Faixa a faixa: Bonifrate comenta todas as músicas de “Corisco”

introdução por Marcelo Costa
faixa a faixa por Bonifrate

Nesses dias cinzas, de futuro incerto, em que aqui mesmo no Scream & Yell temos falado bastante do quanto a riquíssima geração dos anos 00 é mal documentada, o Supercordas talvez seja um dos melhores exemplos, afinal um clássico absoluto como “Seres Verdes ao Redor” (2006) não estar disponível nos portais de streaming é algo como se “Starry Night” fosse tirada do MoMA e guardada em algum lugar de acesso restrito – no caso dos Cordas, o blog (mu)shroom records, com tudo que você precisa deles, e um pouco mais. Porém, Supercordas é passado (ou melhor, História!) – a banda encerrou as atividades em 2016. E para colorir de azul os dias intensos que estamos vivendo, Pedro Bonifrate apresenta “Corisco”, seu terceiro disco solo.

Lançado digitalmente e em vinil pelo selo estadunidense OAR, casa dos Boogarins e do duo Guaxe, formado por Bonifrate e Dinho Almeida, “Corisco” reúne 10 novas canções, algumas delas gestadas ainda no tempo em que Bonifrate estava no Supercordas, outras finalizadas já no meio da pandemia. O músico carioca, radicado no bairro do Corisco, em Paraty (mas não nascido na cidade, como contou ao Scream & Yell em 2007), reuniu as canções de seu novo álbum, segundo ele mesmo, “tentando interpretar o mundo ao redor, e nele se sentindo perdido ou encontrado, mas sobretudo perdido”. Para isso, o artista muniu-se de um teclado Casio MT400v (“Que eu não troco por nada”, avisa), violão, guitarra, bateria, piano, baixo, samples de uma velha sinfonia (“talvez algo de Beethoven ou Schubert”) e gravou tudo sozinho, tendo a companhia do amigo e companheiro de Supercordas, Diogo Valentino, e da voz de Betina Rodrigues (duetando em “Grande Nó”).

No aprofundado faixa a faixa abaixo, Bonifrate cita de livros e escritores, bandas e faixas que encerram grandes discos. Fala do incêndio do Museu Nacional da UFRJ em 2018 e de seus filhos, da transformação do tempo no meio de um mergulho e sobre máscaras de pano e lavar as compras do supermercado assim que chegar em casa. Como escreveu Robert Ham no release distribuído para a imprensa, “’Corisco’ pode ser uma representação imperfeita de nosso estado mental pandêmico, enquanto deslizamos nossos dedos pelos feeds das redes, soterrados de más notícias, tentando enxergar o que há além do ‘túnel ausente de sonhos’ do presente, como define um verso da canção ‘Lunário’. Para um álbum construído sobre bases musicais de décadas passadas, ‘Corisco’ soa como algo inteiramente moderno”. Abaixo, um mergulho em um dos grandes discos da música brasileira em 2021. Deixe-se levar por Bonifrate!

FAIXA A FAIXA, por BONIFRATE

01. REI LAGARTO – No final de 2018 eu vinha armando uma apresentação solo com meu teclado Casio, guitarra e voz ligados num pedal de loop, algo que funcionava muito bem com algumas das minhas canções e não tanto com outras que acabavam soando melhores só com voz e violão. Eu tinha uma vaga vontade de construir canções dessa forma pra um próximo álbum, como já tinha feito com “Alfa Crucis” – um single que lancei também em 2018 –, e foi ensaiando pra uma apresentação com isso em mente que eu construí a base de “Rei Lagarto”, o baixo e a batida do Casio e o riff pesado de guitarra que cai em cima. Praticamente todos os sons de teclado e de ritmos seqüenciados desse disco são desse mesmo teclado, de meados dos anos 80, que é um MT400v e que eu não troco por nada. Os versos deslizaram por cima da base com bastante fluidez, eu pensava em alguns animais, como são estranhos e incríveis, resultados de um processo de bilhões de anos de transformações nisso que chamamos de universo, em que uns morrem e outros nascem através do tempo e do espaço, e esse processo integra a trajetória humana, a política, os impérios. Por que nos encontramos tão perdidos nesse estado de coisas? São questões fundamentais, talvez até triviais, que guiaram a escrita e o conceito dessa canção.

