Três CDs: Kaiser Chiefs, Devendra, Sons and Daughters

por Marcelo Costa

“Employment”, Kaiser Chiefs (Universal)
14/10/2005
Pelo jeito, a molecada do Novo Rock já está se cansando de surrupiar os anos 70 e 80. O pessoal do Kaiser Chiefs, por exemplo, até bate uma bolinha clonando bons momentos do grande Elvis Costello e do Undertones, mas no fim eles mostram que gostam mesmo é de Blur. Tá, tem um pouquinho de Gang of Four ali pelo meio, mas bem pouquinho. Mesmo sendo reverenciais ao extremo, não dá para virar a cara para hits incontestes como as sensacionais “Everyday I Love You Less and Less” e “I Predict a Riot”. As duas canções abrem “Employment” e jogam o disco nas alturas, mas o resto do álbum, se não decepciona, também não honra as duas faixas de abertura. E, vamos combinar: para cada duas grandes canções dos discos da maioria dessa molecada, duas canções deixam a gente vermelho de vergonha. No caso do Kaiser Chiefs são “Born To Be a Dancer” (o título fala por si só) e a faixa que encerra, “Caroline Yes”, cuja letra conta a história de um cara que perde a garota para outro, e pensa sobre o novo namorado da ex: “Você é tudo que eu quero ser!” Na boa, essa molecada não aprendeu nada com os chifres públicos que a Justine andou botando no Damon Albarn, né. Vão seguir o mesmo caminho. Cuidado.

Nota: 8

“The Repulsion Box”, Sons and Daughters (Trama)
13/11/2005
Em uma definição da critica britânica, os escoceses do Sons and Daughters seriam o equivalente ao Birthday Party com PJ Harvey nos vocais junto com Nick Cave. A brincadeira, que tem como agravante a assinatura de Victor Van Vugt (que já trabalhou com Harvey e Cave) na produção, tem até um fundinho de verdade, mas o Sons and Daughters seria quase que uma bandinha de colégio de padres e freiras perto da demência do Birthday Party (como a grande maioria das bandas atuantes no cenário rock em 2005). Comparações de lado, “The Repulsion Box” é um discaço. A demente “Medicine”, que abre o álbum com bateria marcada, riff sujo de guitarra e batida de bandolim (!), teria tudo para ser um hit do quilate de “Take Me Out” se a banda tivesse trabalhado um pouquinho mais a melodia vocal. “Red Receiver” mostra como fazer uma (grande) canção – pesada e dançante – com bandolim, violão e nenhuma guitarra. Guitarradas ensurdecedoras apresentam “Hunt”, que logo em seguida segue numa batidinha reta de bateria deliciosa. “Chocked” é o contrário: a introdução é suave e o meio é um inferno. Há espaço, ainda, para countrys sem-vergonha (“Taste The Last Girl”), punks songs inspiradas (“Rama Lama”) e até semelhanças com Patti Smith (“Gone”) em um disco que surpreende de uma banda que deverá dar muito o que falar.

Nota: 8,5

“Niño Rojo”, Devendra Banhart (Sum Records)
13/11/2005
Apontados por muitos como um gênio da estirpe de Bob Dylan, o jovem visionário Devendra Banhart aporta no Brasil com “Niño Rojo”, álbum gêmeo separado no berço do elogiadissimo “Rejoicing In the Hands”, de 2004. As canções de Niño Rojo foram gravadas nas mesmas sessões de “Rejoicing In the Hands”, mas poderiam ter saído de qualquer estúdio de gravação nos últimos 50 anos. A atemporalidade do som de Banhart surge embalada em um som simplificado e mágico, para o qual muitos tentam inventar rótulos (freak-folk, alt-folk, folk-pop, free-folk), mas que nada mais é do que o velho é bom folk tocado com alma e coragem, porque é preciso ser corajoso para tocar folk, já que o folk tem o dom de desmascarar mentirosos e falsos. Teorizações pseudo-filosóficas-viajantes à parte, “Niño Rojo” é um álbum sensacional tal qual era (é) “Rejoicing In the Hands”. Abre com uma cover de Ella Jenkins (a inspirada “Wake Up Little Sparrow”) e distribui batidas de violão que brigam pela sua atenção com o mundo. Como o mundo não anda lá grandes coisas, é fácil se jogar na atmosfera de “Niño Rojo” e ficar ali por horas e dias e semanas. Nada de canções em destaque. “Niño Rojo” é para ser ouvido na integra. Enquanto não lança álbum novo – a Sum Records promete para os próximos meses a edição nacional de “Rejoicing In the Hands” -, Devendra segue em turnê pelos Estados Unidos. Curiosidade: nos shows, Devendra apresenta uma versão para “Nine Out of Ten”, do “Transa” (1972), o álbum londrino de Caetano Veloso. Não se assuste. Devendra merece a sua confiança.

Nota: 9

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