Cinema: “O Homem do Norte”, de Robert Eggers

por João Paulo Barreto

Em recente entrevista à GQ USA, Robert Eggers afirmou não possuir qualquer interesse em fazer um filme que se passe nos dias de hoje. “Tenho interesse em filmes sobre todas as épocas, exceto a que vivemos agora. Seja lá por qual razão, não me inspira. E você não pode filmar algo que não te inspire”, disse o cineasta de 38 anos. Com dois longas anteriores a denotar exatamente essa densa inspiração a partir dos antigos períodos temporais nos quais se baseiam e trazendo, agora, em mais um trabalho no qual os aspectos medievais de sua trama confirmam exatamente essa meta de Eggers em desbravar épocas históricas pregressas, o jovem realizador segue se consolidando fiel a um estilo cinematográfico que se tornou uma louvável marca.

Vindo do cinema de curta-metragem, Robert Eggers debutou magistralmente com 32 anos, dirigindo um dos mais aterrorizantes longas de 2015. Falado em um inglês arcaico, “A Bruxa” era baseado em lendas do folclore estadunidense, oriundas a partir de imigrantes europeus que trouxeram suas crenças e contos religiosos para o continente no século XVII. Quatro anos depois, em 2019, “O Farol” trazia um embate entre Willem Dafoe e Robert Pattinson, ambos faroleiros confinados em uma ilha remota, no estado do Maine, no começo do século XX. Lá, apenas seu local de trabalho e vigilância servia como meio de manter a sanidade. Repleto de referências oriundas de pinturas renascentista em seus enquadramentos, trata-se de uma obra cujo simbolismo reina em toda sua construção catártica.

Com “O Homem do Norte” (“The Northman”, 2022), o já experiente cineasta se aprofunda ainda mais no conceito de um cinema baseado em contos e lendas da antiguidade, e na exatidão de sua construção. Aqui, como o próprio nome entrega, são as lendas nórdicas que ganham destaque a partir de uma estrutura clássica de um arco de vingança. Na trama, que se passa na congelante Islândia 900 anos após a morte de Cristo, o guerreiro xamã viking Amleth (Alexander Skarsgård) retorna ao local de onde fugiu ainda menino no intuito de se vingar de Fjölnor, seu tio, assassino de seu pai, o rei Aurvandil (Ethan Hawke), e que tomou sua mãe (Nicole Kidman) como esposa. Em sua figura gutural e impressionantemente forte, Skarsgård traz uma selvageria assustadora nas cenas mais violentas, cuja sanguinolência nos remete a “Coração Valente” (1995), mas, aqui, a seriedade do seu tom concede ainda mais peso a toda motivação vingativa do protagonista.

Leitores familiarizados com os escritos de William Shakespeare, claro, irão enxergar muitos traços de “Hamlet” na história, mas, no entanto, isso se deve ao fato de que o bardo britânico retirou a premissa do seu clássico a partir de escritos dinamarqueses do começo do século XIII, no qual o “Conto de Amleth” pode ser lido e de onde Eggers, também, retirou a base para seu roteiro.

Sendo uma obra que referencia guerreiros vikings e deuses nórdicos como Odin, além dos salões de Valhalla (para onde seguem aqueles que perecem em batalhas) e suas Valquírias, amazonas a guiá-los até os seus portões, “O Homem do Norte” se torna uma excelente oportunidade para Eggers, juntamente ao co-roteirista Sjón (o mesmo de “Dançando no Escuro”, filme de 2000), inserirem em sua construção repleta de brutalidade e crueza, aspectos fantasiosos e lendários contidos na milenar cultura nórdica. Dentro dessa construção, tais aspectos surgem em seu desenvolvimento dramático e ilustram de maneira brilhante a exatidão histórica da precisa evolução narrativa do maestro Eggers.

A começar pela ideia do destino ao qual cada ser não pode escapar. Aqui, a figura de Björk interpretando a vidente a pontuar o inescapável futuro de Amleth, corrobora esse apuro visual e temático. E esse futuro tem na brutalidade de seu instinto animalesco a principal característica, principalmente quando ele se torna o guerreiro xamânico cuja mente influenciada por psicoativos o leva a um transe que o coloca exatamente como um criatura não mais humana, mas bestial, e que, às dentadas, destroça gargantas. A saga de Amleth, assim, se torna um reencontro daquela criatura irracionalmente violenta com sua origem infantil e ainda serena que, mesmo tendo na figura do pai um violento e belicoso rei, ainda conseguia enxergar alguma afeição naquele contato.

Mas a vingança aqui soa bem mais atrativa àquele homem que afirma não conhecer nada além do ódio. Porém, é através do amor e da percepção de um perpetuar de sua existência que sua ambição na busca por um fim se concretiza de modo trágico para si, mas pacífico e seguro para aquela que mais lhe importava. Na figura da Árvore da Vida da cultura nórdica viking, que aparece como uma das primeiras visões que Amleth, ainda criança, tem em seu primeiro transe, o futuro do guerreiro xamã surge selado pela tragédia, mas recompensado pela vingança.

“Você precisa escolher entre a bondade para com os seus, e o ódio para com seus inimigos”, afirma um guia espiritual a Amleth. Mesmo tendo escolhido ambos, é a cólera oriunda do segundo que selará seu destino.

Com os créditos finais a subir trazendo o nome de Robert Eggers, a sensação de estarmos diante de uma obra feita por alguém consciente das possibilidades narrativas do Cinema nos dá certo regozijo e uma bem-vinda curiosidade para o que está por vir. Ao que tudo indica, inclusive, será uma adaptação do clássico “Nosferatu” (1922), e tendo Willem Dafoe no papel principal. Oh, Odin! Guie esse bem-aventurado guerreiro da Sétima Arte por seus tortuosos caminhos. A cinefilia agradece.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

3 thoughts on “Cinema: “O Homem do Norte”, de Robert Eggers

    1. Com certeza um filme decepcionante.
      Atores espetaculares, mas que nesse filme não trouxeram suas potencialidades. Muito ruim.

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