Três perguntas: Supercolisor lança o disco “Viagem ao Fim da Noite”

entrevista por Renan Guerra

Em 2020, o Supercolisor fez lançamentos periódicos de singles e clipes, numa espécie de prelúdio audiovisual de “Viagem ao Fim da Noite” (2021), álbum que chega agora às plataformas digitais e traz uma deliciosa viagem musical ao lado da banda, numa mistura interessante entre MPB, pop e rock alternativo.

Com participação de Maurício Pereira, Léo Fressato, Victor Meira e Tuyo, “Viagem ao Fim da Noite” é o terceiro disco da Supercolisor, banda que já passou por diferentes formações e que não lançava disco desde “Zen Total do Ocidente”, de 2015. Atualmente, a banda traz Ian Fonseca (voz, piano, sintetizador, violão), Jérôme Gras (baixo, violão, sintetizador, voz), Henrique Meyer (guitarra, violão) e Natan Fonseca (bateria, percussão).

A intenção deles é que esse novo trabalho seja “como uma viagem de carro na qual abrimos a janela para respirar a paisagem”. Aqui no Scream & Yell conversamos com Ian Fonseca, vocalista e fundador da banda, que surgiu há cerca de 10 anos atrás, e com o arranjador e produtor musical francês Jérôme Gras, radicado no Brasil e que está na banda desde 2016. Em respostas a três perguntas eles conseguem criar uma espécie de mapa para guiar os ouvintes pelo universo do novo disco. Confira abaixo:

O processo de construção do “Viagem ao Fim da Noite” foi lento, obedecendo um tempo necessário da arte. Como parte dessa temporalidade do disco, em 2020 vocês foram lançando obras audiovisuais que apresentaram o trabalho aos poucos. Dito isso, gostaríamos de entender como se deu esse tempo de produção e como foram feitas essas escolhas de lançamento.
Ian Fonseca: De fato o processo de construção do novo álbum foi mais estendido do que o usual, por um tanto de fatores conjunturais: muitas coisas mudaram (a cidade onde trabalhamos, a formação da banda, as condições do mundo), mas posso dizer que sobretudo pra mim o que de mais importante mudou foi a forma de enxergar o que fazemos, o valor do que fazemos, e finalmente a urgência do que fazemos – no caso arte, música – na mesma fotografia de outra urgência hoje muito em voga, que é a da presença constante e incansável nas redes, ou seja lá onde se consuma essa arte. Nesse sentido, olhando o disco já pronto (e tudo que o orbita), entendo que não ter tido pressa foi um sintoma de amadurecimento. O que é muito claro pra mim é que nunca estive tão feliz com um disco novo pronto, com como soa e com o que significa – o título não é à toa! E sobretudo fico sentimentalmente satisfeito que justo esse disco tão colorido seja a pedra angular do time que montamos com tanto cuidado, time esse que agora sinto crescido pra trazer muito mais. Sobre o lançamento “fracionado” do álbum, foi uma boa surpresa também para nós: tínhamos um planejamento de lançamento fixado e já havíamos começado a lançar os singles logo antes da pandemia, mas com tudo que foi acontecendo acabamos decidindo ter menos pressa na exposição do disco como um todo, utilizando esse “tempo forçado” que se impôs pra expandir ainda mais o universo desse trabalho. Levantamos sete filmes. Eu mesmo não sendo exatamente um grande consumidor de videoclipes acho que a vontade de fazer tantos veio mais da influência do cinema – essa sim uma obsessão. Existe todo um universo maravilhoso de possibilidades imaginativas quando se sobrepõe uma imagem a um som, e a oportunidade de fazê-lo com grupos de pessoas incrivelmente talentosas (e cada vez mais em sintonia com o passar das produções) foi nos empurrando pra frente conforme os lançamentos foram se enfileirando. Fomos nos animando ao ver o quanto eles enriqueciam as aberturas interpretativas das faixas que ilustravam, e cada um deles foi levando ao próximo. E de certa forma essa “coleção” tão colorida de peças fala muito a respeito da diversidade estética que a música do Supercolisor parece nos inspirar. O disco transita por territórios muito distintos – do rock alternativo ao bolero, da canção hermética com letra existencialista a outra leve e esperançosa. Quisemos ilustrar essa diversidade nos clipes e por isso eles foram uma adição que hoje é parte inseparável da experiência desse disco.

