Entrevista: Ted Simões lança “Paz”, EP sem guitarras inspirado por Velvet e Billie Eilish

entrevista por João Paulo Barreto

É revigorante observar a esperança renascer após dias tão sombrios. Talvez abrir este texto desse modo seja algo demasiado clichê, romântico e ingênuo. Pode ser que realmente seja. Mas recusar este sentimento seria uma atitude hipócrita. Estoica, até. As cinco faixas de “Paz”, novo trabalho de Ted Simões, transmitem justamente essa sensação de se revigorar após uma peleja que já dura um tempo muito longo. Ainda há aquela sensação de introspecção, não me entendam mal, mas em comparação ao que passou, consegue-se olhar para um futuro menos tenebroso. Colocar o disco nos fones trouxe essa reflexão, esse apuro mental.

Produzido de modo remoto durante a fase mais crítica da pandemia, “Paz”, lançado agora em 2022 nas plataformas digitais, é uma criação em parceria de Ted e Matheus Borba, com quem Simões já havia dividido a composição de duas faixas do seu disco de 2016, o “Old Memories, Recents Damages, Future Nightmares”. Matheus, que antes já havia composto com bandas como Dois em Um, duo dos músicos Luisão Pereira e Fernanda Monteiro, foi, segundo afirma o próprio Ted, alguém que conseguiu decifrar suas composições. A faixa inicial de divulgação do EP, a solar “Água no Fogo” começou com uma, até então, frustrada tentativa de criação de Ted, mas que a amizade e química com Matheus souberam desatar os nós.

Abordando uma ideia de planos, de ter fé em algo, “Água no Fogo” passa longe de qualquer proposta de auto-ajuda. Distante disso. Ted explica: “É uma canção otimista. Uma canção que fala sobre não desistir, sobre tentar, sobre continuar, sobre acreditar nas coisas boas. No amor e em todos os sentimentos bons. É a minha favorita, disparada, até hoje. Fico muito feliz de ter Matheus como meu parceiro neste disco. Compomos todas as músicas juntos. Essa foi o start, assim, sabe? As outras músicas, depois disso, surgiram graças a essa”, salienta Ted. “Atravessei o rio atrás dessa canção”, canta Ted na bela “Navegante”, que abre “Paz”. O esforço simbólico dessa metáfora define bem a criação desse inspirador trabalho.

Notório na cena musical de Salvador por seu domínio da guitarra, bem como por sua declarada influência do britpop, com bandas como Oasis, Verve e Blur, Ted seguiu por um caminho diferente com “Paz”, que teve o álbum “Loaded”, do Velvet Underground, como inspiração (além de Billie Eilish!), mas… sem guitarras: “Se alguém me falasse, há cinco anos, que eu gravaria um disco sem guitarras, eu ia dar risada da cara da pessoa”, brinca Ted entre sorrisos. “Nunca imaginei. Sempre fui um defensor da guitarra. Mas é complicado. Nos dias de hoje, na música, ninguém precisa mais de um guitarrista. Isso é uma loucura. Se você voltar apenas 10 anos atrás, você não ia falar que as guitarras iriam morrer. E morreram”, afirma.

Esse aflorar instrumental sem a eletricidade do instrumento transparece por todo o disco. No entanto, é mais palpável em algumas daquelas que, segundo o próprio Ted, o ajudaram a vencer preconceitos musicais que ele admite que tinha. “É o primeiro no qual eu gravei tudo. No anterior, eu tinha gravado quase tudo, mas não tinha ficado responsável pelas baterias. Agora, elas ficaram comigo. Imagine isso para mim, uma pessoa que sempre foi muito quadrada, muito tradicional em relação a ter uma bateria. ‘Ah, bateria eletrônica é uma coisa horrorosa.’ Eu venci todos estes preconceitos e o disco é todo gravado comigo tocando baterias eletrônicas. E muitos efeitos de sintetizadores. Foi renovador. Nunca imaginei que pudesse gravar um disco assim”, explica o músico.

“Paz”, apesar de ser um EP no qual Ted Simões tocou todos os instrumentos, é, também, um trabalho que reflete bastante da parceria dele com Matheus Borba e, também, com o produtor Alex Pochat, notório na música em Salvador por seu som transcendental, caleidoscópico e de raízes indianas (se você ainda não escutou os dois discos de sua banda, Os 5 Elementos, não perca tempo). Para Ted, a experiência foi engrandecedora. “Ele gravou um trombone no meu primeiro disco. É um cara em outro nível, um outro patamar. Não só como músico, pois ele é um músico genial, mas uma alma fantástica. Eu sempre vou me lembrar da gravação de ‘Paz’”, acredita Ted.

“Pochat é um estudioso da cultura indiana e da cítara. Tem essa coisa dos indianos serem muito espirituais. Isso tem muito a ver com paz interna. Essa coisa deles viverem de uma forma diferente. A influência dele no lado artístico e musical veio assim. Ele falou para mim: ‘velho, faça do seu jeito’. Enquanto eu dizia que não sabia mexer naquilo, que não tinha muita noção daquele processo, ficava pensando que precisava sair da minha zona de conforto. Isso foi muito importante para mim”, afirma Ted. Nesse papo com o Scream & Yell, Ted aprofunda o processo de criação. Chega mais!

