Ao vivo: McFly vai além do “pop punk anos 2000” em show festejado em São Paulo

Texto e fotos por Fernando Yokota

Após dez anos de espera, dois deles causados pela pandemia, os fãs do McFly finalmente se reencontraram com a banda no recém rebatizado Espaço Unimed (o antigo Espaço das Américas) na primeira de duas apresentações na capital paulista.

Esses fãs, que cantavam quase qualquer coisa que saía pelo sistema de som, repetiam um fenômeno curioso da retomada dos shows, do público carente pela interação ao vivo da qual ficaram privados por mais de dois anos, e pareciam ansiosos para tirar o atraso.

Nem a falha técnica na guitarra de Danny Jones antes de “Star Girl”, nem a interrupção do show por conta de uma movimentação na pista por conta de uma moça que parecia ter perdido o celular (“achei que era um circle pit”, disse alguém da banda na hora) atrapalharam muito a diversão de quem havia encarado o frio para ir até a Barra Funda.

Com exceção de um bloco no meio do setlist, encabeçado pela mais recente “Josephine” (seguindo a regra implícita de que a música nova é a hora do público ir para o banheiro), a energia gerada pela interação entre a banda e o público foi alta durante as quase duas horas de apresentação.

Engavetado na categoria “bandas de pop punk dos anos 2000”, os ingleses tiveram a oportunidade de demonstrar ao público brasileiro que o rótulo não só é impreciso como também é injusto. Para além dos power chords e dos refrões com “ôôôs”, o quarteto incorpora elementos interessantes como as harmonias vocais remetendo aos Beach Boys (“All About You”) e arranjos mais dançantes (a ótima linha de baixo de ‘Happiness”, por exemplo).

Curiosamente, o problema com a voz de Tom Fletcher, que anunciou logo no início que provavelmente não conseguiria cantar como de costume (ele já havia avisado aos fãs no Instagram), serviu como ponto positivo para a banda. O baixista Dougie Poynter acabou por assumir uma parte considerável dos vocais, dando uma dinâmica extra ao intercalar partes com Danny Jones realçando as partes harmonizadas.

Mais que refrões pegajosos e guitarras distorcidas, o McFly desvia do paradigma estético não oficial do pop punk (estilo no qual, no limite, a banda na verdade nem se encaixa) estipulado por bandas como o Green Day das antigas, sendo menos So Cal punk rock e mais um Monkees com envelopagem millenial.

O baterista Harry Judd não toca para o metrônomo, mas toca com ele e com isso a banda evita integrar o rol de artistas que acabam se engessando com o clique no ouvido, proporcionando um espetáculo duro e sem vida. Mesmo nos momentos em que soa mais teatral (como em “Lies”), evocando referências mais recentes como o “The Black Parade” do My Chemical Romance, a banda não se esconde da lei dos “três acordes e a verdade” e traz um show com variedade musical (pelo menos para o estilo) e organicidade.

O McFly volta a se apresentar hoje, 18 de maio, no mesmo Espaço Unimed.

Setlist:

Red
Friday Night
Star Girl
One for the Radio
Lies
Transylvania
Josephine
Ultraviolet
Wild and Young
Growing Up
Happiness
Walk in the Sun
I’ve Got You
No Worries
All About You
POV
Corrupted
Too Close for Comfort
Dragonball

Falling in Love
5 Colours in Her Hair (com trechos de “Bad Guy”, de Lorde)
The Heart Never Lies

– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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