Cinema: O Sonho de Cassandra, Woody Allen

por Marcelo Costa

“A única coisa que importa é a família. O mesmo sangue”, diz um personagem em certo momento de “O Sonho de Cassandra”, trigésimo sexto filme da carreira de Woody Allen, terceiro consecutivo filmado em Londres. O cineasta norte-americano retorna ao território dos soberbos “Crimes e Pecados” (1989) e “Match Point” (2005) apoiado em tragédia grega e Dostoiévski para contar a história de dois irmãos que passam por problemas financeiros.

Ian (Ewan McGregor ótimo) é o irmão mais esperto, aquele que a família acreditava que iria se dar bem na vida, e que está sempre planejando algo para dar um salto de classe social. Terry (Colin Farrell excelente), por sua vez, é mais contido. Trabalha numa borracharia, é viciado em jogos de apostas (cavalos, pôquer, o que for) e usa mais a cabeça para sustentar os cabelos do que para pensar. Num paralelo roqueiro, seria como se um fosse o Noel Gallagher e, o outro, o Liam.

Apesar de pobretões, os dois irmãos foram muito bem criados por seus pais (ele, um dono de restaurante; ela, irmã de um proeminente médico), não se desgrudam e acabaram de comprar um velho barco, o qual deram o nome de “O Sonho de Cassandra”. Ian é gerente do restaurante do pai, mas fingi ser um ricaço (passeando nos carros poderosos que o irmão lhe empresta da borracharia), apaixona-se por uma jovem atriz e precisa de dinheiro para colocar em prática os seus sonhos. Terry, por sua vez, perde uma fortuna no pôquer. Os dois estão enrascados.

É nesse momento da trama que surge Howard (Tom Wilkinson), o tio médico milionário, que também está em uma enrascada, e precisa da ajuda dos dois sobrinhos em troca de uma boa quantia de dinheiro. O servicinho não é dos mais simples, e os dois irmãos entram em crise chocando a necessidade do dinheiro com a crueldade do ato encomendado pelo tio. Como sempre, nestes momentos, surgem atenuantes que procuram justificar a validade do ato a ser consumado (”Se não fizermos isso, este homem irá acabar com a vida do nosso tio”, diz Ian) e a frase que abre este texto.

Woody Allen conduz a história com suavidade na primeira meia hora da história. Apresenta os personagens, faz com que o público os admire, e começa a injetar suspense apenas na segunda metade, quando Ian deixa de lado a garçonete do restaurante de seu pai pela jovem atriz, e Terry perde em uma noite três vezes mais tudo o que havia ganhado no dia anterior. É uma pequena ruptura na simplicidade da vida familiar, cujo passa poderá mudar a vida dos dois rapazes. “Se fizermos isso, não terá volta”, prevê Terry em certo momento.

Ao contrário de “Match Point”, cuja história trafegava nos altos círculos das castas inglesas, “O Sonho de Cassandra” é todo classe trabalhadora. Se o pano de fundo da história muda, o sentimento que Woody Allen analisa é o mesmo de “Crimes e Pecados” e “Match Point”: como lidar com a culpa de um assassinato. No primeiro, o marido encomenda a morte da amante, e apesar de ter que lidar com o fantasma dela, vai deixando o remorso de lado enquanto a vida passa. “Match Point” ainda discute a sorte, mas prevê que a culpa (e o fantasma dela) perseguirá o assassino até o fim de seus dias.

Em “O Sonho de Cassandra”, porém, não há tempo para o futuro. Ian tenta esquecer o que fez enquanto faz planos com a namorada. Terry enlouquece. Se vê queimando no inferno, passa noites em claro corroído pela culpa e planeja se entregar a polícia. A simplicidade da vida cede lugar à tragédia grega. Allen só poderia ter caprichado mais no desfecho rápido e cortado, que remete ao conto “Venha Ver o Por do Sol”, de Lygia Fagundes Telles, com crianças brincando de roda (no filme, namoradas fazendo compras) enquanto a tragédia se anuncia. A família é o que importa. Será mesmo?

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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