Entrevista: Autores falam da HQ “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”

entrevistas por João Paulo Barreto

Dentro dos quadrinhos voltados para um público não infantil, o tema das guerras e suas consequências físicas e psicológicas nos seres humanos sempre foi um terreno incrivelmente fértil para abordagens mais densas e desafiadoras. Tais desafios de narrativas chegam tanto a desenhistas quanto a roteiristas, inclusive. Pensar em obras como “Persépolis”, “Ás Inimigo”, “Maus”, “Leões de Bagdá”, “O Árabe do Futuro“, para citar algumas, nos dá uma confirmação de como a insanidade dos conflitos bélicos, além de suas consequências monstruosas, podem gerar obras de reflexões urgentes, e que, muitas vezes, são oriundas das próprias vivências dos artistas por trás da criação daquelas páginas. Em outras, o estudo aprofundado e a fidelidade às pesquisas de fatos em torno do período histórico rendem narrativas que, baseadas em fatos reais, trazem ao leitor uma imersão dentro daqueles dias sombrios. Do mesmo modo, a liberdade criativa e imaginativa de desenhistas e roteiristas podem mesclar aquelas realidades a situações em que o fantástico oferece resultados catárticos e recompensas narrativas que preencham as imersões destes mesmos leitores.

Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” é um exemplo desse tipo de proposta. Com 160 páginas, o quadrinho lançado pela Editora Draco alcançou mais de 300% de sua meta de financiamento coletivo, permitindo, assim, a editora investir em um acabamento de qualidade, imprimir e lançar o material no mercado. Dentre as histórias na coletânea, “Ligeiro”, desenhada pelo artista baiano Ademir Leal e roteirizada por Celso Menezes, aborda a participação brasileira na Segunda Guerra durante as missões dos pracinhas na Itália fascista de Mussolini. “Como apreciador de temas militares, venho estudando sempre sobre os fatos e histórias da FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a Segunda Guerra Mundial com historiadores, tendo meu próprio acervo digital contendo imagens de armamentos, uniformes, mapas, livros e datas de conflitos. Com isso, facilitou a elaboração de ‘Ligeiro’ usando essas referências, tornando-se prazerosa em fazer e estruturar o contexto com o roteiro, e entregar o projeto conforme Celso e Raphael (Fernandes, editor da Draco) esperavam”, explica Ademir acerca do processo de junção do texto escrito por Celso com sua arte.

Para o editor Raphael Fernandes, a importância de se abordar a Segunda Guerra Mundial em uma mídia como a das histórias em quadrinhos se torna ainda mais crucial para os dias atuais. “As HQs inspiradas em conflitos bélicos e guerras são das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos, como ‘Gen – Pés Descalços’ e ‘Crônicas de Jerusalém’. Porém, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito que definiu a segunda metade do Século XX e influencia nossa a política e a sociedade até hoje. No momento, somos vítimas de governos autoritários e com muitas características neofascistas. Ou seja, fazem ações populistas, criam inimigos invisíveis, escondem dados problemáticos e nos enterram em toneladas de mentiras e informações falsas”. Sobre o projeto, o Scream & Yell conversou com o roteirista Celso Menezes, o desenhista Ademir Leal, dupla por trás da criação da história “Ligeiro”, presente na coletânea, e com o editor Raphael Fernandes. Confira o papo completo.

Dentro de um mercado de quadrinhos dominado por publicações oriundas de gigantes como Marvel e DC, vemos o cenário independente resistir, com projetos de lançamentos realizados através de financiamentos coletivos e editoras que, mesmo sem o poder de gigantes como a Panini, ainda conseguem se firmar. Para vocês, Ademir Leal e Celso Menezes, como co-autores de “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”, e Raphael Fernandes, editor da Draco, além do aspecto financeiro, quais as principais dificuldades nesse adentrar em um mercado como esse?
Raphael Fernandes – A Editora Draco completou 10 anos em 2019 e estamos mais fortes do que nunca! Somos uma editora independente, totalmente focada na produção de histórias originais feitas por autores brasileiros de diversos lugares, gêneros, etnias e classes. O principal objetivo da Draco é contar novas histórias de fantasia, ficção científica e terror, mas sempre buscando um jeito próprio de fazer, e que leve os nossos leitores para aventuras que foram feitas especialmente para que ele se identifique. Ou seja, o nosso maior desafio é fazer as nossas HQs e livros chegarem a um número cada vez maior de leitores. O financiamento coletivo tem permitido isso, e sem intermediários. A Editora Draco lida diretamente com o público. Afinal, somos apenas dois caras escrevendo e editando histórias que sempre sonhamos em contar. Queremos fazer os leitores se divertirem e viajarem junto com a gente por mundos fantásticos, mas falando especialmente sobre quem somos e onde vivemos.

