Faixa a faixa: “Teoria da Terra Plena”, de e por Lucas Vasconcellos


introdução por Marcelo Costa

O guitarrista, produtor, cantor, compositor e arranjador Lucas Vasconcellos (que integra a formação atual da Legião Urbana e era metade do Letuce – a outra metade, você sabe, era a Letrux) está lançando “Teoria da Terra Plena” (2020), seu quarto álbum solo, um reencontro com canções de foro íntimo, inspiradas por uma mudança de ares: de um Rio de Janeiro ruidoso e tão presente em seus últimos lançamentos, para as montanhas da serra fluminense. O resultado, como o título entrega, é um álbum que se encontra nas pequenas coisas, sem abrir mão de olhar o mundo (ainda ruidoso) lá fora.

“Esse disco nasceu pra ser minha conexão com o presente”, explica Lucas. “Sempre me senti, como compositor, de alguma maneira aprisionado pelas memórias ou muito ansioso por acontecimentos. Raras vezes na minha vida de criador eu consegui ter essa paz de olhar pra um trabalho meu e sentir que ele traduz o meu presente, sem urgências e sem nostalgias. Acho que esse é o traço matricial desse trabalho”, revela Lucas. “Teoria da Terra Plena” foi precedido por “Falo de Coração” (2014), “Adotar Cachorros” (2015) e “Silenciosamente” (2016) – este último traz uma versão pungente de “Areia Fina”, do Letuce, uma das músicas mais belas da música brasileira recente.

Em “Teoria da Terra Plena”, Lucas Vasconcellos retoma a colaboração com Leticia Novaes na irônica “Falem” (repleta de frases marcantes como “Às vezes pra você não se afogar / Tem que desistir de dar as mãos” ou “Gente que ainda vê tv como se a vida fosse um Big Brother Indie / Que besteira nada é pra sempre” ou ainda o refrão, delicioso: “Falem falem falem / Paguem minhas contas / Falem falem falem / A pia tá cheia de louça / Falem falem falem follow”), recebe Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade), que faz vocal em “Terra Plana” e canta em “Vamos Tocas Fogo nas Coisas”), e assina “O Contorno das Nuvens” em parceria com Phillip Long.

“Fazer um disco, no tempo de hoje, com o mundo desse jeito e sobretudo o Brasil do jeito que se encontra, culturalmente abandonado e marginalizado, me trouxe um desejo de ar, de respirar”, conta Lucas. “Pude experimentar um pouco dessa sensação privilegiada de contato com a natureza, de fruição do silêncio, de poder olhar pra dentro e ressignificar os acontecimentos sociais de uma maneira menos afetada, mais íntima”, completa, explicitando o que o ouvinte perceberá no tom bucólico de um álbum bonito, conduzido pela voz grave de Lucas, por instrumentos acústicos e uma poesia bela que necessita de atenção. Conheça, abaixo, o disco faixa a faixa pelo próprio Lucas Vasconcellos!

01) O Som do Futuro
Essa foi a última música que fiz pra esse álbum. Notamos que faltava algum toque mais leve, mais amoroso e essa letra veio como um raio. Entendi que ter uma banda seria interessante, daria organicidade pra mensagem. Tem um pedaço da letra que fala de alzheimer. Me inspirei numa história que a Letícia Novaes me contou sobre o avô dela que, depois de acometido por essa doença por anos e com sua memória e cognição super afetados, ainda conseguia reagir à presença de sua esposa quando ela vestia uma roupa de dormir mais “provocante”. Achei isso super bonito e escrevi “Isso é de sentir / o resto é o que nós vamos esquecer /quando o alzheimer chegar”.