O disco tem esse ar colaborativo e de troca, o que pode ser visto de forma mais clara nas participações de Maurício Pereira, Leo Fressato, Victor Meira e da banda Tuyo. Como se deu o processo com esses artistas e qual a importância dessas presenças para o resultado final do álbum?
Jérôme Gras: Realmente uma das características mais marcantes desse trabalho é o aspecto colaborativo. Tanto entre nós, internamente, quanto com os parceiros que vieram nos acompanhar nessa viagem. Um dos primeiros nomes que definimos foi o do Leo Fressato. Eu já vinha trabalhando com ele desde que cheguei ao Brasil em 2011 e convidei o Ian pra produzir comigo o seu disco mais recente, “Louco e Divertido”, de 2019. Com toda essa intimidade já tão solidificada, nada mais natural do que convidá-lo pra estar também no nosso disco. Ele trouxe uma interpretação marcante na faixa e no filme de “Sempre”. Como minha esposa é curitibana e vivemos lá por dois anos, sempre estive atento à cena musical paranaense e adorava o trabalho de Lio, Lay e Jean desde a época da banda Simonami. Quando eles lançaram a banda Tuyo me apaixonei imediatamente pelo novo projeto e sonhei em tê-los conosco no nosso disco. Tomei coragem durante um show que fizeram em São Paulo e concretizamos este sonho numa sessão surreal pra “Um e Meio” em Curitiba, onde a Lay e a Lio quebraram tudo com sua arquitetura de vozes, harmonia e criatividade. Outra participação que se desenhou naturalmente foi a do Victor Meira [da banda Bratislava], que, além de já ser grande amigo do Ian, é hoje um dos nossos principais parceiros – ele assina toda a arte gráfica do disco, entre outras articulações visuais. Sempre fomos admiradores da poesia dele, e por isso o convidamos pra que escrevesse e interpretasse um texto, que aliás serviu como uma luva, na faixa “Incêndios”. E fechando com louvor as participações, essa que é mais do que especial. Explico: por pura admiração, costumávamos incluir uma única cover nos nossos shows, uma das obras-primas do Maurício Pereira, a maravilhosa “Trovoa”. Depois de conhecê-lo e trocar ideia em várias ocasiões, ficamos viajando na possibilidade de convidá-lo para participar de um trabalho nosso. Esse sonho se tornou realidade quando ele aceitou escrever e interpretar um spoken word na nossa faixa “Torto (Reprise)”; como em tudo que faz, nela também a sua maestria poética se entrega de forma luminosa. Mas o aspecto colaborativo vai muito além dos featurings, e nada neste trabalho teria sido possível sem os demais parceiros. Começando com o quinto beatle (como o chamamos brincando), o incrível engenheiro de áudio Bruno Giorgi, que mixou e masterizou o disco trazendo muita riqueza e criatividade na interpretação do som, com um nível de esmero que raramente vimos antes. Não dá pra deixar de agradecer também aos demais engenheiros de captação nos estúdios por onde fomos passando, Vitor Pinheiro, Hugo Silva, Otavio Rossato, pelos ouvidos dos quais foram sendo talhados os timbres que imaginávamos. Também contamos com a inspiração trazida por músicos extraordinários como Denis Mariano, Charles Tixier (bateristas e percussionistas, o primeiro de Curitiba e o segundo meu conterrâneo!), o naipe de metais absurdo que toca com o Hermeto Pascoal (Sergio Coelho, Phellyppe Sabo e Reynaldo Izeppi), o multi-instrumentista Marc Thiessen e o virtuoso violoncelista Lenon Rodrigues. Por fim, este projeto vai muito além da música em si, e foram outros tantos amigos e parceiros que fizeram possíveis os 7 videoclipes que o acompanham: o filmmaker já de extensa parceria conosco Alberto Whyte, a artista plástica chilena María Paz Gutierrez, a artista audiovisual argentina Joana Vento, os atores Carol Martinni e Dudu de Oliveira, os bailarinos e coreógrafos Carol Martinelli, Marcel Anselmé, Isa Kokay e João Corrêa, os diretores Lucas Striani e Pedro Dantas, todo o pessoal da assistência de produção e técnica, Duane Carvalho, Isadora Mandarino, Érika Andrade, Elton Pereira, Daniel Rasta, Luis Martins, Silvio Romano, Jay Boggo… ufa!, é tanta gente que é perigoso a memória falhar! Assim, passo a passo, acho que tornamos realidade aquele sonho do início, fazendo desse disco um “centro de gravidade” o qual outros artistas puderam vir orbitar e influenciar, expressando seu talento em direção à nossa visão-comum, compartilhada, de poética e compromisso com a arte.

Estamos quase batendo um ano de pandemia e um ano sem shows físicos, sem espetáculos, sem festivais, tudo isso. Qual é a sensação de lançar um disco, depois de um longo processo, em um momento que não temos uma perspectiva real de retorno aos palcos? Como vocês sentem a importância desse tipo de diálogo através da arte em momentos tão nebulosos quanto o atual?
Ian Fonseca: Evidentemente a gente tá morrendo de saudade dos palcos e é triste não poder comemorar com nosso público, nesse momento, a chegada desse novo disco tão querido pra nós. Mas frente à sucessão de tragédias que essa pandemia representa no mundo inteiro, esse é o menor dos problemas. A título individual, a arte dos artistas que a gente acompanha nos ajudou (pra não dizer salvou) e continua ajudando a atravessar com alguma sanidade esse período difícil. Então num momento como esse fica ainda mais notória a quantidade de luz que a música traz pra vida das pessoas. Os retornos do nosso público sobre os singles nos fizeram entender que também temos parte nessa missão, na nossa humilde escala, independente da perspectiva imediata de retorno financeiro ou da lotação de salas. Ao invés de esperar o “momento certo” que mais “nos beneficiasse”, chegamos à conclusão de que não há hora perfeita. E talvez, nesse contexto, justamente: este disco não propõe ser uma cura ou uma medalha, não chega pra festejar um momento; nosso disco, como o título sugere, é sobre o trajeto – se celebra algo, é o caminho – como uma companhia de viagem, da luz para a sombra e de volta, e de novo; conversa sobre a inevitabilidade da deformação da vida pelo tempo, sobre a depuração do que é valioso num mundo onde as boas e más notícias não se apresentam com nitidez, e com sorte é uma expressão estética nem alegre nem triste (talvez poética, já citando o Caetano) dos ciclos e do seu eterno retorno. E, enquanto os shows não voltam, estaremos ativos – tem muitas novidades pros próximos meses na agenda, e vamos continuar expandindo o universo desse disco até que finalmente chegue o momento de reencontrar o público. Vai ser foda!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz. A foto que abre o texto é de Andreza Silviano

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