Boteco: 12 cervejas nacionais, 12 estilos

por Marcelo Costa

Iniciando mais uma série de cervejas nacionais por Jaguariúna, na região metropolitana de Campinas, local em que foi produzida esta Brahma Duplo Malte, aposta AmBev para fisgar uma fatia do público que está buscando cervejas com maior atração sensorial. O diferencial aqui é a combinação dos maltes Pilsner e Munich numa receita aparentemente sem adjuntos. De coloração dourada com creme branco de boa formação e retenção, a Brahma Duplo Malte apresenta um aroma com sugestão intensa de cereais assim que a lata é aberta. Ainda é possível perceber leve doçura maltada e discreta remissão a panificação. Na boca, doçura maltada no primeiro toque seguida de sugestões leves de pão, caramelo e cereais, com amargor baixíssimo. A textura é leve e, dai pra frente, segue-se o padrão de uma lager de massa que oferece um pouco mais que a versão tradicional da casa, mas que ainda fica atrás de exemplares nacionais (Skol Hops, Bohemia e Serra Malte) que estão atrás de gringos como a Heineken. Ou seja, não muda muita coisa. No final, doçura maltada. No retrogosto, doçura e refrescancia. Bem fraquinha.

A terceira é de Curitiba, no Paraná, a Ghost Brew Black Ghost, uma cerveja produzida pela Gauden Bier na Cervejaria Curitiba para o Clube do Malte. Trata-se de um Chocolate Porter com seis tipos de maltes e extrato natural de cacau. De coloração marrom escura com creme bege de boa formação e retenção, a Ghost Brew Black Ghost apresenta um aroma com cacau explosivo saltando pra fora da taça seguido de sugestão de biscoito num conjunto que remete a wafer de chocolate. Na boca, o chocolate chega antes no primeiro toque seguido de leve abiscoitado e, então, os dois se juntam trazendo a sensação de wafer de chocolate líquido. Os 35 IBUs desaparecem diante de tanta sugestão de chocolate (e numa recontagem pode até ser que o IBU seja negativo). Já a textura é suave e cremosa. Dai pra frente, uma agradável Waffe Porter com muita sugestão de chocolate e biscoito, e nenhum amargor. No final, waffe de chocolate. No retrogosto, chocolate. Eu não esperava muito, e ela me surpreendeu.

Mantendo-se ainda na capital paranaense com outra receita produzida na Cervejaria Curitiba, desta vez a Morada Saison do Cerrado, uma Farmhouse Ale que recebe adição de abobora, canela, cravo e pimenta Jamaica. De coloração dourada com creme branco de média formação e retenção, a Morada Saison do Cerrado apresenta um aroma bastante perfumado, com sugestões de banana, abóbora e cravo em destaque, mas ainda deixando perceber leve doçura caramelada e, ainda, canela. Na boca, frutado puxado para banana no primeiro toque (trazido pelo uso de levedura Weiss) seguido de sutil percepção de abóbora, doçura caramelada, cravo e canela. Há pouca acidez e a textura é levemente cremosa. Dai pra frente, uma Saison que pode ser muitas outras coisas, menos Saison. É ruim? Não. É até bem gostosinha. Só não é Saison. No final, banana e cravo. No retrogosto, mais banana, cravo e canela, suaves.

De Curitiba para Ribeirão Preto, casa da Cervejaria Invicta, que produz a receita desenvolvida pela turma d’As Velhas Virgens para a APA Charlie Brown Jr., uma cerveja de coloração dourada e creme branco de boa formação e retenção. No nariz, combinação de notas cítricas e herbais tendendo suavemente ao primeiro com sugestões suaves de abacaxi e laranja sobre uma base discreta de mel. Na boca, doçura de mel de laranjeira no primeiro toque abrindo com leve sugestão cítrica e quase nada de herbal. O amargor é baixinho, 30 IBUs que mais parecem 20. Já a textura traz discreta suavidade. Dai pra frente, um conjunto bastante simples, e eficiente, que não parece casar tão bem com a banda de Chorão, mas funciona se o quesito for refrescancia. No final, amarguinho discreto e mel. No retrogosto, mel e laranja.

De Ribeirão Preto para o Rio de Janeiro com uma Catharina Sour da Brewlab que recebe adição de morango, amora e framboesa e atende pelo nome de Triple Berry. De coloração avermelhada pálida com creme branco de baixa formação e retenção, a Brewlab Triple Berry apresenta um aroma bastante fruta, com as frutas vermelhas saltando pra fora da lata assim que ela é aberta – morango no comando. Há percepção de acidez e leve mineral. Na boca, frutas vermelhas no primeiro toque (leve acento de framboesa) seguida de mais frutado (morango e framboesa, amora pouco perceptível), secura e acidez moderadas, mas interessantes. Não há amargor (a pega do estilo é acidez) e a textura é levemente efervescente. Dai pra frente, uma Catharina Sour que é um delicioso suquinho de frutas vermelhas com acidez leve e deliciosa. No final, morango e framboesa e acidez, sensações que seguem no retrogosto.