Voz, violão, sintetizadores, trompete: Lucas Vasconcellos
Guitarra: Felipe Duriez
Baixo: Gabriel Tauk
Bateria: Álvaro Cardozo

02) O Contorno Das Nuvens
Eu fiz essa música no avião. O impacto de uma beleza natural muitas vezes é a fagulha de uma ideia que depois se desenvolve quase que de forma autónoma. As nuvens vistas de cima foram minha primeira inspiração. Como se elas fossem hieróglifos decifráveis por naves espaciais ou um alfabeto próprio que significasse algo pra duas pessoas apaixonadas. Depois de algum tempo com metade dessa letra pronta, pedi ao Phillip Long que escrevesse a segunda parte e ele veio com essas ideias bonitas sobre geologia, hidrografia e essa coisa romântica de um casal sumir do mapa, trocar de identidade e viver uma história nova.

Voz, guitarras, violão, baixo, piano, backing vocals: Lucas Vasconcellos
Bateria: Antônio Neves


03) Eu Vou Sequestrar Você
Eu estava obcecado por histórias de síndrome de Estocolmo. Acho um nível máximo de perversão amorosa e essas coisas são curiosas pra mim. Como é possível que um coração reaja à violência extrema desse jeito tão servil e apaixonado. Mas não queria pesar o clima, então construí uma sequência de imagens que evocassem uma saída furtiva e meio secreta de um casal, onde essas pessoas observassem as luzes, as texturas e as temperaturas do mundo de um jeito único, como se essa atração pudesse causar um efeito alucinógeno. No fim, fiz uma alusão ao desejo de futuro que temos quando estamos envolvidos com alguém. Como se, daqui a centenas (ou quem sabe dezenas) de anos, a humanidade já estivesse colonizando Marte e essas pessoas pudessem ainda estar juntas vivendo essa experiência.

Voz, violão: Lucas Vasconcellos
Guitarra: Felipe Duriez
Teclados e sintetizadores: Rodrigo Tavares


04) As Coisas São Assim
Em algum momento dessa crise institucional que vivemos, notei muitos amigos e pessoas próximas tendo depressão, caindo numa tristeza abissal e desiludidas com a realidade. Estava lendo os filósofos estoicos, Marco Aurélio, Séneca, Epicteto. Percebi que esse jeito de pensar me trazia algum alívio, sobretudo em relação a não querer controlar as coisas sobre as quais não temos poder de mudança. Isso abre espaço pra preocupações reais e mais “úteis” pra gente mesmo e pra sociedade. Olhar seu microcosmo econômico e político e agir na sua comunidade pode ser muito mais interessante e produtivo além de apaziguar essa ansiedade monumental que a falta de estabilidade política pode causar. A sua preocupação deve ir até onde o olhar alcança. Seu desejo de ação deve ser tão abrangente quanto o tamanho do seu braço. Isso não é se fechar numa bolha egoísta de privilégios. Isso é mudar o mundo pra melhor de verdade. Nossa indignação nas redes sociais `as vezes tomam muito o nosso tempo e sugam muita energia e muitas vezes nossa voz ecoa pra quem já fala nossa língua. É uma pregação pra convertido. Esse tempo e essa energia poderiam ser mais bem gastos, na minha opinião, se a gente olhasse mais pra perto.

Voz, violão: Lucas Vasconcellos
Guitarra: Felipe Duriez
Baixo: Gabriel Tauk
Bateria: Álvaro Cardozo
Sintetizadores e teclados: Emygdio Costa


05) Vamos Tacar Fogo Nas Coisas
Essa música eu fiz pra ter a Uyara (vocalista da Banda Mais Bonita da Cidade) no meu disco. A gente se conheceu no aeroporto há muitos anos e ficamos muito amigos. Sempre olhei pra artista que ela é com muita admiração e sabia que seria legal fazer um dueto nessa canção. A letra nasceu de uma impressão que um dia minha empresária, Eveline Maria, dividiu comigo: quando as pessoas não querem ou têm vergonha ou medo de dizer algo, elas dizem isso em inglês. Quando alguém vacila mas não quer se desculpar (mas TEM que se desculpar), sempre lança um “sorry”, ou tem dificuldade de agradecer, usa “Thanks” etc . Achei essa observação perspicaz e quis trazer isso pra essa música. Dei um verniz mais amoroso pra poesia e quando a música tava pronta a Uyara gravou a parte dela remotamente.

