Artistas nordestinos se destacam em sétima edição do festival Radioca, em Salvador

texto por Nelson Oliveira
fotos de Rafael Passos

Em 2023, a sétima edição festival Radioca reeditou um pouquinho do que foi produzido em 2022. Nas tardes e noites dos dias 16 e 17 de dezembro, a Fábrica Cultural, localizada na orla da Ribeira, em Salvador, foi palco para que artistas e grupos nordestinos, como Chico César (PB), Mestre Ambrósio (PE), Juliana Linhares (RN) e Aguidavi do Jêje (BA) se destacassem numa programação com nomes de outras partes do país.

“Para a sétima edição do festival, a curadoria formada pelo jornalista e dj Luciano Matos, pelos músicos Ronei Jorge e Robertinho Barreto (BaianaSystem) e pela produtora Carol Morena, que também assina a coordenação geral do evento, lidou com um festival em formato um pouco menor do que os dois últimos. O Radioca vinha em percurso de ascensão, com 16 shows em 2019, antes da pandemia de covid-19, e 12 em 2022. Dessa vez, foram 10 atrações – mais convidados – em um palco, ao contrário dos dois no mesmo espaço, no ano anterior.

Outro percalço foi a mudança de data devido a um grande evento gratuito que chegou em Salvador sem avisar a ninguém e, mesmo contando com apoio da prefeitura local, não buscou mediação com os atores culturais da capital baiana. Enquanto os dias 4 e 5 de novembro ficaram reservados ao retumbante fracasso do festival Liberatum, que deixou a Bahia como péssimo exemplo em diversas frentes, o Radioca se reprogramou para entrar em campo em 16 e 17 de dezembro.

Outras Vozes

Driblados os obstáculos, o Radioca teve os seus trabalhos iniciados às 15h30 do sábado pelo coletivo Outras Vozes, criado no início de 2023 por cantores de diferentes partes da Bahia – Ana Barroso, Ângela Velloso, Dorea, Daniel Farias, Fatel, Guigga, Lígia Rizério, Luiza Britto, Nalessa Paraizo, Théo Charles e Tom Lima. Acompanhados pelo violão do instrumentista Tarcísio Santos, o bando apresentou canções autorais presentes no repertório de alguns de seus integrantes num coral afinadíssimo, muito bem recebido pelo público que começava a chegar até a Fábrica Cultural.

Dr. Drumah

Passando do foco nos vocais para o instrumental, em seguida, foi a vez de Dr. Drumah, alcunha utilizada pelo baterista Jorge Dubman quando assume o papel de beatmaker. Para o show baseado no seu disco mais recente, “Nu-Konduktor” (2021), o músico baiano – conhecido por sua vasta pesquisa – optou por ficar no cantinho do palco e deixar boa parte dos louros com sua excelente banda, encabeçada por nomes como o baixista Fabrício Mota, colega de IFÁ Afrobeat, e o guitarrista Junix 11 (BaianaSystem). Numa apresentação cheia de texturas complexas e de um swing imersivo à acid jazz, que vinha a calhar no finalzinho de uma bem-vivida tarde de sol, destacaram-se faixas como “Desert Scorpion (Death Stalker)”, “Hey, Deejays!” e “Temaluna”, parceria com Kiko Continentino, da Azymuth.

Juliana Linhares

Assim como em 2022, quando a gastação de Luísa e os Alquimistas foi o destaque do primeiro dia de Radioca, o sábado do ano seguinte também teria ápice proporcionado por uma artista potiguar. Quando a noite caía, Juliana Linhares subiu ao palco para apresentar, pela primeira em Salvador, o seu álbum de estreia solo, “Nordeste Ficção”, um dos melhores lançados em 2021. Parte considerável da plateia presente no festival cometeu o grave erro de ainda não conhecer o disco, mas isso não foi um problema para Juliana, que certamente formou público em sua visita à capital baiana.

