Esse você precisa ouvir: “Before and After Science”, de Brian Eno

Texto por Luciano Ferreira

O ano de 1977 foi marcante para a música, o punk chegava forte na Inglaterra através dos Sex Pistols (“Never Mind the Bollocks”), The Clash (“The Clash”) e The Damned (“Damned, Damned, Damned”). Nos EUA, outra “trilogia” de respeito sacudia o cenário: os precursores Ramones lançavam “Rocket to Russia”, o Television estreava com o seu seminal primeiro disco, “Marquee Moon”, e os Talking Heads debutavam com o clássico “77”.

Nesse mesmo ano, Iggy Pop e Bowie Bowie lançaram álbuns fundamentais de suas carreiras e da música pop, álbuns que influenciariam vindouras gerações de novos artistas: “The Idiot” e “Heroes”, respectivamente. No subterrâneo, as sementes do pós-punk/gótico germinavam e iriam aflorar pouco tempo depois num enorme contingente de bandas. O mesmo podendo ser dito da música eletrônica, que nesse ano ganhou o reforço estrondoso dos alemães do Kraftwerk e seu divisor de águas “Trans Europe Express”. Por outro lado, o progressivo seguia em declínio com várias bandas encerrando as atividades ou entrando em hiato.

“Before and After Science”, quinto álbum de Brian Eno, surge no meio de toda essa efervescência que precedia o começo do fim da década marcando uma ruptura na sequencia frenética de lançamentos solo que o artista seguia desde 1973, após sua saída do Roxy Music, lançando dois álbuns anualmente – “Here Come the Warm Jets” e “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” em 1974, e “Another Green World” e “Discreet Music” em 1975. Pela primeira vez, ele passou dois anos maturando um álbum.

Paralelamente, Eno, que costumava se autodenominar de não-músico, produzia um outro trabalho de sua autoria, “Music for Films”, que seria lançado em 78, seguindo por outros caminhos musicais. Por essa mesma época em que parecia um ser quase onipresente, ele transitava por produções (Ultravox) e parcerias diversas (Bowie, Robert Fripp, Phil Manzanera, Cluster), que viria a se tornar uma constante em sua trajetória no mundo da música.

Se “Here Come the Warm Jets” (1973) foi um surpreendente sopro de ideias revigorantes na música pop e “Discreet Music” (1975) um disco de ruptura de paradigmas, “Before and After Science” é o ponto de interseção entre esses dois universos, o salto para frente e sem retorno. Cercado por um time de músicos ligados tanto krautrock quanto ao progressivo, e que invariavelmente davam as caras em seus discos – Robert Fripp (King Krimson), Phil Collins (Genesis), Phil Manzanera (Roxy Music), Robert Wyat (Soft Machine), Jaki Liebezeit (Can), dentre outros –, Eno dá vida a um álbum difícil de classificar, atraente de ouvir e considerado, em uma virtual disputa interna com o “Here Come the Warm Jets”, o melhor de sua carreira.

Como álbum de transição, presente e futuro se encontram, o glam rock e o art rock dos primeiros álbuns se apresentam nas faixas iniciais, incluindo “Backwater”. Eno estava interessado na busca de novo ritmos, vide o suingue de “No One Receiving” e “Kurt’s Rejoinder”. Ele também buscava referências nas batidas da música africana, e o lado percussivo se sobressai nessa primeira metade do álbum; ao mesmo tempo, ele havia travado contato e se interessado pela música dos Talking Heads (que conhecera naquele ano, e viria a produzir posteriormente), fazendo uma homenagem na minimalista e reta “King’s Lead Hat”, que contém as mesmas letras do nome da banda novaiorquina e onde Eno emula o estilo vocal de Byrne.

Se as canções do lado A do vinil soam datadas (“No One Receiving”, “Backwater”, “Kurt’s Rejoinder”, “Energy Fools the Magician” e “King’s Lead Hat”), todo o lado B soa bastante atual (“Here He Comes”, “Julie With…”, “By This River”, “Through Hollow Lands” e “Spider and I”). Enquanto as cinco primeiras faixas enfatizam o experimentalismo e uma maior aproximação com os trabalhos anteriores, a ambient music que predominou em “Discreet Music” surge nas faixas finais do lado B, que inicia com a bucólica “Here He Comes”, fazendo a perfeita transição para esse lado mais instrumental do futuro, e expresso mais significativamente em “Through Hollow Lands” (uma homenagem ao tecladista Harold Budd) e na densa e melancólica “Spider and I”, passando pelo minimalismo da belíssima e reflexiva “By This River”, popularizada na trilha sonora do filme “O Quarto do Filho” (2001), do diretor italiano Nani Moretti.

Musicalmente, “Before and After Science” é de uma amplitude enorme, resume de forma precisa o modo como seu autor enxergava a música, livre de conceitos e preconceitos, aberta a ideias das mais variadas possíveis, mostrando preocupação mais com o resultado do que com a forma, algo bastante em voga naquela época. Essa visão levaria o Eno produtor a se tornar muito requisitado nos anos vindouros por um sem número de bandas, do U2 ao Slowdive, passando por Talking Heads, James e Coldplay (em “Viva la Vida or Death and All His Friends”), mas não o afastaria dos álbuns: o último de estúdio, seu 26º disco solo, “Reflection”, saiu em 2017, mas em 2020 ele lançou um disco colaborativo com seu irmão, Roger Eno, “Mixing Colours”.

“Before and After Science” foi lançado em dezembro de 1977. As primeiras edições do álbum incluíram quatro impressões offset de Peter Schmidt (foto acima), e a contracapa do vinil traz “Fourteen Pictures” sob o título do álbum, somando as 10 canções de Eno com as 4 gravuras de Schmidt. Ele não figurou nas paradas no Reino Unido, mas foi o primeiro disco de Eno desde “Here Come the Warm Jets” a chegar às paradas nos Estados Unidos, onde alcançou a posição 171 da Billboard. Em 1987 foi reeditado em CD e, em 2004, remasterizado (é a edição que você encontra em streaming em sites como Spotify e Deezer de um disco que você precisa ouvir).

– Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.