Na nossa conversa de 2016 aqui no Scream & Yell, você me disse que o “Old Memories, Recent Damages, Future Nightmares”, seu disco lançado à época, era sobre um período de superação, uma fase mais dolorosa e introspectiva. Ao ouvir seu novo trabalho, “Paz”, contatei um Ted Simões mais otimista em um disco que fala sobre isso de um modo mais aberto. Como você se recorda daquela fase em relação a atual?
São duas pessoas completamente diferentes. Impressionante como a gente faz esses recortes da vida. É engraçado perceber quem nós somos naqueles momentos. E é engraçado que estamos sempre buscando o saudosismo. A gente sempre fala: “na nossa época era melhor”. Mas é engraçado como tudo da nossa época é melhor, mas, às vezes, nem sempre. Nós somos a melhor versão da gente do que chamamos de nosso tempo. Do que era melhor, e tal. E isso é uma viagem muito louca. Porque nós percorremos os caminhos que a gente não sabe o que vai acontecer. Eu lembro quando lancei esse “Old Memories”, era uma fase, realmente, bem difícil. Era uma fase na qual eu estava me descobrindo ali em muita coisa. O choque cultural que foi. O “Old Memories” é todo em inglês porque foi a primeira vez que eu fui à Inglaterra. Primeira vez que eu viajei para Liverpool e Londres. Foi um choque cultural muito grande. E, talvez, isso tenha aflorado uma tristeza, também. Porque é foda quando a gente sai e vê algo diferente, vê como a vida funciona diferente em outros lugares, e sempre vamos comparar com o que a gente vive. E sempre tendemos a achar que a vida aqui é muito mais difícil. Mas não somente tendemos a achar isso, como constatamos. A vida aqui é muito mais difícil do que na Europa. Claro que isso depende muito de onde você vai. Mas vivemos em um país muito desigual, no qual a violência é pauta diária. É impossível não se passar um dia sem pensar em como vemos violência aqui diariamente. Não só em questão de assalto, mas a miséria na rua. Isso estamos falando de 2013, 2014, que foi o período no qual o Brasil começou a dar uma chacoalhada legal para o que acontece hoje com o país. Então, aquele era um período de muita indignação, de muita raiva, de muita inquietude. Era um momento inquieto do país e que acabou se transformando no que estamos vivendo hoje. Foi uma inquietude meio selvagem. Então, acho que isso, também, teve muito a ver com a coisa. Além dos problemas pessoais que todo mundo tem e que eu tive na época, mas acho que também tinha um pouco a ver com aquele momento do país que era um momento mais de… (pausa) eu queria ter uma palavra para definir o Brasil naquela época. Momentos estranhos, vamos dizer assim.

No faixa-a-faixa (que o leitor irá ler mais abaixo), você falou sobre a opção de não usar a guitarra dentro desse trabalho. Como a ideia se desenvolveu sem o instrumento que tão marcante em seus trabalhos?
Rapaz, isso é uma loucura. Porque sempre fui um apaixonado pela guitarra. Sempre! A primeira banda que me influenciou de alguma forma foi Engenheiros do Hawaii. Uma banda cuja figura principal é um baixista. Então, eu poderia ter entrado nessa loucura de dizer: “baixo é o meu instrumento”. Mas, não. A guitarra sempre foi muito um fetiche. Para quem curte, sabe o que estou falando. A guitarra tem uma coisa de empoderamento, que é muito louca. Nunca imaginei em minha vida que ia gravar qualquer coisa sem guitarra. Quando estou escrevendo, compondo a canção, pensando em alguma coisa, a primeira coisa que eu pensava, automaticamente, era na guitarra. E aí como teve a pandemia e ficou decidido de que o disco seria feito de dentro de casa, comecei a pensar em como ia fazer isso. Não fazia ideia. É tipo aquela coisa: te deram um comando para você fazer e você não faz ideia de como vai executar esse comando. E comecei gravando as guias, que é a música do bit, do tempo da música, para depois ir acrescentando as coisas. Depois de gravar violão e voz, a primeira coisa que geralmente se grava é a bateria. E isso sempre foi padrão na indústria da música. Depois que ficou a coisa dos canais separados, a primeira coisa que se grava são as baterias. Antigamente, todo mundo gravava ao vivo. Os Beatles gravavam ao vivo, por exemplo. Mas, depois disso, com a tecnologia, surgiu a função de multipista. Poder gravar, regravar, e a bateria passou a ser sempre a primeira coisa a ser gravada. Então, eu fui seguindo a minha lógica. A lógica de quem gravou outros discos. Vou fazer aqui a parte da bateria e é isso. Depois disso, geralmente, também, na indústria da música, se grava o baixo. Peguei um emprestado e gravei. A guitarra, geralmente, era a última coisa. Pelo menos nos discos que gravei, ela sempre ficava por último. Só que aí comecei a mexer nos sintetizadores. O programa de gravação que uso tem uma biblioteca gigantesca de sintetizadores com vozes, instrumentos de sopro, de cordas. E os famosos sintetizadores naquele formato mais dance. Aquela coisa eletrônica, mesmo. E aí, quando você entra nisso, você começa a pirar, sacou? Você acha um som massa. Eu pensava nas ideias, gravava e deixava lá. E aí pensava comigo: “Bom, esse aqui é um, deixa eu ver o seguinte como é”. No final das contas, eu acabava gravando 10, 15, e aí já não sobrava mais espaço para a guitarra. Foi assim que aconteceu com “Água no Fogo”. Depois que a terminei, foi que fui me tocar que não havia colocado guitarra. Foi quando percebi que, pelo menos para mim, não havia feito falta. Eu sou muito ou 8 ou 80. Eu poderia ter colocado uma ou outra guitarra na canção. Mas aí meio que me desafiei. Algo do tipo: “bom, a primeira não teve guitarra, então as outras não vão ter”. Foi um negócio assim. Já estou aqui mesmo, experimentando, vamos lá. Mas não é algo que eu ache que será assim em um próximo trabalho, não. Até mesmo porque no primeiro single de “Água no Fogo”, tem um lado b e tem guitarra. Foi uma brincadeira que fiz depois que o disco já estava finalizado. Eu havia assistido a um documentário com o produtor Mark Ronson, em que ele até entrevista o Paul McCartney. O Ronson conta um pouco da história dele como produtor, o trabalho dele com Amy Winehouse, com outros artistas. E tem uma hora que ele começa a falar da criação dele de rap e hip hop. E aí ele mostra um instrumento de midi que é dos anos 1980 e que era a base para essa galera gravar. Principalmente percussão. Fiquei encantado com aquilo e me dei um dever de casa: “vou criar uma canção usando essa cultrura de colagem”. E gravei o lado b de “Água no Fogo”, a “Água no Fogo De Novo”, que é meio que uma referência a “Exército de Um Homem Só I” e “II”, dos Engenheiros. Foi uma segunda parte que eu fiz para ela e onde coloquei guitarra, achei ali que cabia. Fiz aquela brincadeira no faixa-a-faixa e disse que guitarra ninguém liga mais para guitarra, que ela está completamente fora de moda. E eu acho que é verdade. Ela está completamente fora da música pop hoje em dia. Isso, claro, falando de música pop. No rock, óbvio, sempre vai ter guitarra. Não tem jeito.

