Ao vivo: Moons lança quarto disco em show emocionante em BH

Texto e fotos por Alexandre Biciati

Com disco novo debaixo dos braços, “Best Kept Secret”, lançado pela Balaclava Records no Brasil e pelo selo Diskunion no Japão (e com vindoura edição em vinil), a Moons se apresentou no projeto Encontros Musicais – do produtor musical Kiko Klaus em parceria com o Centro Cultural Sesiminas. O show foi produzido pela própria banda e contou com participação dos músicos Breno Mendonça (sax tenor), João Machala (trombone), Vinícius Mendes (clarinete e clarone), William Alves (trompete) e arranjos de Lucca Noacco. Fred Selva ainda tocaria vibrafone, mas por motivos de saúde não pôde participar da apresentação.

Formado por músicos com maturidade de estúdio e palco, a Moons é um sexteto composto por André Travassos (violão, guitarra e voz), Bernardo Bauer (voz e baixo), Digo Leite (guitarra), Felipe D’Angelo (voz, piano, guitarra barítona e sintetizadores), Jennifer Souza (voz, guitarra e percussão) e Pedro Hamdan (bateria e percussão). A banda se define a partir das marcas deixadas por influências como Carly Simon, João Gilberto, Sade, Marvin Gaye e Simply Red, mas, dada a diversidade e ousadia do novo trabalho, é bem provável que essa lista mude a cada disco, quiçá, a cada estação.

Um erro a evitar ao escutá-los é fazê-lo de forma despretensiosa, sem o devido comprometimento com a proposta artística desse coletivo formado em 2016 em Belo Horizonte. O rótulo “folk rock”, atribuído ao trabalho, até serve como ponto de partida para rascunhar a sonoridade e postura da banda, mas, após um show, a chancela soa limitadora e precisamos recorrer à praticidade dos adjetivos. Toda sofisticação, delicadeza e complexidade presentes nos discos de estúdio ganham uma nova dimensão a partir da atmosfera íntima da performance ao vivo, que reitera a característica imersiva da música e encanta pela estética do trabalho.

Com capacidade de 660 lugares, o teatro Sesiminas estava completamente tomado no último final de semana. Apesar da ocupação, a plateia se manteve em silêncio abissal, como que abduzidos pelo clima intimista que tomou conta do teatro desde a primeira música. Contribui para a conexão um palco minimalista decorado apenas com tapetes, um par de abajures, luz quente e um telão com projeções pontuais e muito sensíveis.

Antes dos músicos ocuparem seus lugares, a aconchegante “That’s All Right”, de Laura Rivers, cumpriu o papel de colocar palco e plateia em sintonia. Começaram o show com a delicada “The Will To Change”, na voz de André Travassos, que também abre o novo e quarto disco do Moons, seguida da faixa-título, que manteve a cadência em tom acústico, e de “Moonglow”, outra nova que, aliás, também é homônima da canção interpretada por Carly Simon (influência declarada) no álbum “Moonlight Serenade” (2005). As três primeiras canções revelaram a camada mais soft das composições de “Best Kept Secret”, mas a Moons ainda tinha muitas cartas na manga.

Após a série de músicas novas, o grupo fez um passeio pelos discos anteriores. A nota de introdução de “Creatures of the Night”, faixa de abertura do disco anterior “Dreaming Fully Awake” (2019), mencionado em listas de melhores daquele ano, provocou as primeiras manifestações calorosas da, até então, contida plateia que se deleitou com a inconfundível voz de Jennifer Souza. A arejada “Nobody but Me” foi a próxima do set trazendo a gaita pro jogo e, na sequência, “Don’t Believe the Truth”, música do primeiro disco “Songs of Wood & Fire” – também citado em várias listas de melhores discos em 2016.

De volta a “Best Kept Secret”, a banda preparou uma sequência de projeções emocionantes. Após tocarem “Confusions of A Heart”, um dos temas mais ensolarados do disco, foi a vez de “Another You” e do Moons se posicionar perante a covardia do assassinato do indigenista Bruno e do jornalista britânico Dom. No telão, a denúncia em letras garrafais: “O BRASIL É UM DOS PAÍSES QUE MAIS MATA ATIVISTAS NO MUNDO!”. Exibiram-se então fotos de Margarida Alves, Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria e Zé Cláudio, Marielle Franco, Paulo Paulino Guajajara, Ari Uru-eu-wau-wau, Sarapó Ka’apor, Zezico Rodrigues Guajajara e, finalmente, o pedido de justiça por Bruno e Dom.

A canção seguinte foi apresentada por André Travassos como sendo a mais importante do disco e uma homenagem à sua filha Elis e à Rosa, filha de Bernardo Bauer. “Childlike Wisdom”, que ganhou status de preferida da banda, contou com a participação dos sopros e projeções de simpáticas fotos de infância dos músicos. O setlist evoluiu com “Silver Linings”, “Low Key” e a grooveada – e uma das mais interessantes do disco – “Let’s Do It All Again” completando assim as nove canções de “Best Kept Secret”. Antes de deixarem o palco pela primeira vez, ainda tocaram a envolvente “Love Hurts”, single de 2021.

A outra grande manifestação da plateia foi pelo bis que a banda atendeu de prontidão. Das mãos de Felipe D’Angelo ao piano surgiram os primeiros acordes de “Sweet and Sour” (2019), cantada com muito sentimento pelo músico e abrindo as portas para o hit definitivo “My Cave” (2018). O show terminou com “Fire Walks With Me” (2018) e uma projeção sutil com o nome da banda, que agradeceu várias vezes aos amigos e parceiros, em especial, ao “sétimo integrante”, o produtor Leonardo Marques (Ilha do Corvo) que estava presente e responde pela produção musical de todos os discos da banda.

É nítido como a Moons trata como protagonista a própria música e como são comprometidos com ela. Desde a seleção de André Travassos pelo time que faria parte do projeto lá no primeiro disco, existe um critério qualitativo. As escolhas que fizeram para este lançamento justificam o resultado: um show musicalmente rico e sem exageros que coloca a música autoral mineira num patamar altíssimo. Para além de rótulos e adjetivos possíveis, o Moons é um convite à experiência da audição da forma mais dedicada. Acredite, em tempos tão urgentes e atribulados, emprestar seu tempo e ouvidos à música da Moons é um favor a si mesmo.

– Alexandre Biciati é fotógrafo: https://www.alexandrebiciati.com/

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