Especial: Os 10 filmes de Wong Kar-Wai

texto de Marcelo Costa

De 10 em 10 anos, desde 1952, a equipe da revista britânica de cinema Sight & Sound convida um vastíssimo número de críticos e cineastas buscando elencar os melhores filmes de todos os tempos e os melhores diretores. Na sexta enquete, em 2002, porém, os críticos acreditavam que algum novo filme (dos anos 90!) fosse surgir e derrubar os favoritos que se repetiram nas cinco décadas anteriores, e ficaram (negativamente) surpresos com a perpetuação dos cânones no Top 100.

Incomodados com a repetição da lista, década a década, decidiram fazer uma pequena enquete “rápida” apenas com 50 críticos locais pedindo os melhores filmes dos “últimos 25 anos” (entre 1976 e 2001). Essa lista despretensiosa surgiu com “Apocalipse Now”, de Francis Coppola, em 1º lugar; “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese em 2º e 4° lugares; “Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman, em 3º e “Veludo Azul”, de David Lynch, fechando o Top 5.

No Top 10, porém, um filme noventista chamava a atenção: “Chungking Express”, de Wong Kar-Wai, diretor chinês nascido em Hong Kong, beliscou a 8ª colocação, e não só: na lista de melhores diretores daquele período (1976/2001), Kar-Wai apareceu em 3º lugar atrás apenas do polonês Krzysztof Kieslowski (da “Trilogia das Cores”) e de… Scorsese em primeiro (após o diretor chinês a lista trazia Abbas Kiarostami, Michael Mann, David Lynch, Pedro Almodóvar, Francis Ford Coppola, Spike Lee e Ingmar Bergman).

Essa pequena votação sacudiu a próxima enquete, de 2012, e ainda que os 846 votantes tenham, enfim, destronado “Cidadão Kane” após cinco décadas colocando “Um Corpo Que Caí” no topo, a surpresa foi a presença de um filme do ano 2000 na 24ª colocação de todos os tempos: “Amor à Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai, era um dos únicos três filmes do novo século entre os 100 mais (“Mulholland Drive”, de David Lynch, surgiu em 28º e “YY”, de Edward Yang, em 93º).

O reconhecimento do cinema de Wong Kar-Wai foi merecidíssimo e surpreendeu apenas quem estava desatento. Se “Conflito Mortal”, sua estreia de 1988, era “(quase que) só mais um filme de máfia” para as massas chinesas (que compareceram em peso aos cinemas), a partir de “Dias Selvagens”, seu segundo filme, de 1990, o diretor levanta a bandeira da autoralidade e abraça os espaços vazios fazendo deles sua morada, local em que depositará toda sua fé nos desencontros românticos e em trilhas sonoras espertas.

Porém, como já disse outro, se o demônio quiser, todo Mick Jagger encontrará seu Keith Richards, e o desejo aqui foi realizado novamente: o cinema de Wong Kar-Wai muito provavelmente teria sido outro não fosse o encontro com o australiano Christopher Doyle, que fotografou sete dos dez filmes do diretor (tendo sido influência decisiva para os dois últimos) criando toda uma aura imagética do que se entende e se espera do cinema colaborativo dos dois.

Abaixo você tem breves relatos sobre cada um dos dez filmes de Wong Kar-Wai, todos lançados em mídia física no Brasil (DVD) e, alguns, disponíveis em streaming. Também saberá sobre alguns de seus curtas e sobre sua aproximação com o mercado publicitário em cinco peças criadas entre 2001 e 2021 que vampirizam até a alma a imagética karwaiana. Sobretudo adentrará o universo de um diretor classudo, romântico, sofrido e encantador. Esteje pronto. Com você, Wong Kar-Wai.

Título chinês: Wong gok ka moon (1988)
Título inglês: As Tears Go By
Título no Brasil: Conflito Mortal
Filme de estreia de Wong Kar-Wai na direção, “Conflito Mortal” (o pouco apropriado título nacional foca na violência sem prestar atenção ao romance) é o resultado de anos de trabalho de Kar-Wai no cinema local. Entre 1982 e 1987, ele colaborou em 12 roteiros da pujante indústria cinematográfica de Hong Kong (números oficiais, pois extraoficialmente o próprio Kar-Wai diz que chegou a trabalhar em mais de 50 filmes) e, assim que teve uma chance, agarrou a oportunidade de fazer seu primeiro filme. Inspirado em “Caminhos Perigosos” (1973), de Martin Scorsese, Wong Kar-Wai assina o roteiro de “Conflito Mortal” ao lado de Jeffrey Lau focando na história de um mafioso cobrador de dívidas (Andy Lau) que se apaixona pela prima (Maggie Cheung, vice Miss Hong Kong 1983 e presença marcante em diversos filmes do cineasta) ao mesmo tempo em que, frequentemente, tem que salvar a pele de um amigo (Jacky Cheung) que causa problemas pedindo dinheiro emprestado que não pode pagar.