02. CASIOPEIA – Alguns desses versos vinham fermentando na minha cabeça desde 2016, quando a minha banda Supercordas ainda estava na ativa, e cheguei a gravar uma demo pra banda com um refrão diferente. Só uns três anos depois fui terminar, mas acho que ela ficou com esse espírito supercordiano, ou ao menos acho que soa assim pra mim. Talvez o som chame um eco das mesmas influências canônicas da época da banda, coisas como Spiritualized e Flaming Lips, que estão sempre pairando sobre a minha cabeça musicalmente, porque curto demais. A segunda estrofe foi inspirada numa fala do Eduardo Galeano sobre haver um outro mundo em gestação dentro deste mundo, e que não é um parto fácil. Enfim, que “esse é um mundo de merda, mas não é o único mundo possível”, nas palavras dele. Acho que os versos partiram daí e rumaram pra uma espécie de odisseia espacial do espírito. Talvez sejam os mesmos temas de “Rei Lagarto”, buscando ou deixando de buscar uma resposta àquelas perguntas que tinham sido feitas, celebrando a longevidade fantasmagórica dos pequenos ou grandes atos de resistência e de ousadia revolucionária.

03. VÊNUS – Essa letra é como que um haicai, um fragmento que me pegou quando eu dirigia pra casa num clima típico de Paraty: a iminência da chuva no fim do dia, a eletricidade no ar, a Estrela D’alva brilhando fosca no poente. Musicalmente ficou bastante marcada pelo som de orquestra. Ele foi editado a partir de fragmentos picotados de alguma velha sinfonia, não me lembro agora qual, talvez algo de Beethoven ou Schubert. Eu tinha lançado mão desse tipo de sample antes, em “Farsa do Futuro Enquanto Agora” (do álbum “Um Futuro Inteiro”, 2011) e em “Índico de Estrelas”, dos Supercordas. É uma forma de ter um som bonito e orgânico de orquestra quando, obviamente, não se pode ter uma pra gravar. Basta você ter alguma abertura em relação ao arranjo e ir buscando os sons que caem bem, deixando o acaso meio que guiar a edição. “Vênus” é o começo de uma suíte em três movimentos, compostos como sequência um do outro desde o início.

04. CORISCO (Parte 1) – Essa é uma das minhas favoritas. Eu gosto de ver a reação das pessoas quando chega a parte em que vira tipo um thrash metal ou algo assim. Foi assim que a canção chegou pra mim, como um rock pesado e clássico, quando eu estava frente à janela do quarto me impressionando com uma tempestade de raios que lampejavam por trás da montanha do Corisco. Esse é o nome do bairro onde eu moro, e também uma palavra que quer dizer faísca, raio, trovão. Assim como “Rei Lagarto”, as três faixas dessa suíte foram gravadas na fita cassete, num velho gravador de quatro canais, e depois transferidas para o computador, cada pista individualmente. Em algum ponto inicial eu pensava em fazer todo o álbum assim, mas era muito trabalhoso sincronizar as pistas, já que a fita tem um tempo oscilante, e acabou ficando só nessas quatro faixas mesmo. A base de “Corisco (Parte 1)” foi construída basicamente com duas baterias, dois baixos e duas guitarras, cada par num quase uníssono, o que deixou a sonoridade bastante pesada, densa e incomum. Acho que é uma canção sobre o mistério. O mistério da escuridão, que muitos de nós deixamos de sentir de perto. Ela acaba redundando num diálogo, uma voz canta os versos finais como que num parêntese meta-histórico e arranca do mistério uma resposta relacionada à memória.