Celso Menezes – O mundo mudou muito nos últimos anos, mas acredito que a chegada da internet jogue a nosso favor. Antigamente, basicamente ou você saía pela Editora Abril ou não saía. A internet fortaleceu nichos e viabilizou projetos, como este próprio, através de financiamento coletivo. Além disso, meu primeiro livro, o “Jambocks!“, só saiu porque eu me inscrevi, via internet, no edital Proac de Quadrinhos. Então, apesar das dificuldades, creio que hoje é muito mais viável ser publicado.

Quadrinhos fora do contexto de super-heróis, em um viés mais adulto e voltado para documentar situações baseadas em fatos reais, possuem um apelo significativo junto ao público. Principalmente na questão dramática dos conflitos bélicos. Basta observar publicações como “Persépolis”, “O Árabe do Futuro” e, dentro de um contexto de fábula, mas ainda calcado no real, “Maus”, “Leões de Bagdá”, além de “Ás Inimigo”, este mais calcado em aspectos poéticos textuais e visuais, são outros exemplos que vêm à mente. Para “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”, quais foram os temas propostos dentro dessa abordagem calcada no real?
Raphael Fernandes – Sem dúvida as HQs inspiradas em conflitos bélicos e guerras são das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos, como “Gen – Pés Descalços” e “Crônicas de Jerusalém”. Porém, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito que definiu a segunda metade do Século XX e influencia nossa a política e a sociedade até hoje. No momento, somos vítimas de governos autoritários e com muitas características neofascistas. Ou seja, fazem ações populistas, criam inimigos invisíveis, escondem dados problemáticos e nos enterram em toneladas de mentiras e informações falsas. Nas histórias em quadrinhos da coletânea “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” trabalhamos narrativas de pontos de vista diversos, mas demos ênfase ao que brasileiros viveram durante o período. Em especial, há duas histórias focadas nas ações da Força Expedicionária Brasileira, que era formada por 25 mil soldados enviados para o front italiano para enfrentar as forças nazistas e fascistas. Hoje, vivemos em um Brasil que comunga e aceita muitas falas e ações dos políticos que remetem ao pensamento dos inimigos enfrentados na Segunda Guerra. Nosso principal objetivo é, através de histórias de guerra emocionantes e de entretenimento, despertar uma consciência no público de nossos antepassados deram a vida e a juventude para enfrentar esses mesmos pensamentos que hoje apoiamos. Mais do que nunca, o sacrifício e a luta dos brasileiros merece ser respeitada, além da democracia e a luta por um Brasil mais justo e igualitário para todos.

Ademir, observando o trecho de sua história divulgada na página do Catarse, e em conversa com o roteirista Celso Menezes, nota-se uma abordagem bem direcionada à materialização dos acontecimentos reais dentro das páginas da HQ. Salientando ser o texto de “Ligeiro” baseado em fatos reais, você poderia falar um pouco de como se estruturou em sua concepção artística essa construção para o leitor?
Ademir Leal – Como apreciador de temas militares, venho estudando sempre sobre os fatos e histórias da FEB durante a Segunda Guerra Mundial com historiadores, tendo meu próprio acervo digital contendo imagens de armamentos, uniformes, mapas, livros e datas de conflitos. Com isso, facilitou a elaboração de “Ligeiro” usando essas referências, tornando-se prazerosa em fazer e estruturar o contexto com o roteiro, e entregar o projeto conforme Celso e Raphael esperavam.