Voz, violão, sintetizadores, trompete, piano elétrico, backing vocals: Lucas Vasconcellos
Baixo: Bruno Di Lullo
Percussão: Thomas Harres


06) Falem
Depois que eu vim morar na serra fluminense, Letícia Novaes veio me visitar e a gente, como de costume, fez uma canção. Eu tava no processo de composição desse álbum e a gente pensou em brincar com essa coisa de “casal-semi-famoso-quando-se-separa” e as fofocas e invencionices que aparecem pra lá e pra cá. A Letícia tem um senso de humor único e a gente deu muita risada fazendo essa canção. Ela fala de como é impossível pra quem está de fora entender as dinâmicas de um casal e o quanto é engraçado ver a imaginação das pessoas ganhando asas na hora de especular sobre a vida dos outros.

Voz, violão, guitarra, bateria, baixo, sintetizadores: Lucas Vasconcellos


07) Somos Esse Trem
Essa música nasceu de umas experimentações no piano. Improvisei alguns temas, gravei e fiz a letra em inglês. Depois de um tempo achei que ela poderia fazer parte do disco e escrevi a letra em português, inspirado nessa ideia de que, em algum lugar, inteligências superiores estão jogando com a gente, criando mundos, moldando comportamentos e tudo não passa de um grande videogame que chamamos de destino.

Voz, violão: Lucas Vasconcellos
Guitarra e backing vocal: Felipe Duriez
Baixo e backing vocal: Gabriel Tauk
Bateria e backing vocal: Álvaro Cardozo


08) Forest And TV On Demand
Essa foi a primeira música que fiz pra esse álbum, quando ainda achava que ele seria todo em inglês. Mantive ela desse jeito porque tenho um apego sentimental pelo momento em que ela foi feita: nos últimos dias em que eu morava no Rio de Janeiro, e havia uma festa no play do meu prédio, já era bem tarde e tocava Marília Mendonça. Gravei da janela aquela movimentação das pessoas, a música dela ao fundo e uma grande melancolia trouxe a inspiração desses versos, beats e sintetizadores. Senti o gosto da despedida dessa cidade onde fui tão feliz e construí minha carreira ao longo de quase vinte anos e que agora já não me trazia essa sensação de lar. Ela ficou na geladeira por alguns anos até que chamei o Vinicius Nisi (da Banda Mais Bonita Da Cidade) pra gravar alguns teclados e sintetizadores e finalmente considerei que ela estava pronta.

Voz, programação, sintetizador, violão: Lucas Vasconcellos
Sintetizadores, teclado: Vinicius Nisi


09) Fumaça dos Carros
Quando uma múmia patética fantasiada de líder religioso assumiu a prefeitura do Rio, tive a certeza de que a cidade estava morrendo culturalmente. As oportunidades minguavam e o Rio de Janeiro como eu havia vivenciado nos anos 2000-2010 já não existia mais. Eu pensava na imagem do brasão da cidade com aqueles botos mortos e lembrava, envenenado de nostalgia, da alegria e da vibração daquela época tão próxima e ao mesmo tempo tão distante. Quis trazer os trompetes pra um lugar de protagonismo nesse arranjo, dando esse ar meio célebre e meio fúnebre.

Voz, sintetizador, baixo, trompete, violão, piano: Lucas Vasconcellos
Teclado: Vinicius Nisi
Bateria e percussão: Gabriel Barbosa
Trompete: Diogo Gomes


10) Terra Plena
A última canção do disco fala sobre curar cicatrizes e buscar uma vida mais simples. Acho que representa essa minha chegada nesse novo lugar, depois de tantos anos morando na cidade grande. Uma canção com arranjos simples e que evoca essa sensação de fuga, de reencontro com a natureza. Isso acabou pautando todo o processo do disco e acho que nessa canção isso se revela mais explicitamente.

Voz, piano, violao, orgão eletrico: Lucas Vasconcellos
Vocal: Uyara Torrente


– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne

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