Entrevista: a multiartista Jup do Bairro

entrevista por Renan Guerra

Multiartista, Jup do Bairro encontrou na arte um veículo para a transformação do mundo e a investigação de si mesma. Nascida no Capão Redondo, periferia de São Paulo, Jup se jogou nas artes de forma autodidata, atuando como educadora, palestrante, styling, atriz, cantora, performer, produtora de eventos e apresentadora, colocando em primeiro plano questões que atravessam seu corpo de travesti, preta, gorda e periférica.

“Corpo Sem Juízo” (2020) é o nome de seu primeiro EP solo, que ainda não tem data oficial de lançamento. Antes disso, ela tem lançado alguns singles que apresentam suas explorações entre o rap, o pop e a música eletrônica. Anteriormente, Jup trabalhou de diferentes formas ao lado de Linn da Quebrada, em projetos como o disco “Pajubá” (2017), o programa “TransMissão”, no Canal Brasil, e o filme “Bixa Travesty” (2019), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman – premiado com o Teddy Award de melhor documentário no Festival de Berlim.

O mais recente lançamento de Jup do Bairro é o single “All You Need Is Love”, ao lado de Linn da Quebrada e de Rico Dalasam, que veio acompanhado de um clipe gravado à distância e finalizado em 3D. Foi de forma digital também que conversamos com Jup, em uma chamada via WhatsApp, na qual falamos sobre a carreira da artista, mais especialmente sobre as complexidades de se pensar a arte em tempos de isolamento. Jup do Bairro traz reflexões fortes em um papo longo que tensiona as propulsões da arte pós-pandemia e as complexidades de ser artista em um período tão caótico. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Para começar, gostaria de saber como você tem se sentido, como têm sido esses dias de quarentena?
O que tenho divido com todas as pessoas que tenho tido contanto, está sendo uma experiência muito louca, muito intensa, uma montanha-russa de sentimentos. Acho que o estar bem, o “bom dia” que a gente deseja a priori quando vai conversar com alguém, já se desgastou, pois me vejo em um estágio muito mais ok do que bem. Tenho feito exercícios de tentar controlar o bombardeamento de informações, tentar dar uma peneirada, mas também estou buscando não me alienar, porque é importante a gente saber o que está acontecendo, sentir tudo isso. Acredito que tudo isso tem causado, em quem tem informações, ansiedade, tristeza, uma dor e um medo profundo. E, sinceramente, acho que tudo bem sentir isso, pois acho que significa que a gente se comove com essas vidas, se comove com essas dores. Acredito que é importante a gente sentir a plenitude de todos os nossos sentimentos, inclusive esses que de certa forma nos doem, nos pegam enquanto raiz. Entendendo também que a pandemia no Brasil nada mais é que um ataque genocida de execução de corpos, principalmente de corpos marginais, corpos pretos, da periferia, e tudo isso tem me doído muito, muito. Então estou num high-low muito grande, justamente por estar produzindo o meu disco também, ter que mexer em algoritmos da internet, postando vídeos e tal, e às vezes não estou bem, não consigo nem me olhar no espelho, não consigo nem fazer uma chamada de vídeo, e a gente precisa meio que estar preparado para isso, mas estou entendendo meus limites, estou entendendo o que o meu corpo pode fazer nesse momento para que eu não cobre para além do que posso entregar. Para que todo esse tempo, esse momento que estamos vivendo não vire uma cobrança de algo que eu não possa entregar. Então é muito importante a gente estar em sinceridade com nós mesmos para que a gente possa entender o que a gente pode fazer e executar.

