Entrevista: O duo português Fado Bicha lança “Ocupação”, seu disco de estreia

entrevista por Renan Guerra

O fado é um gênero construído em cânones, regras e todo um mundinho bastante ensimesmado. Já bicha é um termo historicamente ofensivo para homossexuais, afeminados, transviados e travestis – nos últimos anos esse termo foi ressignificado pela comunidade LGBTQIA+ aqui e além-mar. Fados e bichas parecem tópicos que se atraem e se repelem. Se o fado é cheio das fórmulas, Amália Rodrigues também é ícone de dramaticidade e emotividade para tantas bichas. Quantas bichas a cantar fado seguem em diferentes armários? Lila Tiago e João Caçador abriram essa porta e não têm medo de se aventurar nas subversões do fado em seu projeto Fado Bicha.

A dupla portuguesa lançou em 2022 seu disco de estreia, “OCUPAÇÃO”. Depois de anos de shows e projetos em que elas cantavam na noite, fazendo turnês em diferentes lugares – inclusive aqui pelo Brasil –, elas enfim conseguiram lançar em disco todas essas experimentações. Produzido por Luís Clara Gomes, conhecido na Europa por seu trabalho de músico eletrônico sob o pseudônimo Moullinex, “OCUPAÇÃO” é como o próprio nome diz: uma invasão sobre o gênero do fado, uma balbúrdia sobre as regras e os cânones, para que as existências bichas passem a também cantar seus poemas, suas glórias e suas dores.

Misturando fado, música eletrônica, música pop, referências a Antonio Variações e a grandes nomes do fado português, Fado Bicha é uma espécie de experiência sonora, que coloca a melancolia do fado a cargo das experiências dolorosas da vida de pessoas LGBTQIA+. A delicada dor de uma pequena criança que acha que vai morrer de AIDS na dolorosa “1997” ou o olhar debochado sobre as relações que se dão nos espaços secretos cantada em “Crónica do Maxo Discreto”, tudo isso compõe esse pequeno diário de sinceridades da dupla. “OCUPAÇÃO” é um disco que surpreende por sua humanidade e sua intensidade, marcada pela atitude das duas artistas de não fazer concessões aos preconceituosos e aos caretas.

Lila Tiago e João Caçador conversaram com o Scream & Yell via Zoom. Com fala calma e inteligente, a dupla contou mais sobre a carreira do Fado Bicha, suas relações com o fado tradicional, suas influências brasileiras e todo o processo de criação do disco “OCUPAÇÃO”. Confira o papo na íntegra abaixo:

