Entrevista: Giovani Cidreira fala dos projetos com Josyara e Mahal Pita

entrevista por Renan Guerra

Giovani Cidreira é um artista em constante movimento, que parece ser transformado a cada nova experiência. Seu disco de estreia, “Japanese Food”, de 2017, era como uma fusão entre Clube da Esquina, indie rock e outras psicodelias. Já sua “Mix$Take”, de 2019, fluía entre o R&B, o pop e outras eletronices. Agora em 2020 ele apareceu em dois trabalhos bem distintos: o disco “Estreite”, ao lado de Josyara, e o EP “Mano*Mago”, ao lado de Mahal Pita.

“Estreite” foi construído em parceria com a baiana Josyara e foi lançado através do projeto Joia Ao Vivo, braço da gravadora Joia Moderna, que conta com curadoria de Marcio Debelian e DJ Zé Pedro, e que busca reunir jovens nomes da MPB em encontros autorais. Essa parceria traz “ecos da MPB anos 70 e tensionamentos que levam para o lado do rock” e foi lançada logo no início do período de isolamento social.

Já “Mano*Mago” foi lançado algum tempo depois, através do Selo Risco, e marca o encontro de Cidreira com outro conterrâneo, Mahal Pita, produtor musical ex-integrante da BaianaSystem e que agora se dedica a projetos próprios. Esse encontro parte de um cancioneiro popular brasileiro fundindo isso ao universo da música negra feita eletronicamente, como o hip hop e o trap, incorporando ainda ritmos baianos como o arrocha e o pagodão.

Giovani Cidreira está passando essa fase de isolamento social em Salvador e foi via Whatsapp que conversamos com o músico em um papo sobre criação artística, encontros criativos e estéticos. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Para começar, queria saber como você está nessa fase de quarentena? Onde você está passando, o que tem feito?
Eu já fui e já voltei, acho que todo mundo está passando por esses altos e baixos, na verdade, em que você está afastado das pessoas numa iminência de morte, vivendo num país com um governo completamente irresponsável. Você realmente se sente mal e eu já me senti mal várias vezes. Estou me exigindo muita força para continuar fazendo as coisas, acho que pra todo mundo. E nesse momento você também começa a pensar em se voltar para questões suas, se olhar no espelho, há mais tempo para isso, portanto agora estou trabalhando em algumas coisas que, de repente, com shows e as coisas de todo dia, talvez eu não prestasse tanta atenção. Estou aproveitando pra estudar bastante, tocar bastante, criar coisas. Estou fazendo aulas de dança, de performance, coisas assim. Trabalhando.

E nesse tempo de isolamento você acabou tendo dois lançamentos – “Mano*Mago” e “Estreite” –, coisas que já estavam preparadas anteriormente.
Sim, primeiro foi o “Estreite”, que lancei com Josyara. A gente estava com show marcado para o lançamento e bem na hora a coisa virou. E esse EP com Mahal eu já tinha preparado há algum tempo, só que a gente achava que a situação ia melhorar de alguma maneira, mas acabou não rolando. De todo modo, foram dois trabalhos que me deram também essa força, pois a resposta das pessoas foi bem legal.

