Faixa a faixa: “Ofício da Solidão”, Kelton

introdução por Marcelo Costa
faixa a faixa por Kelton

Compositor e produtor musical autodidata bastante envolvido em bons projetos da nova cena brasiliense, Kelton lançou seu primeiro EP, “Manhã”, em 2013. De lá pra cá, produziu discos de Joe Silhueta e Beto Mejia (Móveis Coloniais de Acajú) tanto quanto um tributo brasileiro ao álbum “In Rainbows”, do Radiohead (no qual ele participa com uma versão de “House of Cards”) além de estender a discografia com o EP “Todo Amor do Mundo” (2014) e os álbuns “Distraído Concentrado” (2015) e “Lacunar” (2017).

Em 2018, Kelton achou que era a hora de fazer um disco mais calmo, um contraponto ao álbum “Lacunar”(2017), que acabara de sair e apontava para o rock. Começou a produção das canções, porém o projeto adormeceu. A pandemia permitiu que o músico brasiliense voltasse àquelas músicas. Assim nasceu seu novo EP, “Ofício da Solidão“, composto por 7 canções que exploram, em pouco mais de 20 minutos, a solitude de fazer um álbum e de viver a vida.

“O ‘Ofício da Solidão’ era pra ser um disco mais despretensioso, mas o surgimento da pandemia acabou intensificando o papel dele, que desde o início foi pensado pra ser experimentado com mais silêncio, um disco pra ser vivido fora da nossa rotina normal de trabalho, casa, festa, etc. Acho que era destino ele sair no meio dessa treta global”, observa Kelton.

E por mais que no título o disco fale em solidão, Kelton não esteve totalmente sozinho nesse processo. Três das canções são parceria com amigos de longa data. Pierre Cunha é co-autor em “Fronteira”, Guilherme Cobelo (Joe Silhueta) assina “Ateus Lençóis” e Paulo Ohana é o autor de “Cor de Terra”. Kelton divide a produção do álbum com Gustavo Halfeld (Joe Silhueta, Aiure, Almirante Shiva) e os violinos foram gravados por Tom Suassuna (Hungria, Cynthia Luz).

As músicas foram gravadas na Casacájá, casa/estúdio situada nas imediações de uma das mais movimentadas avenidas de Brasília. A dupla optou por não isolar totalmente o estúdio no momento da gravação e é possível ouvir sons da rua ao longo de todo álbum. O disco adota uma estética lofi e minimalista, com influência direta de artistas como Rômulo Fróes, Rodrigo Amarante e a norte-americana Adrianne Lenker.

“Ofício da Solidão” já está disponível nas plataformas de streaming e você pode baixar o encarte com fotos, letras e ficha técnica em https://www.kelton.com.br. “Eu Tento Te Inventar” e “Cor da Terra” ganharam clipes com direção de Pedro Ivo Pinheiro, e “Ateus Lençóis” traz David Murad na direção – as demais também terão seus respectivos registros videográficos. Especialmente para o Scream & Yell, Kelton se debruça, em texto e vídeo, sobre as canções de seu novo trabalho, resgatando momentos de inspiração, de conexão, de emoção. Leia (e assista) abaixo!

Faixa a Faixa – Kelton
“Ofício de Solidão”

01) “Fronteira” – Está música nasceu de um poema escrito pelo meu amigo Pierre Cunha, durante um período em que ele esteve na Rússia. O poema estava originalmente escrito em russo; ele traduziu o poema e me mandou. Eu peguei o violão e imediatamente fui cantando o que estava lendo, sem pensar muito nos acordes. A música ficou pronta em menos de cinco minutos, é um exemplo dessa magia de se fazer música em grupo, uma criação super espontânea e única. Além disso, a letra me pareceu perfeita para iniciar a narrativa desse disco: pensar uma fronteira entre a palavra e o silêncio, um lugar onde até mesmo a sensação física do batimento cardíaco se torna apenas mais uma abstração de um universo vasto construído pela nossa imaginação.

02) “Ninho” – Essa música foi composta em 2014 e por alguma razão não entrou em nenhum dos meus álbuns anteriores. Uma música despretensiosa de amor e saudade, bem à moda do que eu costumava fazer na época em que a compus… Uma curiosidade é que a versão dela tinha uma estrofe à mais, logo depois do primeiro refrão: “Meu vício/ É achar que um só vacilo/ Me leva ao precipício/ Ao lago onde mergulho/ A solidão/ Não me acostumo a nadar/ Sem te alcançar”. Hoje percebo que por muitos anos tive uma grande fixação por metáforas sobre morte e suicídio, o que é curioso porque eu nunca tive nenhum tipo de inclinação real nesse sentido. Acho que era apenas uma manifestação ultrarromântica mesmo, hoje vejo isso de forma diferente. Talvez seja por isso que acabei tirando essa estrofe da versão final.

03) “Ateus Lençóis” – Uma música que o Guilherme Cobelo me mandou por e-mail em meados de 2009, a gente tinha acabado de se conhecer. Lembro que nessa época era uma dificuldade danada pra gente mandar arquivos assim por e-mail, mas ele deu um jeito de descolar um gravador e me mandou algumas pérolas. Uma música que leva o romantismo para um outro lugar, com uma boa dose de humor e sensualidade.

04) “Eu Tento Te Inventar” – Eu tinha essa sequência de acordes guardada há alguns anos, como muitas que habitam meu telefone celular. Sempre gostei dela, mas nunca conseguia pensar uma letra que me agradasse. Quando decidi gravar esse disco, em julho de 2018, me obriguei a por uma letra nela e foi o que aconteceu. Olhando aqui nos meus arquivos, escrevi a letra de madrugada, três dias antes da gravação. De vez em quando gosto de me propor esses desafios criativos, estimulam demais a criatividade. Quanto à letra, acho que ela trata dessa temática da paixão a partir de um viés meio ambíguo, de um eu lírico que reconhece sua desconexão com a realidade, o aspecto fugidio daquilo que ele acredita desejar.

05) “Cor de Terra” – Uma música que o Paulo Ohana me mostrou em 2011, numa época em que a gente tocava junto. Recentemente fizemos uma live e ele me contou que concebeu essa música numa tarde de sol na UnB (mais precisamente num gramado próximo ao Instituto de Artes). É uma música que desde então ficou na minha cabeça e por alguma razão nunca calhou de o Paulo gravá-la. O engraçado é que quando lancei ela, a data acabou coincidindo com o lançamento do primeiro single do novo disco do Paulo. Rolou uma conspiração forte do universo aí!

06) “Café Amigo” – Essa música é dedicada à uma grande amiga minha, a Gabi. Eu havia começado ela sem saber pra onde tava indo. Por muito tempo essa música ficou na gaveta das canções inacabadas, até que um dia me bateu a lembrança de uma manhã em que eu voltava pra casa após uma noitada e acabei indo pra casa dela tomar café da manhã e curar a ressaca, aproveitando que ela acorda super cedo. A música fala dessas horas em que você pode contar com os amigos, nas baladas e principalmente nas ressacas!

07) “Coração Pesado” – Foi composta minutos antes de chegar ao local da gravação, dentro do Uber. Pra ser sincero, só terminei de compor gravando, pois como era uma ideia sem muita forma, cada take que eu tentava saia de um jeito diferente. O que tá no disco foi o único que eu senti que acertei de verdade. Acho interessante observar que ela faz um par com a primeira música do disco: o disco começa com um imperativo de suspensão da realidade e termina com a pura sensação física do cansaço, a realização de que é preciso descansar, que o coração pesado precisa de espaço, que algum recolhimento em face do mundo às vezes é necessário.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne. 

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