Você repete aqui, mas com mais profundidade, o processo de composição com Matheus Borba. No trabalho anterior, foram apenas duas faixas em parceria. Como foi esse aprofundamento?
Isso é engraçado. A velocidade com a qual o disco foi composto é diferente da velocidade que o disco foi gravado. O disco demorou um pouquinho mais. Mas as canções foram realmente muito rápidas. E é engraçado porque Matheus é um cara antitecnologia digital. É um cara que não usa muito WhatsApp, por exemplo. Ele demora para responder. Quando começa a encher o saco, ele deleta o Whats, some do planeta. Mas nessa época da gravação, nós estávamos em um momento bem especial e o disco saiu muito rápido. A faixa “Aproveite” foi a única composta depois porque a deixamos do lado de fora, ela não conseguia se resolver. Aquele foi um momento em que a pandemia já estava um pouco melhor. Nós já tínhamos tomado vacina e foi aí que fui à casa dele e a gente conseguiu finalizar a canção bem mais rápido do que remotamente. Mas é impressionante o como a gente sempre se completou para todas as canções nas quais trabalhamos juntos. Além dessas lançadas no disco, compomos mais umas 10 juntos. Já temos um outro disco cheio aí para gravar e continuar o trabalho. Já trabalhei com muitos caras na música, seja compondo, seja tocando. Mas o que mais me impressiona em Matheus é que ele é muito analítico. É algo que nos leva a criar outras ideias no processo. Lembro que quando começamos a compor “Água no Fogo”, por exemplo, ele falou sobre essa ideia da faixa remeter ao simbolismo de se fazer um chá, um café, algo que pode significar um convite a alguém que você gosta, para um convidado. É uma forma, também, de demonstrar um carinho. Simbolicamente falando, você está demonstrando isso com o tempo que dedica a fazer aquilo. Isso foi o início de como a canção conseguiu se finalizar, porque a gente estava ainda meio nebuloso. Então, ele tem muito essa coisa. Ele ouve a coisa e consegue enxergar os caminhos dos instrumentos. E, geralmente, músicos só querem que a parada cole ali. Não pensamos muito em criar a estrada. Pensamos em entrar na estrada. E aí vai se desviando dos buracos que estão no caminho para que você tenha uma viagem tranquila, para que você pegue um caminho que consiga chegar até onde você quer chegar. Fazendo uma analogia meio louca, é mais ou menos isso. Ao entrar na estrada, não importa como você vai chegar ao final. Não tenho muito esse cuidado. E Matheus é um cara que tem. Principalmente com as palavras. Isso era muito legal. O processo de achar os caminhos na criação, esmiuçar as coisas. E eu sou uma pessoa que nunca fui muito de esmiuçar. Assim como eu falei dos meus parceiros, eles podem falar o mesmo de mim. Minha ideia era botar o carro ali na estrada e fazer ele chegar. Não fazer o carro chegar pelo melhor caminho.

Você contou com a ilustre presença de Alex Pochat na produção. A sintonia fluiu bem?
Ele é conhecido por ser um cara único nesse meio. Ele é zen. Percebi que havia chamado a pessoa certíssima para produzir esse disco chamado “Paz” porque ele é a paz em forma de pessoa. Ele é muito envolvido com meditação, um cara que já esteve na Índia. Além de ser um músico jedi. Aqui na Bahia, todo mundo sabe que ele é uma peça rara. E é uma das coisas bem Bahia, mesmo. Apesar de termos essa quantidade de coisas do axé, do pagode, aqui encontramos pessoas de todos os tipos e jeitos, cada um na sua individualidade. Isso é impressionante. O Pochat foi baixista do Cascadura, uma das bandas mais clássicas do rock baiano e brasileiro, com uma identidade bem setentista. E ele, ao mesmo tempo, foca em outros trabalhos. Há um tempo, ele lançou um disco de meditação tocando cítara. Você ouve aquilo e se pergunta se tem, mesmo, alguém na Bahia que faça esse tipo de som. É meio como você imaginar que lá na Índia tem alguém fazendo um disco de axé music. E isso é massa. Ele imergiu nessa cultura, é um estudioso da cítara. Tem essa coisa dos indianos serem muito espirituais e isso tem muito a ver com paz interna. Essa coisa deles viverem de uma forma diferente. A influência de Pochat no lado artístico e musical veio assim. Ele falou para mim: “velho, faça do seu jeito”, enquanto eu dizia que não sabia mexer naquilo, que não tinha muita noção daquele processo. Isso porque, apesar de tocar há mais de 20 anos, eu não sou músico. Se você colocar uma partitura na minha frente, eu não vou conseguir ler. Sei me virar. Claro que a gente aprende coisas com o passar do tempo, mas sou um autodidata na música, meio analfabeto. E eu ficava com esse receio: “Puxa, estou com um cara que é doutor no assunto, é fera demais”. Então, eu ficava pensando que precisava sair da minha zona de conforto. Isso foi muito importante para mim. Pochat havia gravdo um trompete no meu primeiro disco, no “Old Memories”, em uma faixa que é uma coisa bem pop, bem guitarras. Todo aquele disco é bem cheio de guitarras. E nisso eu comecei a ouvir o trabalho dele. Ele me deu muita dica de muitas coisas interessantes para ouvir. São aquelas coisas que abrem a mente para o trabalho. Ele foi muito importante não só na parte musical, mas, também, na parte espiritual do trabalho.