Pra começar, queria falar um pouquinho sobre o disco. Acredito que esse é um momento muito simbólico para vocês de poder lançar um disco cheio, acredito que vocês devem estar também nesse momento de descoberta, do prazer que o disco saiu e as pessoas estão ouvindo. Falem um pouco sobre as intenções de vocês nesse disco, já que esse trabalho celebra esse percurso que vocês vinham construindo nos palcos.
Lila Tiago – Sem dúvida. Olha, nós já dissemos isso algumas vezes: nós somos uma banda um cadinho atípica em vários sentidos. Em um deles, é que já estamos juntas há 5 anos, já fizemos quase 300 shows durante esses 5 anos e só agora é que estamos lançando o primeiro álbum, porque o projeto começou de uma forma muito – eu ia dizer despretensiosa, mas não ia ser exata, porque começou com pretensões muito específicas, só que não eram pretensões profissionais ou profissionalizantes, ele começou com uma pretensão pessoal muito intensa e muito própria. Nós começamos a fazer o projeto em um bar muito pequenino em Alfama, um bairro de Lisboa. Era um bar que se chamava Favela LX, que pertencia a uma bicha brasileira que é imigrante cá em Lisboa, um bar muito pequeno, onde ele dava palco a artistas emergentes queers. Eu não tenho formação musical, nunca tinha cantado publicamente, então o projeto começou assim de uma forma bem exploratória, bem experimental, e depois foi crescendo e fomos ocupando outros lugares e fomos também percebendo camada após camada, dando novos significados aquilo que estávamos a fazer. O que o projeto significava para nós, mas também o que ele significava para as outras pessoas, o que ele significava no seio do Fado, o que significava no seio da música portuguesa em geral e foi se tornando mais denso e mais desenvolvido, tanto política quanto artisticamente. E entretanto, em 2019, nós conhecemos o Luís, que é um músico eletrônico muito conhecido em Portugal pelo nome Moullinex, e ele se interessou muito pelo que nós fazíamos, quis ajudar-nos e fizemos uma música com ele, que foi a “Lila Fadista”, que lançamos no final de 2019, quando estávamos no Brasil. E depois ele sugeriu de fazermos o álbum – nós, nessa altura, já queríamos fazer um álbum, já fazia sentido para nós, só que nessa altura a ideia do álbum seria gravar todas as músicas que nós vinhámos cantando desde o início, era um caminho fazer esse espólio do nosso percurso até então. Uma vez que eram fados que já existiam, e isso é muito comum no universo do fado, cantar-se fados que já existem, de outras pessoas, escrever-se letras novas para melodias que já existem, e nós fazíamos isso também, mas obviamente com outro conteúdo e com outra expressão, e a grande maioria dos fados sobre os quais nós pedimos autorização para cantar as pessoas que têm os direitos de autor nos negaram, e então nós ficamos assim um cadinho sem chão, porque tínhamos uma ideia do que queríamos fazer com o álbum e de repente já não podia ser aquilo. E então a ideia do álbum foi um cadinho que dançando, meio que tentando perceber o que poderia ser, o que deveria ser, entretanto começou a pandemia logo no começo de 2020, foi tudo abaixo durante muito tempo e eu meio que acreditei que nunca viria a acontecer. E depois no final de 2021, recomeçamos a trabalhar com força no álbum já com obviamente outras inspirações, coisas que escrevemos durante a pandemia, ideias para colaborações que tivemos também durante a pandemia. Foi um período muito intenso de quatro, cinco meses de composição e depois de produção e terminamos de fazer o álbum no final de janeiro de 2022. Então o álbum acaba por surgir agora, passados cinco anos, ele tem tanto de confirmação do nosso percurso quanto de primeiro álbum de uma banda que acaba de se formar, porque tem muitas coisas novas. Há músicas que seguem mais um cânone fadista da forma como o fado acontece nas casas de fado, do que se chama fado tradicional, embora possamos falar sobre isso, o que é o tradicional, como também tem outras músicas que divergem muito desse cânone, que vão buscar influências tanto do ponto vista formal quanto do ponto de vista conceitual, do ponto de vista lírico, pessoas que chamamos para o álbum que não estão de todo relacionadas com o fado, então ele tem muito disto: de passado e de futuro e nós acabamos por sentir que tinha uma coesão nessa linha temporal e gostamos muito dele por causa disso também.

A relação de vocês com o fado é uma coisa que vem desde sempre? Eu acredito que o fado para vocês seja uma coisa natural, com a qual você já nasce acompanhando, porém qual foi o momento em que vocês compreenderam que era a hora de ocupar esse gênero cantando vivências que eram importantes para vocês e para os seus pares?’
João Caçador – Eu acho que o momento em que entendi que podia ser um lugar confidencial da ocupação foi meio que sem querer e meio que a tropeçar nessa possibilidade com o que a Lila tinha feito, já que a Lila começou o Fado Bicha sozinha. Ela fez duas apresentações nesse bar, achei super interessante, entrei em contato para falarmos e meio que aconteceu assim casualmente, mas eu acho que essa pergunta é super pertinente porque eu já cantava fado em casas de fado e já tocava há bastante tempo (ou há algum tempo) e já me relaciona com o fado desde o final da adolescência. Com os poemas, aquela ideia da impossibilidade do amor e a impossibilidade da vida que muitas bichas se identificam, mas essa ideia de poder ocupar o fado com as nossas narrativas é uma coisa que por algum motivo ainda não tinha acontecido no fado, não pelo menos de uma forma explícita, as pessoas cantarem fados com essas letras e essas narrativas. A ideia da permissão na arte parece que, depois de ela acontecer, era fácil, pois sempre existiram músicos e bichas fadistas e letristas bichas, é o que não faltava, mas ninguém tinha tido ainda essa permissão para escrever um fado objetivamente e declaradamente homoafetivo ou sobre uma pessoa trans, mas antes de alguém fazer parece que não existia essa permissão ou essa possibilidade, não seria possível, então lembro de cantar em casas de fado e de sentir um desconforto muito grande com as narrativas que podia cantar e que não podia cantar, e a forma como podia tocar fado e que não podia tocar, porque são regras muito estritas. Quando o Fado Bicha acontece eu meio que tropecei nisso e era algo que eu desejava há muito tempo sem saber que desejava, era uma coisa que eu queria fazer há muito tempo sem saber que podia, sabes? Então de repente abre-se uma porta nova e de repente quando essa porta se abre vem um universo inteiro de coisas que tu queres contar, que tu queres falar, que queres cantar, e que tu precisas e que as pessoas precisam de fazer, e então é uma coisa “tricky”, parece uma coisa óbvia, claro que nós temos que contar as nossas narrativas, mas ao mesmo tempo o sistema é tão perverso que nos coloca nesse lugar de acharmos que não temos permissão para existir artisticamente, musicalmente no fado. Então a ideia de quando vi a Lila fazer as primeiras apresentações do Fado Bicha meio que sem querer despontou e abriu esse universo novo para podermos ocupar o fado também, de uma forma sem concessões.

