Cinema: “Crash – No Limite”, de Paul Haggis

por Marcelo Costa

“Você pensa que conhece a si mesmo. Você não faz idéia”. Essa é uma das frases de divulgação do sensacional “Crash – No Limite”, um filme que necessita de apenas 113 minutos para provar o quanto cada um de nós nos desconhecemos profundamente. “Crash” é a estréia na direção de Paul Haggis, que tem no currículo uma indicação ao Oscar pelo majestoso roteiro de “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, o filme mais triste dos últimos tempos. Porém, o que é tristeza no filme de Eastwood, no filme de Haggis é aterrorizantemente real. “Crash” poderia muito bem se chamar “Magnólia II”, tamanha as semelhanças com o filme de Paul Thomas Anderson, um dos melhores filmes dos últimos 10 anos, no mínimo.

Na verdade, é só a estrutura de “Crash” e “Magnólia” que é praticamente idêntica. Troque a famosa chuva de sapos por neve caindo, Aimee Mann por Bird York e o tema central (o perdão em um, o autoconhecimento no outro) e cá estamos novamente à frente de um grande filme. “Crash – No Limite” é uma porrada sem dó no estômago movida a base de grandes clichês (como a vida). Cuidado. Muitos se assustam quando descobrem o quão pouco se conhecem. Ponto pra Sandra Bullock, que queria tanto fazer parte do elenco que pagou ela própria sua passagem de avião para se dirigir ao set de filmagens. O pequeno microcosmo de Los Angeles via “Crash” ainda conta com Don Cheadle, Ryan Phillippe, Brendan Fraser, Thandie Newton e Matt Dillon, todos em atuações impecáveis.

A idéia do filme surgiu de um quase trágico acontecimento real. Há quase dois anos, o diretor Paul Haggis foi vítima de um seqüestro-relâmpago em Los Angeles. Com uma arma encostada na cabeça, o então diretor de televisão e sua mulher rodaram durante horas pela cidade antes de serem soltos. Haggis reconstrói o episódio no filme, e discute de forma brilhante o racismo – contra negros, hispânicos, orientais – que ficou ainda mais forte nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001. Tudo em “Crash” vai e volta. Em uma cena, vemos uma atendente de plano de saúde – negra – negando uma assinatura para um rapaz, um policial racista cujo pai está sofrendo muito com infecção urinária. O motivo da negação da assinatura é a atitude racista do rapaz. Na cena que fecha o filme, a mesma atendente tem seu carro atingido no trânsito. Ela deixa o veiculo, vê que o homem que saiu do carro é oriental e solta: “Como você faz uma coisa dessas? Você nem é americano!”. “Crash” é o racismo visto por todos lados.

Mas mais do que racismo, o filme de Paul Haggis discute o quão pouco nos conhecemos. Você seria capaz de matar alguém? Não? Mesmo que isso lhe custasse a vida? Mesmo que isso custasse a vida do seu irmão, do seu filho, da sua mãe? Você reagiria contra um policial valentão que, com a arma na cintura, desliza os dedos pelo corpo de sua mulher durante uma revista exatamente na sua frente? Não? Mesmo com sua mulher chorando e pedindo para que você faça algo? É melhor um “covarde” vivo do que um valentão morto? Bem, como diria outro, cada caso é um caso. “Crash” exibe com crueza vários casos que movimentam o microcosmo de Los Angeles. Chega a sufocar o espectador com seu ritmo direto e suas pequenas histórias.

No núcleo central do filme convivem um senador (Brendan Fraser) e sua esposa dondoca (Sandra Bullock), recém assaltados por hispânicos; um chaveiro (Michael Pena), um policial racista (Matt Dillon) com seu jovem parceiro (Ryan Phillippe) transpirando honestidade; dois negros assaltantes; um agente policial (Don Cheadle) cujo irmão é ladrão e a mãe é doente; um produtor de TV e sua esposa; e uma família persa que é confundida como árabe, entre muitos outros temas secundários, como tráfico de pessoas e venda de armas. A vida de todos estes personagens se cruza no dia-a-dia de Los Angeles entre acidentes de carro, assaltos e doses generosas de realidade. Não há protagonistas principais. Em” Crash”, todas as histórias têm peso igual de importância, o que confere ao filme uma forte unidade e coerência.

Com um orçamento baixíssimo para os padrões hollywoodianos (US$ 6,5 milhões), Paul Haggis conseguiu criar um grande filme, que vasculha os mistérios da personalidade de forma impar, mapeia o sentimento de terror em que a vive a sociedade norte-americana nos dias de hoje, discute racismo sem soar piegas ou demagogo, e ainda consegue mostrar lirismo em uma pequena cena, em que um pai conta uma história para sua filha de forma tocante, transformando a passagem em um dos momentos mais belos do cinema recente. Um filme para se ver duas vezes… ou mais.

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