Entrevista: thrashers do Warbringer lançam 6º álbum

entrevista por Homero Pivotto Jr.

A humanidade já testemunhou inúmeros conflitos armados. Alguns geograficamente pontuais, outros de alcance mundial. Isso sem falar na guerra fria que deixou o planeta em constante alerta por quase metade do século passado. Atualmente, com a tecnologia que nos é ofertada, esses confrontos não são mantidos apenas com pólvora e sangue. Existe uma disputa híbrida, no campo virtual e real, por hegemonia — seja econômica ou política. Um enfrentamento de narrativas, com a missão de conquistar novos territórios para explorar, que se junta às trincheiras onde há gente com tanques e metralhadoras. O arsenal de agora também faz expediente da manipulação, da espionagem on-line, do uso de dados em massa. É um bombardeio psicológico que não deixa praticamente ninguém no globo fora da mira. Somos todos alvos fácies. E o futuro incerto pode nos deixar ainda mais vulneráveis.

É nesse contexto que os thrashers estadunidenses do Warbringer lançam seu sexto álbum de estúdio, “Weapons of Tomorrow” (abril de 2020). Na vanguarda do gênero, o grupo tem como linha de frente a lírica estilo contação de histórias. São 10 petardos em forma de música que apresentam um conceito independente cada uma. Porém, a pontaria da obra em sentido mais amplo tem direção definida: explorar como recursos modernos colocam o ser humano em perigo mais do que facilitam nossas vidas. Em meio à batalha contra esse inimigo invisível que é o coronavírus, trocamos uma ideia com o vocalista John Kevill por e-mail. Entre os temas da entrevista que segue, estão rótulos musicais, thrash metal e a contenda sem fim em busca de poder na qual estamos aprisionados. Fique atento, as armadilhas estão por toda a parte! E as armas do amanhã são forjadas hoje.

Quais diferenças o Warbringer apresenta no novo disco “Weapons of Tomorrow” se comparado com os anteriores?
Basicamente, o novo álbum é uma extensão adicional do nosso som até aqui. Continuamos a explorar a fusão entre o thrash clássico e outros estilos extremos com um monte de diferentes experimentos no meio. A ideia é criar alguma forma moderna de thrash extremo de um jeito que ainda não exista.

Hoje em dia é quase impossível classificar bandas em apenas um estilo, pois o som de cada grupo carrega em si elementos de gêneros distintos. Com vocês não é diferente. Porém, o Warbringer é rotulado como thrash. Sentem-se confortáveis com isso?
Sim. Gêneros são apenas ferramentas para categorização. Mesmo um play de thrash clássico como “Master of Puppets” (1986) tem faixas que são diferentes entre si, como “Sanitarium” ou “The Thing That Should Not Be”. Essas músicas são mesmo “thrash”? Não mesmo, em minha opinião (sem batidas do estilo ou quebradas no meio), mas ainda continuam sendo metal e isso é excelente. Claro, a obra como um todo é mais thrash do que qualquer outra definição. Para mim, estilos são um conjunto variável de características e, acima de tudo, um sentimento. O Warbringer é rápido e agressivo, guiado pelos riffs. Então, acho que thrash é a melhor descrição para o que fazemos. Que há mais referências do que apenas isso deveria ser óbvio para quem nos ouviu por mais de cinco minutos na vida.

Guerras — sejam nucleares, tecnológicas ou de narrativas — costumam ser inspiração para bandas de música pesada. E parecem ser uma constante, principalmente, entre nomes do thrash. Concorda?
Bem, as bandas de metal não criaram esses tipos de conflitos. Foi a estrutura global do poder que o fez. Quando examinamos toda a ordem internacional do século XXI percebe-se que ela é sustentada por uma enorme força militar. Em algum nível, a ordem é mantida por ameaças de força. Gostamos de fingir que isso não é o caso em boa parte dos países de “primeiro mundo” atualmente, desde que nossas vidas estejam completamente afastadas desse fato. Mas é a verdade. Penso que a conexão com o thrash em particular tem a ver com o lance dos riffs e da bateria, que parecem metralhadoras. É o som perfeito para acompanhar os temas.