E como tudo isso impactou no seu trabalho? Você já estava num processo longo de criação desse disco, nesse sentido, como esse momento impactou nessa produção?
Bom, fiz uma campanha de financiamento coletivo pro meu primeiro álbum solo, no ano passado, onde lá atrás tive que de alguma forma ir reinventando a estrutura junto com a minha equipe, justamente pelo fato de que fiz uma campanha de financiamento, de capital, onde se estava tendo uma crise econômica muito grande, principalmente de quando a gente fala de acesso a cultura, lazer, onde a gente teve maiores rompimentos. A preocupação foi instaurada dentro do âmbito cultural, então a gente já viu esse problemas lá atrás e é meio desesperador, porque quando se fala de dinheiro, de não possibilidade de capital, não há muito o que se fazer a não ser pensar em estratégias mirabolantes. E foi o que fiz: eu tinha toda uma estratégia de narrativa, que levantei junto com a minha equipe, e daí vi que não era o bastante. Então tive que reinventar, colocar elementos que achei interessantes de serem falados, fiz vídeos com apelo humorístico, político, tentando abranger o máximo de público. Numa conscientização do quanto a gente é responsável pela criação de novos imaginários, de financiar novos artistas, porque às vezes a galera fica numa repetição, falando que são sempre os mesmos artistas, mas a gente tem que saber que nós somos responsáveis pela criação desses imaginários: que arte estamos consumindo? Que tipo de corpos a gente está colocando enquanto protagonistas? E daí lancei essa bomba de responsabilidade em massa, do quão é importante a gente ter a consciência de como somos responsáveis por esses imaginários. Fui fazendo essa campanha, acabei batendo a meta com muito sufoco, nos dois últimos minutos do segundo tempo. Mas já na organização de como gastar esse dinheiro, a gente teve o primeiro atrito que é o quão o audiovisual no Brasil é caro, como é caro produzir, principalmente material de qualidade, então a gente começou a penar já daí. E fomos tentando encontrar maneiras de executar isso, pois quase metade do dinheiro vai pras recompensas do que a gente oferecia, como CD, vinil, camiseta e outros brindes, e a outra parte do dinheiro seria para a produção dessa ideia megalomaníaca de fazer um EP visual. E uma coisa que a Badsista falou uma vez e que levo muito comigo é que os corpos marginais, esses corpos resistentes e sobreviventes da arte, possuem uma espécie de chip tecnológico de readaptção ao caos. A gente consegue ter uma adaptação ao caos muito grande, justamente pela vontade e criatividade de fazer, porque, no meu caso, sou uma artista do tempo, não só porque carrego comigo as minhas memórias, as pessoas que passaram pela minha vida, minha ancestralidade, mas também como me adapto ao tempo, ao agora, pois falo sobre o agora, eu sou uma artista que tenta registrar a minha geração, as dores e as delícias que permeiam meu corpo.

E esse seu EP também foi construído através das suas vivências, pois ele não é um trabalho novo, é um trabalho de construção que demandou muitos anos, não?
Sim. Na verdade, a primeira música que lancei no ano passado, “Corpo Sem Juízo”, eu escrevi quando eu tinha 13 anos, era uma poesia e eu nem imaginava cantar. Eu fazia parte de um grupo de punks e anarquistas no colégio, eles que me apresentaram o fanzine. Antes inclusive de eu ter questões de identidade de gênero e tudo mais, eu já estava escrevendo como uma forma de externar meus pensamentos, como se pudesse me automedicar mentalmente. Foi passando o tempo e essa minha escrita foi virando música e eu fui com tudo. Então tem coisas nesse EP que fazem mais de 10 anos que e tenho e que hoje me sinto confortável de executar. Muita letra que eu também abri mão, porque hoje já sinto que sou outra pessoa, tenho outras necessidades do que falar. Fui caminhando com o tempo e o tempo pede outras urgências, outras perguntas, outras respostas, então tudo isso veio caminhando comigo até hoje, até eu me sentir segura e acho que é isso que é “Corpo Sem Juízo”, é isso que quero entregar enquanto presente a essa geração, que são artes que só eu poderia executar. Acredito que a arte, quando foge desse lugar única e exclusivamente de produto, é algo muito individual, partindo de indivíduos que conseguem contar a sua própria história e fazer com que pessoas se reconheçam a partir disso. Então é um trabalho muito lindo e muito honesto, e inclusive é um trabalho que, quando me pego mais pra baixo, ouço e parece que me dá uma injeção de ânimo, porque são coisas que preciso ouvir, eu falo sobre esse momento, parece que toda minha vida e toda minha trajetória eu estava me preparando para esse momento. Então é um disco que fala muito sobre esse pós-apocalipse, sobre esse andar nos escombros, de coisas que a gente já via acontecendo e me parece que hoje a gente tem sofrido mais com isso. Gosto de relacionar esse medo de contágio atual com o mesmo medo que a população preta sofre, que a população trans sofre em sair de casa. Medo de sofrer alguma opressão violenta. Muitos casos que tenho ouvido falar na região é quanto as revistas policiais, os enquadros, em que os policiais pedem para jovens pretos tirarem a máscara para que haja o reconhecimento. Então o quanto também essas máscaras na população preta são como um estranhamento pro estado, o quanto a gente está numa margem que justamente diz para onde esse genocídio é direcionado. No começo da pandemia, principalmente em São Paulo, que teve a maior ascensão de casos, a gente podia ver que os lugares com mais pessoas contaminadas eram as zonas mais nobres e regiões centrais; e hoje a gente consegue ver que isso se expandiu ainda mais para a periferia, onde estão nesse momento as pessoas mais contaminadas e os maiores números de mortes pela Covid-19. É um exemplo muito transparente de como os acessos, as informações chegam. Porque a gente fica “ai tá rolando pancadão, tá rolando galera na feira e tudo mais”, mas é porque essas informações não chegam com o devido peso nas quebradas. É como colocar as eleições: “ai, como a gente fez uma campanha tão grande #elenão, #elenão”, mas a gente não se preocupou com as pessoas que “ele sim”, então essas informações vão chegando de forma deturpada. As pessoas não tem acesso a diálogos políticos, elas são ensinadas a não pensar politicamente, inclusive, para que se tenha maior controle de massa e por isso que muitas vezes a gente não consegue ter um diálogo tão direto com a população que é a que mais sofre, que sofre diretamente com todas essas pressões e ataques de isenção, de uma lavada de mãos do governo, de certa desistência dessa população.

