queria sentir coisas que nunca tinha sentido”, explica. Após uma bebedeira em La Paz que durou três dias, Hélio decidiu voltar para Cuiabá, reencontrar os amigos e montar uma banda.

O Vanguart surgiu como um furacão no cenário independente nacional. O boca a boca fez a banda lotar de curiosos a Funhouse, em São Paulo, num domingo às 19h para ver um grupo que fazia apenas seu segundo show na cidade. O disco de estreia, gravado e produzido em Cuiabá, apareceu no topo de várias listas de melhores do ano, inclusive do Scream & Yell (melhor disco de 2007, melhor música e melhor show de 2006), e muitos jornalistas viram no hit “Semáforo” o hino da geração 00.

Pelo andar da carruagem, o próximo passo seria o mainstream. A banda assinou um contrato com a Universal, lançou um disco ao vivo com a marca Multishow, mas deu um basta às necessidades do mercado, pois as cobranças ficaram maiores do que os desejos artísticos. O próximo disco do Vanguart, por exemplo, não tem data para sair. “Não se assustem se simplesmente não rolar”, ele avisa em certa altura desta entrevista.

Foram cinco horas de conversa regadas a uma caixa de cerveja belga Leffe em que Hélio – em estágio “semi-bêbado”, ele frisa – abriu o coração diversas vezes. Relembrou o começo da banda, explicou por que o Vanguart não toca mais em festivais, defendeu Mallu Magalhães, detonou o rock burro, falou de sua recente paixão pelo trompete e contou que já entregou 36 músicas novas para a gravadora, mas avisa: “O que menos me preocupa é a necessidade de voltar. O que mais me preocupa é voltar com algo que faça sentido”. Com vocês, Hélio Flanders.

Em 2008 vocês foram para a Europa. Como foram os shows?

Fomos participar do Popkomm Festival, que é um festival de world music classudo em Berlim, na Alemanha. Tocaram bandas brasileiras tipo o Cabruera, do Sergipe, que é do caralho, mas [o festival] tem um lado regional muito forte, batuque… Fodeu. Ninguém entendeu nada [do nosso som]. Lembrou meus shows em Cuiabá. Mas fizemos um show em uma universidade em Luneburg e foi ótimo. Depois tocamos em uma festa de música brasileira em Bamberg, na Bavária, que ninguém entendeu nada também, mas estava todo mundo bêbado. Eu já estava falando alemão no terceiro show (risos). Porque você começa a fazer umas conexões sem nexo nenhum, tipo “isso vem do latim” (mais risos), chega ao terceiro, quarto idioma fácil. Nem precisa estudar (risos).

Quantos shows foram?

Três. O quarto show seria em Londres com o Wry. A Clarah Averbuck estava lançando o livro dela na mesma época em que íamos tocar. Mas não rolou. Tomamos um chá de sala de 10 horas no aeroporto de Londres. Treinei bem o inglês na entrevista. Parecia reunião de pais da Wizard. Estávamos como turistas, sem visto de trabalho e nos deportaram de volta para a Alemanha. Só que nossa passagem de volta [para o Brasil] era saindo de Londres, então rolou uma grana para desmarcar. Ficamos dois dias em Berlim, que se me perguntarem como foi… não vou saber dizer. Tinham uns vinhos sul-africanos em promoção por 2,80 euros e fizemos a festa do vinho. Cada um levava três para o albergue e as suíças amaram a gente, porque os caras eram muito grossos – e elas eram muito barangas. E a gente: “Como assim?” (risos). Uma chorou contando do ex. Ficamos super amigos. Tomamos cada um três garrafas de vinho e comemos wurst…

Foi a única vez que vocês tocaram fora?

Foi. Eu toquei em Buenos Aires solo com o Arthur de Faria, que é um cara que para mim tem uma dimensão musical muito grande. Várias vezes encontro pessoas do meio musical pop que não conhecem ele e fico espantado. Eu estava preocupado com o lugar que íamos ocupar, ou que ocupamos ou já ocupamos no mercado. E a mais otimista das visões é: não existe esse lugar. Então você vê um show na Argentina, era o Arthur e o Mauricio Pereira, que considero um dos maiores letristas de São Paulo. E estavam os dois juntos tocando em um circuito para 40, 60 pessoas. No primeiro estava o Caito Marcondes, um cara que tocou com o Hermeto [Pascoal], com o Marcos Suzano, um dos maiores percursionistas do Brasil. É outra realidade musical. Eles pensam a música de outro jeito. O rock ‘n’ roll é quase uma piada. E se eles estão nesse nível, tocando pra 60 pessoas, eu vou ficar tentando compor um hit babaca, com letrinha de “ela vai sair pra dançar hoje” pra tocar pra 200 pessoas na Rua Augusta? Não! Eu vi um cenário que me surpreendeu totalmente. Estou indo no caminho errado e está maravilhoso, o ostracismo. Meu MySpace cada mês vai diminuindo…

Isso também é reflexo de vocês terem dado um tempo que, na verdade, não foi um tempo, foi um trilhão de anos na música pop. Vocês estavam em uma ascendente. Em alguns shows vocês davam a primeira nota de “Semáforo” e a plateia delirava.

Questão de escolha. Depois do “Multishow Registro” vimos uma realidade: nosso público não estava pronto. Muito menos o Brasil. Não tinha como pagarem o mínimo que precisávamos para tocar em um teatro, levar o quarteto de cordas – o que não conseguimos fazer nenhuma vez. Mas então você diz: “Pô, é meio utópico”, mas para mim eram os teatros os errados. Devíamos estar tocando em teatros para 80 pessoas e o Vanguart tinha tomado uma proporção de equipe e suporte que não dava mais pra fazer isso. A não ser que pagassem uma grana que existe apenas em projetos estatais.

Que é limitado…

É e não é. Você pode estar num grupo de pessoas que faça isso funcionar de uma maneira mais fácil, mas não quisemos levantar bandeira nenhuma nem entrar em discussões de mercado. Vinham falar comigo sobre politicagem e eu respondia: “Bicho, estamos fazendo peças dodecafônicas! É matemática. Não posso gastar tempo lendo comentário de blog. Eu não sei o que está acontecendo”. Então eu era um alienado, um ignorante? Não, eu só estava canalizando meu tempo para minhas prioridades, que hoje é estudar trompete, escrever sobre futebol e atualizar o Twitter. Se você fica dez dias sem atualizar o Twitter hoje em dia, você morreu. Os caras não vão ao seu show.

Em uma entrevista recente do Marcelo Camelo para a Trip ele diz que 1% do tempo dele é destinado à música…

Por isso que fumamos maconha, né? (risos) Passamos 1% do tempo com o violão na mão, mas 61% do tempo eu estou pensando na criação. Pelo menos eu penso nisso porque a minha criação vai muito além de estar com um violão e estar pensando música. Não quero que soe pretensioso, mas demos uma desacelerada porque estávamos pensando em um conceito e a cada seis meses eu mudo esse conceito. Então prefiro não lançar um disco que não diga nada pra mim. É meio burrice, porque estou perdendo grana, estou perdendo uma fórmula de folk bonitinho, de calça apertada, que podia estar dando dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, descobri uma forma de fazer dois shows por mês, pagar minhas contas, comprar meu fumo e não precisar ficar blefando, nem segurar placa de gênio pensando ou ficar fingindo que eu tenho culpa cristã. O protecionismo ao redor do artista… isso é um golpe.

O punk veio pra quebrar isso, mostrar que era legal que as coisas estivessem em um pedestal, mas era bom lembrar que foi uma pessoa quem fez, não um deus…

O lance do Vanguart foi uma escolha. Tivemos problemas com nosso empresário, com a gravadora que queria que vendêssemos disco… E eu: “Bicho, quem está vendendo disco hoje? Você me contratou para isso? Você está louco!”

Como foi a aproximação com a gravadora?

