Três HQs: “A Adoção”, “Meu Diário de Nova York” e “Um Oceano de Amor”

Textos por Leonardo Tissot

“A Adoção”, de Zidrou e Arno Monin (Editora Nemo)
Quadrinho franco-belga propõe reflexão sobre perda e paternidade

Quando o ex-açougueiro Gabriel, que passou 50 anos dedicado ao trabalho e com pouco tempo para a família, se vê diante de uma netinha peruana adotada pelo filho e a nora, o sentimento é de… desconfiança. “Daqui para a frente ela é parte da sua vida”, lhe diz sua esposa, Rysette. “Assim como a minha artrose?”, ele retruca. Apesar da resistência inicial, a pequena Qinaya, adotada após perder a família em um terremoto no Peru, conquista o coração endurecido do velho Gabriel. A convivência harmoniosa entre eles, no entanto é interrompida quando uma fraude no processo de adoção é descoberta. Mais do que a adoção do título em si, a HQ trata das relações entre pais e filhos, da importância das amizades para quem chega à terceira idade (os diálogos entre os “Gegês” são pontos altos da história), de perdas irreparáveis e também daquelas que é possível recuperar, cada uma a seu jeito. Com belo roteiro de Zidrou e arte elegante de Arno Monin, “A Adoção” saiu em 2017 lá fora e chega ao Brasil via editora Nemo, com tradução de Renata Silveira.


“Meu Diário de Nova York”, de Julie Doucet (Editora Veneta)
Clássico da HQ underground chega pela primeira vez ao Brasil

Julie Doucet é um ícone da cena feminista estadunidense, com uma influência que transborda para além do mundinho hermético dos quadrinhos. Que o diga Kathleen Hanna, que incluiu a quadrinista canadense em uma espécie de lista de referências femininas na letra de “Hot Topic”, do Le Tigre, ao lado de Nina Simone, Billie Jean King, Aretha Franklin, Angela Davis e diversas outras heroínas. É, portanto, com enorme satisfação — apesar do atraso difícil de explicar — que o público tem recebido a primeira edição brasileira de “Meu Diário de Nova York”, uma das principais HQs de Doucet. O mérito é da editora Veneta. Com um traço sujo e bem característico do período, no qual eram raros os quadrinistas alternativos que escapavam da influência de Robert Crumb, Peter Bagge, Daniel Clowes e outros nomes, Doucet conta suas experiências de vida ao sair de Montreal para viver na Big Apple. Em pouco mais de 100 páginas, vemos a autora-personagem perder a virgindade (algo que ela mesma disse ter se arrependido de mostrar no seu trabalho), lidar com frequentes ataques epiléticos e as inseguranças do início da carreira da artista, além de suportar uma porção de caras que não ajudaram em nada — e ainda atrapalharam — essa fase de transição de sua vida. Publicada originalmente em 1998, “Meu Diário de Nova York” é cânone das HQs underground e permanece relevante até hoje. Não é à toa que a canadense foi premiada neste ano pelo conjunto da obra no Festival de Angoulême. A edição brasileira ainda traz um belo prefácio da tradutora Cris Siqueira, que ajuda a contextualizar a importância de Doucet para o mercado de quadrinhos.


“Um Oceano de Amor”, de Wilfrid Lupano e Grégory Panaccione (Editora Nemo)
Um quadrinho “mudo” com narrativa visual impecável

Ainda que não tenham incluído um único balão de diálogo ou pensamento em “Um Oceano de Amor” (Nemo), o roteirista Wilfrid Lupano e o artista Grégory Panaccione não deixaram de lado a poesia. Na HQ, a dupla francesa conclui o desafio de propor uma narrativa baseada unicamente na arte sequencial com louvor. Embora exija ainda mais atenção dos leitores, já que não há palavras para ajudar na compreensão do que as cenas mostram, “Oceano” é uma experiência visual impecável para quem se dispuser a encarar as 200 páginas da obra. Com personagens expressivos, mas sem cair na caricatura ou no exagero interpretativo, a HQ começa mostrando o que seria um dia normal na vida de Monsieur, pescador que vive na costa da Bretanha (França). Ao fazer seu trabalho, porém, ele vê sua embarcação presa a um gigantesco navio. Ainda que passe dias sem dar sinal de vida, a esposa segue esperançosa em seu retorno — mesmo que os prognósticos não sejam os mais favoráveis. Lançada originalmente em 2014, a obra levou o prêmio de quadrinhos FNAC France Inter 2015 e concorreu a três Eisner em 2019.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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