Três perguntas: Os dias italianos de Nevilton

por Leonardo Vinhas 

No início de 2018, Nevilton foi de mala, cuia, instrumentos e estúdio portátil para Roma, na Itália, e lá está desde então. Levou consigo também uma história que carregava aqueles epítetos tão peculiares ao mundo do, err…, jornalismo de rock, como “promessa do underground”, “grande aposta” e até duas indicações ao Grammy Latino por Melhor Vídeo Musical Versão Curta (“Tempos de Maracujá”) e Melhor Álbum de Rock Brasileiro (“Sacode!”).

Mas para além das alcunhas clichês e do reconhecimento da indústria, Nevilton deixou uma trajetória repleta de bons shows, algumas canções boas e outras verdadeiramente marcantes (como não apreciar “Porcelana”, “Noite Alta” ou “Melhorar”?).

Nos últimos anos em território nacional, Nevilton equilibrava a carreira autoral com shows como side musician (que podia ser tanto para os Vespas Mandarinas como para blocos de Carnaval) e apresentações solo em bares, restaurantes e até pizzarias. Vivia, enfim, a música como carreira e meio de vida, com todas as alegrias e limitações que isso traz.

Na Itália, essa situação se mantém, de certa forma. A diferença é que Nevilton agora tem não só uma cena diferente para conhecer e interagir, mas também um idioma todo para explorar. E é disso – e do novo single, “Irradiar”, seu primeiro lançamento autoral desde novembro de 2017 – que trata essa breve e agradável conversa feita por e-mail.

“Irradiar” flagra mais que esperança, mas uma visão de que sim, as coisas podem ser melhores. Imagino que saiba o quanto as coisas estão brabas por aqui; ao mesmo tempo, mora em um dos países europeus onde a Covid-19 foi mais violenta. Como você conseguiu ter essa visão menos destrutiva em meio a contextos tão pesados, e como você tem vivido esse 2020 doido?
Realmente 2020 está uma merda! O impacto aqui foi bastante assustador, e agora estou acompanhando com aflição as notícias aí do Brasil, desse joguinho político babaca e empurra-empurra de responsabilidades, falta de planejamento e mínimas dignidade e seriedade pra enfrentar esse momento de crise. É triste. É desolador, pois até quando chegar a vacina, talvez resolverá o Covid, mas ainda não resolverá a ignorância e prepotência de tantos que têm poder e voz no Brasil e no mundo. Daí eu penso: posso ficar aqui, fodido da vida, me roendo por dentro com toda essa situação, e somar ao coro das reclamações e questionamento, ou, posso também tentar alterar o estado de ânimo de alguém que escute uma música bonita, uma mensagem de esperança, algo que traga um mínimo conforto. É mais ou menos o que eu sempre tento fazer pra ter a sensação de que a minha vida faz algum sentido.

Como tem sido sua relação com o rock italiano? Você frequentava shows, chegou a trocar figurinhas com banda, ou mesmo compor no idioma local?
Minha relação com a música italiana é de muito carinho. Tô apaixonado pela música do Lucio Dalla, Rino Gaetano e Lucio Battisti. Pesquiso, escuto muita coisa, compilo, mostro pros amigos no Brasa, peço sugestão pra turma daqui, tem muita coisa pra conhecer. Muita coisa legal! Vou deixar algumas sugestões aqui pra vocês (ao final da entrevista). Vou a alguns shows e festivais e tento me misturar sim, afinal minha vida está recomeçando por aqui. Tenho que conhecer o pessoal que está na ativa, veículos e casas/ festas/ concursos que rolam nova música, entender um pouco do movimento para tentar fazer parte disso também. Até antes da pandemia, eu era o músico residente em um pub no centro de Roma, participei de alguns concursos e festivais aqui, conheci outros compositores, convidei pra ir dar canja lá no pub comigo, toquei em um festival em Milão… Enfim, me misturando aos pouquinhos. Sobre compor, desde quando cheguei eu tenho trabalhado em versões de músicas minhas, primeiro como exercício de expressão, depois como utilidade mesmo, de apresentar um pouco do que eu já fiz na carreira e aproximar do público daqui, cantando no idioma deles. Depois de várias versões, tomei coragem para escrever também inéditas em italiano. É como se um gringo que também fale uma língua latina fosse ao Brasil e começasse a compor em português. Leva um tempo para acostumar. Algumas expressões vão “bater na trave”, é natural… mas também pode soar como algo muito simpático, eu acredito nisso e espero conseguir me organizar para gravar bem e publicar esse material em breve.

Como todo músico, seu trabalho sempre foi em bares, clubes, ruas. Sei que a música nunca vai sair da sua vida, mas imagino que seja bem difícil continuar se dedicando à criação tendo praticamente nenhuma oportunidade de mostrá-la ao vivo. Como você tem encarado isso?
Acho que enquanto houver ruas e praças a gente ainda consegue se apresentar ao vivo com as devidas organizações e prevenções. E enquanto houver internet a gente ainda chega às pessoas de alguma forma… Não tem o olho-no-olho, o calor do momento, o conhecer de novos lugares e gente querida nas tours, pessoas dançando e cantando junto nos shows, mas quero acreditar que logo logo esse tipo de ocasião volta ao nosso cotidiano. Fazer um bailinho ao redor da fogueira é algo inerente a nós, algo que já vem na essência do ser humano desde os primeiros modos de se expressar, de ritualizar, de viver. Não vai dar pra ficar muito tempo sem isso! =)

Sugestões de sons italianos selecionados com carinho por Nevilton Alencar (ouça playlist):

TRÊS CLÁSSICOS

TRÊS ARTISTAS ATUAIS

TRÊS ARTISTAS QUE CONHECI NA CENA EM ROMA

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também: A nova cena italiana (de 2013) em 11 músicas escolhidas pela Selton (aqui)

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