Essa estrutura já entrega o rumo da história (um homem dividido entre seu trabalho violento e o amor de sua vida), mas é interessante perceber o apreço por cores fortes (a fotografia de Andrew Lau será levada ao extremo em filmes posteriores, quando Chris Doyle assumir a posição) e por breves interlúdios românticos que antecedem o caos. A edição vacila em alguns momentos, mas isso não impediu que “Conflito Mortal” fizesse um enorme sucesso no circuito local de Hong Kong, e, a despeito de vários filmes posteriores de Kar-Wai terem conquistado o mundo, fosse o filme mais lucrativo do cineasta em Hong Kong até o lançamento de “O Grande Mestre”, seu filme derradeiro, em 2013. Na trilha sonora, destaque para “Take My Breath Away” em versão da chinesa Sandy Lam. “Conflito Mortal” recebeu nove indicações no Hong Kong Film Awards, que premiou apenas Jacky Cheung como Melhor Ator Coadjuvante e a direção de arte de William Chang. Apesar do reconhecimento, a principal função dessa estreia é, sem dúvida, abrir as portas do cinema local para o cineasta. E com a chave nas mãos, Wong Kar-Wai não iria desperdiçar a chance.


Título chinês: Ah Fei Zing Zyun (1990)
Título inglês: Days of Being Wild
Título no Brasil: Dias Selvagens
“Dias Selvagens” é o segundo registro de Wong Kar-Wai e primeiro filme autoral de uma trilogia involuntária de corações partidos que só seria completa com “2046”, 14 anos depois. Em entrevistas posteriores, Kar-Wai diria que “o amor é uma doença cujos efeitos destrutivos se mantêm a longo prazo”, e esta definição poderá ser acompanhada pelo espectador, que irá vislumbrar o drama de Su Lizhen (Maggie Cheung), uma garota tímida que é seduzida por Yuddi (Leslie Cheung) numa das cenas definidoras do cinema de Kar-Wai, logo a primeira do filme, em que o rapaz (inspirado no livro “Boquinhas Pintadas”, do argentino Manuel Puig5) provoca a moça dizendo que ela se lembrará sempre do minuto em que eles se conheceram (e, seduzida, ela se apaixonou por ele). O filme se passa em 1960 e Yuddi, filho adotado de uma mulher rica, só quer saber de encontrar sua mãe verdadeira, e essa obsessão irá vitimar todas as mulheres que passarem por seu caminho, Su Lizhen inclusa.

Desorientada com o fim, Su Lizhen passará noites e noites em claro, algumas acompanhando a ronda do policial 6117 (Andy Lau) por uma Hong Kong fantasma e chuvosa – de confidente, 6117 passará ao posto de apaixonado, e o amor irrealizado o acompanhará dai em diante. E há ainda Lulu/Mimi, outro personagem destinado a experimentar a imperfeição do amor. Primeira parceria do fotógrafo Christopher Doyle com Kar-Wai, “Dias Selvagens” é estiloso em sua cor esverdeada, em seus ângulos incomuns e em seus detalhes poéticos, e belíssimo em sua narrativa sobre amores irrealizados. Na trilha, destaque para “Perfídia” na versão de Xavier Cugat And His Orchestra. Nada disso, porém, salvou o filme do fracasso comercial (há uma lenda que diz que esta foi uma das produções mais caras da indústria de Hong Kong), o que fez com que o cineasta abandonasse a ideia da sequência sugerida na cena final, totalmente desconectada da história, mas conectada com o que viria a ser “Amor à Flor da Pele”: um jogador de cartas (Tony Leung Chiu-wai) se prepara cuidadosamente para sair de casa. Ele só reapareceria 10 anos depois… “Dias Selvagens” recebeu 10 indicações no Hong Kong Film Awards e ganhou cinco: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leslie Cheung), Melhor Fotografia (Christopher Doyle) e Melhor Direção de Arte (William Chang). Mais: numa votação da premiação, 14 anos depois, apareceu numa surpreendente posição de 3º lugar num Top 100 de todos os tempos do cinema chines (Kar-Wai cravaria seis filmes na lista)!


Título chinês: Dung Che Sai Duk (1994)
Título inglês: Ashes of Time
Título no Brasil: Cinzas do Passado
Após estrear com o filme policial “Conflito Mortal” em 1988, que fez sucesso no circuito local de Hong Kong, e chamar a atenção da crítica internacional com seu segundo longa, o excelente “Dias Selvagens” (1990), o cineasta chinês montou uma produtora para filmar este épico wuxia no deserto de Gobi com roteiro inspirado na famosa obra “The Legend of the Condor Heroes”. A produção megalômana começou em 1992 e em 1994, endividado e com o filme não concluído, Kar-Wai escreveu, dirigiu, produziu e lançou um filme de baixo orçamento (o deliciosamente ágil “Amores Expressos”) que saiu em julho enquanto “Cinzas do Passado” só estreou em setembro – no final de 1993, para levantar grana, ele já havia usado o elenco inteiro na produção de uma paródia cômica de “Cinzas do Passado” dirigida por Jeffrey Lau. O resultado final é um filme atípico do que se espera de Kar-Wai, afinal é um épico wuxia, gênero que mistura fantasia e artes marciais e que o Ocidente pôde se aproximar em “O Tigre e o Dragão” (2000), de Ang Lee, e “O Clã das Adagas Voadoras” (2004), de Zhang Yimou, mas que pouca relação tem com os desencontros amorosos em solitários espaços urbanos vistos no cinema tradicional do cineasta.

