Entrevista: de Manaus, o trio O Tronxo fala sobre seu disco de estreia e o show festejado no Festival Casarão 2022

entrevista por Marcelo Costa
fotos por Bruno Capelas

Surgido como um duo instrumental de bateria e guitarra em 2013, em Manaus, e com formação fixa de trio desde 2018 (com o acréscimo do contrabaixo), o Tronxo foi uma das surpresas mais agradáveis do Festival Casarão 2022, que aconteceu em maio em Porto Velho. Sem muito alarde, Rafael Borges (guitarra), Ajotta (bateria) e Luiz Roberto Góes (baixo) adentraram o segundo palco do festival, anunciados com pompa por Daniel Groove, no primeiro dia do evento, e conquistaram o público, que foi se aproximando para prestar mais atenção no som caprichado que saia pelas caixas.

“Bastante inspirados por bandas como Mars Volta e Explosions in the Sky, mas com um bocadinho de carimbó e guitarrada, o grupo traz bateria sacolejante (cortesia de Ajota) e linhas de guitarras muito bem trabalhadas por Rafa, enquanto o baixista Luiz faz a cama pra tudo soar fino”, descreveu Bruno Capelas no balanço do Festival Casarão publicado no Scream & Yell, e, na entrevista abaixo, eles acrescentam Macaco Bong no caldeirão de influências além da energia da Amazônia e uma busca por “tentar fazer alguma coisa fora do padrão, tentar criar alguma coisa nova que nem a gente conhecia”, nas palavras de Rafa.

Em uma conversa animada no backstage do Casarão, o trio conta a história da banda, fala sobre o primeiro álbum, “Dança Cósmica”, lançado em 2021 no meio da pandemia, anuncia o lançamento de um novo EP para julho e lista alguns nomes interessantes da cena de Manaus – assista a alguns clipes no final do texto. Eles ainda falam dos planos de fazer um intercâmbio com bandas de outros estados e comemoram a repercussão do show no festival rondoniense: “Estávamos nervosos, mas estávamos com sangue no olho”, revela Ajotta. “No final foi massa, uma energia muito boa”, completa. Leia o papo e ouça o som d’O Tronxo.

Primeiro, gostaria de começar falando do show de vocês no Casarão: a gente não conhecia vocês, muita gente aqui não conhecia vocês, e, de repente, vocês fizeram um dos melhores shows do primeiro dia. Toda rodinha que a gente chegava alguém ou estava falando de vocês ou perguntava: “Vocês viram o show do Tronxo ontem? Foi demais”. Então eu quero saber com é sair de Manaus para vir tocar em um festival em Porto Velho e fazer um dos grandes shows do evento?
Rafael: A gente lançou um disco em 2020, durante a pandemia, e esse foi o nosso primeiro show depois do lançamento. A gente não tinha tocado o disco nem em Manaus ainda. Viemos para o festival meio na ansiedade, porque nunca tínhamos vindo para cá, mas bastou entrar no palco e começar a tocar que começou a quebrar o gelo. Muito massa ver que a galera estava curtindo um som instrumental de Manaus.

Luiz: Foi meio inesperado o resultado do nosso show porque, como você falou, não conheciam a gente (aqui). Não tínhamos ideia de como (o público) ia reagir ao som instrumental, sem ter uma voz para chamar, mas quando chegamos para tocar a primeira música, todo mundo tremendo (risos), foi quebrando o gelo. E foi muto bom. É muito bom voltar depois de uma pandemia. A gente gravou o disco e ficou lá não podendo fazer muita coisa, mas, pela resposta da galera, deu tudo certo.

Ajotta: Era uma expectativa e nós estávamos nervosos, isso rola muito, mas também estávamos com sangue no olho. Nosso show era às 21h (nota: eles foram a quinta banda a se apresentar na noite) e não sabíamos se ia ter gente, mas pensamos que se tivesse três pessoas ou quatro seria com a mesma intensidade que se tivesse um monte de gente. No final foi massa, uma energia muito boa.

