Cinema: “Vai Dar Nada” é o retorno de Jorge Furtado às comédias na primeira produção nacional do Paramout+

texto por Renan Guerra

“Vai dar nada” é o primeiro longa-metragem original do Paramount+ produzido no Brasil, que estreia agora (18 de maio), com exclusividade na plataforma de streaming. De caráter cômico e com nomes importantes do humor como Rafael Infante e Katiuscia Canoro, esse é mais um projeto do gaúcho Jorge Furtado voltado para o universo do streaming – ele havia dirigido “Todas as Mulheres do Mundo”, que estreou no Globoplay.

A nova produção do VIS, divisão de estúdios da Paramount, é uma comédia escrita por Furtado e Guel Arraes e dirigida por Furtado e Ana Luiza Azevedo, numa produção em parceria com a Casa de Cinema de Porto Alegre. Diferente de seus trabalhos anteriores na Globo, como a série “Amor e Sorte”, gravada na pandemia e de tom mais agridoce, aqui em “Vai Dar Nada” temos um retorno de Jorge Furtado para o universo de suas comédias de erros que se voltam para a sociedade brasileira, como nos já clássicos “O Homem que Copiava” (2004) e “Saneamento Básico, o filme” (2007).

Quando se pensa no formato de filmes, os dois últimos trabalhos de Furtado tinham outros tons: “Real Beleza” (2015) tentava tatear o universo dos dramas pequenos burgueses, em um resultado aquém do interessante; já “Rasga Coração” (2019) tinha um tom político mais denso, que conversa ainda com o Brasil de 2022 e vale ser visto por quem ainda não assistiu. Em “Vai Dar Nada”, por sua vez, o tom é outro: a comédia ganha o centro da narrativa, inclusive com uma mão mais intensa do que em outros momentos da filmografia de Jorge Furtado.

O filme conta a história de Kelson (Cauê Campos), um jovem ladrão de carros e motos que usa a sua motocicleta para escapar da polícia e conquistar seu amor, Neide (Fernanda Teixeira). O problema é que, para escapar de tantas perseguições, ele precisa de uma moto mais potente. Kelson então acaba comprando de Fernando (Rafael Infante), um golpista, a motocicleta que pertencia a um bandido perigoso, Brasilite (Heinz Limaverde). Fernando é casado com Suzi (Katiuscia Canoro), uma policial que participa (e muito) dos seus esquemas. Nesse universo adentram outros personagens, como Rebeca (Jéssica Barbosa), irmã de Kelson, e a advogada Marcia (Kizi Vaz).

É uma história que pende para a comédia pastelão, conversando com a linguagem mais pop das comédias atuais do cinema nacional, porém “Vai Dar Nada” tem um refinamento interessante em seu roteiro, que vem do olhar sábio de Furtado e Arraes. Os dois conseguem amarrar a história de humor e ação com uma narrativa interessante sobre essa ética que permeia quem comete delitos no Brasil, desde o roubo de motos até o uso da “gatonet”, tudo passa por essa ótica que extenua os limites entre o certo e o errado. Os furtos, os carros vendidos sem documentação e as falcatruas em torno do DPVAT, tudo ajuda a construir esses personagens que vivem quase à margem da legalidade, mas é interessante o quanto eles têm humanidades e complexidades que os aproximam do público.

Kelson é uma espécie de anti-herói que nos seduz pela atuação bem amarrada de Cauê Campos (ator que cresceu interpretando o Capim da série “Detetives do Prédio Azul” e que está no elenco de “Pantanal). Os outros destaques do filme ficam com Jéssica Barbosa (de “Besouro”), atriz baiana que conversa de forma extremamente natural com a câmera, e Katiuscia Canoro, que consegue dar uma amplitude maior a sua personagem, criando um distanciamento da sua imagem televisiva, tão marcada em humorísticos da Globo. Em contraponto, Rafael Infante é quase como o calcanhar de Aquiles do filme, pois sua interpretação histriônica parece um nível acima dos outros atores, o que soa estranho em algumas cenas.

De todo modo, essa mistura do elenco cria outro ponto interessante do filme: os sotaques e as linguagens aqui se mesclam. O filme foi gravado na grande Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, porém os personagens usam diferentes formas linguísticas, conectados mais às origens de cada ator, e é interessante como isso soa muito natural na tela. Para além desse detalhe da fala, vale destacar a trilha sonora do filme, que também passeia pelos diferentes ritmos nacionais, indo desde o rap produzido no RS até artistas de renome pop nacional, como Duda Beat. Na coletiva de imprensa do filme, Furtado destacou o seu cuidado com a trilha sonora, já que ele é também um apaixonado por música e disse “cinema a gente faz para ouvir música bem alta”.

“Vai Dar Nada” ainda mantém o humor clássico do cinema de Furtado, apresentando esse olhar tão aguçado sobre o cotidiano nacional, com essa malícia de quem entende os complexos problemas sociais do Brasil e sabe criar humor crítico a partir disso. Além disso, claro, surgem aqueles pequenos detalhes que formam as narrativas do diretor. Aqui, por exemplo, um mixer triturador portátil de cor vermelha rende diálogos divertidos no filme, assim como objetos curiosos rendiam em outros longas do diretor, vale lembrar da caneta de Pikachu que movimentava algumas cenas de “Meu Tio Matou um Cara” (2004) ou mesmo o chambre que o personagem de Lázaro Ramos busca comprar em “O Homem que Copiava” (2003).

Talvez “Vai dar nada” pode não ter para alguns espectadores a mesma magia que os filmes anteriores de Furtado, porém ainda assim é interessante ver o diretor de novo se aventurando em uma comédia de erros, com personagens atrapalhados, envolventes e divertidos num filme que é uma ótima opção para rir apesar de tudo, apesar dos problemas e por isso merece o play.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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