Três filmes: “Minions 2: A Origem de Gru”, “O Festival do Amor”, “A Pior Pessoa do Mundo”

por Marcelo Costa

“Minions 2: A Origem de Gru”, de Kyle Balda e Brad Ableson (2022)
Lá se vão 12 anos desde que esses serzinhos amarelinhos fofos debutaram no primeiro e delicioso “Meu Malvado Favorito” (2010) e, aparentemente, a fórmula enfim cansou no quinto volume da franquia. Precedido pelo excelente “Minions”, de 2015, que narrava a saga dos bichinhos amarelos de forma divertida e impecável da época das cavernas até os anos 60 ingleses terminando exatamente quando os Minions conhecem seu mais novo chefe, “Minions 2: A Origem de Gru” mergulha nos anos 70 estadunidenses com muito funk, soul, correria e, infelizmente, repetição de ideias numa clara opção de reciclar ao invés de criar. A coisa toda é simples: o garoto Gru, prestes a completar 12 anos, sonha em integrar o Sexteto Sinistro, grupo que reúne os maiores vilões da época – e que por um “infortúnio” perdeu seu líder. Na audição, o garotinho é zoado pelos vilões, e para provar que está apto para o bando, rouba um colar de zodíaco raro do Sexteto e daí você já sabe: dá-lhe mil e uma perseguições dos bandidos querendo recuperar o amuleto enquanto os Minions aprontam mil e uma bobagens. Cinema pastelão sem medo de soar ridículo e anacrônico para quem tem menos de 5 anos de idade e nem sabe o que é ridículo e anacrônico, “Minions 2: A Origem de Gru” entrega o que a criancadinha quer, muitas vozinhas esquisitas num show de estripulias inimagináveis sem fim, então não se culpe se você bocejar quando seu filho pequeno estiver rindo, pois se havia frescor e coesão em “Minions 1”, falta diversão e boas ideias e sobram vilões não aprofundados em “Minions 2” – o que não o impediu de liderar as bilheterias em vários cantos do planeta somando US$ 220 milhões de arrecadação contra US$ 80 milhões de investimento. O mais do mesmo contamina, inclusive, a aguardadíssima trilha sonora com Diana Ross Ft. Tame Impala e covers especiais para o filme de St. Vincent, Thundercat, Phoebe Bridgers, Caroline Polachek, Brockhampton, Weyes Blood e muitos outros, que tinha tudo para ser boa, mas, assim como a história, é o mais puro tédio.

Nota: 3

“O Festival do Amor”, de Woody Allen (2020/2022)
Em seu segundo filme sem apoio nos EUA (que só estreou “em casa” em 2022), Woody teve investimento espanhol e italiano, e partiu para a Europa para filmar uma história leve e divertida que provoca “cinéfilos”. De novo, ele recicla ideias de outros filmes seus (“Meia Noite em Paris” no comando), e ainda que perca impacto com a escolha do ótimo Wallace Shawn para o papel principal (ele é um baita coadjuvante, mas sem o humor e o sex appeal necessários ao personagem principal), se sai bem porque as piadas e as sacadas cinematográficas, mesmo recicladas (ou talvez por isso), são ótimas e funcionam como a muito não funcionavam. Esqueça o título bestinha nacional: na trama de “Rifkin’s Festival”, o ex-professor de cinema Mort Rifkin (Shawn) vai com a esposa (Gina Gershon, ótima) ao Festival de Cinema de San Sebastian, na Espanha. Ela está assessorando o jovem diretor (ególatra e galanteador) Philippe (Louis Garrel, excelente), e Mort crê que há algo a mais entre eles. Desencantado com o casamento e com o cinema, Mort começa a ter visões que o inserem em cenas de clássicos como “Cidadão Kane”, “Acossado”, “O Anjo Exterminador” e “O Sétimo Selo”, entre outros, com Woody parodiando de maneira deliciosa seus ídolos e distribuindo piadas afiadas sobre holocausto, novas manias da indústria (“Hoje à noite vai rolar exibição da directors cut de ‘Os Três Patetas’”) e religião (“Li a Bíblia inteira. Me apaixonei por Eva, a mulher de Jó e Dalila. Meu psiquiatra me disse que me sinto atraído por mulheres que vão me magoar”). Em certo momento, Mort descobre que sua paixão de adolescência o trocou pelo irmão depois dele ter tido a primeira chance e tê-la desperdiçado levando-a para ver “Deserto Vermelho”, “Ano Passado em Marienbad” e “O Joelho de Claire” e conclui: “Acho que fui um imbecil pedante e esnobe que desmotiva as pessoas com seu gosto intelectual”. Com grandes atuações de Elena Anaya (de “Lúcia e o Sexo”), do brilhante Sergi Lopez (de “Uma Relação Pornográfica”) e de Christoph Waltz (como a Morte), “Rifkin’s Festival” é derivativo, mas delicioso e provocante.

Nota: 6.5

“A Pior Pessoa do Mundo”, de Joachim Trier (2021)
Algumas pessoas defendem, com bastante ênfase, que, após 120 anos de cinema, todos os filmes já foram feitos, e o que “resta” é ou tentar ludibriar o público sobre essa questão oferecendo pastiche disfarçado de revolução, ou fazer cinema sem pensar na História (algo que as equipes de filmes de super-heróis dominam) ou, ainda, tentar refazer os filmes já feitos de maneira inteligente e, ahñ, original. O diretor dinamarquês (de pais noruegueses) Joachim Trier está no terceiro grupo e seu “Verdens Verste Menneske” (no original) é uma obra prima moderna tão bem-acabada, tão impecável, tão cômica e tão melancólica que chega a emocionar. No filme que encerra a trilogia de Oslo (precedida por “Reprise”, de 2006, e “Oslo, August 31st”, de 2011), Joachim resume quatro anos na vida de Julie (Renate Reinsve), uma jovem incerta tanto sobre sua carreira profissional quanto sobre sua vida amorosa. O tema, batidíssimo, é conduzido com maestria tanto por um roteiro maravilhoso (indicado ao Oscar) quanto por uma atuação deslumbrante de Reinsve (que foi premiada como Melhor Atriz em Cannes), que se sente tão à vontade no personagem que faz de sua Julie uma pessoa daquelas que você sente que é real, e que você pode encontrar na feira, numa festa de casamento ou numa livraria (em Oslo). Na construção desajeitada de sua trajetória rumo ao amadurecimento (contada em 12 capítulos, um prólogo e um epílogo), Julie se reinventa a todo momento (trocando de profissão e de namorados) em busca de seu verdadeiro eu (e, por conseguinte, de sua própria felicidade). No trajeto, descobre tanto os choques dos desejos íntimos de cada uma das partes dentro de um relacionamento tanto quanto testa (de maneira deliciosamente encantadora) os limites da traição. O fotógrafo Kasper Tuxen filma Oslo e a própria Julie de maneira sóbria e poética enquanto o roteiro (de Eskil Vogt ao lado de Trier) não tem o mínimo pudor de mergulhar a história no cinema fantástico tanto assustando o espectador quanto o fazendo sorrir. O resultado é um daqueles filmes raros que aparecem de 10 em 10 anos, que não busca inventar nada, apenas utiliza-se das ferramentas manjadas do cinema para conseguir um resultado simples, cáotico, grandioso e arrebatador. Palmas!

Nota: 10

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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