Nós gravamos um disco completamente independente, com ajuda de Lei de Incentivo do governo de Mato Grosso, lançado na revista do Lobão. Depois começamos a nos envolver com a mídia, ir aos programas… e tinha nosso empresário, que fez coisas muito legais para nós, mas tinha outro perfil. Sem contar o fator idade. Mudamos muito rápido, começamos a ouvir outras coisas. Cara, eu vim para São Paulo com 21 anos! Eu sou do mato, me fodi muito por ingenuidade e deslumbre. De olhar para onde chegamos. E na verdade não aconteceu porra nenhuma! Hoje eu queria estar fazendo coisas cada vez mais livres e por isso o Vanguart teve um hiato. Era isso ou nos adequar e lançar um disco que não tinha nada a ver conosco. “Ah, mas a pegada da banda é massa”. A pegada é o caralho! Não estou interessado na pegada. Estou interessado em harmonização.

A única saída para a banda era crescer…

Se seguíssemos a fórmula “Semáforo”… Eu tenho outras quatro “Semáforos” lá em casa e acho uma bosta! Renunciamos e a banda me entendeu completamente. Podíamos lançar discos de dois em dois anos, rodar o Brasil em festivais tocando rock ‘n’ roll, mas não quero fazer isso. Soa até meio babaca, mas eu tive uma banda de rock aos 13, 14 anos chamada Valium. Era uma banda glam. Vocês assistiram ao “Velvet Goldmine”? Lembra do Bowie tocando violão, sendo vaiado e depois reaparecendo? É tipo o inverso. Começamos em uma coisa meio glamour, guitarra. Eu ouvia glam pra caralho, achava Marc Bolan melhor que John Lennon! Obviamente hoje não acho, mas já achei. Era reflexo do que eu estava ouvindo na época e quando ouvi Dylan, o “Blood on the Tracks”, em 2000, com 15 anos, entrei em crise. Eu sempre curti letra, comecei a fazer música para escrever letra. E percebi que a narrativa do cara era genial, ele não canta, mas tem personalidade e era isso que eu queria fazer. E é curioso olhar os [nossos] discos hoje e pensar na concepção deles. Eu estava desempregado em Cuiabá e vocês não fazem ideia do que é Cuiabá, do calor que é lá o dia inteiro, pegar ônibus de manhã e chegar ensopado no trabalho. É foda. Trabalhei vendendo marmita, em hospital, computação. Eu destacaria três momentos importantes [na minha vida]: quando ouvi Dylan, quando ouvi Tom Jobim sabendo o que ele estava fazendo harmonicamente e quando vi Hermeto Pascoal. Antes de conhecer os Beatles eu achava que era só Bach. Ouvia música clássica e torcia o nariz para o rock. Tinha 5 anos e era uma criança que queria ser excêntrica, mas achava aquilo realmente foda até que vieram os Beatles. Depois o Raimundos (gargalhadas gerais). Pra mim, o Rodolfo é um grande poeta. Ele é o Genival Lacerda dos anos 90, de uma clandestinidade tosca que existe no Brasil. O Rodolfo teve a casualidade para compor que o Júpiter teve em “Lugar do Caralho” e que hoje vemos no Tatá Aeroplano. Escrever bonito é fácil. Olavo Bilac tem um monte. Cantar coisa casual é foda. O Tatá faz isso muito bem, vocês vão ver nesse disco novo [do Cérebro Eletrônico].

Então você partiu de Bach, passou por Beatles e chegou em Raimundos.

E depois eu conheci o folk do Dylan. E eu juntei tudo, com 15 anos, pensando: “Cara, eu não me permito mais ouvir rock ‘n’ roll”. E não é uma disciplina – eu não curtia mesmo. Então rolou o Strokes e eu achava as melodias uma delícia. Mas de repente todas as bandas começaram a copiar Strokes e pensei: “Gente, fudeu! A história do Brasil agora vai ficar marcada”. Tanto que de 2000 a 2006 tudo foi assim.

O Los Hermanos não bateu em Cuiabá?

Pra minha turma chegou. Ouvi muito Los Hermanos por tabela, porque todo mundo estava ouvindo. Tem pessoas que têm birra, falam mal da banda. Acho que não há o que falar. O problema é quando você ouve uma guitarra meio progressiva e diz: “parece Pink Floyd”. Não! Não tem nada a ver com Pink Floyd. Então todas as bandas de 2003 para cá, que não eram rock, que tinham uma pegada levemente sétima maior bossa nova “parecem” Los Hermanos. Você canta grave é Amarante. E são vícios culturais que a galera acaba pegando e se tornam difíceis de tirar. Acho que é por isso que a galera tem uma leve birra.

Era 2001/2002, Strokes e Los Hermanos rolando, e você estava na fase Bob Dylan.

Não era nem Dylan, estava mais no estudo do “American Anthology of Folk Music”. Em 2000 namorei uma garota que gostava muito do som dos anos 60 e eu ouvi tudo de 1962 a 1970. Tudo que era Flower power e bonito, incluindo os ingleses. Ouvi tudo, por isso que não acho “Impossible Germany” [Wilco] grande coisa (discussão e risos gerais). É meia bomba. Eu ouvi o “Being There” quando descobri o Dylan e pensei que era muito legal porque era tosco. Tem emoção. Depois parece que ele [Jeff Tweddy] começou a usar compressor e não tem graça mais. E ele não fala uns absurdos na letra. Eu acho [o Wilco]… Higienópolis demais. Não tem travesti andando na rua (risos gerais). É torcer para o São Paulo. Não dá! É tipo mudar para o Rio e ir morar na Barra. É até uma coisa carrancuda, rebelde da minha parte, mas porra, não tem como você torcer pra Imperatriz Leopoldinense. É Mangueira ou Portela. Eu gosto do Wilco, mas achei os últimos discos pouco inspirados, convencionais. E você pega os discos do Dylan, que não tem nada de novo, é ele se copiando, mas com uma puta banda de blues e blues mais pro country. Acho o blues do Wilco muito quadrado, careta. O blues do Dylan ainda tem viola, umas coisas assim. Eu não fui ver o Dylan no Via Funchal. Eu vi um velho declamando as letras e uma puta banda de blues. Só que as letras que o cara declamava eram fodas!

Como foi para você ver o Dylan?

Pô, ele vem sacaneando o ouvinte há 40 anos. Achei o show do caralho! Ele declamou várias, é o Dylan, né! Até achei que ele zoou pouco, tocou altos hits. No segundo dia rolou até “Blowin’ in the Wind”.

Beleza, demos a volta, voltamos ao Dylan, você está em Cuiabá. Quando você foi para a Bolívia?

Eu descobri depois que essa história da Bolívia foi coisa para jornalista. Porque todo release tem a parada da Bolívia, parece que é algo absurdo. E tudo é um ponto de passagem, não só a Bolívia.

É que foi vendido que você tinha ido para a Bolívia e “voltou” com o Vanguart.

Eu terminei o “terceirão” e já estava renunciando da minha vida. Estudava à noite, era demais. Todo mundo na minha classe trabalhava, menos eu. Acordava às seis e meia da tarde, ia pra aula, depois ia dormir às oito, nove da manhã. E comecei a fazer umas loucuras. Já tinha tido minha primeira crise criativa em que pensei: “não posso ser eu, tenho que procurar outra coisa, o ‘eu’ já estou fazendo há 15 anos”. Queria algo que não conhecia. Então rolou a oportunidade de ir pra Bolívia, porque minha avó estava morando lá. Ela abriu um restaurante em Santa Cruz de la Sierra.

Como é sua família?