Uma das coisas que sempre admirei em seu trabalho nestes anos é que você não esconde suas influências e sempre as insere nos trabalhos. Tudo o que vem do britpop é um exemplo disso. Aqui, como foi buscar por outras influências diferentes do que estávamos acostumados?
Tentei soar aqui menos o que eu soava antes. Realmente, “Paz” é um disco em que eu queria uma sonoridade completamente diferente do que eu já tinha feito. É proposital. Mas proposital no sentido de natural. É como te falei, se a pandemia não tivesse acontecido e eu tivesse conseguido reunir uma banda, provavelmente eu teria feito diferentez. Provavelmente eu teria não ido tão fundo, tão radicalmente, naquela coisa do 8 ou 80. Mas o que comecei a pensar com as influências era uma coisa assim que eu não tinha como fugir. Por exemplo, vocais. Vão passar mil anos e eu acho que os Beatles vão ser referência de vocais não só para mim, mas para muita gente. O que eles fizeram é algo que estava 100 anos à frente de tudo. Hoje, na própria música pop, você ouve muitas coisas que a influência de Beatles está nos vocais. Mas fora isso, na minha forma de compor, de vez em quando vem uma outra coisa de inspiração. Por exemplo, em “Água no Fogo”, eu estava preso na canção. A parte do pré-refrão, quando eu falo “não dê mole, não deixe durar”, lembro que precisava de alguma coisa. Eu estava ouvindo “The Masterplan”, do Oasis, que tem aquela parte: “say it loud and sing it proud today”, que é um pré refrão. São coisas bem mais sutis. São atalhos que a gente aprende com caras que são geniais. Mas em termos de influências, eu realmente acho que esse é o disco em que eu mais procurei beber de outras fontes do que das minhas próprias. Algo que me influenciou muito aqui foi o Velvet Underground. É uma banda que eu nunca tinha parado muito para ouvir. Mas tem um disco deles, o sensacional “Loaded”, de 1970, que foi a base desse meu disco. Depois que percebi, inclusive, que o “Loaded” foi feito de modo semelhante, com cada um indo e colocando sua parte, a música indo crescendo. Esse foi um disco que escutei muito. Outra coisa que me influencia muito nesses últimos tempos é trilha sonora de video-game. Eu jogo muto Fifa. E as trilhas sonoras são maravilhosas. A cada ano que passa, ele têm trilhas ainda melhores. E sempre tem artistas brasileiros. Teve BaianaSystem em 2017, se não me engano. Teve Anitta no ano passado. Esse ano tem a Karol Conká. E é legal porque acabo escutando coisas bem diferentes do que eu costumava ouvir. E foi assim que aprendi a gostar um pouco do que hoje chamam de música pop.

Percebi a sua ausência das redes sociais de uns tempos para cá. Pelo menos, da única rede social que eu uso. Essa mudança de comportamento teve algo a ver com uma introspecção? Pergunto porque, no meu caso, é exatamente assim que lido com a internet. Uma vez que a percebo me fazendo mal, me causando ansiedade, tendo a me desligar.
Primeiramente, sim. É totalmente proposital isso em relação à introspecção. Não sei te dizer exatamente qual o objetivo. Mas o que me vem à cabeça é que, de repente, as redes sociais ficaram uma coisa estranha. Quer dizer, sempre foram. Tudo é uma questão de ponto de vista. Às vezes demora para a gente perceber as coisas. Mas ficou um negócio muito artificial. Passou assim para mim, pelo menos. Lógico que cada cabeça pensa diferente. Mas para mim ficou algo muito superficial, muito coisa de bater ponto, sabe? As pessoas estão meio que batendo ponto nas redes sociais. Precisa postar uma foto por dia, precisa aparecer, precisa ter conteúdo, precisa comentar na página dos colegas para mostrar que está vivo. Então, no meu caso, pessoalmente, não vinha acrescentando nada. Chegou um determinado momento em que eu comecei a ver aquilo como uma perda de tempo estar ali vivendo a vida para os outros. De qualquer forma, também, me expondo. Expondo a minha vida. Mas foi bem natural. Não é que seja algo de outro universo. Não que eu demonize redes sociais ou algo do tipo. Eu tenho porque é impossível não ter hoje em dia. Não tenho uma conta minha, pessoal, mas tenho uma que é só para leitura. Se a gente parar para pensar, as redes sociais, hoje, são os canais de televisão. Nós já conversamos sobre o impacto da MTV na gente. Eu assistia para ver as coisas de meu interesse. Os artistas preferidos. E TV como um todo eu assistia para ver o que estava acontecendo, para saber do meu time, o Bahia, para ver resultados de jogos. Então, hoje, o que acontece é que ao invés de ser como era antes, quando ficávamos ligados em seis emissoras de TV, hoje, cada artista tem a sua emissora, o que, geralmente, é o Instagram ou o Twitter. Se eu quero saber de futebol, eu sigo as contas das pessoas que eu gosto nessa área. Para me manter atualizado. A informação, hoje em dia, é extremamente instantânea em relação à nossa época. Naquele período anterior, a gente ainda demorava um pouquinho para saber as coisas. Hoje, é na mesma hora. Então, você, inclusive, fica dependente disso. E é algo ruim. Não à toa que todo mundo está surtando de ansiedade. Então, saí das redes mais por essa opção, mesmo. Tenho que admitir: eu não soube usar a tecnologia como outras pessoas sabem usar. Teve uma época em que me expus bastante. Isso causa mal-estar. As pessoas não te entendem. Às vezes elas entendem o que querem entender. E muitas vezes, também, eu fui um idiota. Não tenho problema nenhum em reconhecer isso. Mas, de qualquer forma, sempre tentei ser muito sincero. E percebi, também, que isso é um problema desses tempos modernos. A sinceridade, até um determinado ponto, é um problema. Tem muita gente que não gosta de ouvir ou de ler aquilo que ela não quer acreditar que seja uma verdade. Ou, às vezes, ela não quer ouvir uma opinião contrária. Por causa disso, vivemos o que estamos vivendo em relação a essa polarização. Mas isso é normal porque estamos vivendo o início dessa era. Talvez daqui a um século, as pessoas já consigam manejar a internet melhor do que a nossa geração. A nossa, com certeza, foi nota 2. (risos)

