Entrevista: Jim Ruland, autor da biografia do Bad Religion

entrevista por Bruno Lisboa

Em sua apresentação em seu site oficial, o escritor Jim Ruland é descrito como “um ávido entusiasta do punk rock, da cultura da tatuagem e de café forte”. Do primeiro grupo inclui-se desde colaborações com zines importantes como o lendário Flipside (que circulou entre 1977 e 2000) e, atualmente, o famoso Razorcake, até a biografias de bandas badaladas no cenário alternativo.

Sua primeira imersão no universo das biografias musicais foi em 2016 com “My Damage”, livro escrito em parceria com Keith Morris, membro fundador da Black Flag, Circle Jerks e OFF!. Agora, neste mês de agosto, ele lança na gringa “Do What You Want”, livro em que conta a trajetória de umas das bandas mais relevantes da história do punk/hardcore mundial: o Bad Religion.

Escrito em parceria com o grupo surgido em Los Angeles em 1980, ou seja, que completa 40 anos de bons serviços prestados a causa punk neste sombrio 2020, “Do What You Want” é fruto de dois anos de pesquisas e ganhará uma edição nacional ainda neste segundo semestre, em data a ser definida pela Highlight Sounds, responsável pela publicação no Brasil.

Além de biografias, Jim também escreve ficção (seu romance “Forest of Fortune” foi premiado em 2015 na San Diego Book Awards como Best Contemporary Fiction) e colabora com resenhas de livros e perfis para o jornal Los Angeles Times e a Los Angeles Review of Books e já escreveu para The Believer, Electric Literature, Esquire, Granta, Hobart e Oxford American, entre outros.

Na conversa baixo, Jim relembra como começou sua relação com o punk rock (spoiler: o Ramones está envolvido), os desafios da escrita, o trabalho ao lado de Keith Morris, o mercado de publicações independentes nos EUA, o processo de criação de “Do What You Want”, o movimento punk de ontem e o de hoje, a importância das canções do Bad Religion em tempos de conservadorismo, a música brasileira, planos futuros e muito mais.

Antes de tudo, como você está nesta pandemia?
Obrigado por perguntar! Eu estou indo bem. Minha esposa trabalha na educação e nós dois estamos nos acostumando a trabalhar em casa. Nossas famílias estão saudáveis, seguras e esperamos que continue assim.

Como fã de punk rock, quando você teve contato com o gênero? E como isso mudou sua vida?
Fui ver os Ramones com meu irmão mais novo em Washington, D.C., quando eu tinha 15 anos de idade. Minha mãe nos levou para o show, por mais incrível que isto possa parecer. Eu realmente não fazia idéia do que era o punk rock até aquele show. Acho que comecei com o disco “Leave Home” (1977) e depois com “End of the Century” (1980), que é basicamente um disco de rock and roll. A partir daí fui em direção às coisas mais rápidas. Alistei-me na Marinha quando tinha 18 anos e fui colocado em um navio em San Diego, Califórnia, e foi aí que minha educação musical começou com seriedade.

Você é um escritor que atua tanto do lado da ficção quanto do lado da não ficção. Quais são os maiores desafios do trabalho nestas esferas?
Esta não é realmente uma resposta fácil, mas tudo envolve gestão do tempo. Escrever não-ficção se relaciona a todo tipo de trabalho extra sobre como criar, conduzir e transcrever entrevistas. Além disso, há a pesquisa e todo o tempo que você gasta adquirindo materiais até descobrir o que é útil. Você pode dedicar muito tempo a um projeto e, ao final do dia, não ter palavras na página. Às vezes você passa dias assim e acaba por atrasar o que precisa entregar. Com ficção, pelo menos para mim, o maior desafio é perceber que o que pode ser certo para um projeto, pode não ser o certo para o próximo. Tenho lido muito Roberto Bolaño e escrito histórias à mão. Isso parece estar funcionando muito bem para mim neste momento.

Gostei muito da biografia com o Keith Morris, a “My Damage”. É sem dúvida uma das biografias mais honestas que já li. Como foi o processo de escrita?
Obrigado! Keith é um ótimo contador de histórias e tem uma voz muito distinta. Ninguém soa como Keith. Isso é tão verdadeiro tanto na página quanto no palco. Então era uma questão de sentar com Keith, ouvir suas histórias e garantir que eu mantivesse tudo correto. Fizemos uma tonelada de entrevistas cara a cara juntos. Em um dia típico, eu o encontrava para um café da manhã ou almoço tardio, pegava um pouco de cafeína, andava até o apartamento dele em Los Feliz e ouvia Keith contar histórias por algumas horas. Foi um grande privilégio trabalhar com ele, conhecê-lo tão bem quanto eu. Estou realmente feliz por termos continuado amigos. Ele realmente é o melhor.

Você também escreve para o zine Razorcake sobre música e cultura pop. Como nós na Scream & Yell, a Razorcake é uma publicação independente e sem fins lucrativos. Quão importante é seguir esse formato? E ainda: qual o papel da mídia independente nos EUA?
Até onde eu sei, Razorcake é a única revista de música independente sem fins lucrativos da América. E é também um dos mais antigos zines do punk rock impressos (fundado em 2001 e ainda em atividade). Existem tão poucas publicações que cobrem o punk rock com a profundidade e a amplitude como a Razorcake faz e isto é realmente importante. As publicações que pertencem a empresas estão constantemente buscando cliques e visualizações para gerar dinheiro a partir de anúncios. A Razorcake nunca foi assim e nunca será. Eu acho que isto é crucial, porque aqui nos Estados Unidos as empresas de mídia conservadora compram jornais e revistas independentes e as liquidam. Esse é um grande problema e uma das razões pelas quais as pessoas recorrem à Internet para obter notícias, tornando-as mais suscetíveis à desinformação e mentiras.