É uma família classe média católica tradicional brasileira, toda descendente de italianos e portugueses. Minha avó foi para a Bolívia porque estava aposentada, tinha passeado por lá com meu tio, viu que a cidade estava crescendo, montou o negócio, tinha um “apêzaço”. Fui para lá e ela queria que eu fizesse medicina. Desde pequeno eu analisava uns vídeos e livros de psiquiatria clínica do meu pai, então sempre li isso. E começava a analisar os colegas de classe. Falava: “Esse é demente. Aquele é viado”. “Não, não pode, ele tem namorada”. “Não, não, olha lá, ó o comportamento, gestual erótico” (risos). E numa dessas pensei em fazer medicina e virar psiquiatra. Visitei a universidade e na cidade descobri umas banquinhas que vendiam fotocópias dos livros do Garcia Márquez por cinco pesos. O “Cem Anos de Solidão” era 10 pesos. Comecei a ler, falar espanhol pra caralho, gramaticalmente careta… Percebi que não estava pronto pra faculdade. Fiquei meio ano, estudei espanhol por conta, um pouco de inglês em um curso lá, porque precisava do diploma. Já tinha trabalhado como professor de inglês na clandestinidade quando menti no meu currículo e inventei que fiz um curso avançado. Mas eu estava com muitas ideologias nessa viagem. Primeira coisa: ficar careta e não usar nada. Ironicamente, na Bolívia em momento algum eu pirei, mesmo porque seria óbvio demais fazer isso. Fiquei os primeiros cinco meses em um quartinho. Careta, dormia todo dia às 23h. Acho que foi a época em que eu mais compus música na minha vida. Antes eu compunha música na guitarra para tocar em uma banda glam e, de repente, estava compondo umas coisas muito folks que eu nunca gravei porque são de 10 minutos, meio épicos. Dessa época só gravei “Into the Ice” e “Last Express Blues”. De músicas que eram blues tinham 30. E fui testando muito afinação, coisa que eu ainda não sabia. Comprei um charango, que é tipo um bandolim de dez cordas, com a lógica da viola caipira, mas diferente. Alguns têm forma de tatu. Um instrumento bem andino. E eu testava as afinações. Nesse tempo que fiquei na Bolívia não tinha nenhum amigo. Foi meio que uma lavagem cerebral. Saí de um lugar onde eu tinha uma banda, um lugar onde você sai sozinho e sempre conhece alguém, e de repente fui para um lugar careta onde ninguém conseguia nem pronunciar meu nome: era “Hêlio”. E o que eu queria era ser alguém que eu não era. Gravei o “The Noon Moon”, segundo disco do Vanguart, antes de ir pra Bolívia. E tem uma musica épica que sou eu explicando a minha viagem pra lá: “here no one knows my name, they never see me around”. Era quilométrica, prevendo o que seria. E foi muito pior. Foi uma solidão bizarra. Você tem que reaprender mesmo em um lugar totalmente novo. E eu, artisticamente, na maneira mais simples da palavra, queria sentir coisas que nunca tinha sentido. Tinha 17 anos, pensei em ir pra Bolívia e dar uma pirada em cima da caretice, uma coisa muito louca. Então comecei a trampar no restaurante da minha avó e ela queria que eu ficasse no caixa. Pedi para ir pra cozinha, cheiro de gordura o dia inteiro. Jogava bola com a gurizada. Fui perifa na Bolívia e foi do caralho. Depois fui para La Paz. Foi quando passei a seguir caminhos mais sinuosos (risos)… Comecei a raciocinar fora do recipiente. Tive uma bebedeira que durou dois ou três dias em La Paz. Depois disso decidi voltar porque a missão tinha sido cumprida. E eu já tinha 150 músicas, talvez oito coubessem em uma banda. Cheguei a Cuiabá com show marcado, foi uma redenção voltar, encontrar os meus melhores amigos de um ano atrás, que eu tinha me exilado deles. Montamos uma banda e ninguém entendeu nada.

Por que se exilado deles?

É meio cabeça dura da minha parte, mas achei que precisava sofrer algumas coisas na vida para conseguir viver umas coisas além. Algo meio masoquista. Tipo: “eu preciso terminar com ela, mesmo a amando ainda, porque preciso saber o que é isso, preciso sofrer e isso vai me fazer alguém melhor. Vou me ferrar tanto que vou ver coisas que quando estou bem eu não vejo”. Um auto-exílio total. Minha vida é pensar no próximo, sempre. E o choque do Vanguart também foi um exílio em São Paulo, que é a coisa mais claustrofóbica do mundo, mas que está sendo necessário. Acho que só vai acabar ano que vem. Ainda estou exilado.

Quando vocês vieram definitivamente para São Paulo?

Em 2006, moramos por dois meses aqui, dois meses lá, alternados. Em 2007, viemos oficialmente. O show da Funhouse, em 2006, foi legal porque não tínhamos dimensão nenhuma do que poderia ser qualquer repercussão. Hoje olho para trás e penso “que pena que hoje eu sei o que é o cenário”, porque a ingenuidade de tocar sem depender de uma cena é a maior alegria do mundo. Você estar na sua cidade do interior, gravando e fazendo sua música é o maior luxo que a música pode proporcionar.

Mas no show da Funhouse já tinha um bafafá. E o show foi ótimo.

Mas tem muito a ver com a energia. A Funhouse é muito diferente de um teatro do Sesc, onde você vai ter que ir lá e tocar pra caralho. Na Funhouse você precisa chegar com uma puta energia e querendo estar ali. E depois de ficar um ano na Bolívia, de ter voltado para Cuiabá, meu melhor amigo ter sido internado em uma clínica de reabilitação, ter ficado um ano off e ter voltado para banda… E nós começamos a viajar o Brasil! Era um clima que hoje vejo como nós nos recuperando depois de ficarmos três anos em depressão. Mas chegamos em São Paulo e vimos, de repente, que existia um mercado pra alimentar. E pensamos: “Puta que pariu, não é nada disso!”.

Todo mundo mora em São Paulo hoje em dia?

Desde 2007 está todo mundo aqui. Eu moro com o [Bruno] Montalvão, que é nosso secretário adjunto e assessor pra outros assuntos (risos). Ele é um guru, uma referência, um contador de histórias. E moramos com o Douglas, o baterista, que há um ano e meio, no auge da crise, quase foi embora. Nós pedimos para ele esperar que iríamos resolver… Foi uma crise da banda com o meio, não foi a banda em si. A banda em si sempre foi muito franca. Somos grandes amigos, tipo irmãos. Você manda o cara tomar no cu e na outra hora está tudo bem. E hoje a relação está incrível, no ápice da amizade e do entendimento de tudo que passamos.

Como é a piração do sucesso? Tem gente que se mata, Kurt Cobain que o diga.

Totalmente compreensível. Sei lá, não tem nada a ver com arte, com qualidade artística. Por exemplo, desconfio de música alegre. Hoje não tem como fazer música alegre sabendo tudo o que acontece. Sucesso é algo… fico muito “noiado” quando tenho que mudar alguma coisa [na música] para fazê-la ficar mais fácil. E durante dois anos fiz concessões que há seis meses parei de fazer. Não vou mais fazer isso. Por que você acha que nós não estamos hoje com clipe na MTV? Porque não fomos fazer um clipe. Por que estão enchendo o meu saco? Porque as últimas fotos de divulgação são de um ano e meio atrás. É meio babaca por um lado, o cara está nessa e não quer estar, mas não é que eu estou nessa: eu só quero fazer música. E tenho um público do caralho! Parece um milagre. A gente toca e tem 300 pessoas cantando a música, achamos demais! Como veio acontecer isso? Quatro anos atrás estávamos em Cuiabá…

Quando foi o momento em que você virou uma chavinha de “eu quero me exilar de novo”?

Acho legal que a entrevista esteja indo pra um lado meio desolado, decepcionado, mas não é isso. É simplesmente uma opção. Não desprezo meus amigos que estão comprando roupas novas e fazendo música com a bateria estilo Franz Ferdinand porque assim eles vão aparecer no Multishow. São objetivos diferentes. Essa chavinha já veio virada. O Vanguart veio dessa chave virada. Eu não espero nada do mercado. E se fosse esperar, estaria ferrado. Não seria genuíno, não faria minha música. Por isso gravei dois discos em casa. O primeiro nunca liberei porque é muito tosco. Só fui afinar guitarra no segundo disco. Não estudei música, mas acho o punk um golpe. Ele foi um grande erro do inicio ao fim. O punk é e sempre foi uma grande piada enquanto música. O cara me fala no Twitter: “Eu ouço Iggy Pop até hoje”. Então você está louco! É uma preguiça intelectual. Porra! A criação tem que partir de uma auto-renúncia, uma renúncia das influências, uma renúncia de tudo, se não você vai soar igual… Tudo que penso quando vou compor é fazer com que o Dylan seja um bosta, e mesmo assim já parece [com ele]. As bandas não têm essa preocupação. O Vanguart nasceu de eu, com 15 anos, pensando: “cansei, o rock não é pra mim”. Virei a chave e resolvi ser estranho, lancei dois discos muito lo-fi pela internet. Vejo a galera se adequando e é deprimente. Por isso o sucesso virou algo muito pejorativo. Não é que eu não quero. Não é a hipocrisia de não querer fazer sucesso, mas é a hipocrisia da galera que diz que está sendo sincera e não está sendo. 90% das bandas que rodam o Brasil são genuínas, fazem isso porque amam e porque não podiam estar fazendo outra coisa. Tomara que elas virem a chave como eu virei, mas acho difícil. É muito mais cômodo seguir a sua fórmula. E eu acho que 99% das bandas do mainstream, se é que se pode chamar assim, estão sendo mentirosas. Estão sendo hipócritas.