Do Rio de Janeiro para Nova Lima, em Minas Gerais, com a Sátira Extra Stout, uma cerveja maturada por cinco meses em barricas de carvalho. De coloração marrom escura, quase preta, com creme bege de bela formação, espessa, de longa duração. No nariz, leve azedume (que não deveria estar aqui) salta à frente e se destaca, mas ainda dá espaço para leves notas derivadas de torrefação e de madeira. Na boca, leve doçura no primeiro toque seguida no microssegundo seguinte pela percepção acética, que segue o perfil suave adiantado pelo aroma, e atropela derivação de torra e sugestão de madeira, praticamente imperceptíveis aqui. O amargor (64 IBUs) também perde espaço diante do azedume. Já a textura é cremosa, levemente picante e com toques suaves de avinagrado. Dai pra frente, uma Extra Stout contaminada que, para o meu gosto, está bem interessante, ainda que contaminada. No final, azedume moderado e leve percepção de torrefação. No retrogosto, mais azedume e torrefação. Curti, mas essa não deveria ser a proposta que eles buscavam oferecer.

De Minas Gerais para Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, com a primeira cerveja da carioca Backbone a passar por aqui, uma exclusiva feita especialmente para o clube The Beer Planet, a #X-03 Galaxy West Coast IPA, uma cerveja de coloração âmbar acobreada com creme branco de ótima formação e retenção. No aroma, uma combinação delicada de doçura caramelada com frutas tropicais e leve percepção de resina. Na boca, doçura caramelada comportada no primeiro toque abrindo quase que no microssegundo seguinte com uma junção de pegada herbal e cítrica acompanhadas de resina suave, que o amargor, médio, 46 IBUs bem inseridos, que conseguem domar a doçura e equilibrar a contenda. A textura é leve com discreta picância. Dai pra frente, uma West Coast IPA comportada, com caramelo e frutado atraindo a atenção do bebedor, e leve herbal provocando o paladar acompanhado de resina. No final, caramelo e amargozinho. No retrogosto, resina suave, caramelo e herbal.

Do Rio Grande do Sul para o bairro da Pompéia, em São Paulo, com a segunda do clube Ultrafresco do pacote do abril da Trilha Cervejaria, a Terapia Juicy, uma New England IPA de coloração amarela, turva, juicy tal qual um suco de laranja exprimido na hora (3), com creme branco de boa formação e retenção. No aroma, herbal à frente, o que faz imaginar um chazinho de ervas para acalmar o bebedor nesses dias difíceis. Há, ainda, sugestão de anis, de damasco, de leve frutado cítrico e de doçura. Na boca, o herbal continua dando as cartas com a ideia de chazinho abrindo caminho para um conjunto que reforça a ideia de anis, damasco e de doçura, com frutado cítrico quase imperceptível. Das três Juicy IPAs até agora essa é a mais amarguinha, mas, ainda assim, bem suave. A textura é leve desejando ser suave – a menos cremosa das três Juicys, e com picância marcante. Dai pra frente, uma New England IPA provocante, aparentemente no meio do caminho entre as duas primeiras e a terceira – e a melhor das quatro. No final, herbal e amargorzinho. No retrogosto, chazinho, damasco e amargor leve. Bem boa!

Ainda na capital paulista, mas saindo do bairro da Pompeia para o bairro de Moema, com um novíssimo brewpub abrindo as portas na capital paulista, a SOMA Cervejaria, com 14 torneiras e produção própria. Aqui eles marcam presença com a Fruited Berliner Weisse da casa, que recebe adição de polpa de pêssego. Que coloração amarela levemente dourada e turva com creme branco de baixa formação e retenção, marcas do estilo berlinense, a SOMA Fruited Berliner Weisse exibe um aroma que esbanja pêssego sobre uma base delicadamente maltada, que remete a cereais. Há, ainda, percepção discreta de acidez. Na boca, acidez leve no primeiro toque, que aumenta a pegada consideravelmente na sequencia, até ser amaciada pelo pêssego, muito bem inserido. A acidez é média, e, felizmente, mais pegada do que nas kettle sour suquinho que circulam por ai: aqui você sente a acidez e também sente a fruta. A textura é levemente frisante. Dai pra frente, uma Fruit Berliner redondinha, ácida e frutada. No final, adstringência suave e pêssego, sensações que retornam no retrogosto.

