Faixa a faixa: “Terror da Terra”, Gabriel Edé

por Herbert Moura

Gabriel Edé, músico e compositor chileno-brasileiro, lançou em agosto seu primeiro álbum solo, “Terror da Terra” (2020), um disco que, segundo ele, é “sobre profecias em tampas de bueiro, bezerros pródigos, boleros da quebrada chilena, meteoritos mentais, cosmogonias pessoais, o sol dos loucos, a desincorporação da realidade, o ritmo das paixões, a fluidez material da alma, as flutuações plásticas da matéria e o vampirismo nosso de cada dia. Musicalmente, é um trabalho permeado por colagens sonoras, modulações rítmicas, drones, afinações não convencionais, melodias ancestrais e barulhos utópicos, violões aveludados e rasgados, guitarras ácidas, ritmos pulsantes, violinos rangentes, baterias eletrônicas, pianos de cabaré, e o canto ora aveludado, ora enlouquecido”.

Gravado durante dois anos no estúdio Lebuá, em São Paulo, com produção do próprio Gabriel Edé e coprodução de Ivan Gomes (produtor e multi instrumentista que esteve presente em obras como “Folhuda”, de Juliana Perdigão; “Abacaxepa”, da banda Abacaxepa; “Bolerinho”, da banda Bolerinho, e “Satélite Perdido”, de Gustavo Galo e Peri Pane, entre outros), o álbum possui nove faixas autorais que “trazem muito das influências e pesquisas que têm sido desenvolvidas ao longo dos anos, com canções de quase 10 anos atrás e outras de um passado mais recente”. Artistas como Negro Leo, Rafael Montorfano (Chicão), Mike Watson (da Sun Ra Arkestra EUA), Vitor Wutzki, Marina Bastos, Juliano Veríssimo, Lucas Rodrigues, Bruno Trochmann e Remi Chatain participaram do processo gravando faixas.

Gabriel largou Ciências Sociais na USP para ingressar, em 2011, em Música na UNICAMP. Em 2014 cocriou o TUDOS, um selo de artes experimentais que visava ir além da universidade ao criar um ambiente de trabalho conjunto entre estudantes e artistas de diversas áreas, desenvolvendo trabalhos experimentais no centro da cidade de Campinas. Desde então, o TUDOS produziu mais de 30 eventos em Campinas e São Paulo, ocupando espaços diversos, lançando 12 álbuns, além de ter sido contemplado pelo Edital Aluno-Artista, em 2015. O selo recebeu ainda alguns artistas de fora, como Maurício Takara e Jozef van Wissem (Holanda). Edé integrou a banda de punk noise experimental Denominadores Incomuns, o grupo indie piscodélico BIN BERI BAN, e formou com Vitor Wutzki e Waldomiro Mugrelise a Orquestra de Ímãs de Geladeira. Agora chega em “Terror da Terra“, que ele comenta, faixa a faixa, abaixo!

01) Terror da Terra – A canção iniciática que estabelece o cenário para esta queda de paraquedas num mar de sombras e espelhos. É um caminho por cenas proféticas, hipnóticas e alucinatórias. Da arqueologia de cristos debruçados no asfalto ao uivo de deuses adormecidos na boca dos animais. E no desencontro profundo, na solidão extrema, o despertar da loucura, a conversa com o inanimado que depois, na consumação da loucura, sofre uma inversão de papéis entre os interlocutores: o inanimado toma voz e o pensante cala-se.

02) Baby Blues – O que à primeira vista se apresenta como uma canção de amor, remetendo no refrão ao “baby, baby” na canção americana, refere-se aqui também ao sentido clínico da tristeza pós-parto: Baby blues é um blues do “bebê”. Nessa persistente ambiguidade, a canção traz uma reflexão sobre a maternidade e a filiação, através de uma perspectiva não da mãe, mas do “nascido”: da criança ao adulto. O que seduz e embala numa embalagem pop e pseudo-amorosa carrega o discurso crítico e cru da cria, do bebê: a palavra da prole.

03) Geia – Como um cérebro geleia, máquina recém acordada, que engendra, gira e gera, Geia apresenta o nascimento da consciência, a incorporação de si, como orientadora e reguladora da existência do mundo, da determinação do tempo e do nascimento de deus.

04) A Demência dos Touros – Quando li o poema, instaurou-se um cenário. Uma espécie de cabaré habitado por seres estranhos: heróis e vilões discutindo a retomada dos gestos ínfimos no ritmo das paixões. Surgia a sedução do canto e do corpo belo e deformado dançando boleros ancestrais. Nesse nascimento acelerado da canção, via um inferninho: o tempo condensado, o claustro do não-horizonte e o erotismo putrefato curvando-se ao culto da desmemória.

05) Astronauta – A conexão que te liga à nave-mãe, estação espacial, o cordão umbilical que se rompe e que te abandona, criatura-astronauta, assustado, solto e desprotegido à intempérie de meteoritos mentais. Qual o futuro possível? Onde pisar? Como é possível estar e ser? Como sobreviver no abismo da placenta sideral?

06) Quando os Deuses Adormecem – Um sonho, uma alucinação, uma jornada nas profundezas de si e nas delimitações e separações com o outro. É uma conversa de despedida, de término, de adeus e de recomeço e retomada dos caminhos individuais. É também um exercício de atomização existencial, um exercício de crueldade frente ao apocalipse, ao fim do mundo, ao fundo do ser. São asas abertas que cobrem a noite e o sono e abrem caminho para o tempo da comunhão dos corpos e da superação da solidão.

07) Sin Dios – Quem é deus? Uma iluminação cegante e febril, uma coroa que rege a órbita dos mundos, uma voz sísmica de trovão, uma lógica suprema e impecável? Não, não há deus na falsas imagens. Não há deus nos falsos ídolos. Não há deus nas buscas por deus.

08) Ao Cordeiro, Destino do Mundo – O fascismo submerso que emerge, desponta e crepita nos pontos cegos, sob os tapetes, nas paredes e em nossas mentes. A ameaça constante, o ar pesado, os olhares agudos: a violência latente. A paranoia que implode nas respirações e no sonambulismo: a máscara de ossos. As projeções, os cenários, os jogos armados, as garrafas quebradas, os sentidos aguçados e preparados para uma briga de bar: pai e filho contra gângsters e jogadores de pôquer no último entardecer da terra. Há momentos para recitar poesia e momentos para boxear.

09) Abismo – Sobre o abismo existencial e a necessidade inescapável de sair de si para tocar o outro. Um convite a penetrar nos infernos mirando os céus. Trágico, como se estivesse pendurado da boca do inferno. Romântico, como se o céu estivesse ao alcance da mão. Numa gangorra emotiva, espremido entre duas cordilheiras, na dualidade de signos: o singelo e o épico, a delicadeza e a violência, o particular e o universal.

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