“Cinzas do Passado” se passa na China antiga e é sobre perdedores do amor… numa época medieval. O filme é dividido em cinco atos e Kar-Wai provoca ao colocar como protagonista (e humanizar) Ouyang Feng, que no livro é um antagonista cruel e odiado, e aqui, mesmo mantendo sua frieza e crueldade, exibe um coração partido. Na quinta história, alguém comenta: “Se o amor é uma competição, fui um perdedor desde o início”, no que a mulher que partiu o coração de Ouyang Feng comenta: “Sempre me achei vencedora, mas olhei no espelho e vi uma perdedora”. Infeliz, ela adoece. Não espere felicidade. Não há. Mas há um grande filme épico romanticamente trágico aonde é possível encontrar os perdedores de Kar-Wai entre passagens incríveis de fotografia que renderam a Christopher Doyle o prêmio no Festival de Veneza (o trabalho de Chris também foi reconhecido no Golden Horse Awards e no Hong Kong Film Awards – neste último, o filme ganhou três das nove categorias a que fora indicado). Insatisfeito com o resultado final de “Cinzas do Passado” desde seu lançamento em 1994, Wong Kar-Wai resolveu reeditar o filme e, após encontrar os negativos originais deteriorados em 1998, saiu em busca por cópias em salas da China e no exterior. Depois de conseguir encontrar alguns rolos, ele passou cinco anos entre restaurar, corrigir a cor e remontar o filme, que foi relançado como “Cinzas do Passado – Redux” em 2008, com sete minutos a menos (93 minutos contra os 100 do primeiro lançamento).


Título chinês: Chung Hing Sam Lam (1994)
Título inglês: Chungking Express
Título no Brasil: Amores Expressos
A produção de “Cinzas do Passado” foi tão custosa e longa que, nos intervalos, Wong Kar-Wai escreveu, finalizou e lançou este filme (antes!). No total, ele gastou três meses para terminar “Amores Expressos”, que era centrado em três histórias, mas apenas as duas primeiras foram filmadas (a terceira renderá o filme seguinte do cineasta). Trata-se de um Wong Kar-Wai clássico com edição a lá videoclipe, cortes frenéticos, filtros e ângulos estranhos, romances incertos, chuva constante, Hong Kong, câmeras lentas e, claro, cores fortes. “Amores Expressos” conta a história de dois policiais, o 223 e o 663. O primeiro logo no início promete: “Me apaixonarei por ela dentro de 57 horas”. Ela, no caso, é uma traficante jurada de morte que acabou de esbarrar nele numa fuga (Brigitte Lin, que também está em “Cinzas do Passado”). 223 não sabe que ela é criminosa e quer se apaixonar para esquecer May, que terminou com ele num 01 de abril (“Achei que fosse mentira”, ele dirá) – o espectador suspeitará que ela nem existe. Para esquecê-la, 223 acumula potes de abacaxi com vencimento em 01 de maio (ele quer esquecê-la em 30 dias, e comerá todos os potes na data) e se apaixona fugazmente.

Menos nonsese, a história do sonhador 663 (interpretado por Tony Leung, o ator favorito de Wong Kar-Wai, que está em 7 de seus 10 longas) o flagra sendo abandonado por uma bela aeromoça. Ele até tenta seduzir Faye (a cantora Faye Wong, que voltará a colaborar com Kar-Wai em “2046”), uma jovem atendente de lanchonete, mas desiste, e passa o tempo desejando que a ex volte. Então a ex, sabendo que ele é cliente da lanchonete, deixa com Faye uma carta de despedida com sua cópia da chave, que Faye toma para si e começa a visitar o apartamento do policial quando ele está no trabalho, visando redecorar o ambiente tirando tudo que remeta a ex, e colocando coisas suas. O final (de um filme urgente e delicioso) será um dos raramente felizes no cinema de Kar-Wai. “Amores Expressos” foi indicado em 11 categorias do Hong Kong Film Awards e ganhou quatro (concorrendo, inclusive, contra “Cinzas do Tempo”, que levou três prêmios): Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Tony Leung, que também levou o Golden Horse Awards) e Melhor Edição. Duas curiosidades: a trilha sonora (que tem “California Dreamin'” na versão original do The Mamas and the Papas) foi responsável por apresentar o dream pop ao público chinês – Cocteau Twins virou febre na cena local devido a “Bluebeard”, vertida para “Know Oneself and Each Other” e cantada por Faye Wong (ela também canta uma versão de “Dreams”, do Cranberries – e quem distribuiu o filme nos EUA foi a empresa de Quentin Tarantino, admirador de Kar-Wai.


Título chinês: Do Lok Tin Si (1995)
Título inglês: Fallen Angels
Título no Brasil: Anjos Caídos
História escrita inicialmente para fazer parte de “Amores Expressos”, mas cortada durante a produção para não alongar demais o filme, “Anjos Caídos” mantém as características principais de forma exibidas na produção anterior, mas também explora tonalidades (de cores e edição) que serão utilizadas e ampliadas em “Amor à Flor da Pele” (2000). A ligação com o filme anterior é direta já que o ator Takeshi Kaneshiro, que interpreta o policial 223 em “Amores Expressos”, retorna aqui em uma das duas histórias do filme como He Zhiwu, um ex-policial que ficou mudo ao comer um abacaxi enlatado que passou da validade, e se tornou um delinquente vivendo de bicos ilegais (conexão niilista que ditará o tom contrastante entre as duas obras). Ele vive na Chungking Mansions, habitação real conhecida como a mais barata de Hong Kong, e se apaixona por Charlie (Charlie Young, que também está em “Cinzas do Passado”), uma garota que vive um turbulento fim de relacionamento. Juntos eles atravessam noites enquanto ela lamenta o amor perdido, e ele aguarda uma chance. Nos intervalos, He Zhiwu toma sorvete com o pai, que está nas últimas. Na outra história, um matador profissional (que também vive na Chungking Mansions) chamado Wong Chi-ming (o ator e cantor Leon Lai) está querendo se aposentar, mas sua agente (a atriz e ex-miss Michelle Reis) não está muito confortável com a situação, e planeja vingança.