E é curioso a gente pensar nisso, pois o fado é uma coisa que está, historicamente, relacionado com as pessoas queer, a Amália Rodrigues, a dramaticidade, tudo isso é tão importante para as pessoas queer e é muito difícil você se desvencilhar disso e achar que esse espaço também não é nosso, né? Isso também é um pouco assustador de como esses espaços criam essas barreiras, e aí eu queria saber como foi que vocês lidaram com esses espaços de canto do fado, se eles aceitavam vocês, se houve uma resistência inicial, como está essa relação hoje?
Lila: Olha, inicialmente, como nós já dissemos, começamos a fazer num bar que por acaso ficava em Alfama, mas não tinha relação nenhuma com a comunidade do fado e não tentamos abordagem nenhuma, assim direta a comunidade do fado. Até porque adivinhávamos desde o início a resistência e a rejeição que haveria. A verdade é que nós decidimos muito cedo no projeto que não iríamos fazer depender o nosso trabalho da validação ou legitimação de ninguém, nem da comunidade do fado, nem das nossas famílias, porque acho que a certa altura percebemos que haviam muitas pessoas entusiasmadas com o nosso trabalho desde o início. Isso foi notório, por exemplo, a primeira vez que eu fiz ainda sem o João, uma noite de Fado Bicha – e eu chamei logo de Fado Bicha –, só tinha amigos meus lá, eram umas 15 pessoas, depois na segunda noite o bar encheu, ficaram umas 30, 40 pessoas de fora tentando ouvir e o interesse foi crescendo, era notório que o exercício que nós estávamos a levar a cabo era interessante e entusiasmante para muitas pessoas, mas nós também sabíamos, e não era difícil de adivinhar, que seria muito perturbador para outras tantas pessoas. E isso aconteceu principalmente no início quando nós fizemos as nossas redes sociais, o que foi ainda uns bons meses depois de termos começado o projeto e houve assim uma torrente de ódio on-line, uma torrente vinda da comunidade do fado, principalmente de uma ou duas pessoas, mas muitas outras pessoas também nos escreviam mensagens privadas e mensagens públicas; mas assim, um ódio muito visceral. E nós temos tido algumas aproximações ao mundo do fado tradicional, digamos. Já fizemos uma sessão de fotos numa casa de fado vadio que há em Lisboa, onde o João costumava tocar, já tocamos com uma fadista muito conhecida, que é a Gisela João, que é das nossas preferidas, cantamos num concerto dela, num festival de fado, mas porque fomos convidadas por ela, não pelo festival. São aproximações muito tímidas, mas que pra nós é ok, ou seja, não é uma coisa que nos preocupe pensar se somos aceitos, não somos aceitos, se somos consideradas fado, se não somos consideradas. Acho que em 2019 nos surgiu uma piada que resume um bocadinho a nossa postura: quando nos dizem que o que nós fazemos não é fado, nós respondemos, “não, não é fado, é fado bicha”. Então é um bocado essa postura, de não nos preocuparmos, pois nós, obviamente queremos esticar o cânone, queremos forçar um pertencimento a um patrimônio, e o patrimônio é entendido por muitas pessoas, no senso comum, como um lugar de tradição e de cristalização de uma série de características e é um lugar errôneo, um lugar falacioso, pois qualquer pessoa que estude um bocadinho da história do fado saberá que o fado já passou por muitas mutações, já teve muitas mudanças na forma como é. Já foi cantado ao piano, a guitarra portuguesa, por exemplo, é um instrumento que surgiu muitas décadas depois de se começar a cantar fado, já foi dançado, quer dizer, o fado veio do Brasil e, a partir daí, dizer que o fado tradicional acontece na Mouraria e com uma viola de fado e uma guitarra portuguesa e que sempre foi assim é uma mentira, e eu acho que a maioria das pessoas que diz isso sabe que está mentindo. E qualquer história de qualquer gênero é feita de evoluções, de mudanças, no fundo o cânone é muito forte quando se cria uma identidade tão forte de um gênero musical que perpassa uma comunidade ao longo do tempo. Isso é uma experiência tão forte, tão bela, que ela acaba por contaminar as gerações uma após a outra e as gerações vão tendo preocupações diferentes, vão tendo inspirações diferentes, mas esse patrimônio, chamemos-lhe assim, consegue persistir ao longo do tempo, e ele não persiste ficando igual, não é? Ele não persiste ficando como uma fotografia velha numa gaveta que nós tiramos uma vez por semana e fazemos exatamente igual, não, eu persisto e eu vivo precisamente porque as pessoas vão apropriando dele e usando a sua maneira, usando seus corpos como filtro desse patrimônio e eu acho que isso é a coisa mais bonita. O maior elogio que nós podemos fazer ao fado, nesse caso em particular, é nós estarmos a dizer “não, o fado da forma que ele existe ou existia nós não nos sentimos representadas nele, mas nós gostamos tanto dele que nós vamos fazer, vamos usá-lo para nos representar” e eu acho que isso é um elogio fantástico ao fado ou a qualquer gênero musical. Então é isso que nos anima.