Tem como fazer sucesso sendo íntegro?

Existe a possibilidade. Se você já fez sucesso anteriormente e já está lá em cima, vão te chamar de gênio por qualquer coisa que você faça. É o que o Caetano faz. O “Cê” é foda. Um disco genial, mas se fosse de um cara novo seria um disco genial? Não, seria algo como “um puta disco, o cara pode ficar bom”. Existe um julgamento que é maior que nós. A pessoa, depois que chega a certo lugar, tudo o que ela faz é conceito, você analisa de outra forma. A banda nova se fode porque ou ela faz tudo ou ela é uma bosta. E no Brasil parece que ou você é muito foda ou você é um bosta. Ficou dez dias sem atualizar o Twitter, ninguém vai ao seu show. Você é muito mais escravo do que se trabalhasse em uma repartição.

Você não acha que o Caetano perdeu um pouco a força que ele tinha de uns anos pra cá? Você não precisa mais do apadrinhamento dele pra ser um artista relevante.

Ainda, de certa forma, é importante ser apadrinhado pelo Caetano. Mas acho o “Zii Zie” menos relevante que o “Cê”, menos inspirado. Porque antes o cara tomou um pé na bunda e fez um disco do caralho. Pé na bunda é a melhor coisa que pode acontecer para um homem. Nada melhora o homem como um pé na bunda.

O que você já compôs depois de um pé na bunda?

Nada, mas já bebi pra caralho! Acho que eu transformo a música em algo que não fique biográfico. Porque tudo é biográfico, então a partir do momento em que tudo é biográfico, faz com que esses fatos sejam uma coisa mais ampla, não dá para ser isolado tipo “tomei um pé na bunda aqui e fiz isso”. Talvez a viagem para a Bolívia seja a coisa mais direcionada que já escrevi. Agora não sei o que vai vir. Estamos com 18 músicas novas para o disco e dessas resolvemos ficar com quatro. Ou três. E não tinha nenhuma “Semáforo” no meio. Era tudo muito trash no sentido de “anti-pop” mesmo. Atonal quase, muito mais modal.

É uma coisa geral da banda ou começou contigo?

Ah, o sentimento é geral… Continuamos tocando juntos, fazendo shows e compondo.

Mas diminuiu o ritmo de tocar – você começou a fazer projetos paralelos, começou a tocar com a Mallu, com o Zé Mazzei, do Forgotten Boys.

É, foi isso. E ocupar o tempo. São Paulo é complicado. Até você conseguir acostumar a fazer nada… Porque fazer nada pra mim é a criação. Eu preciso ficar cinco horas ali, pego o violão, toco 15 minutos, faço uma música. E o próximo estágio é entender o que você fez.

Você consegue não fazer nada em São Paulo?

Depende. Eu consigo ficar uma semana sem sair de casa e trabalhar mais do que se eu tivesse saído todo dia.

Mas é que em São Paulo você tem teatro, vários filmes pra escolher no cinema… filmes fodas. Aprendemos a viver numa cidade em que tinha o mesmo filme em cartaz por 15 dias. E esse filme era da Xuxa.

Eu começo a tocar piano e fico lá pensando: “não, não vou a lugar algum, vou ficar aqui”. Uma vez foi engraçado porque deixei o MSN ligado e o cara apareceu para fazer uma entrevista. Nós começamos por ali, eu falei com ele e estava compondo. Ele fez três perguntas, respondi meio monossilábico e depois pedi para ele pra parar porque estava fazendo uma música. No texto depois estava: “Então ele parou a entrevista no meio e disse que ia compor uma música”, de uma maneira pejorativa até. Achei um absurdo. Em toda festa boca livre que rola da MTV, está todo mundo lá. Eu não estou porque até posso estar fazendo nada, mas estou me crucificando, me torturando porque hoje não saiu a melodia, então não vou. Não vou. Eu começo a tocar e não sai. Vou cozinhar. E as pessoas me dizem que é importante eu ir a festas para as pessoas me verem, porque existe o Vanguart e não posso sumir. Mas não é que estou sumido. Estou priorizando outras coisas. E isso faz – olha como é escroto esse cenário que a gente vive – parecer algo estranho, tanto que vocês perguntaram por que nós ficamos um bom tempo off. Não lancei um disco ainda porque não curti o que estou fazendo. Várias coisas eu curti, mas repensei e não é isso que eu quero fazer de novo.

Mas qual é a vibe? Como é na sua cabeça, sendo que o Vanguart tem uma sonoridade que não é o que você vai fazer com o cara do Forgotten Boys, não é o que você vai fazer com o Major Luciana? Que terá uns toques de jazz, você tocando trompete…

Então, esse tempo foi necessário pra eu compreender isso, para eu entender o que era um projeto e o que era o outro. Tudo isso ajudou muito a entender o Vanguart, porque deviam ter oito ou dez canções ali que eram completamente dissonantes. MPB em um sentido que não é rock ‘n’ roll. Desculpa, gente, eu não curto rock! Não é que não acho legal. Acho esteticamente do caralho, mas eu não faria nada pelo rock ‘n’ roll. Não faço questão de ter uma guitarra na minha banda fazendo “tan-tan”, muito menos uma bateria, mas precisei valorizar isso, ainda mais aqui [em São Paulo]. Porque em Cuiabá é normal você ser estranho e fazer só violão e voz. Em São Paulo, rolou a onda folk e pelo amor de Deus… Será que as pessoas ainda me associam ao folk? Ok, menos mal, afinal tem gente sendo associada a coisas piores. Mas porra, eu tinha dez canções que estava pensando em gravar no Vanguart que eram tão estranhas, tão novas no sentido de composição harmônica, modal, que falei que não iria rolar. Eu precisava achar um meio termo do que é o Vanguart dentro disso, o que é a linguagem do Vanguart e o que é a minha linguagem enquanto compositor. Agora estou começando a entender isso. E nisso foram 30 canções que ficaram perdidas em um limbo.

Quando houve a mudança da sonoridade mais folk para outra mais Hermeto Pascoal?

Quando o Vanguart começou folk era uma coisa de necessidade. Voltei da Bolívia e precisava gravar minhas músicas. Antes era violão e gaita. Quando voltei, chamei uma banda para fazer a mesma coisa e assim foi o “Before Vallegrant”, nosso primeiro EP. Eram as minhas canções da Bolívia, com uma puta sonoridade nova de um baixo dançante. Com uma guitarra sem distorção, que era uma coisa pensada. Nós não usamos distorção e a guitarra nunca pode fazer ritmo – e já nos fodemos várias vezes porque dava pau no violão, precisávamos terminar uma música e não sabíamos fazer o ritmo. Era uma coisa meio xiita, “vamos fazer diferente: proibido usar distorção e efeito em guitarra”. Acho foda essas coisas de tremolo do [Fernando] Catatau, mas na minha banda não rola. Eu falava: “gente, a ideia é folk, mas pensa no caipira”. Esse é o primeiro disco do Vanguart. É uma renúncia das influências o tempo inteiro, porque elas já estavam tão incrustadas que… Cara, banda que parece o Iggy Pop tem um monte. Banda que faz Bob Dylan não tem, mas eu não quero parecer o Dylan. Eu quero viver a minha época. Nesse meio termo o Caymmi caiu como uma coincidência, talvez destino. Eu pensei no Dorival e tinha que ser ele, senti uma energia do caralho. Estava ouvindo muito ele antes da sua morte. E a primeira vez que tocamos ao vivo foi antes dele morrer – ele morreu de manhã e tocamos “O Mar” na madrugada. Assim como ele, o Tom Jobim caiu; o João Gilberto, que acho que ninguém entendeu ainda; muita música brasileira caiu, até o Milton [Nascimento]. As pessoas falam: “esse falsete é Thom Yorke” e eu me desespero. Porque não é! Você não ouviu direito! É Milton, é Paul [McCartney], é Judy Garland! Acho que há uma preguiça de referências quando alguém analisa. Com o Caymmi também foi algo assim. Soa folk. Ouvimos tanta coisa bizarra de música brasileira e dodecafonia que depois do Hermeto, do Egberto Gismonti, dessa galera, você pensa que o Iggy Pop não é do caralho. Acho do caralho, mas não vou ouvir Stooges. Nasci brasileiro. Estou ouvindo umas coisas que me falam. A cultura pop veio e mandou umas coisas que não precisávamos ter absorvido. Mas então São Paulo não seria São Paulo e o Outs [bar da Rua Augusta] não existiria.

