Boteco: 10 New England IPAs nacionais

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de New England IPAs por São Paulo com uma receita que entorta deliciosamente o estilo, a Japas Shukurimu, uma cerveja que recebe adição de baunilha e matcha, “um chá verde especial feito a partir dos brotos de camellia sinensis moídos em moinho de pedra e usado em sobremesas como o Shukurimu, a versão japonesa do francês Choux Cream”. De coloração amarela, turva e juicy, com creme branco de boa formação e retenção, a Japas Shukurimu apresenta um aroma com baunilha em destaque, mas percepção suave de notas herbais em uma paleta em que predomina a doçura. Na boca, o primeiro toque traz doçura que, só na sequencia, se abre incrivelmente para baunilha até ganhar uma pegada herbal incrível, e ir alternando isso de maneira incrível. Há amargor, e ele é bem sutil, mas está aqui. A textura é suave, sedozinha. Dai pra frente, uma deliciosa sobremesa líquida com muita baunilha, herbal equilibrado e um amargozinho no final. No retrogosto, herbal, baunilha e amargor leve. Curti muito.

De São Paulo para o Rio de Janeiro com uma New England IPA da Carioca Brewing Co., a antiga e ótima 3 Cariocas, que ressurge com a New Normal, cuja receita destaca o uso dos lúpulos El Dorado, Mosaic, Citra e Galaxy. De coloração amarela, turva, juicy tal qual um suco de laranja, e creme branco espesso de ótima formação e retenção, a Carioca New Normal apresenta um aroma frutado tendendo ao cítrico (laranja, manga e leve grapefruit) com aceno discreto herbal. Na boca, doçura frutada no primeiro toque (laranja bem docinha) seguida de laranja, laranja e mais laranja, simplesmente deliciosas. O amargor é limpo e equilibrado, algo na casa dos 40 IBUs. Já os 6.8% de álcool dão um leve beliscadinha marcando presença. A textura, por sua vez, é suave e levemente picante. Dai pra frente, uma NEIPA quase redondinha, bem próxima de um exemplar gringo do estilo, e bastante deliciosa. No final, laranja e leve harsch. No retrogosto, amargor suave, suco de laranja e refrescancia.

De volta ao Rio de Janeiro com a Farra Bier, que marca presença com a Holi, uma New England IPA de coloração amarela, turva e juicy tal qual um suco de laranja. O creme é branco de média formação e boa retenção. No nariz, frutado cítrico em destaque com sugestões que remetem a manga, abacaxi, melão e suco de laranja com leve percepção condimentada. Na boca, uma boa replicação do aroma no primeiro toque com frutado cítrico marcante (manga se sobrepondo, mas deixando espaço para sugestão de abacaxi) e leve picância condimentada. Já o amargor, de 55 IBUs, soa comportado, respeitando o estilo (o que deve coloca-lo num IBU “real” de uns 35). A textura, por sua vez, é cremosa e picante. Dai pra frente, uma New England IPA que soa extremamente genérica: ela segue os dogmas do estilo, mas não soa tão saborosa quanto uma boa NE (como a anterior). O que não quer dizer, necessariamente, que ela não seja boa, mas sim que ela é apenas ok – o que para este baita estilo é muito pouco. No final, frutado cítrico e picância. No retrogosto, manga e abacaxi.

Retornando para São Paulo, mais precisamente para o bairro da Pompéia, com uma das duas cervejas da série Ultrafresca da Cervejaria Trilha (especializada em Juicy IPA), mês de julho, a Quartzo, cuja receita utiliza os lúpulos Sabro e Hull Melon. De coloração amarela, turva, juicy tal qual um suco de laranja, a Trilha Quartzo apresenta um aroma com bastante sugestão de coco, que se destaca, deixando ainda uma frestinha para doçura frutada. Na base, mais discreta, sugestões de tangerina e melão. Na boca, o primeiro toque é frutado levemente doce abrindo com sugestão de coco, leve herbal (hortelã), tangerina discreta e sorvete de creme. O amargor é baixo e a textura, suave com discreta picância. Dai pra frente, uma NE nível Trilha, caprichadíssima, mas com o bônus das derivações do lúpulo Sabro, que tornam essa receita ainda mais especial. No final, frutadinho cítrico e leve picância. No retrogosto, coco, tangerina e picância.

De São Paulo para Belo Horizonte com uma New England IPA da badalada Koala San Brew, a Now This, cuja receita valoriza os lúpulos Amarillo, Mosaic e Cashmere num duplo dry-hopping. De coloração amarela, turva e juicy tal qual um suco de laranja, e com creme branco espesso de formação e retenção perfeitos, a Koala San Brew Now This esbanja notas frutadas que remetem a maracujá bem doce, sem aquela pegada acida e extremamente cítrica da fruta. Na boca, frutas amarelas no primeiro toque (maracujá, mas também manga) abrindo para um perfil altamente frutado, levemente picando e quase nada amargo – aliás, surpreende como os caras conseguem domar de maneira excepcional os 8.4% de álcool, que não dão as caras de maneira alguma. A textura é suave e, dai pra frente, um suco de frutas amarelas com maracujá doce levemente em destaque, que desce maravilhosamente bem em uma NE nível internacional (aliás, ao lado da Koala, Trilha, Croma, Dogma e Bold fazem NEs melhores que o mercado estrangeiro – pata ficar num Top 5). No final, frutas amarelas e leve picância. No retrogosto, mousse de maracujá e frescor. Uou!