No disco “Ocupação” vocês inclusive fazem esses diálogos do fado com outros gêneros, tem a música eletrônica, tem essas trocas, queria entender como foi chegar nesses encontros, de entender o que misturar, o que trazer de novo, o que trazer de clássico?
João: Acho que a premissa inicial e a nossa, eu diria, quase tendência primária é criar alguma coisa sobre o fado, sobre a ideia do que são as melodias, as harmonias, aquelas balizas do fado, porque eu toquei fado durante muitos anos, a Lila ouvia muito fado, o próprio repertório que nós começamos a fazer no fado bicha está muito relacionado com o fado, então a matéria prima é o fado, mas depois nós também somos um caldeirão feito de muitas músicas, de muitas influências. E, para além de nós, o Luís, o Moullinex, trazia um conjunto de ferramentas que nos interessava explorar, que ainda não tínhamos conseguido explorar ao vivo, porque era só a guitarra e a voz da Lila, então nos interessamos muito por poder explorar esteticamente outras ferramentas, mais de eletrônica, mas também não só. Usamos viola clássica, melódica, efeitos na voz da Lila, que era uma coisa que me dava muito prazer sempre, efeitos na minha voz também, piano, então interessava-nos romper com essa ideia da guitarra portuguesa e da viola como a única forma verdadeira e autêntica de criar fado, ou de criar sobre o fado. E veio de uma forma um cadinho natural, as tantas pensávamos ou era uma preocupação se estávamos a forçar demasiado o fado ou se aquilo que fazíamos já rompia demasiado com o fado, mas depois paramos de pensar sobre isso, e criamos essa ideia da ocupação, era como se entrássemos em uma casa e você entra sem pedir licença, é a premissa da ocupação, não estais a pensar naquilo que podes ou não fazer. E depois, trazer as outras ferramentas e as outras musicalidades vai de uma forma supernatural e tinha a ver com as nossas influências, aquilo que nós ouvíamos e gostávamos e fazia sentido para cada música. Lembro que no processo de criação dos arranjos, e mesmo da composição, pensávamos muito música a música, como se a música fosse um objeto cada uma, um objeto muito específico, e tentávamos servir o melhor possível aquele conteúdo e aquela mensagem, aquele lugar, então era vesti-la da melhor forma que conseguíamos, e da forma mais específica para cada uma.

Lila: E também daquilo que tínhamos como possibilidade e como potencialidades, não só naquilo que nós fazíamos, mas os instrumentos que o João toca e depois as pessoas que tínhamos a volta também, o Luís, mas depois as outras que fomos chamando. Foi um bocado reunir as possibilidades a nossa volta e trabalhar com o que tínhamos para cada lugar emocional e para cada canção.