05. TELA AZUL – Eu escrevi “Tela Azul” nos dias seguintes ao incêndio do Museu Nacional da UFRJ em 2018. Eu e minha companheira somos da área de História, e pra nós foi uma tristeza muito grande pensar que nossa filha, então com 3 anos, e tantas outras crianças não veriam mais aqueles tronos africanos, aqueles ossos de dinossauros e aqueles crânios humanos de dez mil anos atrás. Foi como encarar a morte. Era o tipo de museu que podia transformar a percepção de uma criança sobre o mundo, como transformou a minha, e recebia muitas e muitas crianças de escolas públicas do Rio e de outros lugares. Enfim, essa é a metáfora sobre a qual a canção se desenrola. É o que acontece com o nosso passado no Brasil, ele queima. Queima convenientemente para os ratos que lucram e crescem com os incêndios – os servos do imperialismo. A sequência que termina com essa faixa é uma das gravações que eu fiz de que mais gosto. Curto a crueza dos sons na mix do Diogo (Valentino, parceiro de Supercordas, que mixou o disco), e a forma como ela se desloca por diferentes tempos e ambientes. Gostava tanto que cogitava abrir o disco com ela, mas acho que acabou ficando melhor fechando o lado A.

06. CARA DE PANO – “Cara de Pano” foi a última a ser terminada. Fiquei muito tempo com a primeira parte doo-wop na cabeça e sentia que aquilo cair num refrão não seria algo legal a se fazer, então acabei desintegrando tudo num interlúdio guiado pelo piano e fazendo a mesma melodia voltar com outro ritmo, outra atmosfera. Também fiquei esperando a chegada do piano que herdamos do meu sogro aqui em casa pra gravar e continuar fugindo dos instrumentos MIDI, foi demais ter o instrumento de verdade nessa aí. Eu já tinha há anos a primeira estrofe, mas a segunda foi a última que escrevi pro disco, já depois de março de 2020. Meu filho tinha nascido há poucos meses e eu via o sol nascer quase todos os dias, porque ele gostava de acordar essa hora. Mas fazia frio e saíamos com máscaras de pano pra fazer compras que agora tínhamos que lavar antes de guardar, ler as notícias o tempo todo e toda essa loucura que já é nossa de cada dia.

07. LUNÁRIO – Essa foi uma das últimas canções que escrevi para o disco, lá pro início de 2020. Eu tinha esse riff de violão meio The Kinks na cabeça há um tempo e as palavras chegaram num turbilhão quando comecei a ler “O oráculo da noite”, do Sidarta Ribeiro. É uma canção sobre buscar nossos fármacos interiores, escutar nossos sonhos, flertando com imagens de gestação e parto, como outras canções nesse disco. O Sidarta diz que a humanidade está deixando o sonho como fator evolutivo para trás, e por isso as pessoas só conseguem enxergar um único futuro possível – uma aberração evolutiva, já que os sonhos sempre ajudaram várias espécies a simular situações e reações futuras para agir melhor no presente. Acho uma perspectiva interessante sobre como o capitalismo está nos levando ao fim do mundo, e a canção gira poeticamente em torno dessas ideias. Foi só bem depois de escrever os versos que percebi que “na boca da baleia, espera a maré cheia, amor” eram referências a brincadeiras de pular corda, eu estava pensando na iminência do parto e na influência da lua e das marés nas gestações. O vídeo foi o que escolhi pra botar em imagens esse processo de banda-de-um-cara-só, eu mesmo tocando todos os instrumentos, sem grandes efeitos e psicodelias como no vídeo de “Rei Lagarto”, só aproveitando os cenários improváveis e aquáticos das redondezas de onde eu moro.