Ainda neste aspecto, ao ler alguns trechos de “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” presentes na página do Catarse, observei uma grande variedade de estilos. Minha pergunta é sobre esse processo de escolha de estilos dentro das possibilidades que a arte sequencial oferece. Como se dá essa escolha dentro da linha editorial proposta por vocês?
Raphael Fernandes – Ao selecionar e construir uma coletânea, a Editora Draco busca trazer a mesma experiência de uma mixtape. Se todas as histórias forem iguais, tudo se torna cansativo e repetitivo. Até mesmo a ordem das HQs tem que contar uma história a apresentar uma narrativa. Sem falar que o principal objetivo de uma boa coletânea é trazer os mais diversos aspectos e pontos de vista de um mesmo tema. Essa é uma proposta que defendemos em toda a nossa linha editorial e pode ser identificada desde em trabalhos de horror como “O Rei Amarelo” a publicações de ficção científica como “Periferia Cyberpunk“. E buscamos isso também na diversidade de autores, que são de todas regiões do país, de várias etnias, gêneros, sexualidades etc. Se queremos apresentar histórias novas, o caminho está em encontrar os narradores que ainda não foram amplamente apresentados.

Celso, na parte da pesquisa, como se dá o desenvolvimento da história a partir de sua concepção original? “Ligeiro” é baseado em fatos reais, mas gostaria de adentrar um pouco mais neste conceito de desenvolvimento. Você costuma criar o argumento já visualizando mentalmente storyboards ou situações que podem ser exploradas por uma perspectiva de arte gráfica?
Celso Menezes – Quando fiz minha pesquisa para o “Jambocks!” reuni material para uns 10 livros, pelo menos. Quando o Raphael fez a proposta não demorou muito para me lembrar de algo que eu tivesse achado interessante e logo criar toda a história. Como já faz mais de um ano e meio que passei por este processo, não me lembro dos detalhes, de onde tirei cada coisa. Mas, certamente, cada cena e personagem foi baseado em algo ou alguém que existiu. Eu só adaptei para 20 páginas. Sobre os layouts, eu tento deixar o artista livre para explorar seu talento como narrador visual. Às vezes, detalho uma cena para uma melhor compreensão, mas, no geral, tento deixar algumas lacunas para serem exploradas pelo desenhista. E, assim como foi com o Felipe Massafera, em “Jambocks!”, toda colaboração do Ademir engrandeceu o resultado. Cada vez que chegava uma página, eu notava como o Ademir é um artista nato.

Ainda no aspecto citado na pergunta anterior, vocês poderiam aprofundar o tema dessa junção entre a narrativa escrita e a arte sequencial? Como se dá esse processo de construção?
Ademir Leal – Cada cena, cada momento, é escrito detalhadamente como deverá ser abordado, e eu, como o artista, tenho que unir a descrição e as falas para criar as cenas. Feito isso, faço um esboço (rascunho) de todas as cenas, e envio para o Celso e Raphael verem se a narrativa está correta. Se é o que estamos propondo como leitura para o leitor. Com aprovação dos rascunhos, passo para o processo de arte mais elaborada, que chamamos de arte final, e, por fim, às cores, que são muito importantes neste processo de construção tendo como objetivo dar vida à história.

Celso Menezes – Não tenho muito a acrescentar. O Ademir é muito inteligente e sensível, além de muito estudioso. Tudo o que escrevi saiu ou exatamente da forma que imaginei ou melhor. Como roteirista, não tem nada que se possa desejar mais. Além de que o Ademir foi uma pessoa muito dedicada e fácil de lidar.

Celso, ainda em relação a esse aspecto de criação textual, você poderia abordar um pouco sua trajetória como roteirista?
Celso Menezes – Ironicamente, “Ligeiro”, uma HQ feita por encomenda, é mais fiel ao meu estilo do que “Jambocks!”, que é autoral. Isso se explica pelo fato de que, em “Jambocks!”, eu assumi que o leitor médio nunca tinha visto aquela história. Então, tentei ser um pouco mais didático. Paradidático, para ser preciso. Tentei passar o contexto sem que ficasse muito enfadonho. Já em “Ligeiro”, como não preciso explicar nada, pois a coletânea é autoexplicativa, me ative apenas à história e tentei ser o mais minimalista possível. As estrelas são as formas como os personagens lidam com as situações e o jeito que o Ademir nos mostra isso. Evitei diálogos para tentar atrapalhar o mínimo possível essa fluidez. Foi importante o olhar clínico do Raphael. Embora não me recorde de ter feito nenhuma alteração em relação ao texto original, estava seguro de que se houvesse algum problema com a história, ele me alertaria. Por sorte, não foi o caso, mas poderia ter sido e tudo bem, faz parte do processo.