Há humor, tiroteio (com molho de tomate respingando na tela), perseguição, tensão e muito mais drama e desespero nestas duas histórias do que em todo o filme anterior, o que sugere acertada a divisão da trama em dois filmes, concedendo leveza a “Amores Expressos” e impacto a “Anjos Caídos”, uma obra que flagra quatro almas abandonadas vagando por uma Hong Kong tempestuosa enquanto, entorpecidos por uma felicidade artificial, fugaz e insatisfatória, aguardam o final de uma existência inexistente. Kar-Wai, porém, preferia ter filme um filme só: “Para mim, ‘Chungking Express’ e ‘Fallen Angels’ são um filme que deveria ter três horas de duração. Sempre achei que esses dois filmes deveriam ser vistos juntos. Os personagens principais são a própria cidade, a noite e o dia de Hong Kong. ‘Chungking Express’ e ‘Fallen Angels’ juntos são o brilhante e o escuro de Hong Kong”, definiu o diretor posteriormente. Na trilha sonora, Marianne Faithfull, Laurie Anderson e Massive Attack além de “Forget Him”, de Teresa Teng, vertida para “Wang Ji Ta” e cantada por Shirley Kwan. “Anjos Caídos” recebeu nove indicações no Hong Kong Film Awards e levou três: Melhor Atriz Coadjuvante (Karen Mok), Melhor Fotografia (Chris Doyle) e Melhor Trilha Sonora.


Título chinês: Chun gwong cha sit (1997)
Título inglês: Happy Together
Título no Brasil: Felizes Juntos
O sexto filme de Wong Kar-Wai se mantém firme tanto na estética audiovisual quanto no desejo de registrar amores fracassados, mas traz mudanças. A primeira é de cidade: sai Hong Kong e entra Buenos Aires. A segunda é de gênero com os casais heterossexuais deixando espaço para um casal gay inspirado traduzindo que os desastres do amor estão aí para tudo e todos. Ho Po-Wing (Tony Leungg) e Lai Yiu-Fai (Tony Leung) vivem um romance tóxico marcado por frequentes separações e reconciliações. Num dos momentos felizes, eles viajam para a Argentina, brigam na tentativa de conhecer as Cataratas do Iguaçu e se separam. Sem grana, Lai vai trabalhar como porteiro em um bar de tango enquanto Ho se prostitui. Para tentar saldar uma dívida com Lai, Ho rouba um homem e leva uma surra. Todo arrebentado, é abrigado por Lai em sua casa na área mais barra pesada do bairro de La Boca. Lai perdeu o emprego no bar de tango após bater no homem que espancou Ho e, a partir daí, o casal entra num jogo passional de forças: Ho tenta seduzir Lai, que resiste, mas o quer sobre seu controle, o que deixa Ho transtornado.

Paralelamente, uma terceira pessoa surge na trama: o taiwanês Chang (Chen Chang), que trabalha no mesmo restaurante chinês que Lai, causando um ciúme doentio em Ho – o romance começa a se estilhaçar quando cada um quer saber da vida sexual do outro nos rompimentos do relacionamento, tragédia clássica de qualquer história de amor – que decide deixar o apartamento. O trecho final (ainda que levemente feliz) é puro Kar-Wai, com os desencontros do amor estampados na tela. O cineasta ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes, Chris Doyle o de Melhor Fotografia no Golden Horse Awards (a maior premiação do cinema chinês) e Tony Leung (que atua em cinco dos dez filmes de Kar-Wai) o de Melhor Ator no Hong Kong Film Awards. A trilha traz Caetano cantando “Cucurucucu Paloma” cinco anos antes de “Fale com Ela”, de Almodovar, a clássica canção do Turtles que inspira o título em inglês numa versão de Danny Chung, muito Astor Piazolla e “Chunga’s Revenge”, de Frank Zappa, norteando o romance. Ainda que fechado em sua história e brilhante nos detalhes, “Felizes Juntos” soa (assim como o filme anterior) como um estudo de luzes e cenas para “Amor à Flor da Pele” (que verá reconstruída a cena do taxi), como se Kar-Wai precisasse ter caminhado tudo que caminhou no cinema para construir sua obra prima: o próximo filme.


