Meu disco favorito de 2023: Yo La Tengo, por Bruno Capelas

MEU DISCO FAVORITO DE 2023 #10
“This Stupid World”, Yo La Tengo
escolha de Bruno Capelas

Lançamento – 10/02/2023
Selo – Matador Records
Ouça – Spotify / Youtube / Bandcamp

“O tempo está passando mais rápido esse ano, não está?”

Quantas vezes você já se pegou dizendo essa frase nos últimos tempos? E quantos anos podem caber dentro de uma única temporada de 365 dias? Ainda faz sentido pensar num “disco do ano”, se fevereiro de 2023 parece ter acontecido há umas quatro décadas?

Essas questões ficaram rebatendo na minha cabeça nas últimas semanas, enquanto eu tentava escolher um disco como o meu favorito de 2023 – “o primeiro ano do resto das nossas vidas”. Desculpe falar em pandemia a uma hora dessas, mas eu vou chorar: enquanto 2020 e 2021 dilapidaram a nossa noção de tempo-espaço, 2022 foi como colocar os pés de volta no mar. Já 2023 foi um mergulho intenso num tempo elástico – e isso não é só uma gracinha com outro grande disco dessa temporada (procure saber). Talvez por isso, nada mais justo escolher um disco que eu ouvi lá no começo do ano, amei… e depois fui fazer outras coisas da vida.

Lançado em fevereiro último, “This Stupid World” é o primeiro disco de canções do Yo La Tengo em cinco anos, o que equivale mais ou menos a umas duas era geológicas nos dias de hoje. (Estou descontando da conta “We Have Amnesia Sometimes”, um experimento pandêmico cheio de drones e ambiências, ok?). Desde o primeiro single, eu sabia que o que viria pela frente ia grudar nos meus ouvidos e possivelmente me acompanhar pelo ano todo. Surgida em janeiro, “Sinatra Drive Breakdown” mistura melodias cândidas com guitarras cheias de ruído, cortesia do mestre Ira Kaplan, em sete minutos de doideira e delírio.

Mas a verdade é que depois que o álbum saiu, eu ouvi umas cinco vezes, destaquei como lançamento no “Programa de Indie” e deixei de lado, em busca de alguma outra novidade. E só fui lembrar dele agora no final de dezembro, já começando a fazer minhas listas de melhores do ano. Foi como encontrar um casaco quentinho no fundo do armário, depois de um ano de intenso calor.

Não é culpa do Yo La Tengo, é minha. De 2018 para cá, entre “There’s a Riot Going On” e este “This Stupid World”, minha relação com a música mudou muito. A distância entre minha cama e meu local de trabalho já não é mais percorrida em horas de transporte público, mas em questão de dez passos. Há mais tempo para viver (e ver shows, que agora são perto de casa!), mas passo menos tempo com fones de ouvido na cabeça para espantar o tédio entre Utinga e o bairro do Limão.

Meu trabalho, por sua vez, não consiste mais apenas em notícias sobre tecnologia e startups, mas toda sorte de formatos de texto – além de um programa de rádio no qual um dos destaques da programação é justamente apontar novidades. Pelo menos uma vez por mês, preciso ter cinco ou seis dicas boas na ponta da língua pra mostrar para os ouvintes. E felizmente, há sempre muito mais do que um punhado de canções bacanas. Mas nem sempre há tempo para ouvir todas com calma, separando o joio do trigo, tentando entender o que é pirita e o que reluz de fato.

Em meados de 2022, entrevistei o Mauricio Pereira para este site. No meio da entrevista, uma frase dele me pegou no contrapé. “A gente normaliza muita brutalidade pelo excesso de informação. Excesso de arte também: excesso de arte faz a arte virar não-arte, faz tudo ficar chapado”, disse ele, explicando o significado da canção “Não Me Incommodity”. Na época eu fiquei exasperado: excesso de arte não é um problema! Pelo contrário! Foi justamente ter consumido doses cavalares de música, literatura e cinema que salvou minha cabeça durante a pandemia. Hoje sou forçado a concordar com ele: com estímulo demais, às vezes não dá tempo mesmo para deixar fruir.