Mas por que vocês tocam um projeto de Beatles e não tocam isso? É grana?

Não. Beatles têm um lugar inexplicável no nosso coração. É muito mais uma magia indescritível de ter assistido aos filmes aos 12 anos e ter chorado antes de dormir porque os Beatles tinham acabado, porque ninguém tinha feito aquelas melodias. “Ah, eu prefiro Stones”. Tudo bem. Eu prefiro melodia. Amo os Stones, mas prefiro os Beatles. Pra gente eles sempre foram a coisa mais natural do mundo pra tocar.

É que não se ouviu o Vanguart fazendo esse tipo de música brasileira, mas tem uma sonoridade Beatles na guitarra.

Eu acredito em uma sonoridade do Vanguart de mais conceito. O que é o Vanguart sonoramente envolve muito música americana, de influências da infância, de Beatles a Bob Dylan. O Vanguart absorveu tudo isso, as coisas que não tem nada a ver, que não vão se aplicar, mas que estão ali, que é modal pra caralho agora. Que eu acho que não são nada comerciais e que provavelmente a gravadora achará o mesmo.

Mas o “Kind of Blue” [disco de Miles Davis] é o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

Ainda se estivéssemos falando de jazz, talvez estivéssemos melhores. Ou não (risos). Mas por exemplo, esse projeto novo, Major Luciana, conseguiu desovar boa parte das canções do Vanguart que estavam jogando a banda para o buraco. A banda não estava se adaptando a essa sonoridade. E olha que eles são músicos fodas. E todo mundo está no Major Luciana, mas é diferente, pela presença do Julio. Tem uns pianos, agora estamos pirando em umas peças dodecafônicas e líricas. Estou com dois discos para fazer esse ano. Penso que lancei o primeiro disco em 2007, devia ter lançado um novo em 2009. Lancei um disco ao vivo que não conta, mas tinha cinco inéditas, beleza. Então esse ano eu tinha que lançar um disco de inéditas, mas foda-se! Vou ficar pirando. A minha ideia ainda está fomentando. Prefiro sobreviver de fazer dois shows por mês segurando minha onda, fumando menos, porque acredito que a ideia não está pronta. O que menos me preocupa é a necessidade de voltar. O que mais me preocupa é voltar com algo que faz sentido. Senão eu vou jogar bola, volto a trabalhar. A gravadora até já pediu um single, mas ainda não tem um single. A gente não vai fazer nada para se adequar à gravadora. Se tivermos que fazer, preferimos sair. Nunca estivemos tão pouco preocupados em fazer sucesso e tão preocupados em fazer algo que nos satisfaça.

Como foi o contato com o [empresário] Glauber Amaral?

O Glauber é um cara que admiro, mas tivemos algumas divergências.

Como aconteceu de vocês divergirem?

Quisemos ficar independentes e não passar por ele. Poder parar quando quiséssemos.

Mas como era a relação de vocês?

Ficamos dois anos em um circuito de tocar, tocar, tocar, produzir, produzir, produzir, fazer grana, ensaiar e cadê o disco novo? Chegou uma hora que eu disse: “Ó, bicho, desculpa, mas o disco novo não vai rolar não”. “Por quê?” “Não estou afim, não é assim”. Sou criticado na minha família. Tenho um tio que sempre me pergunta onde está a “Semáforo” nova. E eu falo, “tio, não é por aí”. É uma coisa de opção. Eu queria dar uma mensagem positivista para a galera que está começando. Eu podia dizer: “galera, vamos fazer os festivais, vamos tocar”, mas é até ingênuo falar isso. Não se vendam! Eu sinto uma caretice generalizada.

Que bandas da sua geração você admira?

Muitas. Cada vez mais fico feliz de ver bandas maravilhosas musicalmente consolidadas, mas tem duas especiais: Porcas Borboletas e Los Porongas. São bandas que estão levemente “lost in translation”, como o Vanguart está “completely lost in translation”, porque estão se negando a fazer o careta. Quem está se negando a fazer o careta na música brasileira é a galera de raiz, mas nós não viemos da raiz – viemos de todo um conhecimento geral de arte. Então você pensa, “estou fodido, já fizeram tudo”. Você tenta ser de raiz, mas não consegue e tem que achar um meio termo de uma linguagem que seja de personalidade, e hoje o mais difícil é isso. Pega essas bandas que viajaram o Brasil nos festivais independentes: quem está fazendo algo genuíno, quem está fazendo algo de negação? Ninguém. “Ah, mas a arte não precisa ser negada.” É uma opção minha. Eu acredito que para você ser você, você precisa negar você mesmo o tempo inteiro. Só assim você vai olhar depois de 20 anos e se surpreender. Ver que fez algo que não era o convencional. Eu sinto poucas bandas fazendo isso e a fórmula mata todo mundo. Mas para ganhar dinheiro é assim: tem que seguir a fórmula.

É possível ganhar dinheiro nessa negação?

Vamos saber agora, mas a perspectiva é ruim.

Mas vocês romperam com o Glauber?

Hoje vamos fazer um show juntos, é uma relação… Contratualmente eu falei para ele: “Glauber, somos amigos, trabalhamos juntos até agora, mas eu não estou curtindo já tem um tempo e o Vanguart vai acabar”. Ele disse: “Pô, Hélio, você está mentindo pra mim. Está usando isso para a gente romper”. Eu falei: “Não, é verdade. Não está rolando. Se tiver que continuar assim ou eu vou para Cuiabá, ou para Europa ou sei lá, vou fazer umas fitas, descolei uma nacionalidade italiana e vou nessa. Hoje o Vanguart é a minha vida, mas eu não vou fazer o que não quero para manter uma coisa que logo não vou querer mais”. Então ele perguntou o que eu queria e eu disse que queria ficar sem exclusividade, para poder parar quando quisesse. Ele até disse que entendia, mas também precisa entender que para mim é importante estar independente de um jeito que faça bem para a banda. No princípio ele não entendeu, nós “tretamos”, só que uma semana depois conversamos e nos entendemos. E pronto. Ainda temos o contrato. A última coisa que gosto é discutir com alguém com quem fiz muitas coisas juntos, então sentei com ele e bati a real. E rolou. Ele foi bacana conosco nesse sentido. Estou editando minhas músicas com ele ainda. Temos um monte de coisas juntos. É uma necessidade muito mais artística que eu tinha. Estava me sentindo preso, não tinha exigência nenhuma, mas, porra, raspei a cabeça com 16 e fui para Bolívia com 17. Não ia assinar contrato para ficar preso. Fiquei e me fodi.

Mas você tem algo pronto? Quantas músicas gravadas?

Mandamos uma prévia para a Universal com 18 músicas e vamos mandar mais 18. Vão ser 36 para escolher. Disso, metade em inglês e metade em português. Tem guitarra sem distorção, ainda continuamos negando tudo, mas estamos cada vez mais longe do rock ‘n’ roll. Essa é única coisa que eu posso dizer com certeza.

Como você vê a arte, o palco?

O palco pode ser a etapa final. Sabe quando você se apaixona e é correspondido? Sabe essa alegria? Então você a beija na primeira noite, vocês se acariciam e você não quer saber se você vai para a casa dela, se ela vai para sua, se vocês vão meter, você não quer saber disso porque não é importante. Não é que não seja importante, mas você está tão envolto em uma coisa que o gozo é algo eventual. O palco é o gozo, é a etapa final. Muitas vezes você nem precisa chegar nele, mas acabamos sempre indo para o palco. É um dos momentos mais afirmativos.