A letra de “Aproveite” fala um pouco sobre isso, inclusive.
Sim. Essa letra fala justamente sobre isso. Sobre essa coisa da gente estar sempre gravando para ver depois. Parece que é um negócio meio assim. Aquela galera que vai para o show para gravar com o celular e ver depois. Já fiz muito isso. Só que depois fica uma merda (risos). Você olha para o celular e não tem metade da emoção que foi na hora. Um dia desses, por um acaso do destino, achei em um backup meu antigo os vídeos do primeiro show de Paul McCartney que fui, em Porto Alegre, em 2010. Aquela foi a primeira vez que ele havia voltado ao Brasil depois de 17 anos. Naquele show, gravei vários vídeos. Óbvio que você se emociona vendo, mas não é nem de perto o momento que foi lá, quando você o viu ao vivo. E fiquei meio que me culpando por ter gravado um monte de vídeo. Estive nesse último show do Gilberto Gil na Concha Acústica aqui de Salvador. E eu peguei o celular para tirar uma foto. Em determinado momento e gravei um pedacinho de “Aquele Abraço”, que é uma das primeiras músicas que ouvi na vida e que, por sempre ser fanático por futebol, me chamava a atenção aquele momento do “alô torcida do Flamengo”. Mas voltando à letra de “Aproveite”, começou justamente em um papo com um amigo meu. Um papo sobre futebol em que ele estava reclamando do Bahia, na ocasião em 2021, quando o time foi rebaixado. Esse amigo passou o campeonato todo reclamando. Ele vinha falar comigo e eu já sabia que ele vinha para reclamar. E eu sempre dizia, “velho , daqui a pouco o time vai cair para a segunda divisão. É normal. Acontece. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo. Então, está na hora de você aproveitar um pouco o agora”. É sempre aquela coisa. Estamos sempre pedindo mais, e quando chega na hora que tem mais, mesmo não sendo aquele mais que você imaginou, mas quando você tem o mais, você não aproveita, está sempre reclamando, pedindo mais, mais e mais. É mais ou menos isso a ideia da canção.

Lembro de ter conversado com você sobre o processo de escrita do disco anterior, quando você me falou acerca de como uma fase específica de sua vida refletiu naquelas composições. Mas, também, você me disse que se sentia otimista com todo o resultado e como sairia dele. Esse sentimento permanece com a criação de “Paz”?
Permanece. Agora, tem uma coisa que penso muito. Quando comecei a gravar o disco, primeiro da ideia do nome “Paz”. Essa é uma palavra que está meio que na moda, com o lance da guerra. Sempre que tem uma guerra, essa é uma palavra que fica nas manchetes. Mas o lance aqui foi mais relacionado a como eu consegui passar um período muito difícil, que foi a pandemia, mas com paz. Sempre que conversava com as pessoas, o clima era de derrota. E digo isso não julgando ninguém ou achando que as pessoas se entregaram. Mas porque foi difícil pra caramba. Muita gente perdeu pessoas legais, as relações sociais foram todas para o saco. Realmente, foi um período muito difícil. E fico feliz porque consegui achar a minha paz neste período. Tem gente que não conseguiu, que passou pela pandemia sem conseguir achar seu momento de paz e está até hoje sem conseguir achar. E eu consegui achar essa paz justamente… (pausa) não que tentando ser… é aquela coisa… a gente sempre tenta ser o melhor, ter as coisas boas, mas, como posso dizer, sabe quando você cria um pacto? Algo como: “eu preciso disso para sobreviver, para caminhar, para enfrentar”. E isso é em relação a tudo o que a vida coloca para a gente. Falei para mim que precisava achar a minha paz. E a minha paz foi justamente cantando o que eu acho, porque isso é algo muito pessoal. Você pode perguntar a outra pessoa e ela vai te dizer que não tem nada de otimismo ali. Mas, para mim, no que eu entendo de otimismo, está tudo ali, foi uma das coisas que eu disse para mim. Eu preciso achar a minha paz. Como eu vou achá-la? Vou achar a minha paz cantando coisas legais, tentando ser otimista, tentando falar coisas boas. Então, acho que essa é a razão do disco ter nascido. Do disco ter chegado a esse final. É muito disso. E completando uma das coisas que você havia dito sobre não ter as redes sociais, sobre não entrar nessa coisa da divulgação, porque sempre que vamos gravar disco, é aquela coisa de ter que fazer release, foto de divulgação, tem isso, tem aquilo. E isso é massa quando você é jovem, quando está começando. E junto com isso tudo de divulgação, fotos, release, hoje tem as malditas redes sociais, para as quais você tem que criar conteúdo o tempo todo. Tem sempre que estar em evidência. E eu já não estava mais com saco para isso. E a primeira coisa que me veio à cabeça foi isso: quantas e quantas músicas estouraram antes de existirem redes sociais ou algo do tipo? Eu penso que se a música for boa, ela vai estourar. Não acredito que seja o caso de nenhuma dessas que lanço agora. São boas canções, mas não são para estourar. Mas isso é algo que eu acho que os artistas de hoje deveriam se preocupar um pouco menos. Preocupar-se menos com redes sociais e mais com suas canções, com seu trabalho. Tem muita gente que está mais preocupada com cliques nas redes sociais, com o conteúdo que ele vai ter que fazer hoje do que com a própria canção em si. Isso foi algo, assim, libertador. Sobre expectativas, eu já não tenho nenhuma em relação a sucesso, ou algo do tipo. Eu faço as canções hoje mais pelo prazer próprio do que almejando coisas. Então, acho que tem muito disso. Da paz de se aceitar como você é. Acho que não tenho nem mais idade para isso. Para ficar me embelezando para tirar fotos e viver de curtidas. Eu, hoje, acho que é simplesmente muito vazio. Tem outras coisas que podem encher mais a gente do que curtidas.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.