Raphael, como editor, como funciona a sua influência nesse processo de analisar, dentro de um critério mercadológico, a criação a partir de um conjunto tão amplo de desenhistas e escritores? Como se dá esse passo a passo desde a criação até chegar na diagramação e impressão final do produto?
Raphael Fernandes – Nós temos a característica principal de ser uma editora criativa. A maioria dos nossos projetos partiu de conceitos e criações de dentro da Editora Draco, e foram compartilhadas com nossos autores. Também há situações em que autores da casa oferecem projetos desde o início e participamos de todo o processo de produção, colaborando com conceitos, roteiro, desenho, arte-final, cores e produção da capa. Como há um projeto editorial definido na Draco, nós aprendemos a identificar quadrinhos e livros que tenham sinergia com a nossa produção. Nós queremos histórias de entretenimento de gênero, como vemos nas séries de TV e filmes de sucesso, mas construídas com o ponto de vista dos brasileiros. Trazendo visões inovadoras e próximas do leitor brasileiro para tramas de fantasia, ficção científica e terror, além de outros gêneros que começamos a explorar como faroeste e guerra. E tudo na Draco é feito por poucas pessoas, mas com muita paixão. Somos todos contadores de história, além de editores.

Até o momento da escrita dessa pauta, “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” se aproximava de triplicar sua meta no Catarse. E isso com semanas de antecedência ao final do prazo. Isso denota uma confiança imensa do público leitor e colecionador na Draco e na qualidade de seu material gráfico e editorial. Raphael, a pergunta que quero lhe fazer é acerca desse mercado baseado justamente na confiança do público dentro de um projeto que depende de seu investimento prévio para se concretizar. Como empreendedor, você poderia aprofundar para o público essa relação entre empresa e consumidor? O modelo comercial a partir do financiamento coletivo é o mais atrativo? Deve-se firmar como o mais viável nos anos a seguir?
Raphael Fernandes – Por conta da crise das livrarias, percebemos que precisávamos expandir a nossa forma de chegar ao público. Nós sempre fizemos os principais eventos de literatura e da cultura pop, como CCXP, FIQ, Bienal do Livro, Anime Friends e muitos outros. Porém, em 2019, decidimos expandir isso fazendo podcasts para conversar diretamente com o público e lançando as publicações através do financiamento coletivo. Quando um projeto da Draco entra no Catarse, nós já temos tudo pronto e estamos na reta final de fechamento do projeto. Por isso, quando alguém apoia, recebe seu pacote no menor tempo possível. Nós só precisamos do prazo para fechar os arquivos, impressão e envio. Com essa proposta muito sólida, temos ampliado o nosso público e recebido muitos elogios dos apoiadores. Certamente, o modelo do financiamento coletivo é um caminho inevitável para editoras que querem estar próximas de seu público e não depender das flutuações do mercado livreiro.

Ainda em relação a esse processo, o custo médio de um projeto como esse em relação ao tipo de papel, gramaturas, revisões ortográficas, design digital, é muito alto? Poderia falar um pouco acerca desse processo técnico do investimento?
Raphael Fernandes – Sim, qualquer publicação colorida e com papel de qualidade custa quatro vezes mais que uma publicação em preto e branco com papel mais modesto. Por isso, graças ao Catarse, podemos fazer obras com acabamento mais refinado sem correr o risco de investir demais em um produto que não atraia um grande público. Tanto que a gente costuma reservar as “melhorias” no projeto gráfico para as metas extras, como fizemos na campanha do livro “Guirlanda Rubra“, que começou como um projeto capa mole e no fim foi impresso em capa dura, com fitilho de seda e muitas ilustrações.

A Segunda Guerra Mundial rendeu filmes, série dramáticas e documentais (as duas que estão na Netflix são soberbas), sem contar as próprias imagens reais da guerra. Mesmo abordando a missão dos brasileiros na Itália, um aspecto pouco documentado pelo cinema e com uma quantidade limitada de imagens, esse acervo do cinema e da TV que ilustra o imaginário das pessoas desde o período do conflito até os dias de hoje funcionou como inspiração na criação de enquadramentos e de temas dramáticos na história original? Se sim, poderiam falar acerca desse desenvolvimento tanto na questão da escrita do roteiro quanto na criação das artes?
Celso Menezes – Na verdade, apesar do trabalho de resgate e conservação de memória e patrimônio histórico no Brasil serem uma vergonha desde sempre, há um vasto material produzido através de conversas com veteranos. Tive a felicidade de entrevistar alguns da FAB e isso enriqueceu muito a minha pesquisa. Mas as estruturas dos acontecimentos e dramas já foram muito exploradas e tem aspectos que não fogem muito disso. O medo de morrer, o temor de matar, o frio, a lama, a fome, os colegas sendo mortos… tudo isso é meio universal numa guerra. O que eu acho que diferencia o brasileiro é um certo senso de humor e capacidade de adaptação a dificuldades. Em “Ligeiro”, tento passar um pouco disso. Apesar da situação tensa que os personagens estão passando, sempre há um espaço para o inusitado.