Você entende que a arte – e a música – é uma forma de avançar esses diálogos e de colocar essas pessoas dentro do diálogo, para que não seja uma conversa unilateral?
Com certeza. A arte em suas inúmeras possibilidades é o único feito possível pós-apocalíptico, só a arte pode salvar. A arte acabou me salvando, ela me fez acessar lugares que eu não imaginava – tanto lugares da minha cabeça quanto geograficamente falando. É uma associação que a gente vê inclusive com a geração mais nova do que eu. Eu tinha feito alguns trabalhos anteriores na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, que é uma das ONGs mais importantes das periferias de São Paulo, e é um trabalho extremamente importante e potente para a socialização e criação de imaginário para jovens e adolescentes, porque quando a gente começa a criar possibilidades, a galera começa a se ver em um outro papel, então eles veem crianças com uma puta estrutura de som podendo gravar, mesmo que de brincadeira, mesmo que sem vontade – pois ainda há essa resistência na periferia de que se colocar enquanto artista é se colocar como vagabundo, de quem não quer nada com nada – então quando vai de forma despretensiosa, isso já cria imaginário para uma criança ou um adolescente, pois você dá possibilidades de um instrumento, de canto, de pintura, quaisquer que sejam outras plataformas artísticas. Acredito que isso pode salvar, porque a arte faz com que a gente invente, então a gente consegue pensar para além das nossas vivências, a gente pode escrever novas vivências, sejam elas verídicas ou fictícias. Isso faz com que a gente aproxime ainda mais outras pessoas que se reconheçam em nossos papéis, em nossos recortes, mas que também conscientizem uma outra massa, com outras possibilidades. Então eu, sinceramente, acho que a arte em si ela precisa ser descolonizada para que a gente consiga ter mais acessos e possa expandir ainda mais essa possibilidade enquanto mercado e vida.