De Belo Horizonte para Curitiba com uma NEIPA produzida pela Way Beer para os associados do Clube do Malte dentro de uma série de quatro IPAs (as outras são English, Session e Double). Com lúpulos australianos e estadunidenses, a Underground New England IPA apresenta uma coloração amarela turva, juicy tal qual um suco de caju não tão denso. O creme é de boa formação e retenção, e no nariz, frutado cítrico agradável sugerindo abacaxi maduro, lichia e maracujá. Na boca, doçura frutada cítrica no primeiro toque (abacaxi em destaque) abrindo para um conjunto que equilibra cítrico, doçura e refrescancia. Os 45 IBUs anotados pela casa soam 25 e os 6.6% de álcool dão as caras aqui e ali, mão chegando a atrapalhar a experiência, mas deixando-se perceber de maneira indevida. A textura é cremosa e, dai pra frente, reforça-se a ideia de uma New England IPA que necessita de pequenos ajustes, mas está bastante agradável neste patamar, entregando um limãozinho no trecho final, que se encerra com leve harsch e doçura. No retrogosto, limão, abacaxi, lichia, doçura e refrescancia.

De Curitiba para Santos, ainda que a Everbrew produza suas cervejas comerciais na fábrica da Startup Brewing, em Itupeva, no interior de São Paulo, a Double Oceania integra a série de versões turbinadas dos rótulos consagrados da casa, e aqui utiliza apenas lúpulos australianos: Vic Secret, Galaxy, Motueka e Summer. De coloração amarela, bastante turva, com creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção, a Everbrew Double Oceania apresenta um aroma dominado por sugestão intensa de frutas amarelas (maracujá, manga, pêssego e laranja) deixando ainda perceber leve doçura e um tiquinho dos 8.8% de álcool. Na boca, perfeito replay do aroma com muito pêssego no primeiro toque seguido de manga, maracujá e abacaxi bem doce. Há, depois, uma pancada limpa de amargor (65 IBUs que não soam nada agressivos) e um discreto harsch. A textura é suave e levemente picante (de lúpulo e de álcool). Dai pra frente, uma Double NE exemplar, com álcool encoberto, muitas frutas, harsch leve e final amargo e frutado, com harsch marcante. No retrogosto, um tiquinho de harsch, maracujá e manga.

De Santos para a capital paulista, mais precisamente para o taproom da Cervejaria Dogma, no bairro de Santa Cecília, local onde foi produzida essa Sounds of The Future 1, uma Hazy IPA feita em colaboração com os clientes da cervejaria, que escolheram os lúpulos Nelson Sauvin, Citra e Galaxy. A levedura, exclusiva da marca, é a Dogma 017 The Heady. De coloração amarela, turva, juicy tal qual um suco de laranja, e com creme branco espesso e de excelente formação e retenção, a Dogma Sounds of The Future 1 apresenta um aroma frutado delicado, sugerindo maracujá, pêssego, laranja e manga. Na boca, o primeiro toque reforça a sensação de suco de frutas amarelas, com acréscimo sutil de uva verde na sequencia. O amargor é comportado, na casa dos 50 IBUs, e a textura, levemente suave. Dai pra frente, uma bela NE que distribui notas frutadas num conjunto que soa bastante refrescante. No final, amarguinho suave e uva. No retrogosto, mais uva verde, laranja, e pêssego.

De São Paulo para Matias Barbosa, em Minas Gerais, com uma das primeiras (Double) New England IPA produzidas no Brasil, ainda em 2017, a Vert Mont, da Antuérpia. Trata-se de uma cerveja amarela turva, juicy tal qual um suco de laranja, com creme branco espesso de formação excelente e longa retenção. No nariz, frutado intenso com maracujá no comando, mas também toranja, melão, laranja e manga.As notas herbais aparecem um pouco abaixo sugerindo pinho. Na base, sugestão discreta de biscoito. Na boca, uma pancada frutada no primeiro toque, que fica no meio do caminho entre maracujá e toranja. Na sequencia, doçura moderada, frutado, pinho bem leve e resina assertiva. Os 59 IBUs aparecem de maneira marcante, mas somem rapidamente. A textura, por sua vez, é suave, com picância e frutado. Dai pra frente, um suco de frutas intenso e levemente amargo que soa a transição (deliciosa) de uma Old IPA para uma New England IPA. No final, amargor, resina e toranja. No retrogosto, mais amargor, mais resina, mais toranja.

Retornando para o interior de São Paulo, desta vez para Piracicaba com o terceiro rótulo do projeto Dama LAB, da Cervejaria Dama: uma NE IPA que destaca os lúpulos Galaxy, Citra e El Dorado. Com cor amarela extremamente turva, juicy tal qual um suco concentrado de caju, e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Dama LAB NE IPA apresenta um aroma com sugestão intensa de frutas tropicais, combinando pêssego, laranja e, bem levemente, maracujá. Há um discreto herbal. Na boca, sugestão de pêssego no primeiro toque seguida de picância, frutado e um amargor levemente resinoso, que bate no céu da boca com média intensidade transformando a sensação de 30 IBUs em algo maior. A textura é suave e bastante picante. Dai pra frente, uma boa NE, mas que soa necessitar de ajustes (resinoso e picância provavelmente derivada da levedura incomodam). No final, pêssego, resinoso leve e picância. No retrogosto, mais resinoso leve, picância e pêssego.

Japas Shukurimu
– Produto: Pastry NE
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 4.07/5

Carioca New Normal
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3.60/5

Farra Bier Holi
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.01/5

Trilha Quartzo
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 4.06/5

Koala San Brew Now This
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.4%
– Nota: 4.05/5

Underground 2 – New England IPA
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.6%
– Nota: 3.42/5

Everbrew Double Oceania
– Produto: New England DIPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.8%
– Nota: 4.05/5

Dogma Sounds of The Future 1
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 4.00/5

Antuérpia Vert Mont
– Produto: Double New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.1%
– Nota: 3.97/5

Dama LAB NE IPA
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3.62/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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