Título chinês: Fa Yeung Nin Wa (2000)
Título inglês: In the Mood for Love
Título no Brasil: Amor à Flor da Pele
Em 1997, Wong Kar-Wai estava divulgando “Happy Together” em Paris, e foi jantar com a atriz Maggie Cheung, com quem não trabalhava desde “Cinzas do Passado”. No jantar, Maggie comentou que queria voltar a trabalhar com o cineasta, no que ele propôs a ideia de três curtas cujo mote central seria comida e teria ela ao lado de seu ator favorito, Tony Leung, em cena. Nascia o projeto “Three Stories About Food”, cuja ideia era ter três histórias que descrevessem como a comida afeta as pessoas e teriam como mote os seguintes temas: 1) Um sequestrador e a pessoa sequestrada 2) Um homem e uma mulher, vizinhos, cujos cônjuges estão tendo um caso 3) o proprietário de uma lanchonete e seus clientes. Eles filmaram a última história primeiro com Maggie e Tony Leung nos papeis que, futuramente, seriam de Norah Jones e Jude Law (e o filme viria a se chamar “My Blueberry Nights”). No que começaram a filmar a segunda história, Kar-Wai percebeu que ela tinha potencial e começou a acrescentar coisas e a história começou a ficar mais longa, o que fez com que o cineasta optasse em focar nela e esquecer a ideia da trilogia de curtas. Nascia “Amor à Flor da Pele”. Dez anos separam a produção de “Dias Selvagens” de “Amor à Flor da Pele”, mas na ideia de (uma nova) trilogia (não oficial) só se passaram dois: enquanto a história do primeiro filme acontece em 1960, as do segundo se iniciam em 1962, quando a secretária Su Lizhen (Maggie Cheung) e o jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung) alugam cômodos de apartamentos vizinhos num bairro de Hong Kong e se mudam no mesmo dia. Ambos são casados e se mudaram com seus conjugues, mas o espectador nunca os verá, porque um deles trabalha viajando muito e o outro está prestes a pôr fim a relação. Isolados em seus próprios mundos (e quartos), Su e Chow trocam olhares e palavras rápidas no corredor, mas se aproximam realmente quando ambos acreditam que seus pares estão os traindo… juntos.

A aproximação, de início, se dá de forma banal: eles se encontram para que Su ajude Chow a escrever uma história de artes marciais. Porém, ambos estão vivendo na (chuvosa) Hong Kong dos anos 60, e tanto as convenções sociais da época quanto a repressão feminina não permitem que eles possam ser vistos juntos constantemente. Chow, então, decide alugar um quarto (de número 2046) distante de onde eles vivem para que eles continuem se encontrando, e escrevendo as histórias, e se apaixonando silenciosamente. O desastre romântico é iminente, mas Wong Kar-Wai trata seus personagens com extrema delicadeza e respeito (e o filme com apaixonada sensualidade). A toda hora, Chow e Su repetem “não seremos como eles”, e Kar-Wai é tão sutil na verbalização da traição (“Hoje eu não quero voltar pra casa”, ela diz) que muitos espectadores ficam na dúvida se o romance foi concretizado, mas duas cenas extras do DVD (totalizando 15 minutos inéditos) explicitam o ato: no primeiro, o espectador é convidado ao quarto 2046, e na outra acompanha os caminhos tortuosos do “casal” nos anos 70. Nas duas cenas, mais beleza… e mais dor. “Amor à Flor da Pele” teve uma produção complicada: foram 15 meses de filmagens e mais um tanto de produção e pós, que se estenderam tanto que Christopher Doyle, em sua sexta colaboração com o cineasta, teve de sair do filme sendo substituído por Mark Lee Ping Bin. O resultado, porém, é a obra prima de Wong Kar-Wai e um dos filmes líricos da história do cinema (em tema, fotografia e trilha) sobre perda e desejo. É frequentemente listado como um dos melhores filmes do século 21 (na última votação da prestigiosa Sight & Sound de 2012, aparece numa honrosa 24ª posição) e foi inspiração para que Sofia Coppola fizesse “Lost in Translation”. O título em chinês deriva de uma música de mesmo nome de 1946 de Zhou Xuan. O título em inglês é inspirado no clássico “I’m in the Mood for Love”, que aparece aqui cantada por Briajn Ferry. Foi indicado em 12 categorias do Hong Kong Film Awards (ganhou cinco: Ator, Atriz, Direção de Arte, Figurino e Edição) e ganhou dois prêmios em Cannes (Melhor Ator e Grande Prêmio Técnico). Merecia mais, muito mais.


Título chinês: 2046 (2004)
Título inglês: 2046
Título no Brasil: 2046 – Os Segredos do Amor
Logo no início de “2046”, Mo Wan Chow (Tony Leung Chiu Wai) quer que Su Lizhen (interpretada por Gong Li) fuja com ele, mas ela joga o destino dos dois nas cartas (“2046” se conectando a última cena de “Dias Selvagens”), e, como podemos imaginar, está lá mais um coração partido estendido no chão. Kar-Wai retorna ao reino dos infelizes numa fábula de quase ficção científica que confirma a crença do cineasta de que os desencontros românticos são a regra de um mundo em que as pessoas desejam o amor, mas nunca o encontram. Assim como seu filme anterior (algumas cenas, inclusive, são sobras de “Amor à Flor da Pele”), “2046” destaca uma fotografia esplendorosa e longos silêncios que são preenchidos por uma belíssima trilha sonora. O número 2046 é um emaranhado de coisas que se misturam e fazem a cama para os personagens sofredores desse drama eterno chamado amor: no quarto 2046, o jornalista e jogador de pôquer Mo (Tony Leung) escreve um romance (chamado “2046”) sobre um local no futuro (2046) que guarda memórias e desejos perdidos, e só é possível chegar lá através de um trem especial futurista. No entanto, se para resgatar essas memórias é preciso ir para 2046, é impossível voltar de lá.