Ademir, observando suas publicações de trabalhos artísticos em redes sociais, percebe-se um traço bastante ligado ao real, com um estilo direcionado a uma criação totalmente verossímil tanto no aspecto da anatomia humana, quanto na criação de paisagens dentro de uma perspectiva geográfica real. Como foi moldado esse estilo dentro da sua trajetória como artista gráfico?
Ademir Leal – Sempre fui apaixonado pela arte do realismo, no estilo de pintura barroco de Caravaggio, dos artistas mais atuais como Norman Rockewell, Frank Frazetta, quadrinistas Alex Ross, Stuart Immonen, Olivier Coipel e Riccardo Federici, tenho me inspirado nesses artistas e em vários outros.

Ainda sobre sua trajetória, Ademir, gostaria de abordar um pouco suas referências no âmbito de arte sequencial tanto no Brasil quanto lá fora. Como você começou?
Ademir Leal – Sou autodidata. Comecei a desenhar aos 4 anos de idade, e sempre tive em mente de que queria seguir nessa área como profissional. Há 15 anos, não imaginaria que estaria voltado para área digital, quadrinhos e gráficos. Meus planos eram trabalhar como retratista e pintura em tela. Mas, hoje, trabalho com tudo. Sempre estudo tudo que é voltado para artes, seja tradicional ou digital. Atualmente, trabalho para o mercado internacional como ilustrador e quadrinista. Desde o início deste ano fui agenciado pelas agências de talentos ComiConArt, dos Estados Unidos, e pela nacional Rascunho Studio. Através delas, tenho feito quadrinhos para editoras americanas em estilo comics, entre outros.

Ademir, observando o trecho de sua história, e em conversa com o roteirista Celso Menezes, nota-se uma abordagem bem direcionada à materialização dos acontecimentos reais dentro das páginas da HQ. Salientando ser o texto de “Ligeiro” baseado em fatos reais, você poderia falar um pouco de como se estruturou em sua concepção artística essa construção para o leitor?
Ademir Leal – Eu me considero um cara eclético no mundo das artes, todo tipo de arte me atrai. Tenho buscado me aperfeiçoar mais no estilo realista, pois é a área qual mais me identifico, e com isso eu junto o útil ao agradável transmitindo a arte nas ilustrações digitais. Gosto de usar referências fotográficas para elaborar com máximo de realismo possível.

Raphael, ao ler alguns dos trechos de Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” pude observar que o quadrinho trará uma abordagem, também, centrada no fantástico, utilizando aspectos psicológicos dentro da questão dos traumas oriundos do conflito. Como editor, como funcionou essa seleção de histórias dentro da busca por um equilíbrio de temas em um mesmo compêndio?
Raphael Fernandes – Apesar de ter temas fantásticos, todas as histórias carregam o peso real de uma guerra desse porte. Nós não idealizamos ou amenizamos nada sobre os horrores da guerra. Então, a fantasia, o terror e a ficção científica foram utilizadas como uma metáfora para as grandes questões que envolvem esse conflito. Não esperem encontrar histórias de ação divertidas sobre lobisomens nazistas enfrentando zumbis soviéticos. O foco é em trabalhar reflexões dos horrores da guerra e muitas vezes o tema fantástico permite extrapolar os fatos e entender o imaginário desse período histórico. Gosto muito de pensar que nossas referências para esse tipo de proposta narrativa são nomes como Guillermo Del Toro, Neil Gaiman, Alan Moore, Hayao Miyazaki, Dennison Ramalho, Shirley Jackson, Margaret Atwood, Jordan Peele, Mary Shelley, David Cronenberg, John Carpenter e muitos outros. Onde o fantástico é apenas uma ferramenta para entender quem somos, como uma boa narrativa xamânica na beira de uma fogueira. Como editor, essa mistura é a essência do meu trabalho na Draco e uma das marcas que caracterizam o nosso plano editorial.