E como foi para você essa produção junto da Josyara, pois vocês são conterrâneos e são de uma geração muito próxima, porém sonoramente vocês possuem universos bem distintos, digamos assim, ainda mais nesse momento em que você está indo para um lado mais eletrônico?
Acho que essa distinção se faz exatamente por uma busca minha de me arriscar, de estar sempre colocando a minha música em formatos que não tenho tanta experiência. Mas acho que minha música e a de Josy são bem parecidas no quesito de estrutura musical e de influências que a gente tem. E foi fácil gravar esse negócio com Josy, porque a gente se conhece há muito, muito tempo, várias coisas que escrevi e que fiz foram influenciadas por ela, tiveram participações dela e aposto também que as coisas que a gente viveu juntos influenciaram ela, então foi mais um reencontro. A gente sempre brincava que um dia iríamos fazer um disco um dia juntos, e fiquei muito feliz quando o Zé Pedro colocou meu nome na roda e deu essa oportunidade para a gente se encontrar de novo, colocar em prática até algumas coisas que a gente já vinha fazendo. O repertório foi escolhido assim: Josy tinha gravações, pois eu ia muito à casa dela e ela na minha e a gente ficava brincando de fazer música, e ela gravava tudo isso, então quando a gente foi fazer o repertório ela pegou essas gravações e já tinham algumas músicas ali praticamente prontas, precisavam só trabalhar um arranjo, algo com os instrumentos. E aí foi que Junix [11] entrou, ele foi o cara que trabalhou com Josy no primeiro disco dela, produziu e trabalhou no meu primeiro disco também, o “Japanese Food”, ele tocou baixo, todas as guitarras, enfim, me deu muita força naquele momento. E ele é um cara que consegue entender isso que você falou, essas distinções, mas ele também aproxima a gente, envolve, como um ponto de ligação.

E quando a gente fala da sua parceria com o Mahal e todos esses nomes que você citou antes, há uma confluência de uma nova geração da Bahia, de pessoas que – é algo que você já falou algumas vezes – estão produzindo uma música nova da Bahia, um novo olhar do estado. Como se deu esse seu encontro com o Mahal?
Então, sempre fui fã do Mahal, sempre fiquei ligado nos sons que ele fazia, no Baiana e tudo, mesmo antes do A.MA.SSA, o movimento que ele começou aqui. A gente sempre se encontrava nos estúdios, sempre se batia e toda vez que eu ia conversar com ele batia uma empatia muito forte, a gente falava pouco, mas isso reverberava no meu trabalho e sempre pensava nele, sentia de alguma maneira que a gente tinha essa ligação – que depois foi provada. O convidei assim como convido várias pessoas para fazer as coisas comigo, para pensar a música. Ele não quis mixar, falou que não era DJ e não sei o que, parece até que ele ficou chateado, mas ele pediu para eu mandar outra música, fiz uma coisa em casa, no teclado e enviei pra ele e fiquei muito surpreso com a direção que ele deu numa música que tinha um teclado e a voz. Ele trouxe Silvano Salles, que é um cantor de arrocha aqui de Salvador, me trouxe coisas que me fizeram pensar aqui em Salvador, Santo Amaro, nesses ritmos que ele traz, com tudo que está rolando, como pagotrap, enfim. E a conversa foi boa, a gente se identifica mesmo com uma coisa ancestral, uma coisa de outros tempos. Acho que o que me liga mesmo a essas parcerias que fiz recentemente é isso: esse encontro, um lance meio espiritual, a gente se sente muito confortável juntos.

Nesse novo EP fica bem clara essa mistura complexa de muitos ritmos, como você falou. Como foi produzir isso e fazer funcionar em um universo que é muito a cara de vocês dois, pois a gente ouve o EP e consegue perceber uma unidade, mesmo tendo esses caminhos abertos?
Essa falta de decidir necessariamente uma direção do que o som teria, sabe? O Mahal colocou as influências dele ali, isso está muito claro, e a gente trouxe Benke [Ferraz, co-produtor do EP] que tem uma característica bem marcante, um registro muito forte nas coisas que ele faz. E a minha viagem era exatamente essa: trazer esse negócio, mas não diametralmente colocar ele num lugar do som que as pessoas esperam, do som grave. A gente ficou mais ligado em fazer a música juntos assim, que é um negócio que eu aprendi muito com o Benke, a gente não estava realmente fazendo o EP, a gente estava se encontrando e gravando coisas, nesses processos bem caseiros.