Assim como em “My Damage”, para poder escrever a biografia de Bad Religion (“Do What You Want”), você esteve com a banda por um bom tempo. Como foi a experiência de estar com eles? De que forma a banda contribuiu para o resultado final?
O livro é a história da banda contada com suas próprias palavras, de forma livre e organizada. A narrativa é focada no olhar deles. Fiquei muito intimidado no começo. Como você conta uma história que começou há 40 anos e continua até os dias de hoje? Sentei-me com Greg, Brett, Jay e Brian inúmeras vezes ao longo de um período de dois anos, coletando mais de 200.000 palavras de entrevistas. Como os membros da banda vivem por todo o país, o melhor momento para entrevistá-los foi quando todos estavam juntos para ensaiar, fazer um show ou gravar seu novo álbum. Então tive a sorte de acompanhá-los em algumas breves ocasiões (nota do editor: o primeiro vídeo no fim do texto foi filmado por Jim durante um show do Bad Religion no México). Originalmente, eu pensava que meu papel era ser um historiador objetivo, mas eles me pediram para escrever o livro como um zine, o que me faz ficar ainda mais feliz em fazer!

O movimento punk nasceu nos anos 70 sob os ideais libertários da bricolage e da crítica social. Desde então, a cena passou por várias transformações. Como você vê a cena hoje? Você acredita que os ideais e promessas de outrora foram alcançados?
Eu acho que o punk tem uma relação crucial com a região em que ele nasce e é sempre um produto das forças que o moldam. Portanto, o punk em Londres em 1977 é muito diferente do punk em Washington DC em 1980. Forças diferentes, sons diferentes, ideais diferentes. Como movimento artístico, está em constante evolução. Em termos de moda, não tanto. Todas as antigas marcas foram cooptadas e comoditizadas. Mas acho que o punk está vivo e bem no underground que é, provavelmente, o local onde ele pertence.

Hoje, o mundo está passando por uma onda conservadora de extrema direita, com governos desastrosos que afetam diretamente as populações mais pobres. Por sua vez, as músicas de Bad Religion sempre soaram para mim como hinos em oposição aos regimes neoliberais e ao autoritarismo. Você também acredita que as músicas da banda podem guiar debates voltados para a construção de uma nova realidade?
Você está absolutamente certo sobre isso. Eles sempre foram contra o autoritarismo. Eles sempre rejeitaram o dogma. Eles estão conversando com seus fãs há 40 anos. Eu acredito que Bad Religion está construindo uma nova realidade para cada novo fã, porque alguém que se dedica a entender as palavras de uma música de Bad Religion é alguém que está envolvido em um pensamento crítico. Mesmo que essa pessoa discorde da mensagem ou decida que não gosta da música, será menos provável que seja vítima da propaganda que vê na TV ou na Internet. Eu definitivamente acredito que o Bad Religion está mudando o mundo, mesmo que de forma gradativa.

A banda tem uma história intrínseca com o Brasil, já que tocou aqui dezenas de vezes para milhares de pessoas. Para você: qual é o segredo do sucesso e da longevidade da banda?
Acho que grande parte do apelo mundial do Bad Religion se deve ao que estávamos falando. O Bad Religion tem se posicionado desde que o conservadorismo cristão entrou no mercado aqui nos Estados Unidos. Eles tinham a mesma idade das crianças que protestavam nas ruas das cidades norte-americanas e mantêm esse pensamento a muito tempo. Eu acho que também ajuda o fato de que todos da banda sejam pessoas extremamente inteligentes, o que é óbvio desde o início.

O cenário punk brasileiro também tem uma longa trajetória que dura até hoje. Você conhece alguma banda aqui?
Quando soube que o Bad Religion tocou com o White Frogs (banda de hardcore santista) durante uma de suas primeiras visitas ao Brasil e que a banda havia gravado um cover de “You Are The Government” (do Bad Religion), eu procurei e escutei. Amei o grupo! Desde então, escuto o “Choices Made 93-98” várias vezes e realmente gosto do álbum. A minha esposa, embora não seja punk, é uma grande fã de Karol Conka.

Para concluir: sei que produzir ou criar algo na pandemia tem sido difícil para muitos, mas li que você está escrevendo um novo livro e escrevendo um roteiro para um documentário sobre Keith Morris. Como andam estes projetos?
Tem sido difícil não poder ver música ao vivo, mas tem sido muito mais difícil para os músicos, os negócios locais e as pessoas cujos meios de subsistência dependem da música. Tenho muita sorte de poder fazer o que faço, pois fiquei em casa e me concentrei no meu novo livro. O roteiro foi escrito e agora está nas mãos do nosso amigo Paul Rachman. Ele dirigiu o documentário “American Hardcore” e é um dos cofundadores do Slamdance Film Festival. Infelizmente, Hollywood foi paralisada pela pandemia, por isso estamos fazendo o que todo mundo está fazendo: esperando e esperando o melhor.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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