Eu ia inclusive perguntar dessas outras pessoas que participaram do processo também. A gente tem diferentes nomes que participam do disco, eu acho que eles trazem esses diálogos com outras realidades, outras vivências e eu queria saber como foi também essa troca com esses artistas parceiros.
Lila: Olha, foi muito bom. Todas essas pessoas são nossas amigas, já fizemos outras coisas antes. Para nós era muito importante chamar outras pessoas queers que trabalham em Portugal, não apenas portuguesas, mas que trabalham e vivem em Portugal, para estar no álbum, gostaríamos ainda de ter mais pessoas, mas também não foi possível. E cada uma delas está no álbum por algum motivo muito particular e que fazia muito sentido para aquela música. Por exemplo, a Symone de lá Dragma, que é uma cantora drag, que nós já conhecíamos e que é nossa amiga, eu tinha esse poema que é contra as touradas e que é uma espécie de reflexão que parte da minha experiência – nós moramos em Lisboa, mas a minha família é de uma aldeia no meio de Portugal, que se chama Ribatejo e que está muito ligada a tradição tauromaquia, dos touros e etc, e então é uma coisa que eu convivi desde criança e que me perturbou e me perturbava desde criança. Meio que a música reflete um bocadinho, não só uma posição ética e política sobre as touradas, mas também uma reflexão minha da vivência, dessa tradição tauromaquia e dessa relação com o patriarcado, e depois eu lembrei a Symone também é do Ribatejo, da mesma região que a minha família, então seria ótimo trazer ela, pois ela tem uma voz lindíssima e potente e trazer outra pessoa queer do Ribatejo pra cantar essa música conosco fez um sentido por causa disso. Depois, as Trypas Corassão, que são a Tita Maravilha e a Cigarra, são duas artistas brasileiras que moram em Lisboa, e têm esse projeto chamado Trypas Corassão, e também lançaram o primeiro álbum agora há uma semana, e eu escrevi aquele poema, o “Medusa-me”, no ano passado, e assim que acabei de escrever eu senti que queria ter a Tita cantando aquele poema comigo, pois ela enquanto mulher trans desenvolve muito artisticamente e criativamente aquele lugar de monstruosidade, e brinca muito com isso. Então achei que seria maravilhoso e que se ligava muito ao trabalho delas, e também queríamos que fosse uma música assim mais com uma estrutura diferente, mais operática de certa forma, então chamamos a Tita e a Cigarra para fazer essa música conosco. Labaq fez o “Fado do Ciúme” conosco porque foi a primeira pessoa com quem tocamos, na altura estávamos a fazer uma residência artística e Labaq estava conosco – ela também é brasileira, de Franca, e que mora em Portugal. Em “Fado do Ciúme” foi Labaq que sugeriu toda aquela parte eletrônica e o bumbo e etc, e quando decidimos fazer o álbum chamamos para ela fazer conosco. Alice Azevedo também veio porque era um fado sobre ela e então achamos que queríamos ter a voz dela no álbum, uma vez que estávamos a cantar uma música sobre ela. Então foi assim tudo um bocadinho meio que de ter essa noção de que queríamos ter essas pessoas no álbum, até tínhamos sugestões de ter algumas pessoas mais firmadas na música, pessoas já bem influentes, tanto em Portugal quanto no Brasil, e que poderiam entrar no álbum conosco, pessoas que admiramos, mas nós decidimos que não faria muito sentido. Queríamos que o primeiro álbum tivesse esta sensação de levantados do chão, há esse verso numa das músicas, a “Estourada”. “Levantado do Chão” é o nome de um livro do José Saramago, de quem eu gosto muito, e queríamos muito que tivesse essa sensação de “levantadas do chão” e então também tivesse essa sensação de comunidade, que essas pessoas fizessem parte do álbum, e por isso fomos chamando uma a uma se fizesse sentido para aquela música em particular.

Vocês já vieram pro Brasil em 2019, agora vocês estão voltando já com o disco. Queria saber um pouco da relação de vocês com a música brasileira, o que vocês escutam daqui e se vocês estão animados de voltar pra cá, como está essa expectativa?
João: Para nós a música brasileira tem uma influência forte, porque em Portugal a cultura queer nos veículos mais mainstream, na rádio, na televisão, é quase inexistente, ela existe, mas de uma forma periférica, e a música queer que nos chega do Brasil é muito potente, diversificada e está num estado de progressão muito a frente, em que já temos apropriação da palavra bicha, que já é feita há muitos anos, o empoderamento de pessoas travestis que trazem muitas pautas, então para nós não havia como não beber dessa cultura e dessa força artística que vem do Brasil. Da Linn [da Quebrada], da Elza [Soares], da Liniker, do Johnny Hooker, que nós gostamos muito. Então o Brasil tem essa importância, mas também porque quando começamos o Fado Bicha começamos no espaço de uma pessoa bicha brasileira. E muitas pessoas brasileiras que se mudaram para Portugal nos últimos anos viram como uma grande criação a ideia do Fado Bicha, acho que também se relaciona com a questão de não terem uma ideia muito cristalizada do que é o fado, nem muito rígida, então permitem-se muito mais a partir de uma forma diferente, é deixar-se dialogar com esse exercício do fado e mudá-lo e plastificá-lo. Então para nós foi muito forte em 2019, Lila pode falar, se quiser, um bocadinho, dessa experiência com as pessoas brasileiras, tanto de cá quanto daí.