Faixa a faixa: “Paz”, por Ted Simões

Ao invés de apresentar na ordem que saiu no disco, vou tentar fazer esse faixa a faixa em ordem cronológica, que é a forma que eu consigo entender mais o álbum. O disco começa com “Água no Fogo”, sua segunda faixa. Abaixo, falo sobre ela. Após compô-la, eu e Matheus Borba, meu parceiro de composição aqui, falamos um com o outro: “E aí? Vamos nessa? Vamos compor esse disco juntos?” Foi aí que nasceu o conceito do disco, de fazer uma coisa diferente. Não só no texto. No caso, Matheus ficou muito responsável pelo texto do disco, enquanto eu fiquei mais com a parte musical, os arranjos. Mas, também, de fazer algo diferente. Não sei se você irá perceber, mas se trata de algo totalmente diferente do que eu gravei nos meus discos anteriores, não só com a Starla, mas no meu disco solo de 2016. Lá tinha muita guitarra. E esse é um disco que não tem guitarra. E isso é algo que se alguém me falasse há cinco anos, que eu gravaria um disco sem guitarras, eu ia dar risada na cara da pessoa. Nunca imaginei em minha vida gravar um disco sem guitarras. Sempre fui um defensor da guitarra. Mas é complicado. Nos dias de hoje, na música, ninguém precisa mais de um guitarrista. Isso é uma loucura. Se você voltar apenas 10 anos atrás, você não ia falar que as guitarras iriam morrer. E morreram. Pelo menos na música pop.

E aí vem o processo de gravação, de pensar diferente, e esse é um disco bastante diferente. É o primeiro no qual gravei tudo. No anterior, eu tinha gravado quase tudo, mas não tinha ficado responsável pelas baterias. Agora fiquei responsável pelas baterias. Então, imagine: para mim, uma pessoa que sempre foi muito quadrada, muito tradicional… “Ah, bateria eletrônica é uma coisa horrorosa”. Venci todos estes preconceitos e o disco é todo gravado comigo tocando baterias eletrônicas. E muitos efeitos de sintetizadores. Para mim foi renovador. Nunca imaginei que pudesse gravar um disco assim. E experimentar. Trata-se de um disco muito experimental, também. Nos outros discos, sei que as pessoas esperavam de mim aquela coisa de guitarras meio Oasis, Radiohead e Stereophonics, que são bandas das quais sempre gostei pra caramba e nas quais sempre me inspirei muito. Imagino que, para elas, tenha sido um choque ouvir o “Paz”. Primeiro pelo disco não ter guitarras e, segundo, por ter bateria eletrônica e muito sintetizador. Nunca fui muito ligado em sintetizadores. E me afundei nisso nesse disco. Se você parar para pensar, de instrumentos, mesmo, só tem o violão e o baixo. E foi assim que o disco surgiu, na verdade.

Quando comecei a conversar com Alex Pochat, que é o produtor, não existia a possibilidade de ensaios, de formar banda. Foi logo no início da pandemia. Pochat é alguém com quem sempre quis trabalhar. Ele gravou um trombone no meu primeiro disco. E é uma alma iluminada. É um cara em outro nível, um outro patamar. Não só como músico, e ele é um músico genial, mas uma alma fantástica. Sempre vou me lembrar da gravação desse disco. E olha que me encontrei com ele, mas o ouvi muito. Nós conversamos muito por mensagem de WhatsApp, e eu sempre mandava as canções pra ele. Ele retornava. O impacto dele nesse disco é algo que não tenho como mensurar, sabe? Ele fez muita diferença… em tudo: interpretação, letras, arranjos, pensamentos. Foi uma honra para mim trabalhar com ele. Quem conhece, sabe que ele é um cara de outro planeta, realmente. Foi muito bom. Pochat me deu a chave para eu descobrir muita coisa que nunca imaginei na minha vida que eu ia fazer, sabe? E é esse disco. E eu imagino que para muitas pessoas tenha sido muito estranho ouvir. É engraçado que não ouvi feedback de ninguém. As pessoas falavam: “Pô, legal”, meio constrangidas (risos). E eu entendo. Porque já estive, também, neste lado de ouvir uma coisa completamente diferente e ficar, tipo: “é melhor não comentar porque está muito estranho”. É isso. (risos). Vamos ao faixa a faixa…

2) “Água no Fogo” – “Paz” começa com “Água no Fogo”, a segunda do disco. É uma canção que comecei a compor no início da pandemia. Até então, Matheus (Borba), que é o meu parceiro nesse trabalho e compôs todas essas músicas junto comigo, não estava na jogada. A gente tinha conversado um pouco antes sobre fazer um projeto para gravar um disco de amor. Um disco romântico, vamos dizer assim. E tínhamos combinado isso, mas eu estava preso nessa composição de “Água no Fogo”. O disco começa com essa canção e ela é, inclusive, a minha favorita das que compus em todos os tempos. É algo que eu nunca achei que iria compor em minha vida. Sinto-me muito orgulhoso dela. Não só pelo início do trabalho, mas pela ideia da música, da mensagem que ela passa, que é uma mensagem muito otimista. Lembro que eu a inscrevi no Festival da Rádio Educadora que teve no último ano, e tinha uma caixinha para você colocar um “fale sobre a canção”. E eu falei só isso: “É uma canção muito otimista, algo que nunca imaginei que pudesse compor”. E eu estava preso nela. Até o momento em que Matheus falou comigo e nós começamos a conversar. Falei para ele: “Velho, nós já combinamos de fazer esse disco de amor, mas estou preso nessa canção”. E foi aí que nasceu o disco. “Água no Fogo” foi uma canção muito importante porque Matheus consegue desvendá-la de uma forma que eu não estava conseguindo. Eu estava muito preso a algumas coisas, a alguns conceitos. Lembro-me da gente conversando sobre a ideia de “Água no Fogo”, de acreditar no amor, no momento que a gente passava, naquele início de pandemia, quando as pessoas estavam com muito medo. Quando o medo rondava ali a situação. E ele conseguiu, sabe, decifrar aquilo ali e conseguimos finalizá-la. E é isso. É uma canção otimista. Uma canção que fala sobre não desistir, sobre tentar, sobre continuar, sobre acreditar nas coisas boas. No amor e em todos os sentimentos bons. É a minha favorita, disparada, até hoje. Fico muito feliz de ter Matheus como meu parceiro neste disco. Compomos todas as músicas juntos. Essa foi o start, assim, sabe? As outras músicas, depois disso, surgiram graças a “Água no Fogo”.