Como estão os shows nesse período de mudanças?

Os shows do Vanguart têm sido incríveis porque estamos fazendo um repertório baseado no primeiro disco, com duas, três inéditas. E com Caymmi. Tem sido incrível. O Vanguart nunca foi tão rock ‘n’ roll, o Caymmi é rock no palco. Quando eu vou pra casa compor e ensaiamos com os meninos, é totalmente o oposto. E sinto que vamos precisar de todos esses anos de espera justamente para analisarmos, entendermos esse processo. O próximo disco vai vir bem pouco rock ‘n’ roll, embora ao vivo eu possa tocar músicas com pegada rock. Mas o nosso show vai ter, fatalmente, um bloco no futuro que vai ser MPB. É um passo natural. Volto a dizer: o rock ‘n’ roll pra mim é mais uma possibilidade. E não uma religião como é pra 98% das pessoas com quem eu convivo. O rock foi importante, mas não é um dogma. E posso muito bem viver sem ouvir rock até o fim da minha vida. Não é que eu acho bonito falar mal do rock, mas é verdade, é sincero. Não acho legal, pelo contrário: acho bem careta ouvir rock ‘n’ roll hoje em dia.

Nessa linha, quando é que você vai fazer MPB?

Já estou fazendo MPB desde o começo. O Vanguart pode ser analisado como um disco de MPB. Se o Caetano no “Transa”, quando canta “You Don’t Know Me”, é MPB, então acho que também sou. Claro que eu não sou o Caetano. Sou muito menos. Um guri do Mato Grosso que lançou um disco. Mas eu cantando em inglês no meu primeiro disco, para mim, é MPB.

Houve uma grande discussão devido à carta do João Paraíba aqui no Scream & Yell. Em certo momento, perguntamos por que o Romulo Fróes não tocava nos festivais independentes. A resposta foi: “Ah, o Rômulo tem um perfil controverso para festival de rock”. Desde quando os festivais são de rock?

Desde quando os festivais emburreceram se fechando em uma temática “rock stoner, guitarra é legal”. Guitarra só é legal quando é bem feita. A partir de 2006, os festivais independentes emburreceram. Por que o Vanguart sumiu dos festivais? Porque não tem mais espaço. Só tem espaço para bandas que “agitam a galera” (aumenta a voz). Isso é o rock ‘n’ roll brasileiro independente atual. É som pesado. Só que o “Kind of Blue” é mais pesado que o “Artista Igual Pedreiro”. Não ataco o rock quando falo mal dele. Eu falo mal da caretice, do fechamento artístico totalmente burro que o rock faz. Um exemplo: a galera que jogou lata no Lobão quando ele subiu com a Mangueira pra tocar um som pesado e ninguém entendeu. Essa é a massa rock que me decepciona. Ainda bem que eu não estou nesse bolo porque parece que o som pesado é o que rola. Minha esperança é que daqui a cinco anos seja diferente, que o Rômulo esteja ganhando uma puta grana com as músicas dele e que eu possa estar compondo para alguém, porque hoje estamos compondo uma música que se fode porque é diferente. O Romulo é um dos artistas mais corajosos, inquietos e criativos dos últimos anos. O nosso disco novo tem coisas tão diferentes, bizarras, que resolvemos não lançar… ainda.

Por que não?

A gravadora fez uma pressão pra ter uma música forte e eu disse que não tinha uma, mas 14, que todas eram fortes, dependendo do jeito que você olha (risos). Tem uma que fala: “Eu te levei até a praia / eu me desfiz da minha esposa / eu joguei fora o meu dinheiro / e eu dei de costas para um amigo e só sonhei meu desengano”. Coisas de você ter se fodido mesmo, e eles não acharam forte. Então isso mostra que até nossa gravadora, que sempre foi incrível conosco, sempre nos entendeu, está pensando de outra maneira. Assim como eu acho que 90% das bandas brasileiras estão pensando de outra maneira. Ainda mais as bandas novas que entraram e vislumbraram um cenário de festivais independentes. “Meu, vamos viajar o Brasil inteiro curtindo? Comendo buceta? Vamos, vamos?” E quem não vai? É foda. E tudo envolve paixão porque todos estão apaixonados pelo som que estão fazendo, mas não está existindo um questionamento sobre o que se está fazendo. Falta uma sagacidade artística de “vamos fazer diferente, mesmo que seja uma bosta”. Está todo mundo só seguindo a onda. E quem está tendo essa sagacidade – como o Rômulo, a Lulina e o próprio Vanguart – está se fodendo porque não falam a língua dos festivais, que acharam muito mais cômodo pegar bandas que seguem uma onda. Funciona pra eles. O público vai rolar e a politicagem está na ponta da língua. É tudo uma questão de prioridades. Quem não está tendo a prioridade de defender a cena e tocar de graça pelo Brasil inteiro está em casa, por isso que continua fazendo coisa boa, como o Romulo Froés.

E você?

Vocês não sabem o que eu estou fazendo? Vocês ouviram o Major Luciana?

Vimos um pedaço do show na abertura do Jonathan Richman, bem estranho…

Yes!

A Universal tem contrato de quantos discos?

Fizemos um contrato de um a quatro discos. Então já fizemos o primeiro, que foi o ao vivo. Se nós educadamente quisermos romper é só comunicá-los, mas ainda estamos conversando. Não temos nenhuma obrigação, até por isso eu estou com esse discurso. Quando a água bater na bunda, o discurso muda.

Parece que a Universal tem uma janela para o trabalho de vocês muito maior do que vocês imaginavam.

Sim, mas vamos chegar e apresentar o material. Apresentei o material anterior, que foram 18 canções. Falei com o diretor artístico: “Oh, essa é a pira: provavelmente 40% do disco será isso. Ouve. Nós ainda não sabemos o que estamos fazendo”. E ele respondeu: “Achei legal pra caralho. Tem cinco músicas que acho fortes, mas não vejo o hit. Vocês pensam em regravar algo?” Porra, até penso, dependendo da proposta. E agora estamos compondo uma coisa que tem muito mais a ver com a cara da banda e vamos chegar nisso, que é parecido com uns 30% da primeira parte. Acho que é a nossa cara, não é muito cabeça como o Major Luciana, que é bem complexo. O Vanguart é natural. Se eles não se interessarem pelas músicas, vamos fazer um disco por fora. A questão é que estamos sobrevivendo e é outra conduta: só precisamos pagar as contas e fazer um som. Lembro quando fomos assinar com a Universal e a Deckdisc, do grande Rafael [Ramos], queria um contrato de quatro discos. E falei: “Bicho, quatro discos? Quando estivermos no segundo nem vai existir mais disco. Que vou gravar um eu sei. Que vou gravar dois eu já não sei. Três já é difícil, agora o quarto não vou gravar nem fodendo”. Não podia assinar aquilo. Não posso fazer um contrato desses. Não estou na música pra fazer carreira. Estou nela para fazer disco, conceito. Se o conceito não rolar, nós não vamos gravar. Não se assustem se o próximo disco do Vanguart simplesmente não rolar. A minha pretensão é só fazer som. Se o disco não rolar, eu trabalho em cozinha, faço produção…

Mas é uma coisa que o Tatá Aeroplano já falou, algo como quando você compõe, você tem que lançar para “se livrar” da música.

Eu tive isso aos 15. Hoje prefiro não gravar um disco sem achar que ele é muito foda.

Você acha o primeiro disco do Vanguart muito foda?

