Ao vivo: Salma e Mac exibem doçura e sensualidade de novo projeto no Rio

Texto e fotos por Bárbara Moreira

Em busca de novos ares, Salma e Mac deixaram de lado os solos de guitarra e adotaram melodias suaves que embalam uma aventura tropical. Ao menos é assim que o novo projeto do duo pode ser divulgado, diferente como é do indie pop já conhecido de Carne Doce, que vem arrastando um público fiel desde o álbum autointitulado de estreia, de 2014.

Após dez meses, Salma Jô e Macloys retornaram no último dia 8 ao Rio de Janeiro para divulgar o novo álbum do duo: “Voo Livre” (2022), trabalho mais solar que a capital fluminense nesse fim de semana. O segundo show da dupla em terras cariocas aterrissou no Clube Manouche, espaço intimista que abrigou fãs ansiosos para ouvir a melodia e os versos leves dos artistas.

Há de ser dito que é impossível não se lembrar das apresentações explosivas de Carne Doce – eleita, inclusive, como melhor show nacional no Melhores do Ano Scream & Yell 2018. No formato de banda, Salma constrói uma aura de poder que, em conjunto de suas letras e voz hipnotizante, arrebata o público de forma única. Em seu novo projeto, a letrista encanta pela performance mais doce que embala a tranquilo MPB do novo álbum – sem perder a já conhecida sensualidade, comum em seus trabalhos.

“Voo Livre” mostra a versatilidade dos dois artistas, que apostam em uma sonoridade pouco explorada por eles até então. Salma brilha ao vivo com a voz ainda mais madura e suave. Macloys, dono de arranjos agudos de guitarra, parece muito à vontade, dedilhando melodias em seu violão, deixando claro suas referências de Caetano Veloso e Chico Buarque, como apresentado no segundo single, “Sobremesa”. Mas se engana quem pensa que as raízes sertanejas foram esquecidas: aos fãs saudosistas apresentaram uma nova versão de “Corrente” (EP “Dos Namorados”, 2013), com direito a interpretação de “Tijolão”, de Jorge & Matheus, e uma versão retrabalhada de “Cetapensâno”, um ode ao sotaque goianiense.

Vendo em retrospecto, é possível afirmar que Salma e Mac parecem mais soltos que no primeiro show do duo (RJ) no pequeno estúdio Audio Rebel, em dezembro de 2021. Desta vez acompanhados de Kassin – multi-instrumentista que assina a produção de “Voo Livre” – e o percussionista Léo Reis, mesmo as músicas anteriormentes apresentadas, como o caso de “Capacho”, única composição do disco que aborda de forma bem Carne Doce o ressentimento de um relacionamento frustrado, se torna potente ao receber os efeitos e percussão dos músicos.

Tal abertura ganha força no decorrer do show, entre piadas e histórias que são pano de fundo para algumas letras, em contraste com o público que ouvia num silêncio atento cada acorde. As cores quentes dos canhões de luz em conjunto com os figurinos de cores claras contribuíam para uma atmosfera quase cinematográfica de um filme de romance. Mais importante que isso, a performance existe, mas o que encanta é vê-los interagindo sem encenações como o casal que são. Se as músicas da dupla são a alma do projeto, a adoração de Mac por Salma – e vice-versa – é o coração.

Com duração de pouco mais de uma hora, Salma e Mac comprovam a versatilidade ao tratar de novos temas e sonoridades, ainda que em canções muito conhecidas dos fãs, como “Comida Amarga” e “Amor Distrai (Durin)”. O show terminou sob aplausos e pedidos de bis, que não aconteceu por pelo fim do repertório. Era nítido que Salma estava emocionada pelo sucesso da noite. Um doce.

Mostrando que há potencial para crescer e atingir um público diverso, “Voo Livre” é um passo para atingir vários corações apaixonados país afora. E, com tantas diferenças entre banda e duo, o ponto comum reside na habilidade de comer pelas beiradas: vir devagarinho, mas deixando uma impressão profunda em quem vê-los ao vivo. É um show intenso, não de prender a respiração, mas de respirar lenta e profundamente como se o público fosse tocado pela brisa do mar.

– Bárbara Moreira é fotógrafa. Conheça seu trabalho em https://eusoubabs.myportfolio.com/work

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