4) “Pé de Chuva” – Depois que finalizamos “Água no Fogo”, que era o carro chefe no trabalho, começamos a ter ideias. Um dia, durante a pandemia, quando sai com minha esposa para passearmos com meu cachorro, no meio do passeio, começou a chover. Uma chuva torrencial, repentina. E a gente se abrigou debaixo de uma árvore. Estávamos abraçados, nós dois, com o cachorro perto… Assim, a pandemia foi um momento muito de incertezas, de medos, de inseguranças. E aquele foi um primeiro momento da pandemia no qual me senti muito bem. Me senti muito bem naquele abraço, com a mulher que eu amo, meu cachorro, que eu também amo demais. E ali tive a ideia de compor essa canção sobre esse momento. Sobre aquele amor. Bom, é uma coisa clichê pra caramba, você debaixo de uma árvore com sua esposa, abraçado, chovendo, começar a pensar em como aquela história toda chegou ali naquele momento, um determinado momento de nossa vida. Fiz 40 anos esse ano. Já estou em uma meia idade, estabilizado. E é o tipo de coisa com a qual eu sempre sonhava desde quando eu era adolescente. Aquela coisa de achar o amor da minha vida, ter uma vida comum de trabalho, casa, rotina, cachorro. E aí eu voltei para casa com isso na cabeça e mandei uma mensagem para Matheus falando sobre o que aconteceu e sobre a ideia que tive. E aí é engraçado quando a mágica acontece. Porque Matheus falou para eu esperar um pouco e, 15 minutos depois, ele mandou a letra completa de “Pé de Chuva”, que é a quarta canção do disco. E a letra fala justamente daquele momento. Sobre as verdades secretas que a gente conversava, da gente ali. E ele explicou que, por coincidência, ele conviveu a mesma situação com uma antiga namorada que ele teve. Ele disse que se encontrava ali na Av. Centenário, aqui em Salvador, onde tem várias árvores enormes, seculares, e tinha uma árvore que eles dois apelidaram carinhosamente de pé de chuva, que era onde eles se abrigavam. Era tipo que um guarda-chuva pros dois. Achei massa ele inventar essa palavra porque ela remeteu um pouco a “Wonderwall”, que é uma música clássica do Oasis e que é, também, uma palavra que “não existe”, uma palavra inventada, uma licença poética, vamos dizer assim. E vi naquele momento ali meio que a nossa “Wonderwall”. E é uma canção lindíssima. A letra é uma poesia. Matheus é sensacional. Eu já sou fã dele desde a época do Dois em Um. Ele compôs a grande maioria das letras do Dois em Um, banda maravilhosa de Luizão (Pereira) e Fernanda (Monteiro). E a gente acabou se aproximando muito nessa época. Descobrimos que nós dois somos fãs dos Engenheiros do Hawaii, de Humberto Gessinger, principalmente. E de Beatles, também. São duas coisas que a gente tem em comum. E a partir daí a gente criou uma amizade. Ele já tinha composto duas músicas para o meu primeiro disco, o “Old Memories”, “Curitiba Blues” e “Running in Circles”. Nós compomos em português e eu fiz a versão em inglês. Só que faltava algo em português. Então, esse disco foi meio que uma hora de finalizar isso, de terminar esse assunto. Eu sou fã dessa música. Ele me mandou a letra em 15 minutos e devolvi a ele em 10. Foi impressionante como as palavras vieram junto com a harmonia, tudo junto, resolvido, e mandei de volta. Ele ainda me sacaneou (risos) e falou assim: “Não, não é possível que você fez a música assim”. Foi muito rápido. Aquele tipo de coisa mágica. É surreal como a música de vez em quando faz isso. Nós conseguimos nos resolver nessa música muito, muito rápido. Eu amo essa canção.


5) “Entre Você e Eu” – Na semana em que compomos “Pé de Chuva”, nós estávamos em um momento iluminado: ele me mandou a letra da última faixa do EP, que é “Entre Você e Eu”. Ele disse que já tinha mandado essa letra para outras pessoas, e que ninguém tinha aproveitado. E é impressionante como o entrosamento é uma coisa surreal. É, também, um caso… eu não sei explicar… isso é mágico. Mesmo. A música caiu na mesma hora em que eu li a letra, sabe? Saiu muito rápido. Eu acrescentei uma estrofe e essa foi bem parceria. Dos dois lados. Ele me ajudou muito com a parte harmônica, também, do que ele estava pensando. E dei muita sorte de conseguir, também, resolver isso. Porque não são coisas fáceis. Às vezes a gente pensa em uma coisa, e vai outra. Às vezes a gente pensa que vai dar certo e não dá. Então, foi muito… É mágica, sabe? Tudo resolveu dar certo. Eu amo essa letra dele. A forma como Matheus fala de amor é uma das coisas mais lindas que eu já vi. Eu morro de inveja. Ele é um mago das palavras. E o momento em que a gente compôs foi meio que um consenso entre nós. Esse é o tipo de música que encerra o disco. É a última canção do disco. E na parte de arranjos, essa foi a primeira canção em que experimentei, mesmo. Aquela parte da bateria no final que entra, com os vocais a lá Beatles, óbvio. Eles sempre foram e sempre vão ser uma influência muito grande. Principalmente quando se trata de vocalização. Esse disco todo tem várias citações a Beatles nos vocais. No final de “Navegante”, eu faço aquele truque do final de “She Loves You”, das vozes, com os “Yeahhs”. No final de “Pé de Chuva” eu faço aquela referência a “With a Little Help From My Friends”, dos vocais. Termino com vocais semelhantes. Então, foi um momento de experimentar. E acho que esse momento foi muito assim de desbloquear fases. De minha cabeça, principalmente. Eu estava muito ainda preso à ideia de ter uma bateria, de ter que ter isso, aquilo. Então, essa canção, no sentido de arranjos, no sentido de desprender do passado, ela foi muitíssimo importante para o disco.