Juliana Linhares

De cara, a persona circense que Juliana – que também é atriz – assume no palco chama a atenção, e isso cativou até crianças que foram ao festival acompanhada dos responsáveis. Além disso, sonoridades, temáticas e reflexões presentes em “Nordeste Ficção” ou em outras canções escolhidas para a apresentação ecoam em Salvador e são geradoras de vínculos. E aí entram releituras como “Tareco e Mariola”, “Bolero de Isabel”, “Não Tem Lua”, com direito à participação da amiga Josyara, e de “Galope Razante” (sic), uma das mais icônicas pérolas da música nordestina dos anos 1970, que ganhou potência com os solos do clarinete de Aline Gonçalves e da guitarra de Elísio Freitas. Dentre as faixas próprias do debute da potiguar, “Bombinha”, que abriu o show, foi regravada por Daniela Mercury e já era relativamente conhecida pelos soteropolitanos, o que a fez ser bem recebida – o que também aconteceria com as cadenciadas “Balanceiro” e “Embrulho”. Por volta das 19h30, a faixa-título e “Frivião” encerraram com muita energia um showzaço, que só não teve a divertidíssima “Lambada de Lambida” porque o tempo foi extrapolado.

Mahmundi

O clima animado seguiu no início do show de Mahmundi, que pela primeira vez tocava em Salvador. A carioca começou sua apresentação com a dançante “Calor do Amor”, sucesso que lhe acompanha há mais de uma década, e emplacou outros bons momentos com “Alegria”, “Brisa 22” e “Qual É a Sua?”. Entretanto, se o público mais próximo ao palco se divertia bastante, quem estava mais atrás parecia não ter se conectado tanto com o show.

Pato Fu

O cenário continuou bastante parecido no último show do sábado, dos mineiros do Pato Fu: muita sintonia da banda com os fãs, mas uma menor aderência de outra parcela do público, principalmente entre os que aparentavam ter menos de 30 anos. Como se existisse uma divisão na plateia entre os que eram jovens na época em que a Unimed pagava atendimentos médicos sem muitos questionamentos e os que vivem nos tempos em que as operadoras de plano de saúde têm dificultado a cobertura a atendimentos.

Pato Fu

O Pato Fu fez um show bastante longo, proporcional às mais de três décadas de existência da banda, com 25 canções – o que acabou evidenciando ainda mais as questões geracionais citadas acima. Certamente agradou os fãs soteropolitanos, que não viam o grupo tocar na cidade desde 2017 e chegaram a atender a um pedido de Fernanda Takai e levaram acarajés ao camarim ao fim da apresentação. Bem antes disso, na parte inicial, a frontwoman fez um comentário irônico sobre o mercado, numa (in)direta para o Bala Desejo. “A gente tem mais de 30 anos de história, mas essa não é uma turnê de encerramento. E olha que tem até banda de três anos fazendo turnê de despedida”.

Pato Fu

Musicalmente falando, o Pato Fu conseguiu romper a barreira entre os fãs e o público comum principalmente nas suas gravações mais radiofônicas, como “Depois”, “Perdendo Dentes”, “Sobre o Tempo”, “ Canção Pra Você Viver Mais” e a clássica releitura de “Ando Meio Desligado”, dos Mutantes. No restante de seu repertório, os mineiros agradaram ainda com “O Processo de Criação Vai de 10 Até 100 Mil”, “Menti Pra Você, Mas Foi Sem Querer”, “Spoc”, “Eu”, “Capetão 66.6 FM” e “Silenciador”, uma das quatro do álbum “30” (2023) que apresentaram em Salvador – as outras foram “Fique Onde Eu Possa Te Ver”, “Diga Sim” e “No Silêncio”.

Se o fim do sábado pareceu ter fruição mais desconexa entre o público, o domingo, por outro lado, começou pactuado, já que o Aguidavi do Jêje deixou muito empolgadas as pessoas que chegaram cedo à Ribeira para o último dia da Radioca. Com muita alma e energia, o grupo formado há cerca de 15 anos por ogãs do centenário Terreiro do Bogum, do candomblé de nação jêje-maí, fez seu primeiro show desde o lançamento de seu disco de estreia, em novembro, e levantou a Fábrica Cultural com a riqueza percussiva afrobaiana.