Como surgiu a ideia de ter uma banda instrumental na Amazônia? Porque é inusitado, mas também é normal. Quando vocês começaram a tocar, nos olhamos e dissemos: “Tomara que eles não cantem” (risos). Porque o instrumental estava tão bom que ficamos com medo de entrar um vocal e tirar a aura que estava rolando…
Rafael: A gente é da Amazônia e tal, mas tentamos fazer um som que saia de dentro (da gente) mesmo. Deixar a coisas rolar, sentir… As músicas sempre começaram com temas. A gente traz um tema e vai trabalhando isso, querendo sentir, deixando o negócio explodir. O fato de sermos da Amazônia… acho que tem alguma coisa ali, algum mistério, alguma coisa que a gente coloca no som. Não tem como escapar disso, está dentro da gente.

Luiz: É a energia da Amazônia.

Mas ser instrumental foi natural? Quando vocês montaram a banda vocês pensaram: não queremos um vocalista…
Rafael: Sim. A gente pirava no Explosions In The Sky, que é uma banda foda que a gente começou a ouvir muito.

Ajotta: Antes ainda, eu descobri a música instrumental com o Macaco Bong, saca. E depois chamei o Rafael pra fazer um som…

Rafael: Ele chegou pra mim na época, era uma outra situação, com essa ideia de uma banda instrumental e eu fiquei: “instrumental, bicho?”. Eu nem imaginava o universo que era… Depois, quando começamos a trabalhar, meu irmão, era um negócio de sentir mesmo. A gente começava a tocar e, quando via, já estava longe. A música acabava e a gente ficava: “Caralho, meu irmão”.

Ajotta: Isso porque o nosso método de composição é muito natural, a gente não fica batendo cabeça. A gente entra no estúdio e o negócio sai muito rápido.

Rafael: A gente acaba tendo que dar uma estruturada, porque se deixar muito solto… mas sempre deixamos um espacinho…

Ajotta: …pra doidera.

Rafael, Ajotta e Luiz em ação no Festival Casarão / Foto de Bruno Capelas

Você foi o último a entrar na banda, Luiz?
Luiz: Isso. Eles começaram como um duo e eu entrei na banda em 2018…

Rafael: Nós íamos participar de um concurso de jazz e o chamamos. Nós já o conhecíamos, mas tivemos várias formações. Teve uma época com só eu e Ajotta, um duo guitarra e bateria. Fizemos shows assim em Curitiba e Floripa, a galera pirou, ninguém sabia quem era O Tronxo…

Ajotta: Era a época das músicas de 30 minutos… (risos) um bagulho doido (mais risos).

Rafael: Depois tivemos mais dois baixistas, que se revezaram, até a chegada do Luiz, que é nossa formação mais fixa…

Luiz: Até agora os milhões não chegaram, mas estamos batalhando (risos)

O álbum “Dança Cósmica” foi gravado com essa formação?
Todos: Isso.

Luiz: E é um ao vivo de estúdio, o Ajotta na sala de bateria e eu e o Rafael na sala de produção tocando junto.

Rafael: Nós ganhamos um edital emergencial, o Conexões Culturais, no Amazonas, da Lei Aldir Blanc, e tivemos um mês para entregar tudo. Pensamos: “Que loucura é essa, mas bora fazer”. A gente correu, correu e correu, mas deu tudo certo. Por isso foi ao vivo em estúdio, mas depois fizemos alguns overdubs…

Luiz: Mas a essência é orgânica.

Rafael: Isso.

E é o primeiro disco de vocês?
Rafael: É. Nós temos algumas gravações, que lançamos no Youtube, mas bonitinho, nas plataformas, é o “Dança Cósmica”.

