Três discos: Björk, Emiliana Torrini e Aimee Mann

por Marcelo Costa

“Drawing Restraint 9”, Björk (One Little Indian)
Trilha sonora feita por Björk para o filme homônimo do maridão Matthew Barney, “Drawing Restraint 9” combina climas etéreos que se alternam com experimentações eletrônicas. Sim, em alguns momentos dá medo, mas a faixa de abertura, “Gratitude”, é totalmente anti-convencional e estupidamente bela. Não tem nada a ver com música pop e traz a voz de Will Oldham comandando a melodia de caixinha de bailarina melancólica. O grande chamariz da canção é uma harpa. Belíssima. “Pearl” e “Ambergris March”, as duas próximas, são típicas canções que só podem ser avaliadas no mesmo nível de “viagem” de quem compôs. Sem esse artíficio, a primeira parece uma colagem de bobagens. E a segunda até funciona como uma instrumental bonitinha, mas ordinária. A voz de Bjork dueta consigo mesma na quarta faixa, “Bath”, minimalista ao modo de “Medula”, mas que não convence. Veja bem: quatro faixas se passaram e o melhor momento do álbum traz Bjork nas programações e na produção, não na voz. A quinta faixa é “Hunter Vessel”, uma pequena sinfonia instrumental de muito bom gosto. Ainda se destacam “Vessel Shimenawa” (com muitos metais) e a ótima “Storm”, com Björk exibindo seus dotes vocais sobre uma tempestade de sons desconexos. Imagine: o céu está caindo e Björk está cantando. Isso é “Storm”. Susto?

Nota: 7

“Fisherman’s Woman”, Emiliana Torrini (Trama)
Emiliana Torrini é uma típica cidadã do mundo. Nasceu na (estação) Islândia, é filha de italianos e escolheu Londres como moradia. “Fisherman’s Woman”, seu segundo disco solo, ganha edição no Brasil via Trama. A rigor, pouca coisa em “Fisherman’s Woman” tem relação com sua estréia, o ótimo “Love in the Time of Science”, em que a cantora embarcava na onda trip hop, com produção de Roland Orzabal, do Tears For Fears, isso em 2000. “Fisherman’s Woman” é outra coisa. A praia deste “A Mulher do Pescador” é o folk calmo e suave de gente como Nick Drake (principalmente em “Nothing Brings Me Down” e no single “Sunnyroad”) e Joni Mitchell, destacando a belíssima voz da cantora (que soa como uma Björk comportada e sem afetação) e o minimalismo nos arranjos, que na maioria das canções pede apenas um violão (clássico) tocado pelo produtor Dan Carey, co-autor da maioria das faixas, aliadas a alfinetadas de piano, órgão e uma bateria semijazzística. “Fisherman’s Woman” ainda traz uma cover da folksinger Sandy Denny (“Next Time Around”) e uma música inédita de Bill Callahan, do Smog (“Honeymoon Child”) em um disco que deve agradar muito a fãs de Cat Power e Beth Orton, além de Nick Drake, claro.

Nota: 7.5

“The Forgotten Arm”, Aimee Mann (Sum Records)
Em “31 Canções”, o escritor Nick Hornby fala com muito carinho sobre a cantora Aimee Mann em um dos capítulos. Para Hornby, Aimee é uma grande escritora e compositora, e ao falar sobre ela chega a conclusão de que “no fim das contas são as canções de amor as que duram mais”. “The Forgotten Arm”, quinto álbum da carreira de Aimee Mann, vai além do pensamento de Hornby, pois não são só canções de amor, e sim uma história inteira, a do casal John e Caroline. Transcritas no encarte como se fossem crônicas e acompanhadas, cada uma, por ilustrações, as 12 canções passeiam pelo universo do casal, que, entre outras coisas, enfrenta sérios problemas com álcool e drogas. Não à toa, o disco é dedicado “aos alcoólicos e dependentes que ainda sofrem”. John e Caroline se conhecem em “Dear John”, música que abre o disco de forma calma e refrão forte. Em “King of the Jailhouse”, a balada estradeira seguinte, decidem fugir para o México “em um cadillac velho”. Guitarras fortes surgem logo na introdução de “Goodbye Caroline”, que marca o rompimento do casal. Daí em diante, canções fortes como “Going Throuhg THe Motions” (quarto capítulo da história), “Little Bombs” (oitavo) e “That’s How I Knew This Story Would Break My Heart” (décimo) contam detalhes do romance até a chegada triunfal de “Beautiful”, faixa redentora que encerra um belo disco para ser ouvido com atenção no encarte e como se fosse um filme.

Nota: 9

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