Saindo de São Paulo de volta a Curitiba com mais uma cerveja da Bodebrown a passar por aqui, dessa vez a Gol de Bicicleta, uma Kölsch criada pela New Belgium (EUA) para celebrar a Copa do Mundo de 2018 e feita em colaboração com Baird (Japão), Devil’s Peak (África do Sul), Adnams (Inglaterra), Bodebrown (Brasil) e Primus (México). De coloração âmbar amarelada, diferente das tradicionais kolsch alemãs, geralmente douradas, e com creme branco de boa formação e retenção, a Bodebrown Gol de Bicicleta apresenta um aroma frutado, com sugestão de maçã e pera além da presença suave de camomila e capim-limão, adicionados na receita. Na boca, camomila suave no primeiro toque seguida de sugestão frutada leve, que reafirma notas que remetem a pera e maçã. Há, ainda, doçura de mel em um conjunto quase nada amargo (12 IBUs). A textura é leve e, dai pra frente, uma Kölsch bastante herbal, mas que descaracteriza a leveza proposta pelo estilo alemão. É interessante, mas é uma Kölsch abrasileirada. No final, camomila e pera. No retrogosto, mel, camomila, maçã, pera e frescor adocicado.

De Curitiba para Salvador com uma colab entre a cervejaria baiana Mindubier e o clube cervejeiro paulistano The Beer Planet, que produziram a receita dessa The Beer Peanut, uma Belgian Tripel com amendoim e açúcar de cana exclusiva para os assinantes do clube no mês de junho, pensando nas festas juninas. De coloração dourada levemente turva com creme branco espesso de ótima formação e retenção, a The Beer Peanut apresenta um aroma com bastante amendoim em destaque sobre uma base levemente frutada com remissão, ainda, a frutas cristalizadas. Na boca, o amendoim aparece já no primeiro toque, mas sem a mesma intensidade do aroma, abrindo as portas para um conjunto que traz sugestão de frutas cristalizadas, pêssego em calda suave e leve picância alcóolica (8.9%). Os 30 IBUs de amargor nem aparecem no conjunto, dominado por doçura, álcool e amendoim. Já a textura é suave com discreta percepção de álcool sobre a língua. Dai pra frente, uma interessa Belgian Tripel que não perde tanto suas características mesmo com a adição do amendoim, que aparece bastante no conjunto. No final, amendoim e leve álcool. No retrogosto, picância alcoólica, frutas cristalizadas e amendoim.

De Salvador para Itupeva, no interior de São Paulo, com a UX Brew Nuts!!!, uma Russian Imperial Stout com 40 quilos de macadamia e dois tipos de baunilha. De coloração marrom extremamente escura, praticamente preta, com creme bege espesso de média formação e rápida dispersão, a UX Brew Nuts!!! apresenta um aroma com predomínio de sugestão de chocolate amargo, leve sensação de baunilha e também de macadamia – assim que aquece, a paleta aromática fica mais perceptível tanto quanto os 9,3% de álcool, que tiram as asinhas pra fora. Na boca, o chocolate dá espaço para baunilha, e os dois chegam juntos no primeiro toque. A macadamia, por sua vez, parece que foi esquecida fora da panela, de tão sutil que surge no conjunto, representando muito mais pelo chocolate amargo, pelo calor alcoólico e por um amargor marcante. A textura é sedosa, quase uma calda de chocolate amargo acrescida de picância alcoólica (sobre a língua, a macadamia marca mais presença). Dai pra frente, uma boa RIS, mas eu esperava mais macadamia e mais baunilha (que aparece mesmo quando a cerveja aquece) – está tudo diluído no conjunto. No final, baunilha e chocolate amargo, sensações que retornam no retrogosto.

Brahma Duplo Malte
– Produto: Premium American Lager
– Nacionalidade: Jaguariúna, SP
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 2.21/5

Ghost Brew Black Ghost
– Produto: Chocolate Porter
– Nacionalidade: Curitiba, PR
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3.32/5

Morada Saison do Cerrado
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Curitiba, PR
– Graduação alcoólica: 5.6%
– Nota: 3.32/5

APA Charlie Brown Jr.
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Ribeirão Preto, SP
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3.10/5

Brewlab Triple Berry
– Produto: Catharina Sour
– Nacionalidade: Rio de Janeiro, RJ
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.35/5

Sátira Extra Stout
– Produto: Extra Stout Barrel Aged
– Nacionalidade: Nova Lima, MG
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: —-/5

Backbone #X-03 Galaxy West Coast IPA
– Produto: West Coast IPA
– Nacionalidade: Bento Gonçalves, RJ
– Graduação alcoólica: 5.6%
– Nota: 3.30/5

Trilha Terapia Juicy
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: São Paulo, SP
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3.94/5

SOMA American Sour Pêssego
– Produto: Berliner Weisse
– Nacionalidade: São Paulo, SP
– Graduação alcoólica: 3.6%
– Nota: 3.40/5

Bodebrown Gol de Bicicleta
– Produto: Kölsch
– Nacionalidade: Curitiba, PR
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3.29/5

The Beer Peanut
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Salvador, BA
– Graduação alcoólica: 8.9%
– Nota: 3.30/5

UX Brew Nuts!!!
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Itupeva, SP
– Graduação alcoólica: 9.3%
– Nota: 3.44/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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