1) “Navegante” – Depois disso, nós fizemos a canção “Navegante”, que é a que abre o disco. Na verdade, eu já tinha esse riff de “Navegante” há muito tempo. Escrevi no início dos anos 2000. E era uma canção, inicialmente, chamada “Tempestade Incidental”. Eu tinha composto ainda para a Starla, mas não foi… Na verdade eu só tinha o riff que começa a canção. A parte B e o refrão eu compus agora no início da pandemia. Mas é uma canção, também, muito otimista. E ela explica um pouco o processo de gravação deste disco. O refrão diz: “Atravessei o rio atrás dessa canção”. É uma metáfora que uso para explicar como a gente compôs esse disco. Atravessamos muitos rios. Ultrapassamos muitas barreiras – mentais, principalmente. Muitas limitações… na forma de compor, na forma de gravar, na forma de soar, principalmente. Quando comecei a gravar o disco, eu tinha uma ideia. No meio, já percebi que uma das coisas que eu mais queria que acontecesse era justamente soar completamente diferente de tudo que eu já soei na vida, desde a Starla ou na minha carreira solo, e fazer algo completamente diferente. Nesse exato momento, eu já estava ouvindo coisas muito diferentes. Uma das minhas influências principais para esse disco é a Billie Eilish. Eu me tornei um grande fã dela. E eu acho que as pessoas que me conhecem nunca iriam imaginar que eu ia me tornar fã de Billie Eilish. E eu ouvi muito o primeiro disco dela. E esse último que saiu, o “Happy Than Ever”, é uma obra-prima. Eu sou suspeito de falar porque sou, realmente, muito fã dela. Para mim, é o grande nome da música, hoje. Disparado o maior nome da música, hoje. Ela e o Tame Impala. Essa foi uma influência, também, muito boa. Não no sentido de soar igual. As pessoas acham que ao falar sobre influência, é sobre soar igual. Não é nesse sentido. É no sentido estético da coisa. E aí eu aproveitei essa canção antiga que eu tinha e a ideia era falar sobre paz. Sobre esse período. Claro que eu sei que a pandemia foi uma merda para muita gente. Para mim, também. Perdemos pessoas legais, perdemos nossa liberdade, perdemos nosso convívio, nosso social, mas, ao mesmo tempo, também, foi um momento em que você parou em casa, refletiu sobre muita coisa, e vê como você estava vivendo errado, como estava fazendo algumas coisas… Principalmente em relação a como esse mundo de hoje é. Com informações muito rápidas, vício de celular… É muita coisa. E aí “Navegantes” surgiu disso. Mais uma vez eu estava super preso a alguns conceitos, e Matheus vem e foi muito crucial. Ele vem e desata os nós. E aí a canção consegue respirar. Gosto muito dessa canção. Tenho um carinho muito grande por ela. Principalmente pela mensagem de… (pausa) não que seja uma mensagem de paz, mas, assim, de tranquilidade, sabe? Eu acho que ela passa uma mensagem de: “tranquilo, venha cá. Vamos resolver essa situação”. Acho que ela tem muito disso.


3) “Aproveite” – A última canção que ficou pronta para o disco entrou como faixa 3. Chama-se “Aproveite”. É uma canção que entrou aos 54 do segundo tempo (risos). Originalmente, seria uma canção chamada “Ela”, mas eu e Matheus não conseguimos finalizar. Essa foi uma canção que deu muito trabalho e que a gente mudou mil vezes. Nunca conseguimos ficar satisfeitos. Sabe quando você fica satisfeito com um resultado? E aí eu tive a ideia de fazer uma canção que falasse um pouco sobre como esse mundo atual é. E principalmente como, na pandemia, muitas pessoas reclamavam muito. Era uma época em que eu ainda tinha redes sociais. Eu saí de redes sociais. Acho, hoje, uma grande perda de tempo e de energia. Mas como as pessoas reclamavam muito. Eu sei que é óbvio que ninguém nunca via se acostumar a ficar preso dentro de casa, mas é importante, nessas horas, você procurar o lado positivo das coisas. E acho que tinham pessoas com uma negatividade muito grande com relação a tudo e não sabiam aproveitar as coisas. E aí eu vim com essa frase na cabeça: “Você está querendo muito, aproveite um pouco”. E que isso ficasse claro, também, que não é uma coisa de… (pausa) sabemos que no país em que a gente vive tem muitas pessoas que não têm nada. Então, nós somos privilegiados. Somos pessoas que têm alguma coisa. E, às vezes, eu achava que as pessoas tinham essa negatividade, entende? Então, era meio que uma coisa assim, sabe? Se você está querendo muito, aproveite um pouco do que a vida pode te dar. É uma tentativa de mensagem que… (pausa) eu e Matheus até brincamos na letra com isso. A parte do especial da música é a gente falando: “Eu sei que é tão óbvio tudo que eu digo, sei que é tão lógico tudo que eu digo. É tudo tão claro e por isso eu repito: você está pedindo muito, aproveite um pouco”. Porque é muito lógico, né? Às vezes a gente tem uma tendência a ter uma paixão pelo fracasso. Aquela coisa do: “Tá vendo? Viu que eu disse que eu ia perder? Viu que eu disse que eu ia errar?” Temos uma certa paixão por isso. Então, eu acho que é um pouco sobre isso. E é uma canção que surgiu e ela foi feita muito rápida. Talvez seja a única que eu me arrependa um pouco de não ter segurado um pouco mais. Mas foi aquela coisa. O disco já estava para sair, nós estávamos para finalizar. E saiu. Mas gosto muito do resultado final. Principalmente da letra. Eu a acho muito boa.


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