E se o mundo pop muitas vezes pede que a gente consuma uma canção de três minutos no tempo de vida de uma borboleta (aquele abraço, Miguel Esteves Cardoso), a arte pede um pouco mais de calma. É o caso desse disco do Yo La Tengo, como talvez seja o caso de toda a discografia do Yo La Tengo. À primeira vista, é fácil entender a maior parte da obra do trio americano como um encontro daqueles dois elementos que eu defini lá em cima e descartá-los para uma prateleira qualquer do rock alternativo. Mas, com tempo pra se aprofundar, há camadas e mais camadas no universo do trio, com ecos de diferentes eras da canção (e da anticanção) americana do século XX. (Fica o desafio: vai lá ouvir o clássico “I Can Hear the Heart Beating as One” e tente encontrar Beach Boys, Elvis, Velvet Underground e o folk do início do século passado. Quem achar ganha um abraço meu no dia que o Yo La Tengo aparecer no Brasil de novo).

Um amigo budista esses dias escreveu no Instagram que um ano é uma escala arbitrária de tempo, porque tudo é impermanência. Meu lado racional gosta da divisão astronômica que criamos para marcar a passagem, mas depois do 2023 que vivi, um ano cheio de pequenas crises e um punhado de bons momentos, sou forçado a concordar com ele. Escrevo este texto enquanto o pernil da ceia de Revéillon ainda está virando sanduíche na casa dos meus pais, mas a última temporada foi a em que menos senti o impacto das festas e da cisão do tempo em algarismos indo-arábicos. Passar de 2023 para 2024 não foi fluxo interrompido, foi ato-contínuo, e apesar dos pesares, torço para que este novo ano seja mais sequência do que revolução.

O que também faz sentido com o Yo La Tengo: “This Stupid World” não chega a ser exatamente uma revolução na carreira do grupo, mas um reaparecimento depois do torpor pandêmico de “We Have Amnesia Sometimes”. Uma amostra de vida, ainda que muito do disco seja melancólico, triste, reflexivo, em claro reflexo do que vivemos nos últimos tempos. Quem sabe em 2024 eu consiga escolher um disco sem falar de pandemia, mas ainda não dá.

Sinestesicamente, “This Stupid World” também funciona como um resumo de 2023. Digo mais: dá para encapsular a última temporada dentro dos sete minutos da faixa de abertura, “Sinatra Drive Breakdown”. De um lado, foi um ano cheio de ruído e confusão, de crises pessoais e pequenas ou grandes tretas que pareciam se repetir, como a guitarra insistente, ruidosa e quase metálica que abre canção. Desse ruído, porém, às vezes surgiam momentos de elevação – da mesma forma que um beijo de boa noite, um abraço em família, um brinde com amigos ou um show de quase três horas do The Cure surgiram como oásis em meio aos problemas cotidianos. O resultado final é mais bonito do que caótico, ainda que o caos faça parte da beleza.

Não que eu tenha entendido isso durante o ano. Na verdade, foi no marasmo entre o Natal e o Ano Novo – o período de uma semana que é tão bom que deveria durar um mês inteiro – que eu me dei conta da pura beleza de “This Stupid World”, da delicadeza de “Aselestine” ao poder de “Fallout”, da flutuação de “Miles Away” à aspereza da faixa-título. (Pude também mergulhar em “The Bunker Sessions”, EP de demos do disco que o Yo La Tengo lançou já no apagar das luzes de 2023, entendendo a diferença entre rascunho e versão final, às vezes apreciando o croqui mais do que a tela).

Mas entre lamentar o tempo perdido no qual “This Stupid World” poderia ter sido meu melhor amigo e aprender a lição, sigo com a segunda opção. Sei que é brega acabar um texto desses com um desejo, mas vá lá: que, em 2024, a gente tenha tempo para ouvir certos discos com mais calma. Eles merecem.


Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie, na Eldorado FM, e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010 e espera, em 2024, não se parecer o coelho da Alice no País das Maravilhas.

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