Apesar de cada faixa do álbum ter seu próprio conceito, o tema principal da obra como um todo é a tecnologia colocando em risco a humanidade em vez de nos ajudar. Como a narrativa se desenvolveu?
Acho que a automação, a manipulação social via mídias sociais de massa (vide Cambridge Analytica), os dados pessoais em grande escala, o reconhecimento facial… tudo isso são ferramentas disponibilizadas para criar um futuro sombrio. E isso não tem nada a ver com uma guerra cinética (armas, tanques, mísseis etc). Tenho a sensação de que qualquer um que tenha vivido parte do século XXI até aqui consegue enxergar isso fácil e claramente. As máquinas estão ficando extremamente boas no que fazem. E isso tem implicações assustadoras para os humanos fracos, ineficientes e feitos de carne que as criaram.

Quais você considera serem “as armas do amanhã” e como evitar ser atingido por elas?
Como mencionei na questão anterior, as coisas não precisam ser “armas” em si para servirem como tal. O crescimento da manipulação de massa e o deslocamento na força de trabalho causado por ela não vão atingir ou matar ninguém diretamente. Mas certamente é algo destrutivo para milhões de pessoas e suas vidas. Existe uma guerra política, econômica e de informação, além de um crescente conflito de poder no mundo ao mesmo tempo em que a hegemonia do pós-guerra recua. A situação geopolítica daqui para frente será menos estável do que estávamos acostumados antes de 2020. É preciso lembrar-se das palavras de Clausewitz (militar da Prússia especialista em estratégias de batalha e autor de diversos livros sobre guerra): “Guerra é política por outros meios”. A guerra cinética com tiros é a fase final. Receio, basicamente, que a humanidade vai esquecer as horríveis lições das guerras mundiais e, assim, algum evento “faísca” que ainda não podemos prever ficará fora de controle. O melhor que podemos fazer, penso, é tentar aprimorar nossas lideranças dentro de cada país. Falando como americano, o governo atual parece não conseguir resolver os desafios que temos pela frente. Falta algo, como uma estratégia coerente.

Existe um ponto interessante sobre a parte lírica de “Weapons of Tomorrow”, que é no estilo contação de história. Algo que não é comum para o gênero. Por que explorar esse tipo de narrativa? Houve alguma inspiração pontual ou artista que despertou seu interesse para esse formato?
A gente tenta se manter à parte da cena thrash de algumas maneiras. E isso é como resolvi usar o estilo lírico para tal fim. Penso que é só um desejo pessoal de levar minha escrita até onde conseguir. Vejo como uma maneira de desenvolver com mais poder e significado temas pelos quais comecei a banda. Costumo falar sobre questões gerais, a humanidade vista de uma maneira muito coletiva e acumulativa, o que é natural se alguém está pensando em poder, guerra e geopolítica. Só que para tornar essa perspectiva empolgante ou interessante, preciso criar visões de um indivíduo dentro disso. Então, acho que o estilo narrativo é uma ferramenta para personalizar grandes forças impessoais e fazer o ouvinte se conectar com esses temas.

Vivemos tempos de guerra contra um inimigo invisível que é o coronavírus. Como acredita que nós, pessoas normais, podemos combater essa praga? E, em sua opinião, como essa batalha vai afetar a indústria da música?
É uma questão que não tenho como responder. Seria o coronavírus uma “arma do amanhã?”. Não tenho ideia de o que fazer sobre a pandemia. É a primeira e única que vivenciei, e ela tem um impacto gigante no mundo todo. Desejo que todos estejam saudáveis, a salvos e, principalmente, que sua segurança básica na vida não esteja ameaçada. Aliás, esse não é o caso. Quando se considera todos os efeitos colaterais, sem falar no número de pessoas que realmente sofreram ou morreram, temos claramente uma enorme crise. Em termos de banda, realmente é um saco não poder excursionar e tocar ao vivo para todos os fãs de música. Não sou profeta e nem posso dizer quais efeitos em longo prazo isso deixará no meio musical. Sinto que é um sério revés para nosso disco, e este ano, como arista, não deve render. Espero que as pessoas se lembrem de apoiar o álbum por esse período.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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