Não. Ele é um bom disco. Acho até que poderia ser muito melhor. E lembro que rolou uma crítica falando, acho que foi até o queridíssimo José Flávio Júnior quem falou. Porque o Zé Flávio saca muito, assim, das coisas que ele gosta. E lembro que ele mandou uma matéria falando mal do Otto porque o Otto tinha defendido a maconha, e isso é até uma queixa com os jornalistas da atualidade, porque eles se comportam como estudantes do Mackenzie. Eles são muito caretas. E então o Zé me encontrou e falei: “Bicho, você falou mal de nós. Você não ouviu?”. E ele disse: “Ouvi, mas parece que você não quis que fosse um disco de rock”. Então beleza, abraço. E nem falei nada porque se o cara diz isso pra mim é óbvio que ele não entendeu. “Parece que você não quis.” Não é isso! Tudo que eu quis foi que não fosse um disco de rock (aumenta a voz). Eu batalhei, fiquei no produtor falando: “Essa guitarra, abaixa”. “Essa pegada está legal, curtiu essa pegada? Abaixa”. Tudo que quis foi querer um disco “não rock ‘n’ roll” enquanto mérito conceitual, de ter tido um disco bizarro esteticamente em que estou de vestido na capa. O resto não interessa. Sei lá se as músicas são boas. Contextualizando é um grande disco. E pra fazer um segundo disco… Só vou fazer se fizer sentido pra mim, por isso não fiz até hoje. E olha, está todo mundo lançando disco. Show de lançamento dá muita gente. Dá dinheiro, dá buceta, até droga. Só que só eu não estou fazendo show de lançamento. E tenho namorada.

Como é a sua relação hoje com a Mallu Magalhães?

Cara, eu gosto muito da Mallu! Acho que ela é muito injustiçada pela música que faz. Fora que também envolve a chegada dela, que foi algo difícil pra quem estava acostumado à velocidade natural das coisas no mercado. Acho que ela sofreu com isso, com a ida ao Faustão e etc. Mas vocês ouviram o último disco dela? O que vocês acharam? O que ela fez com 15 eu só fiz com 16. Então acho que não consegui superar ela, mas me apaixonei pela Mallu porque ela tem um estilo de compor que é dela…

Todos os músicos se apaixonam por ela?

Me apaixonei por ela como me apaixonei pela Cida Moreira. Cada mulher tem seu encanto e quando conheci a Mallu ela trouxe muita coisa boa pra mim. Somos muito parecidos, de compor naturalmente. Valorizo o “take um”. Não aquela gravação foda. E a Mallu é muito “take um”, natural, por isso que às vezes ela se fode e paga um preço da crítica, do público e é tão vista com preconceito, porque ela é genuína. Ela é daquele jeito. E é por isso que ela é tão bacana, compõe coisas tão legais. Eu sou um grande fã da Mallu. Sinto que ela está no mesmo exílio que eu, mas está em uma situação privilegiada, porque nasceu mulher.

Ela parece ter sido engolida pelo mercado.

Essa busca de vocês tem grande culpa nisso. Estão sempre buscando algo novo e não tem que buscar algo novo. O novo vai vir e ele não vai ser novo, vai ser melhor. E vocês, como jornalistas, tem que ter a sensibilidade de que muitas vezes o novo é somente o novo e não tem nada. Ou nem é novo, mas está todo mundo chamando de novo e vocês precisam, pelo trabalho, ir lá cobrir o novo, mesmo sem gostar.

Mas o que é o “Mallu Magalhães 1” ao lado do “Blood on the Tracks”?

Acho que ela é alguém que foi profundamente influenciada pelo Dylan e fez isso de maneira muito boa, especialmente se você olhar o Brasil. É só isso. É uma leitura que eu tenho. Estou analisando a nossa situação, o meio que vivemos. Acho do caralho esse disco da Mallu mesmo ao lado do “Blood on the Tracks”. Obviamente jamais vou comparar ele com o “Blood on the Tracks”, mesmo porque jamais compararia nada com o “Blood on the Tracks”. Talvez o “Songs of Love and Hate” [disco de Leonard Cohen].

Mas tudo é música. É preciso comparar.

Mas é bizarro comparar a Mallu com Bob Dylan como, ouvi essa semana, comparar Mini Box Lunar com Stereolab. Vanguart com Violent Femmes. Superguidis com… Foo Fighters? Está louco, meu? Não tem que comparar. Falar de influência é uma coisa, mas se você for ouvir a Mallu comparando ao Dylan ou ao Leonard Cohen você vai achar uma bosta. Se você for ouvir o Vanguart comparando [ao Dylan] vai achar uma bosta.

Só que o Dylan não escreveu nada para essa geração 00 como você escreveu! Nem a Mallu.

Você acha que eu escrevi pra minha geração?

Sim. Lúcio Ribeiro e Humberto Finatti também já definiram “Semáforo” como o hino dessa geração.

Acho que analisar a Mallu não tem nada a ver com o Lúcio ter dito que eu escrevi algo para minha geração. Eu li a letra de “Little Noil” e de “It Takes Two to Tango” e não tem nenhuma banda brasileira que escreva em inglês que chegue aos pés dela. Rola um problema com as influências. Ela não tem culpa de ter escolhido o Bob Dylan como influência. Se eu tivesse escolhido fazer uma banda para imitar o Foo Fighters eu estava até hoje tocando guitarra e achando do caralho. No mínimo rodando os festivais independentes tocando rock ‘n’ roll, usando All Star e comendo mulher. Eu não quis isso. É careta. Mas acho foda ela ter feito “Get to Denmark” com 14 anos e meio e colocado no MySpace. Quem fez isso? Acho a Lulina foda, mas ela não chegou nesse nível de subjetivismo que a Mallu alcançou com 15 anos. Nem nós chegamos. Então acho que ela foi totalmente perseguida. A culpa é toda dela, quem se expôs foi ela, quem foi no Faustão foi ela, eu não iria…

Não mesmo?

Nem fudendo. Se não me entenderam no “Altas Horas” vão me entender no Faustão? Não vou lá queimar o meu filme.

Também não entenderam o Lucas Santanna no “Altas Horas”.

E Lucas Santanna é do caralho! Mas o que eu queria dizer em defesa da Mallu: quando ela surgiu tinham duas mil cantoras de MPB por aí. Chatas. A metade era lésbica. Seguindo a regra, hoje qualquer cantora de MPB que não for lésbica já é subversiva. Só nisso a Mallu já é subversiva, mas ela tem 15 anos e ainda escreve umas letras boas. É óbvio que iam meter o pau. Desde que cheguei a São Paulo não li letras assim. Eu não acho legal o cara fazer uma letra falando de buceta, mulher e cerveja. Porra, bicho, qual é? Eu não sou viado, mas a viadagem me apetece. A Mallu está escrevendo coisas subjetivas na escola Dylan…

Mas ao mesmo tempo você vai ter o Cérebro Eletrônico fazendo uma coisa do caralho com boas letras. Vamos ter o Romulo Froés com as letras do Nuno Ramos…

Sim, mas isso é 10% do todo. Eu venho de uma cidade que é periférica. Em Cuiabá, Belém ou Goiânia, 80% das bandas estão imitando as próprias bandas de lá. Elas não têm personalidade. Vocês viajam os festivais, sabem como é.

Beleza. O Hélio de Cuiabá, que precisou virar a chave, era um Hélio que acabou virando umas duas ou três chaves até aqui. Quantas chaves a Mallu virou? E qual vai ser o valor daquele primeiro Hélio violão e gaita? A Mallu tem tudo para ser uma grande compositora. A diferença é que você chegou num ponto e falou: “eu não quero fazer mais quatro ‘Semáforos’”. E ela está fazendo uma puta letra legal, mas tocando uma música que ainda sofre de uma referência norte-americana. Tem o seu valor, mas…

Eu achei que nesse disco novo as referências foram muito óbvias: música norte-americana e Marcelo Camelo. Mesmo assim, ela fez algo com consistência que 90% das bandas independentes não fazem. Então prefiro criticar 90% das bandas independentes que ainda não se encontraram do que meter o pau na Mallu. Ela é uma das artistas mais honestas do Brasil, mesmo com todo marketing por trás. O namoro com o Camelo apenas expõe ela. E o lance dela ser precoce parece que joga contra ela, quando na verdade devia jogar a favor. Ela é uma puta artista. Não conheço o Black Drawing Chalks, nunca ouvi. Vi na propaganda da MTV e percebi que era meio “stoner”. Mudei de canal. Eu prefiro valorizar uma mina que está com o violão dela cantando músicas e melodias dela do que uma banda que fica fazendo “gan-gan-gan-gan-gan, uaaaau”. É uma coisa pessoal, minha. Não gosto de rock ‘n’ roll, muito menos de bandas de rock que não falam nada. A Mallu, com um violão, me diz mais que 90% das bandas disseram em quatro anos de cena independente. Talvez porque tenha a linguagem folk… Como eu entendo a Lulina e acho que ela está falando a minha língua. Como eu acho que o Romulo, meu Deus… Ele não está falando a minha língua; ele está falando a língua que eu vou falar. Gosto de falar [nas letras] sobre o que vejo, o que rola em volta, e rolam coisas tão bizarras que não posso nem escrever. Então usamos metáforas. A grande música é aquela que consegue te trazer anos depois um entendimento ou uma lição meio vanguarda mesmo. Tem músicas que você escreve e entende que é uma coisa. Um ano depois você ouve e pensa: “Porra, meu. Eu nunca tinha visto dessa maneira”. E você já passou por uma experiência que não tinha passado antes, você se identifica. Enquanto compositor isso é uma dádiva.