O que vem pela frente? O que vocês estão aprontando agora?
Rafael: Temos um EP de três músicas vindo por aí. Já vou adiantar o nome…

Luiz: Notícia quente, hein (risos)

Rafael: O nome do EP vai ser “Devir”. Serão três músicas, uma delas sem metrônomo, bem real, bem solto, bem essência da banda, algo que a gente quer preservar, a experimentação, a improvisação. E vão ter outras duas músicas… mais organizadinhas, mas na mesma pegada. Deve sair em julho. Vamos gravar assim que a gente voltar para Manaus.

Falando em Manaus, como está a cena musical lá?
Rafael: Melhorou muito. Muito. Antigamente rolava muito cover e hoje em dia a galera já está dando mais valor (ao trabalho autoral). Tem muito artista foda lá, como a Karen Francis, que irá tocar no Primavera Sound São Paulo (no final do ano), é uma cantora incrível. Estão começando a aparecer outros nomes, os trabalhos estão aumentando de nível, está pintando edital, a galera está fazendo a coisa direito, sabe. A consequência disso tudo são artistas aparecendo mais. No nosso caso, queremos fazer um intercambio maior com bandas de outros estados, e esse é um dos motivos da gente estar aqui em Porto Velho, no Festival Casarão, pra conhecer a galera e tentar chamar pra lá. Estamos com a ideia de fazer um festival em Manaus pra chamar mais gente. Conhecemos o Daniel Groove aqui, que cara foda, ele fez questão de apresentar o nosso show no Casarão. São quatro dias de festival… muita banda foda…

Luiz: Eu acho que a cena de Manaus alcança alguns picos altos, depois da uma caída. Tivemos a geração de 2006, a Tum Tum (Produções), que fez muitos eventos lá. Tivemos alguns festivais com casa cheia, bandas tocando, Rock Rocket, Forgotten Boys… mais a galera de Porto Velho, de Boa Vista, mas depois caiu. Em 2012 rolou um grande festival numa praça, com uma estrutura gigantesca, tocou Nação Zumbi, e depois caiu de novo. Agora está voltando. Ao mesmo tempo, estão surgindo muitos artistas de streaming que nós mesmos acabamos nem conhecendo, mas é uma geração nova com vários plays…

Indiquem algumas bandas legais que vale a pena conhecer…
Luiz: Pacato Plutão

Ajotta: Dpeids é uma banda muito doida. É rock podre…

Rafael: Tem a Luli Braga, a D’Água Negra, umas bandas bem doidas. Quem mais?

Todos: Platinados!

Luiz: Platinados é um clássico da cidade. Anos 90… o Ajotta toca com eles…

Ajotta: Cresci vendo os caras e hoje em dia toco com eles.

Rafael: Tem o Victor Xamã também, que é um rapper de Manaus que agora está em São Paulo e o cara é foda.

A entrevista está chegando nos finalmentes e Bruno Capelas aproveita para uma última pergunta:

É uma pergunta meio clichê, mas what the fuck O Tronxo?
Todos riem

Ajotta: Na real, quando surgiu O Tronxo, o som era muito caótico. Era tipo… tronxo mesmo.

Rafael: O tronxo é algo torto, malformado. A gente já estava com a ideia de tentar fazer alguma coisa fora do padrão, tentar criar alguma coisa nova que nem a gente conhecia. (Na vibe de) vamos entender o que é que é. Acho que foi isso. O Tronxo, depois, combinou muito mais. Começamos a perceber que estávamos pegando uma outra parada, mais acima, sei lá, como se as pessoas fossem tortas e o mundo muito louco. Acho que isso reflete no nosso som. A gente é humano, erra, acerta, ninguém é perfeito. É isso. Música torta com gente torta.

Ajotta: O Tronxo é 99% de vivência e 1% de parada artística.

Rafael: É sempre o processo da gente tentar entender o que é que é. A gente coloca a música ali e vai tentando entender como é que funciona.

Ajotta: A busca é infinita.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie, na Eldorado FM, e é autor de “Raios e Trovões – A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum”, editado pela Summus Editorial. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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