Em uma matéria anterior que escrevi para o Jornal A Tarde e para o Scream & Yell  acerca de uma HQ baiana chamada “Pandemonium“, uma das questões levantadas pelo grupo de autores foram as negativas recebidas por diversas editoras no que tange à publicação do material (atualmente em campanha no Catarse). Em algumas das citações, foram pontuadas questões quanto à ideia de arriscar-se em temas mais pesados, já vistos no passado em publicações como Heavy Metal, Animal, Kripta, Spectro, dentre outras. Mesmo observando que a Draco possui em seu catálogo quadrinhos de terror com abordagens mais voltadas ao slasher e gore, gostaria de perguntar tanto a Raphael, na função de editor, quanto a Celso e Ademir como autores, suas visões em relação a essa questão de se arriscar mais dentro da liberdade de expressão em tempo de diversos cancelamentos digitais. Os tempos estão mais caretas? Vejo títulos como “Necron” e “Druuna”  voltarem a catálogos, mas, ao mesmo tempo, diversos autores me falam sobre problemas de convencimento de novas e semelhantes propostas junto a editoras. Vocês poderiam aprofundar mais esses critérios tanto no âmbito de comercial quanto de criação artística?
Raphael Fernandes – Sinceramente, recebemos centenas de propostas de autores com projetos de quadrinhos e literatura, mas o grande problema deles não é uma abordagem agressiva ou pesada. Muitas vezes, os autores disparam emails para as mais diversas editoras sem nem mesmo conferir se o catálogo da casa editorial combina com a sua publicação. Também há uma questão interna na Draco: nós evitamos projetos prontos. Nosso trabalho é criativo e queremos fazer parte do processo de produção de uma obra. Se ela está pronta, não precisa de uma editora como a nossa. Não acredito que os tempos estão mais caretas. Porém, as histórias que hoje soam novas e originais fogem de certos preconceitos e limitações impostos pelo pensamento não progressista. Vejo exatamente como o contrário. As novas possibilidades de protagonistas, pontos de vista, experiências pessoas e vivências diversas permitem uma infinidade de histórias que ainda não foram nem mesmo imaginadas. Não sou a favor do cancelamento, pois deveríamos deixar as decisões autoritárias aos conservadores. Tudo pode ser discutido e trabalhado, mas tem que ser feito com inteligência.

Celso Menezes – Sinto que a criação e sucesso da linha Vertigo mostrou ao mercado de quadrinhos que não há limites desde que se conte uma boa história. Pessoalmente gosto tanto de histórias mais comerciais quanto outras mais desafiadoras. E tenho uma ideia para um projeto que começa bem comercial, mas depois trilha caminhos considerados mais ousados. Acho que, acima de tudo, o autor tem que acreditar no que está fazendo e então dar o seu melhor para provar que há uma razão para aquela história existir. Uma pequena curiosidade: Quando fui procurar patrocínio para o próximo volume de “Jambocks!”, conversei com o diretor de uma multinacional que me recebeu muito bem, mas me disse que era proibido de apoiar projetos que envolvessem qualquer tipo de conflito. Ironicamente eu tinha procurado a empresa justamente porque ela foi fornecedora de suplementos para os soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Então às vezes há algum tipo de censura mesmo nos lugares mais improváveis.

Em quanto, em termos de dificuldades para se concretizar um lançamento, o formato físico dos quadrinhos é um barreira financeira para lançamentos? Pergunto isso não como um entusiasta da mídia digital, esclareço. Para mim, não há outra forma de se acessar uma HQ se não no papel. Mas, pensando mercadologicamente, há um consumo/retorno significativo em um lançamento digital?
Raphael Fernandes – Pelo contrário, as publicações digitais ainda não foram popularizadas a ponto de alcançarem o grande público. Porém, podem ser uma forma mais acessível para produtores independentes começaram a formar um público e construírem suas habilidades narrativas. Os projetos impressos ainda são a melhor forma de publicar uma história em quadrinhos ou um livro, mas também acreditamos que as possibilidades digitais levam nossas histórias para lugares que não alcançaremos de outra forma. O grande desafio é alcançar e criar mais leitores com o nosso trabalho, seja digital ou impresso.

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