Mo guarda uma série de paixões desfeitas e tratará de deixar mais um rastro de corações partidos pelo caminho. Chega a doer o peito acompanhar Bai Ling (a bela Zhang Ziyi), que oferece resistência inicial a Mo (tal qual Su ofereceu a Yuddi em “Dias Selvagens”) para depois cair de joelhos com sonhos de amor desfeitos escorrendo entre os dedos. No tempo futuro do livro, marcas do passado retornam como os androides SLZ 1960 (Maggie Lung), CC 1966 (Chang Chen) e Lulu/Mimi (Carina Lau), e a frase que ecoará no peito do espectador será: “O amor é uma questão de timing: de nada vale encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde” (a cena em que Mo dorme no ombro de Bai no taxi, citando “Amor à Flor da Pele”, exemplifica isso a perfeição). Kar-Wai expõe pessoas que nunca chegam na hora certa e que, por isso, estão condenadas ao sofrimento romântico. Um filme trágico, mas assustadoramente real, que não versa sobre os segredos do amor, como pretensamente supõe revelar o subtítulo nacional, porque, afinal, o amor não tem nenhum segredo: quem ama, sofre. Anote. E assista!

A trilha adapta músicas de filmes como “Querelle” (de Rainer Werner Fassbinder), “De Repente, num Domingo” )(de  François Truffaut) e do “Décalogo” (de Krzysztof Kieślowski), entre outros. “2046” foi indicado em 12 categorias do Hong Kong Awards e venceu 6: Melhor Ator (Tony Leung), Melhor Atriz (Zhang Ziyi), Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora Original (os dois também no Golden Horse Awards).


Título inglês: “My Blueberry Nights” (2007)
Título no Brasil: “Um Beijo Roubado”
Desenvolvido a partir da terceira trama do projeto “Three Stories About Food” (1999), “My Blueberry Nights” narra à história de Elizabeth (a estreante em atuação Norah Jones), uma jovem que suspeita que seu namorado está lhe traindo. Ela vasculha detalhes interrogando Jeremy (Jude Law discreto), o dono de um café novaiorquino localizado na esquina da casa do namorado. Jeremy coleciona chaves não devolvidas de histórias de amor que não terminaram bem. Eles se tornam amigos. Ela descobre a traição e, obcecada, frequenta o café todos os dias devorando tortas de mirtilo e ouvindo as histórias de Jeremy, que começa a desejá-la. Assustada, ela deixa Nova York em busca de sanidade do coração. Parte (num road movie), mas segue mantendo contato com Jeremy através de postais (hábito tão demodê em tempos de internet, e tão romântico) enviados sem endereço. Ele tenta localizá-la, mas não a encontra. Quilômetros os separam, mas eles estão muito mais próximos – romanticamente – do que centenas de casais que dividem a mesma cama todas as noites em lugares tão díspares quanto São Paulo, Hong Kong ou Nova York. O “romance” dos dois, no entanto, não inspira compaixão, mas se o caso de amor de Arnie com Sue (David Strathairn e Rachel Weisz) não lhe deixar sem ar, é melhor consultar o Dr. William Butler Yeats, pois a chance de seu coração ter perdido o ponto cardíaco romântico é grande.

São nos fragmentos secundários que Kar-Wai exercita sua crença nos desencontros, e consegue alcançar (por mais rápidas que sejam as passagens) a beleza de “Amor à Flor da Pele” e “2046″. A rigor, ele ainda conta suas histórias com delicadeza, calma e segurança, iluminando a tela com imagens que se sobrepõe valorizando tons verdes e vermelhos (Darius Khondji fotografa o filme no lugar de Chris Doyle, que filmou os sete filmes anteriores do diretor). As vidas semidestruídas dos personagens secundários, que precisam recomeçar do zero após terremotos emocionais, rendem bons momentos na tela (Natalie Portman está sensacional com sotaque texano abandonada no fim do mundo), mas não chegam a dar unidade ao filme. Hollywood parece ter amolecido a crença do chinês nos desencontros românticos. Seu primeiro e único filme em língua inglesa é um drama que, em grande parte do tempo, traz sua assinatura de bom contador de histórias trágicas de amor envolvidas em belas fotografias, mas cede as convenções do mercado norte-americano ao premiar seu personagem principal com a oportunidade de recomeçar após ser jogado no reino dos corações partidos. Poderia ser entendido como uma segunda chance do cineasta aos românticos, se as entrelinhas não fossem notadamente cruéis. O resultado é um filme menor de Wong Kar-Wai, que não se desonra sua cinematografia, decepciona quem esperava algo no nível das obras anteriores. A trilha traz Mavis Staples, Cassandra Wilson (cantando Harvest Moon, de Neil Young) e, claro Norah Jones. Mas quem brilha é Cat Power, que faz uma ponta, cantando “Greatest”.