Falando um pouco sobre a sua carreira, você trabalhou muito tempo ao lado da Linn da Quebrada, você está presente no disco dela, o “Pajubá”, e também ao lado dela no programa “TransMissão”, do Canal Brasil. Em que momento você decidiu que era a hora de falar como Jup do Bairro, lançar seu disco e colocar a sua voz também em primeiro plano?
Já tenho um trabalho com a música muito antigo, e quando conheço a Linn, eu já tinha um berço criado no rap, já vinha trabalhando. E passei por um momento de muito desentendimento meu com as pessoas com quem eu trabalhava, onde acabei perdendo o disco que eu ia lançar lá atrás com um produtor e isso acabou me fragilizando muito. Falei pra mim mesma: “Vou dar uma pausa na música, vou focar em outras coisas, focar em perfomance, em outros projetos, porque isso já está me deixando muito mal”. E nesse mesmo tempo, a Linn já estava começando a escrever algumas coisas, que sempre achei muito bom, eu falava “nossa, isso é música, você precisa colocar pra fora”, e ela foi alimentando essa vontade musical. Quando ela foi fazer o seu primeiro show, que foi no Grajaú, no Periferia Trans, ela anunciou uma última música, e eu estava fazendo uma perfomance nesse mesmo dia, com uma roupa que eu acabei fazendo de lixo – e demorei semanas pra fazer –, e tirei com tudo essa roupa e subi no palco com ela de calcinha, porque eu queria participar daquele momento de alguma forma, e acabei performando com ela. No mesmo dia, ela tinha um outro show, na PopPorn, também em São Paulo, e ela falou: “Foi muito diferente quando estávamos juntas e tudo mais, acho que a gente tem muita potência juntas, o que você acha de ir pro show da PopPorn comigo?”. E falei: “Vou super”. E me lembro que o cachê era super baixo, tipo uns 100 reais, a gente dividiu, 50 pra cada e foi quando a gente começou a trabalhar juntas e desde então estamos aí fazendo essa trajetória. Com o passar do tempo fui entendendo, e foi ficando cada vez mais nítido, que o nosso trabalho é extremamente singular, porque uma coisa é o que a Linn da Quebrada faz e outra coisa é o que a Jup do Bairro faz e outra coisa é o que nós fazemos juntas. Fui sentindo a necessidade de colocar esses meus outros planos, minhas outras escritas de outra maneira. E acredito também que quando a gente tem esse governo repressor, que faz com que a gente se sinta mais atrasada, acho que nos impulsiona também, pois acredito que o presente e o passado caminham juntos. Quando a gente está avançando demais, o passado também avança por medo de perder seus acessos, seus privilégios, então me senti tão fortificada e – assim como outras artistas também se sentiram – a impulsionar seus trabalhos para ir contra esse sistema opressor, porque acredito que (esse desgoverno) faz com que a gente crie mais força, crie mais raiva e raiva é sempre um combustível para o motor do avanço, para que a gente consiga lutar ainda mais pelos nossos direitos e, principalmente, olhar ainda mais para trás e ver quem veio antes da gente e que não faz sentido nenhum esses direitos serem rebaixados por conta de tanta luta e de tanto sangue que foi escorrido. Acredito que foi o tempo que fez com que eu alavancasse e falasse “esse é o momento de retomar a minha carreira e colocar para fora o que tenho para dizer”.

E até o momento já foram três singles, como está o seu cronograma daqui pra frente: como você tem visto as coisas nesse momento?
Agora vou lançar o meu EP, mas não tenho data ainda, estou estudando. Junto com esse lançamento de “All You Need Is Love” saiu a primeira parte do filme visual, mas mudei totalmente os planos, agora estou tendo que readequá-los seguindo as ordens da OMS de isolamento social, então vai se tornar uma outra coisa, que também estou estudando, estou vendo como vai ficar. Mas vou lançar esse EP que é foda, que, sinceramente, é muito lindo, que todo mundo que mostro fica bem emocionado – eu também fico muito emocionada com esse trabalho. E tem convidados que fazem muito parte da minha vida: são quatro feats, já apresentei dois, que são Rico Dalasam e Linn da Quebrada, e também tem faixas com a Deize Tigrona e o Mulambo. Foi um desafio muito generoso, pois quis colocar essas pessoas que fazem parte da minha vida, da minha trajetória, mas em outro lugar, acho que vai surpreender o público com essas participações. E chamo eles de “meus quatro cavaleiros do apocalipse”, por que eu realmente sinto o poder, a dedicação que eles tiveram em estar nesse trabalho comigo, o que é muito honesto e muito verdadeiro. Acredito que essas faixas têm potências transformadoras de fato e vão pra além da música, podem ser uma espécie de medicamento fortalecedor para esse momento que a gente tá passando.

O clipe de “All You Need Is Love”, com a Linn da Quebrada e o Rico Dalasam, foi todo gravado digitalmente. Como foi a produção desse vídeo: cada um gravou sua parte em casa?
Esse primeiro vídeo foi sob direção do Rodrigo de Carvalho, que é um artista incrível com quem já fazia muito tempo que eu queria trabalhar. E foi muito louco, porque antes, lá no começo quando eu estava arquitetando esse trabalho de “Corpo Sem Juízo”, eu já queria que fosse em 3D! Com o tempo fui criando um roteiro e tal, onde eu queria executar um trabalho físico, que não foi possível executar por causa da pandemia. Então foi quando retomei e falei “vamos voltar pra nossa ideia anterior de fazer em 3D”, e foi um lugar muito novo, porque apesar de ser em 3D, essa foi uma direção à distância, por isso teve muito frio na barriga. O Rodrigo ficou falando da casa dele como a gente deveria se posicionar, fazer fotos e tudo mais, mas foi uma experiência bem divertida . E foi todo feito em casa, então a Linn gravou na casa dela, assim como o Rico na casa dele, e o Rodrigo teve esse trabalho genial de juntar tudo isso que a gente produziu e transformar nesse clipe.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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