Vocês estavam com a ideia de fazer shows também, eu imagino, e com tudo isso.
É, esse projeto com o Mahal, Mano*Mago, tem essa característica de que no começo a gente não pensou muito em algo, a gente pensou em single e tal, mas o principal a gente se encontrou, ensaiou junto, pensando nessa troca e o EP fazia parte desse material que a gente ia lançar depois dos shows, mas as coisas mudaram muito e acabamos aumentando o EP, trouxemos outras músicas, trabalhamos ele um pouquinho mais e lançamos.

E como você falou, nessa fase agora que você está parado, você tem trabalhado, mas ainda assim você é um artista independente, como você tem sentido o impacto disso, de não poder fazer shows, de não poder circular.
É bem caótico, porque é o que geralmente paga as minhas contas, nesse nível, pra mim é muito importante, e é um baque. Está sendo bem complicado, mas por outro lado, também acho que a gente está começando a se arrumar, têm rolado festivais, lives cada vez mais organizadas, então dá pra gente se virar ainda e fazer o show, produzir. Tem toda essa questão financeira, mas também tem de se pensar em estar fazendo o que você realmente gosta, eu estou sentindo muita falta do palco, mas a gente começa a construir outros palcos também, em casa, e vai à luta.

Eu acredito que você deve sentir uma falta por que, querendo ou não, a sua música se desenvolve e cresce de uma outra forma no palco.
Sim, isso é foda. Isso é pra além da gente estar no palco, o show também faz as pessoas ouvirem o disco. No show às vezes tem umas pessoas que nunca ouviram ou que ouviram pouco e passam a conhecer. Eu sinto isso nesse momento apenas de distribuição digital.

Falando das suas mudanças, você fez um caminho de mudar para SP, onde você fez outras parcerias, outros encontros e agora retornou para Salvador, como você se enxerga nessas andanças?
Pessoalmente hoje sinto que tenho mais orgulho de mim, hoje tenho muito mais orgulho da minha cor, de onde eu vim, acho que você vai crescendo e vai descobrindo que existe uma força do lugar de onde você veio. Existe um valor que ninguém vai dizer pra você.

Você acha que então muda muito a sua relação com Salvador, do que você trouxe de lá pra cá e o que trocou?
Depende, muita coisa muda. A música independente aqui de Salvador mudou muito, antes eu via vários artistas e é um pessoal que dependia muito da imprensa. E hoje a galera faz a coisa muito solta, muito livre, tem público, tem shows aqui em bairro da periferia que são lotados, eu sinto a cidade muito mais pulsante hoje na música. E isso me faz mais feliz do que há cinco anos atrás. E é legal saber que de repente algumas dessas pessoas que agora fazem música se influenciam pelo meu trabalho, assim como ainda existe essa troca com a galera que está começando a fazer música. E tudo muda né, o ano passa e quantas coisas não acontecem num ano, eu mudei duas vezes, várias mudanças familiares, é uma percepção de que as coisas vão mudando a todo momento.
Você falou também da divulgação do disco, uma das coisas que ficaram empacadas, foram as imagens de divulgação. E a sua imagem, a sua estética, também é uma coisa muito importante para você, ela está muito casada com a sua música, você percebe essa importância, como é isso pra você?
Na verdade acho que isso é tudo, tudo é bem visual, às vezes eu nem sei dizer explicar direito, mas a sensação da imagem diz muito pra mim, é como você colocar uma roupa. Colocar roupa pra mim não é exatamente você estar bonito, é você passar alguma mensagem, é você se posicionar, e quando eu vou fazer um disco, quando eu entro numa onda, está tudo relacionado, o personagem muda, eu acho. Existem métodos mesmo que a gente faz sem querer, eu acho que o meu lance é bem visual. Quando você muda o cabelo as pessoas falam, quer dizer, externamente existe uma mudança, só que pra existir isso você mudou muito internamente também. E isso faz parte pra mim tanto quanto explorar novos instrumentos, procurar novos timbres. Eu acho que é sempre esse sair de si, do que você está acostumado.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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