Aguidavi do Jêje

O coletivo é formado por mais de 15 músicos de diversas idades, tendo alguns nomes muito experientes e membros da Orkestra Rumpilezz – como o seu líder, Luizinho do Jêje; seu filho Kainã do Jêje, que tem acompanhado Caetano Veloso na turnê de “Meu Coco”; Ícaro Sá, do BaianaSystem, entre outros. Com essa cozinha afiadíssima aliada ao embalo do violão e aos pedais de efeitos, o grupo produziu arranjos nada banais e um verdadeiro ritual percussivo, evocando a ancestralidade afroreligiosa e a cultura popular baiana, com canções como “Violão de Cabaça”, “Xirê” e “Chico Melabenguê”. Em resumo, uma bela escolha para o início dos trabalhos do domingo, dando evidência a um trabalho que merece circular pelo país.

Luneta Mágica

Após a virtuosidade do Aguidavi do Jêje, a psicodelia da amazonense Luneta Mágica deu as caras no Radioca. Estreando em Salvador e levando a turnê do bom álbum “No Paiz das Amazonas” (2022) ao Nordeste pela primeira vez, a banda do norte do Brasil teve a chance de apresentar o seu trabalho – função que cabe a festivais independentes. Embora o público tenha acompanhado mais do fundo do espaço, com alguma curiosidade, o grupo fez um show coeso, com destaque para “Orquídea” e “Tuiuiú”.

Mãeana

Em seguida foi a vez de Mãeana, que se radicou em Salvador a partir de 2021, após polêmicas de âmbito pessoal. A carioca tem feito shows regulares às segundas, na Casa da Mãe, um bar tradicional da capital baiana, e apresentado semanalmente o show do elogiado álbum “Mãeana Canta JG” (2023), no qual revisita João Gilberto e João Gomes. Entretanto, pareceria fora de lugar que num festival – o primeiro de que participou, aliás – ela repetisse aquilo que faz a cada sete dias, de frente para o mar do Rio Vermelho. Dessa forma, Ana Cláudia Lomelino deixou os hits “Tô Sem Você” e “Meu Pedaço de Pecado” para o fim, ainda que ciente de que “é isso que tá fazendo sucesso”, e decidiu apresentar parte de seu repertório autoral. No fim das contas, seu timbre de voz delicado comandou um show lento e bucólico, que despertou pouco interesse na plateia.

Mestre Ambrósio

Caminhando para a reta final do Radioca, os ânimos voltaram a se acelerar com a presença de Mestre Ambrósio, em turnê comemorativa dos 30 anos de formação da banda, que foi fundada em 1992 e encerrou suas atividades em 2004. Como grande parte dos fãs soteropolitanos de Siba e sua trupe jamais haviam tido a oportunidade de vê-los ao vivo, foi criado um verdadeiro rebuliço na Fábrica Cultural e o grupo já subiu ao palco com o público em polvorosa, totalmente ganho – e, convenhamos, com o repertório apresentado seria difícil perdê-lo. Entre pedradas certeiras como “Povo”, “Fuá na Casa de Cabral”, “ Pé-de-calçada” e “Se Zé Limeira Sambasse Maracatu”, os pernambucanos ainda surpreenderam com as participações da baiana Jussara Silveira em “Pescador” e de Chico César em “Carneirinho”.

Chico César

Sim, Chico César subiu ao palco antes mesmo de fazer o seu show próprio, que encerraria o festival dali a algum tempo. Quando voltou à cena para sua consistente e divertida apresentação, o paraibano não economizou nas interações e na sinergia com o público – desde a “batalha” de sons e sins em “Béradêro”, que abriu os trabalhos. Depois, Chico César apresentou “Vestido de Amor”, faixa-título de seu trabalho mais recente, de 2022, e emendou vários hits: “Mama África”, no já conhecido pout-pourri com “Brilho de Beleza” e “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores”, “À Primeira Vista”, “ Onde Estará o Meu Amor?”. Além disso, recebeu o carimbozeiro paraense Mestre Damasceno e a cantora e clarinetista baiana Vanessa Melo, que acabou oferecendo uma longa e cativante participação, com direito a dueto em “Deus Me Proteja”. E, evidentemente, não poderia faltar “Pedra de Responsa”, que fechou em alta o show e a sétima edição do Radioca.

Ano que vem tem mais. Com nordestinos em destaque pelo terceiro ano seguido? Veremos – e ouviremos e falaremos também.

– Nelson Oliveira é jornalista e fotógrafo residente em Salvador. É diretor da Calciopédia, foi correspondente de esportes do Terra na Bahia e colaborou com UOL, VICE e Trivela. 

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