08. 2054 – “Sob um céu de satélites mortos” foi o verso raiz dessa canção. Escrevi como um poema que imagina um futuro estranho em que poderíamos enxergar da Terra anéis de sucatas de satélites em órbita. Eu pensava na minha filha e em como vai ser o mundo quando ela atingir a idade que eu tenho hoje, dificilmente um lugar melhor. Me fez pensar nesse outro verso chave que é “num gueto de práticas fósseis, o sol brilha em você”. Na minha cabeça ela deveria soar como uma daquelas canções psicodélicas pesadas do Olivia Tremor Control ou do Cirtulatory System, com uma base de órgãos distorcidos e baterias saturadas, mas eu acabei gravando os instrumentos bem limpos, e um violão que eu pretendia deixar só na parte do meio acabei gravando nela toda em todo caso. No fim, o Diogo subiu na música inteira esse canal e o da guia que eu tinha feito com voz e violão, e acabou ficando esse baladão épico definido e brilhante e quando ouvi a mix pensei “bom, assim fica mais maneiro ainda”. Eu costumo ter muito claro na minha cabeça como uma canção deve soar logo que ela aparece, mas um dos aspectos mais legais desse processo todo de compor, arranjar, gravar canções é justamente o desvio entre isso que você imaginou e aonde acabou chegando. Exatamente como acontecem os processos históricos. O desvio é o caminho. Ou pelo menos acaba sendo.

09. GRANDE NÓ – “Grande Nó” foi uma das primeiras canções que fiz e comecei a gravar pra esse disco, lá pra 2016. Acredito que também tenha sido pensada com Supercordas em mente, a princípio. Eu imaginava uma realidade estranha, mas palpável, em que as vibrações densas que eu emitia estavam interferindo nas máquinas ao redor, que começam a engasgar e acabam pifando – é também uma ideia que aparece em “Cara de Pano”. É um épico da paranoia e da alienação, construído sobre acordes simples mas estranhos que toquei no Casio com som de piano elétrico, e soava sempre como quem pede essa estrutura longa de entradas e saídas e suspensões. É a faixa mais longa do disco, acho que uns nove minutos, com essa parte ‘outro’ que parece não ter fim. Eu gosto de longas durações e repetições, sempre foram elementos fundamentais do meu amor pela música. A transformação da percepção de tempo que sentimos sobre um ritmo ou uma textura que se repete e se alonga. A minha amiga cancionista-cantora Betina sempre curtiu essa canção, acho que tinha uma afinidade pela letra, como eu tenho por muitas das letras dela, então ela acabou gravando esses vocais lá de São Paulo e ficou esse dueto incrível nosso. Parece inflar o fluxo do álbum antes de começar a terminar.

10. CORISCO (Parte 2) – Eu saí sozinho pra um mergulho rápido no rio, estava um dia ensolarado e quente com algumas nuvens sobre as montanhas. Eu mergulhei a cabeça na água e fiquei ali embaixo por alguns longos segundos e quando eu emergi o tempo tinha se transformado completamente, um vendo frio soprava e as folhas caíam das árvores. Eu senti como se estivesse cercado de divindades, que animavam os elementos ao meu redor. Mas pra mim não eram as divindades conhecidas pela espiritualidade tradicional, ou eram, mas apareciam de outras formas, novas. A primeira estrofe da canção surgiu na minha cabeça exatamente nesse momento. Talvez seja das canções mais importantes do disco, sendo a última, e eu tenho muito apreço por últimas faixas de discos, acho uma arte, uma atmosfera que é toda delas, em toda sua diversidade. Desde “Que Bom Amigo”, do “Clube da Esquina 2” até “Slow Life” dos Super Furry Animals, passando pelas muitas suítes de lado B do Paul Mccartney, tenho uma tara por finais de discos. Já que é um álbum cheio de altos e baixos, mas talvez com uma atmosfera predominantemente sombria, ao menos liricamente, essa é uma canção que aponta para outro lugar, onde há brilho e propósito. Tenho a impressão, e talvez não passe de uma impressão, que nunca flertei tão abertamente com o indie rock guitarrado dos anos 90 como na última secção de “Corisco (Parte 2)”. É a única faixa do disco em que gravei a viola brasileira de 10 cordas, um instrumento que tenho tocado e gravado desde 2006, mas com o qual eu tenho me envolvido bastante ultimamente depois de terminar “Corisco”, então talvez esse seja mais um lugar pra onde a canção pode estar apontando.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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