Título chinês: Yi dai zong shi (2013)
Título inglês: The Grandmaster
Título no Brasil: O Grande Mestre
O 10º e último longa-metragem de Wong Kar-Wai começou a ser produzido em 2008 e só foi lançado cinco anos depois, parte porque o ator Tony Leung quebrou o braço nas aulas de artes marciais para interpretar o personagem principal do filme, e também porque Kar-Wai teve que cortar muito do filme, trabalhando na montagem por dois anos (!) para que ele não ultrapasse (tanto) às duas de projeção. Não à toa, o filme tem três versões: o corte chinês com 130 minutos, o europeu (reproduzido no Brasil) de 123 minutos e o estadunidense com 108 minutos. Esses cortes fizeram com que a profusão de personagens (são três “principais” e mais 18 no entorno dos três) perdesse em profundidade (principalmente Ma San) e que a história, como um todo, soasse confusa… lindamente (a fotografia ficou a cargo de Philippe Le Sourd) e sonoramente brilhantemente confusa. Em linhas breves, o cineasta busca homenagear Ip Man, mestre de Bruce Lee, que é interpretado com galhardia por Tony Leung. A história se passa nos anos 1940 e 1950, e o cineasta coloca como pano de fundo alguns de seus temas caros (a divisão entre China e Hong Kong, as tragédias românticas) enquanto segue primeiramente Ip, que é escolhido para representar a escola do Sul de kung fu num desafio contra o grande mestre do Norte que está pra se aposentar.

Após alguns testes com mestres locais, Ip parte para enfrentar Gong Yutian, o lendário velho mestre do Norte, e numa luta filosófica que consiste em Ip desmantelar uma bolacha nas mãos de Yutian (a bolacha é a bandeira da China), ele sai vencedor. A história ganha densidade e foco quando a filha de Yutian, Gong Er (Zhang Ziyi), desafia lp em busca da honra da família: “Kung Fu é precisão”, eles concordam, acertando que quem quebrar um móvel durante a luta será o perdedor. Com momentos de sensualidade, a luta termina com a vitória dela depois que Ip quebra um degrau enquanto a salva de cair. Ela ganha a luta, mas perde o coração (e eles vão passar anos trocando cartas). Não que lp vá se sair melhor: a Segunda Guerra Sino-Japonesa acaba vitimando duas de suas filhas pequenas, e o mestre acaba se separando da esposa e caindo na pobreza. Mais de 10 anos depois, quando começar a se reerguer lecionando numa pequena escola de artes marciais em Hong Kong, lp ainda terá um último encontro com Er além de começar a treinar um garoto que viria a se tornar Bruce Lee (há muito mais nas subtramas). A trilha foi composta por Shigeru Umebayashi e Nathaniel Méchaly, mas contém duas peças de Ennio Morricone (entre elas, “Once Upon a Time in America: Deborah’s Theme”). Belo e grandioso, ainda que complexo e levemente desfocado devido aos cortes, “O Grande Mestre” recebeu duas indicações ao Oscar (as únicas da carreira de Kar-Wai), em Melhor Fotografia e Melhor Figurino; 12 indicações no Golden Horse Awards, da qual ganhou 6 (nenhuma das principais) e 14 indicações ao Hong Kong Awards da qual venceu 12 (Tony Leung ficou sem o prêmio de Melhor Ator!) fechando de maneira elegante uma filmografia imperdível.


CURTAS
“Eros”, 2004
Filme coletivo que tem como tema um olhar particular sobre o erotismo, o amor e o desejo reunindo um diretor americano (Steven Soderbergh), um europeu (Michelangelo Antonioni no auge de seus 92 anos – ele morreria aos 94) e um oriental (Wong Kar-Wai), “Eros” soa desigual, mas segue interessante – e traz Caetano cantando “Antonioni” nos intervalos. O mestre italiano abre a obra com “The Dangerous Thread of Things” tateando temas caros (a incomunicabilidade entre as pessoas, a sedução da juventude) ao flagrar um casal na faixa dos 40 anos num momento de ruptura. Eles se separam e, em momentos distintos, encontram a mesma bela jovem pelo caminho (Luisa Ranieri) numa história bastante solta. Steven Soderbergh, por sua vez, para falar sobre amor e desejo fala sobre… trabalho e bloqueio criativo em “Equilibrium” (quer algo mais made in USA do que isso?). Divertidamente cômico (ainda que desconectado dos temas), o cineasta coloca Robert Downey Jr. deitado num sofá enquanto narra um sonho recorrente ao seu psicanalista, interpretado por Alan Arkin (os dois estão sensacionais). Ok, para não dizer que não tem erotismo há Ele Keats, belíssima.

Fechando o projeto, Wong Kar-Wai apresenta o curta “The Hand”, que conta a história de um jovem aprendiz de costureiro (Chang Chen) que é seduzido por uma bela cortesã (Gong Li). Disposta a ostentar os mais belos vestidos, a cortesã convoca o jovem costureiro a sua casa quando está com um amante. Na sala, ele ouve o coito. Assim que o homem sai, o costureiro é chamado ao quarto da cortesã, que o observa excitado e… o masturba. Não precisa muito mais do que isso para tê-lo em suas mãos para o resto da vida – e dá-lhe sofrimento. Como um servo apaixonado, o costureiro se dedicará de corpo e alma à cortesã, sem pedir nada em troca, só esperando uma chance, o seu momento. Com (novamente) fotografia caprichada de Chris Doyle, Kar-Wai consegue aprofundar os temas do projeto com a dor e a delícia que eles merecem (e no quesito dores de amor, Kar-Wai sabe em quais feridas tocar) no melhor dos três curtas. No computo geral, “Eros”, ainda que desequilibrado e descompromissado é um bom passatempo e, em alguns momentos, surpreendentemente perspicaz.


