Entrevista: coletivo nórdico africano Monoswezi fala do álbum “Shanu”

entrevista por Marcelo Costa

Empolgante coletivo nórdico africano, o quinteto Monoswezi exibe o encontro de nacionalidades no próprio nome, contração das quatro nacionalidades dos membros fundadores: Moçambique (Mo), Noruega (No), Suécia (Swe) e Zimbábue (Zi). Tendo na voz maravilhosa da zimbabuana Hope Masike (que também toca percussão e o instrumento tradicional Mbira) um de seus cartões de visitas, o Monoswezi decidiu experimentar ainda mais em seu quinto disco, o recem-lançado “Shanu” (2021).

“Partimos para uma exploração de novos elementos como o mellotron e as guitarras”, conta o moçambicano Calu Tsemane (vocal, percussão e guitarra) em entrevista por e-mail ao Scream & Yell. O mellotron e o harmonium entram na sonoridade percussiva da banda introduzidos pelo noruegues Hallvard Godal, que ainda toca sax e clarinete. A cozinha da banda é sueca: Putte Johander no baixo e eventuais guitarras e Erik Nylander na bateria e percussão.

A formação do Monoswezi valoriza a importância dos intercambios culturais. Hallvard trabalhou em Moçambique em 2008 como parte de um intercâmbio cultural e conheceu Calu – os dois começaram a tocar juntos. Em 2009, Hope foi do Zimbábue para a Noruega como parte do mesmo programa de intercâmbio e Calu se mudou para o país nórdico. Hallvard complementa: “Conhecia Putte e Erik de outras bandas com quem trabalhava e sabia do interesse deles na música africana. Juntamos todos e o coletivo tomou forma”.

O Monoswezi já lançou quatro discos entre 2011 e 2017, e hiato de dois anos entre os lançamentos acabou aumentando por causa das restrições da pan- demia. Hallvard, Calu e Erik vivem na Noruega, perto da capital Oslo; Putte vive na Suécia, numa ilha chamada Koster que fica a apenas 1h30 de carro de Oslo; já Hope vive em Harare, Zimbábue. “Shanu” começou a ser gravado antes da pandemia, na Ocean Sound Recordings em Giske (Noruega), algumas gravações adicionais foram feitas durante uma turnê pela Índia, e outras no estúdio de Putte e Erik.

As letras do novo álbum revelam uma rica gama de diferentes temas, característica principal de Hope, uma contadora de histórias nata, com canções sobre perder as raízes e se distanciar da própria herança ( “Tsika Dzako”), sobre o problema contínuo da desigualdade entre gêneros, penoso para as mulheres (“We Crown You Nehanda”) e da ganância e egoísmo dos governantes (“Zvorema”). Abaixo, Calu fala um pouco mais sobre “Shanu” e o Monoswezi. Acompanhe!

Calu, como você vê “Shanu” em comparação aos quatro álbuns anteriores do Monoswezi? O que você percebe que mudou na sonoridade de vocês nesses 10 anos de discografia oficial?
“Shanu” para mim é uma verdadeira viagem sonora por causa da ousadia que tivemos nas composições e não só: todo o trabalho foi um processo muito divertido, desde a criação ou seja a concepção dos temas até a sua materialização pelo simples fato de nós termos partido para uma exploração de novos elementos como o melotron e guitarras. Isso criou uma nova dinâmica no meio de todo o processo criativo e experimental.

A faixa três do novo álbum se chama “Where is My Mbira?” e eu gostaria que você nos contasse um pouco sobre esse instrumento bastante particular que a Hope toca e que é essencial ao som do Monoswezi.
É um instrumento típico tradicional do Zimbabwe bem como duma parte do centro de Moçambique. É um instrumento com uma carga cultural e espiritual muito forte pelo fato de ter sido usado durante muitos anos como uma arma de combate ao mal que atormenta as nossas sociedades. Em algumas regiões, inicialmente, usava-se somente como componente importante durante cerimônias fúnebres para evocar os espíritos dos antepassados e pedir que recebam de braços abertos o ente querido recém partido. A Mbira também era usada como meio de comunicação entre o mundo dos vivos e dos mortos para pedir chuva nos tempos de seca, pedir proteção durante a caça, sorte no matrimônio, abundância durante a colheita… Então, a Mbira foi um instrumento com uma presença muito forte e importante no nosso cotidiano. Esta faixa foi uma verdadeira aventura porque gravei as guitarras de maneira muito simples, mas numa verdadeira viagem com o pensamento ligado em todas essas coisas que a Mbira representa.

O videoclipe de “Kuwonererwa” é incrível. Como funcionou essa colaboração com Ronald Kabicek?
A colaboração tornou-se possível porque o Hallvard Godal conhecia o Ronald, e estava familiarizado com alguns de seus trabalhos de que ele realmente gostava. Então Hallvard perguntou a ele se estava interessado em colaborar, e ele disse que sim! E nós concordamos que a música do vídeo seria a “Kuwonererwa”. Ele queria fazer algo relacionado às letras, mas fora isso ele estava totalmente livre. É um processo muito longo esse tipo de animação, uma combinação de filmagem física e animação digital, e tornando-as em um único universo. Ele trabalhou nisso por quase um ano, e acho que o resultado é ótimo! Um universo e uma atmosfera muito especiais, abertos e ainda muito ligados à música.

Há uma faixa cantada em português no álbum, “Um Pouco”, e eu gostaria de saber como ela nasceu? Era uma ideia ter uma canção em português no disco?
“Um Pouco” é uma música da minha autoria. Inicialmente eu queria usa-la no meu álbum solo, pois eu já a tocava num projeto onde componho as músicas e convido vários artistas para participarem, e nesse processo de busca de composições para a Monoswezi, a banda escolheu essa canção e assim foi. Não era ideia termos uma canção em português, mas isso acabou sendo um acidente de percurso e funcionou muitíssimo bem, porque geralmente quando gravamos um álbum, cada um de nós trás sugestões de música que tem para trazer para banda e assim funciona o processo todo. São muitas histórias nas canções e esta é verdadeiramente uma banda super boa de trabalhar. Liberdade total

Como é a relação de vocês com o Brasil? O que vocês conhecem daqui? É possível perceber a gênese da música africana em vários gêneros musicais brasileiros!
Bem, eu acho que nenhum de nós já esteve no Brasil, por isso pensamos no Brasil como um próximo destino para a banda. A relação que temos é muito vaga, mas, se calhar, para mim que sou de Moçambiqu, há a conexão de dois paises que tiveram uma experiência brutal de escravatura e colonização. Porque é possível perceber a gênese da música africana em vários gêneros brasileiros, foi muita informação levada pelos escravos. Isso porque a musica, para nós, tem sido um elemento muito importante na celebração da vida. A África contribuiu bastante na propagação de ritmos que vieram a ser base na criação de vários gêneros musicais. Muita coisa não está escrita, mas nota-se ao ouvido nu. hehehehehe

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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