Você curte ser intérprete?

Eu só queria ser intérprete. Queria gravar meu disco só com músicas do Júpiter Maçã. A letra, como compositor, é o mais importante, então como intérprete vai ser o mais do caralho para escolher. Tem uma música do Mauricio Pereira chamada “Trovoa” que é uma canção perfeita. Você não questiona porque ela está ali. Senti isso com algumas outras coisas na vida como “Junk”, do Paul McCartney. E paralelamente tem “Sozinho”, do Emicida. Músicas que você não questiona tipo “Capítulo 4, Versículo 3”, dos Racionais. Uma música foda do Los Hermanos: “Retrato pra Iá Iá”, semi nonsense, com um refrão maravilhoso.

Quando começou a paixão pelo trompete?

Ah, adoraria mentir e dizer que ouvi o “Kind of Blue” antes, mas eu ouvi “Let’s Get Lost” [disco de Chet Baker] primeiro e descobri muitas semelhanças no crossover entre João Gilberto e o cool jazz. Curti, vi que ele tocava meia boca e sempre tive o sonho de aprender. No fim do ano passado, resolvi. Não estou fazendo aula. Se você sabe o campo harmônico no violão, você tem isso na mão. No piano também. No trompete você tem que ter isso na cabeça e no beiço. Estou estudando os campos harmônicos e intervalos, o principal. A sonoridade ainda está estranha. Até componho, só não sai bonito. Tem cinco meses que toco trompete. Depois que você começa a tocar trompete, vira piada, uma brincadeira cantar. Você sabe exatamente o que tem que fazer. Chet Baker cantava bem por causa do trompete.

E literatura?

Eu fui fazer uma viagem e levei um livro do [Samuel] Beckett e um do [Jorge Luis] Borges. Foi curioso porque eu li primeiro o Beckett, fui tomado por aquele ar meio junkie dele e estava me sentindo próximo de Deus. Na volta, estava esperando o ônibus e faltavam dez páginas para terminar o Beckett, mas resolvi parar e ler o Borges. Cara, Samuel Beckett é o caralho! Achava ótimo até ler Borges. Isso agora. Tive uma grande fase Oscar Wilde na época da banda glam. O Oscar Wilde foi foda. Eu dava aula de inglês e contava os contos infantis dele. Era lindo. Wilde é um cara que me formou muito como leitor. E o Hermann Hesse, que é quase a mesma coisa, só que menos viado. Paralelamente teve o Gabriel Gárcia Márquez, que tem uma narrativa que permite um paralelo com Dylan. Se ele fosse escrever música, faria como o Dylan. Ou se o Dylan fosse escrever prosa, escreveria como ele.

Como você vê nosso momento atual? Segundo alguns, vamos ter no mainstream Ivete. Autoramas é o top dos indies. Imagine que você é um músico preparando um disco que não é pop, mas você vive num cenário em que você faz música, a Ivete faz música, o Autoramas faz música e esse é o organograma da música brasileira. Você vai ter um midstream que é o Fresno…

Fresno é mainstream. Vamos fazer [uma escala] de um a cinco. O Fresno é cinco, Autoramas é dois e Vanguart é um. Ou Vanguart chegou a ser dois e voltou a ser um. O cara da Universal me falou: “Mas investimos muita grana no Moptop e não rolou”. Então, bicho, nós vamos rolar muito menos se você pensar com essa mentalidade.

Vanguart ainda toca em festival independente?

Eles não têm nos chamado muito porque acho que não estamos inseridos muito nessa questão ideológica e política. Não acho errado fomentar que você precisa se articular, ir com seu produtor e ver se tem alguém da associação. Acho isso tudo muito válido porque faz com que as novas bandas apareçam, mas acho que deveria ter um departamento separado para cuidar da manutenção das bandas que já existem. E uma curadoria totalmente artística e nada política. Sinto falta de bandas que não estão tocando mais hoje porque não se adaptaram ao padrão político dos festivais. É uma pena.

Mas quando você voltou da Bolívia, formou a banda e encontrou os caras. Como foi? Vocês tocaram em vários festivais…

Pablo Capilé foi fundamental na história do Vanguart. Lembro muito bem quando voltei. Conversávamos todos os dias sobre algo novo. Sempre concordávamos e divergíamos no assunto. De que era necessária uma organização. Eu defendia que era uma organização individual de cada um diante de algo. O Pablo sempre defendia uma coisa mais reta, mas nunca deixamos de se admirar pelas ideias iniciais. E nós sempre conversamos. Só que sempre tivemos propósitos muito diferentes. Não minto quando digo que de dois anos para cá não sei o que está acontecendo. Ouço a galera falar, mas paciência, a minha questão artística de criar algo novo é tão grande que prefiro não me envolver, porque vou gastar uma energia que já estou gastando com piano e com minha namorada. Estou precisando terminar uma música, não vou ler blog. Talvez por não saber [o que anda acontecendo] o Vanguart não esteja frequentando tanto os festivais que fomentam uma maior participação, você ir lá falar com os produtores, sentar e falar: “eu toco aqui e não cobro nada e a gente tenta fazer algumas coisas”. Acho isso válido, mas cada caso é um caso e talvez o Vanguart não esteja frequentando porque eu esteja com outros interesses que não sejam apenas de estar participando dos festivais. São de vital importância, mas já estive lá e hoje posso estar em casa…

Quando convidamos você para vir aqui, pensamos que era legal ter um cara que esteve dentro do negócio e poderia falar umas coisas boas, outras nem tanto. Falamos dessa forma porque tem gente que acha que somos contra os festivais. Não somos. Só não aprovamos a maneira como eles vêm sendo feitos, e apenas fazer não basta: tem que fazer bem.

Entendo que a intenção seja a melhor do mundo, como a minha também é. Parece que existe certa atitude de defesa natural da Abrafin que não deveria existir. Eles poderiam ter feito uma manutenção do poder que adquiriram de uma maneira muito mais saudável e muito mais de curadoria do que de parceiros políticos. Nisso eles acabaram se enfraquecendo, com pessoas muito influentes que estavam ao lado deles. Faltou um pouco de tato para eles serem mais nobres de abraçar quem realmente estava sendo relevante e não só todo mundo que estava apoiando cegamente o trabalho deles. Se me aprofundar na questão vou continuar apoiando, talvez por uma questão natural, mais marxista minha, essa ideia de democratização, que é o que eles levantam. Já estive lá dentro e sei que as idéias do Pablo [Capilé] são as mais nobres possíveis. Como isso tem sido conduzido eu não sei, mas gostaria que eles tivessem tido uma curadoria mais neutra do que partidária, porque a Abrafin é uma das ideias mais legais dos últimos anos.

Como você imagina estar em dez anos?

Quero estar muito louco. De chinelo, passando calor, tomando uma breja na praia. O mundo vai esquentar. A última coisa que eu quero daqui dez anos é estar em um puta apartamento, paranoico, achando que eu sou foda. Eu quero estar de boa. Fazendo música com uma visão muito mais real do que está rolando de criação. Se ainda puder estar fazendo isso, curtindo sem precisar dar a bunda, vou estar satisfeito.

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– Marcelo Costa é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne
– Marco Tomazzoni é jornalista e escreve no iG Cultura
– Tiago Agostini é jornalista, colaborador da Rolling Stone e assina o blog A Balada do Louco
– Liliane Callegari é arquiteta e fotógrafa: http://www.flickr.com/photos/lilianecallegari/

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Leia também:
– Entrevistão do mês de maio: Lulina e Stela Campos (aqui)
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