“I Travelled 9000 km to Give It to You”, 2007
Integrante da antologia “Cada Um Com Seu Cinema” lançada pelo Festival de Cannes em seu 60º aniversário, e que trazia 36 diretores de 25 países (incluindo Theo Angelopoulos, Nanni Moretti, os Irmãos Dardenne e os Irmãos Coen, Amos Gitai, Jane Campion, Lars von Trier, Gus Van Sant, David Lynch, Win Wenders, Walter Salles, Manoel de Oliveira, David Cronenberg e Abbas Kiarostami, entre tantos outros) filmando histórias de três minutos de duração, o curta “I Travelled 9000 km to Give It to You”, de Wong Kar-Wai, flagra um rapaz em um cinema relembrando quando esteve no mesmo local com sua amada (o espectador não vê seu rosto) assistindo a “Alphaville”, de Godard. Ela parte uma bergamota, dá metade para ele, que começa a acariciá-la até a paixão explodir. No entanto, ela usa uma aliança de noivado, ele não. Drama curtinho, mas essencialmente Kar-Wai.


PEÇAS PUBLICITÁRIAS

“The Hire: The Follow”, 2001
Em 2001, a Bayerische Motoren Werke, também conhecida como BMW, colocou um monte de dinheiro nas mãos de David Fincher e encomendou oito curtas comerciais para serem transmitidos via webcast. A estrela, claro, deveria ser o carro, mas Fincher convocou diretores do calibre de Ang Lee, Guy Ritchie (que trouxe consigo Madonna), Alejandro González Iñárritu, John Woo, Tony Scott e Wong Kar-Wai, entre outros – sem contar as estrelas de Hollywood. Não há conexão de trama entre os curtas, e entre perseguições, tiroteios e muita ação, “The Follow”, o curta do diretor chinês, é o único que destoa do todo, por ser mais classudo, lento e dramático. Na história, Clive Owen é um motorista que é contratado por um amigo, Forest Whitaker, para seguir a esposa (a modelo brasileira Adriana Lima) de um ator paranoico (Mickey Rourke) que ele assessora. O maridão acredita que sua amada está lhe traindo, e exige o serviço para tentar descobrir a verdade. O motorista, então, meio a contragosto, passa a seguir a esposa do ator e, enquanto faz isso, dá uma aulinha de como se portar durante uma perseguição. Kar-Wai imprime sua assinatura elegante nos quase 9 minutos do curta (disponível no Youtube), que foi escrito por Andrew Kevin Walker e teve fotografia de Harris Savides, mas não consegue desvincular o resultado final de uma peça publicitária – talvez nem quisesse, talvez nem pudesse. Vale como curiosidade.

There’s Only One Sun, Phillips (2007)
Deja-Vu, Chivas Regal (2012)
Typhoon Planet, Paul & Shark (2017)
When There’s Love There’s a Way, Mercedes (2021)
Wong Kar-Wai assinou a direção de mais de uma dúzia de peças publicitárias, mas só em quatro delas ele escreveu o roteiro: na deliciosamente futurista “There’s Only One Sun”, da Phillips, num clima que choca “Blade Runner” com “2046”; em “Deja Vu”, romance de menos de três minutos filmado no Umaid Bhawan Palace, na Índia, que flagra um homem (Du Juan) comprando um uísque Chivas Regal num leilão para beber junto a sua amada (Chang Chen) após a repetição de um milagre (e que traz a frase: “o amor é como o gelo: quanto tempo você consegue segurá-lo?”); “Typhoon Planet”, para marcar a entrada da etiqueta italiana de roupas esportivas Paul & Shark no Oriente; E “When There’s Love There’s a Way”, peça mais tradicional produzida para a Mercedes em 2021. Para encerrar, um raro clipe dirigido pelo cineasta chinês: “Shadows”, de DJ Shadow, em 2002.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

Leia também:
– Três filmes: Lukas Moodysson 2002, 2004, 2009 (aqui)
– Filmografia comentada: os 26 filmes de Billy Wilder (aqui)
– Filmografia comentada: os 25 filmes de François Truffaut (aqui)
– Filmografia comentada: os 24 filmes de Federico Fellini (aqui)
– Filmografia comentada: os 10 primeiros filmes de Godard(aqui)
– Três filmes: Domingos de Oliveira 1966, 2002, 2011 (aqui)
– Três filmes: Domingos de Oliveira 1971, 1998, 2005 (aqui)
– Três filmes: Irmãos Coen 1984, 1987, 1991 (aqui)
– Três filmes: Martin Scorsese 1977, 1981, 1993 (aqui)
– Três filmes: Audrey Hepburn 1953, 1956, 1964 (aqui)
– Três filmes: Jean Renoir 1937, 1938, 1939 (aqui)
– Três filmes: Howard Hawks 1938, 1941, 1944 (aqui)
– Três filmes: Howard Hawks 1940, 1952, 1953 (aqui)

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