Aniversário de Black Alien, shows esgotados de Liniker e nova cena (Daparte / O Grilo) ocupando espaço: um mês no Circo Voador

texto por Gustavo Almeida

O que significa o Circo Voador em 2022? Para a música brasileira, mas principalmente para o Rio de Janeiro? O mês de Junho pode ser um ótimo estudo de caso para entender quem se apresenta na lona mais importante do Rio de Janeiro, e o serviço oferecido por este espaço para nossa cultura.

O Circo está ali, à beira dos Arcos da Lapa, funcionando direto desde a reabertura em 2004, através da ação popular movida pela diretora da casa Maria Juçá, a mais recente detentora da Medalha Tiradentes, honraria máxima concedida pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Com uma história longa e bonita que vem desde a lona montada na Pedra do Arpoador nos anos 80, o fechamento pelo prefeito Cesar Maia e inúmeras noites históricas para nossa música, vale a pena saber mais sobre através do documentário “A Nave”, disponível na integra no Youtube (e no final desse texto), ou em “A Farra do Circo“, lançado em DVD.

Estive em três eventos ao longo de três semanas de junho de 2022, número que facilmente poderia ter sido o dobro sem assistir a nada que não tivesse pelo menos grande curiosidade em presenciar. Logo no primeiro fim de semana já foram dois dias de BaianaSystem que, pelo que dizem por aí, continua a ser um dos melhores shows do país, o que também já é verdade há vários anos.

Mas o primeiro evento que presenciei nesse mês foi o aniversário de um ícone para o hip-hop brasileiro, Gustavo Black Alien. Com o show ainda baseado no repertório de “Abaixo de Zero: Hello Hell”, incrível álbum de 2019 (disco do ano no Scream & Yell), Gustavo trouxe também alguns clássicos e os singles que sucederam o último disco.

Mas a noite era ainda mais especial porque comemorava os 50 anos de Gustavo, comemoração que ficou completa com os amigos e colegas de Planet Hemp, Marcelo D2 e B Negão. Eles invadiram o palco em meio ao show cantando parabéns, junto com os fãs que lotaram a casa, e fizeram momentos emocionantes celebrando a vida e obra de Black Alien.

Marcelo contou que foi ali mesmo, sob a lona, que ele e Gustavo se conheceram, e era ali que tinham o sonho de tocar. Entre Planet Hemp e suas carreiras solo, todos eles já pisaram naquele palco diversas vezes, mas o aniversário de meio século daquele homem representa muito quando se pensa em tudo que ele superou para chegar em 2022 vivo, atuante, sóbrio e afiado como nunca para produzir. É o tipo de momento que só lugares históricos podem produzir.

No entanto, o Circo não se limita a celebrar e receber grandes nomes, como rolou novamente com os shows de Siba e Jorge Du Peixe na semana seguinte. A casa é também sobre o presente da música brasileira, tendo recebido também naquela semana a festa Traphits, com importantes novos nomes como Tasha e Tracie, Ebony, Afrolai, e uma outra noite em parceria com o Selo Rockambole e a Tomarock Produções trazendo, três bandas da nova geração para o sábado dia 18, evento que também estivemos presentes.

Daparte / Foto: Cristiano Juruna

Se tratava de uma noite com o que se pode chamar de novo indie-rock brasileiro, com bandas de três estados diferentes. Os primeiros a se apresentar foram os cariocas da Aquino e a Orquestra Invisível, convidados para abrir ainda à tarde o evento. Os meninos ainda muito jovens tiveram o gostinho de uma primeira apresentação no Circo, um marco para qualquer carreira musical, e fizeram bonito com o repertório que os coloca no radar com um dos mais interessantes projetos de nossa cidade.

O sábado ainda teve duas bandas que recentemente colaboraram gravando juntas, e fizeram da noite uma comemoração dessa parceria e do momento de ascensão na carreira. Eram os mineiros Daparte e os paulistas d’O Grilo. As bandas estão em um momento muito importante da carreira, em que começam a partir para segundos discos, estabelecer parcerias e consolidar uma quantidade bem interessante de público, o que ficou ainda mais evidente com a energia da noite, com as bandas participando dos shows uma da outra, e o público que pulou durante a maior parte das apresentações.

O Grilo / Foto: Cristino Juruna

Por fim, o último fim de semana de Junho representa ainda um terceiro tipo de apresentação possível para o Circo Voador, a consagração. Liniker esgotou duas noites para o lançamento, ainda que tardio devido a pandemia, de “Índigo Borboleta Anil” (2021). Seu último disco e o primeiro da nova fase sem os Caramelows gerou este show que coloca a artista em outro patamar da carreira, com o brilho e a dimensão que uma cantora como ela merece já há alguns anos.

Tive também o privilégio de assistir aos shows dos três discos da cantora ali mesmo no Circo Voador, e a evolução ser tão nítida é realmente impressionante porque desde o primeiro ela parecia uma cantora pronta, inteira e única (no final do texto há vídeos de 2016 e 2018 de Liniker no Circo). Não é fácil continuar a impressionar quando, de cara, ela já fazia apresentações apoteóticas que enlouqueciam a plateia. No entanto, ela parece ter se preocupado muito com seus caminhos, ter dado tempo para se descobrir enquanto artista e, mais do que tudo, ter investido em fazer esta turnê com o cuidado que o repertório dela merece.

O show, dirigido musicalmente por Júlio Fejuca, é uma aula de como valorizar o repertório através dos arranjos. Afinal, Liniker já cuida de balancear intensidade e delicadeza como poucos intérpretes conseguem, mas musicalmente a apresentação não só é certeira como sempre surpreendente, criando caminhos, sonoridades e momentos que não passam batidos. Vale ressaltar a química e o talento da cozinha composta por dois dos melhores que temos: Ana Karina Sebastião no baixo e Sérgio Machado na bateria impressionam do começo ao fim.

Duas noites absolutamente esgotadas de Circo Voador são algumas milhares de pessoas que esgotaram até os lotes extras de venda abertos pela casa após muita insistência de quem não conseguiu ingresso. O sábado, sob chuva, evidenciou quantas pessoas estavam dispostas a tudo pra ver aquele show, se apertando as beiradas da lona absolutamente cheia, enquanto alguns se davam por satisfeitos aos dançar e cantar de longe, na chuva.

E uma coisa que sempre marca, o barulho ensurdecedor quando o artista aparece pela primeira vez, foi por duas noites no volume de quem é muito, e pra muita gente.

Ainda em 2022, 40 anos depois do primeiro embrião ainda no Arpoador, o Circo tem mais do que uma história em nossa música. Tem, vale dizer, um lugar privilegiado na geografia da cidade, uma trajetória de resistência cultural e um presente que aponta para o futuro de nossa música porque não se limita a celebrar tudo que já fez.

Todos os meses mostram uma nave que sobreviveu aos dois anos mais difíceis para nosso mercado de eventos em toda sua história, e que leva a bordo mais do que os grandes artistas que o ajudaram a levantar voo, mas também os possíveis novos tripulantes que tocarão seus caminhos nas próximas décadas. E que sejam muitas mais.

– Gustavo Almeida trabalha na Rádio UFRJ e faço o podcast Sonar Rio.

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