Lila: Em 2019 foi engraçado porque nós fomos ao Brasil inicialmente porque fomos participar da SIM São Paulo numa comitiva de bandas portuguesas. Tínhamos dois shows dentro da SIM SP, então nós decidimos, meio assim a maluca, comprar viagens – ficamos quanto tempo? Três semanas, não foi?

João: Ficamos 20 dias.

Lila: 20 dias de intervalo e escrevemos nas redes que iríamos para Brasil e que queríamos cantar em muitos lugares e de repente começamos a receber imensas propostas, algumas mais a sério de casas de shows e outras só assim “venham aqui, venham acolá”. Mas foi muito surpreendente para nós a maneira como havia pessoas em lugares como, sei lá, Campo Grande, Uberlândia, que não são as principais cidades, as cidades com mais pessoas, mas tinham pessoas que seguiam as nossas redes, nosso trabalho. Baseadas nessas propostas, começamos a montar uma mini turnê e acabamos por fazer oito shows em SP, BH e no Rio – acabamos por ficar só em três cidades, pois também não tínhamos capacidade de fazer muitas viagens e nessas três cidades tínhamos amigos e poderíamos ficar com eles, o que ajuda no nível financeiro. E eu, principalmente, ia com algum receio, com muita vontade, mas com algum receio de que a nossa linguagem fosse difícil, além de entender o nosso português, que já não é fácil ou tão fácil assim, entender a nossa linguagem artística, o fado, que as pessoas mais ou menos sabem o que é, mas acho que têm assim uma ideia muito obsoleta do que é o fado. E depois ainda juntar toda uma linguagem queer que é portuguesa, há pontos em comum com o Brasil, mas há coisas que também são diferentes, então eu ia assim com algum receio de perceber se as pessoas iam conectar-se, ligar-se e entender a nossa linguagem e depois foi maravilhoso. Toda a nossa experiência foi muito intensa, foram assim 20 dias muito intensos, porque fizemos muitas coisas, tivemos com muitas pessoas, sempre em casa de amigos, então havia sempre coisas pra fazer, lugares para visitar. E há toda a questão da segurança que nós vamos da Europa já com a cabeça feita “tens cuidado com isso, não podes tirar o celular, tens que ter cuidado com não sei o que”, então é uma experiência emocional que mesmo que não aconteça nada, tu vives sempre essa experiência emocional de sentir-se sempre em perigo, há essa experiencia psicológica, e então tudo junto acaba que foi mesmo muito intenso o período que estivemos no Brasil. Fomos numa festa na casa de Caetano Veloso, fomos em um lanche na casa de Cecília Boal no Rio de Janeiro, fizemos coisas assim que nunca imaginamos que conseguiríamos fazer. E os shows foram maravilhosos, sempre cheios, foram em lugares pequenos, mas sempre cheios, sentimos que as pessoas se ligavam muito facilmente naquilo que estávamos propondo. Nós fazíamos sempre também uma reflexão da nossa postura obviamente enquanto pessoas portuguesas brancas em relação à história de Portugal e do Brasil, ao colonialismo, então não sei, eu senti que as pessoas se ligavam a nós de uma forma muito mais emocional e emotiva do que eu esperava, e isso foi muito bom de sentir. E foi engraçado porque eu já tinha estado em muitos países do mundo, mas nunca tinha estado no Brasil, e nunca tinha estado num lugar onde eu não estava em casa, mas eu também não estava no estrangeiro. Eu nunca tinha sentido isso, eu percebi que não estava em casa, não estava em Portugal, mas também não me sentia totalmente no estrangeiro, era um ponto de intermédio. E é bonito de sentir, então estamos muito entusiasmadas pra voltar, agora nesse outro momento da pandemia, com o álbum, acho que vai ser muito bonito!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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