Meu disco favorito de 2023: NewJeans, por Pedro Hollanda

MEU DISCO FAVORITO DE 2023 #3
“Ditto/OMG“, NewJeans
escolha de Pedro Hollanda

Lançamento – 02/01/2023
Selo – ADOR
Ouça – Spotify

O ano de 2023 mal havia começado quando a corrida para melhor lançamento musical foi vencida com folga. Pense em Usain Bolt quebrando o recorde mundial dos 100m rasos no Mundial de Atletismo em 2009, tão a frente de seus adversários a ponto de olhar para trás e contemplar sua dominação. Esse foi o NewJeans em 2 de janeiro.

Antes de escrever sobre meus pensamentos acerca das duas canções, preciso fazer um esclarecimento. Primeiro, sim, eu verifiquei com o Mac se podia fazer isso. Ele é o editor do site, um decano do jornalismo musical brasileiro e sinto a necessidade da aprovação dele na hora de fazer essas sandices. Segundo, havia uma época na cultura musical na qual singles lançados sem LPs atrelados eram comuns a ponto de fazerem parte do calendário de uma banda.

Os Beatles precisavam lançar dois álbuns e ainda por cima até QUATRO singles isolados por ano. Hoje em dia, o compacto é usado na promoção de discos ou versões de luxo desses, um conceito estranho considerando que a maior parte da música no Ocidente é consumida via streaming.

Mas aí entra o K-Pop. A indústria coreana não só se mantém firme e forte perante mudanças na paisagem, mas o faz preservando elementos clássicos da cultura musical popular. Dentre todos esses, o double A-side, contendo duas canções dignas de serem compactos, é uma joia.

Esse conceito nasceu com os Beatles, com uma desavença entre John Lennon e a EMI sobre qual canção de um compacto – no caso, “We Can Work It Out” ou “Day Tripper” – deveriam promover. A resposta foi simples: ambas. Desde então, quase todas as grandes bandas da história da música pop tiveram ao menos um double A-side na carreira. Não é algo normalmente feito, pois existe o risco de uma faixa atrapalhar a outra. Entretanto, quando ambas canções atingem sucesso, o artista pode esbanjar um sucesso exponencial, com uma impulsionando a outra.

“Ditto/OMG” é um double A-side com um agravante. O girl group NewJeans, formado por Minji, Hanni, Danielle, Haerin e Hyein, havia estreado oficialmente cinco meses antes, e esse era o primeiro comeback delas. O debut do grupo foi ambicioso num nível raramente visto na indústria, com todas as quatro faixas do EP homônimo ganhando clipes, cada um trazendo uma proposta estética incomum.

Essa ideia se repetiu nesse double A-side, com a ambição conceitual aumentada ainda mais. “Ditto” veio com dois clipes, cada um apresentando um ponto de vista distinto sobre a relação parassocial entre idols e fãs. Uma garota acompanha as integrantes do NewJeans pela escola com uma câmera, filmando ensaios de coreografia e o cotidiano do que parecem ser alunas de ensino médio. Parecem ser todas amigas. Mas isso não é real.

“OMG” foi além na sua proposta, tratando da desumanização de idols na cultura. As garotas são reduzidas a estereótipos comuns aplicados a grupos, com integrantes sendo reduzidas aos memes produzidos às suas custas.

Ambos os conceitos são incrivelmente subversivos no que diz respeito ao K-Pop, onde a relação parassocial entre idol e fã ganha um status de obrigatoriedade. O senso de posse por parte de uma pessoa comum para com seu grupo preferido é algo empurrado por gravadoras querendo desenvolver um público cativo, hipotecando música, imagem e as personalidades de seus artistas para conseguir isso.

A parte magistral de “Ditto/OMG”, entretanto, é como a música em si funciona no contexto dos clipes. A paisagem de girl groups nos últimos oito anos existia na sombra de três atos: Blackpink, Red Velvet e Twice. Cada um desses construiu para si um reino distinto e todo artista subsequente devia um quinhão a elas (alguns fãs vão argumentar que o Loona merece estar na lista por não se encaixar em nenhum dos arquétipos, porém é um fato infeliz da carreira delas ter sido vítima da incompetência e abuso por parte da Blockberry Creative).

O NewJeans soa novo, diferente dos três grupos citados. Elas deslizam por gêneros diferentes de maneira ágil, sempre mantendo a identidade. “Ditto” é basicamente uma versão K-Pop de “Unfinished Sympathy”, clássico do Massive Attack, repleto de batidas jungle que se contrapõem de maneira surpreendentemente linda com as vozes delicadas das garotas. A letra, um simples apelo para que o objeto de desejo pare com as meias medidas e declare seu amor, é um sentimento universal.

“OMG” é o outro lado da moeda. Aqui, as garotas cantam sobre o sentimento delas, sobre como o amor é capaz de nos fazer perder o sono, de nos dar confiança para encarar o dia, força para irmos atrás do que queremos. Na bridge, quando Hanni começa a cantar “My heart is glowing, glowing up”, podemos notar uma influência de “Love On Top”, de Beyoncé, em como a batida muda e a música explode de maneira brilhante, espelhando a letra.

No fim, isso tudo também podem ser lido como o grupo pedindo para o público se render a elas em uma canção e depois reforçando a parassocialidade na outra. A beleza de nuance na música pop.

Desde então, o grupo se tornou um dos maiores atos na indústria coreana, coroando seu annus mirabilis com o EP “Get Up” em julho de 2023. Entretanto, o poder desse double A-side continua suplantando qualquer outra coisa. “Ditto” se tornou a canção mais popular em paradas coreanas na história, superando até o monolito BTS. “OMG” por outro lado, emplacou no resto do mundo através do TikTok, se tornando meme e rendendo até versões da dança feitas por jovens brasileiros.

Quando o NewJeans fez seu primeiro show fora da Coreia, no Lollapalooza Chicago, ambas as canções tiveram os coros mais entusiasmados do público.

O NewJeans tem uma carreira enorme pela frente, mas a decisão de lançar “Ditto/OMG” foi talvez a melhor e mais corajosa da carreira delas.


– Pedro Hollanda é jornalista, cineasta e colaborador do site Igor Miranda.

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