Entrevista: Rodrigo EBA! fala do EP “Tutorial de Empatia para Robôs”

entrevista por Leonardo Vinhas 

Rodrigo EBA! (assim mesmo, em caixa alta e com ponto de exclamação) se apresenta como “músico e animador”. Mas calma: nada do que o moço faz tem aquela ludicidade performática e afetada que você poderia associar com a caracterização (até porque o “animador” se refere a “desenhos animados”, área na qual ele já ganhou até um prêmio Anima Mundi em 2013). Na verdade, esse músico e compositor paulista segue uma escola pessoal influenciada por rock, MPB sem caretice e trilha sonora de animações – mesmo que isso às vezes conflua em um pop mais simples e direto, no qual essas influências ficam mais sutis.

EBA! foi integrante da banda Claustrofonia, que lançou um único álbum em 2005. Em 2016, lançou seu primeiro álbum solo, “Imperfeita Existência”, aos quais se seguiram “¿Como Você Se Estende? (2017) e “Coméquié” (com Térsio Greguol, 2018). Paralelo a eles, conduziu as “Canções sem Tempo”, um projeto no qual a ideia era compor e gravar uma canção com oito convidados em poucas horas. Em abril de 2020 foi a vez do EP “Tutorial de Empatia para Robôs”, que vem com um pouco mais de detalhes eletrônicos em meio à base eminentemente acústica das canções.

A música de Rodrigo EBA! não seduz à primeira audição, é verdade – acostumados todos que estamos a esses tempos urgentes. Não tem aqueles pontos de exclamação e os truques de estúdio aos quais os nossos ouvidos estão (mal) acostumados. Mas quem parar e prestar atenção (o que deveria ser o princípio de toda audição musical) encontra não só ótimas melodias, mas também letras diretas e bem-sacadas sobre aspectos cotidianos aos quais nunca damos a devida atenção porque, veja só, estamos “na correria”. Se fosse para arriscar um rótulo para a música do homem, “anticorreria” seria um ótimo começo.

Em bate-papo eletrônico, como convém a esses duros tempos de isolamento, EBA! fala sobre o novo EP, criação coletiva e suas letras. E, claro, sobre como fica isso tudo em meio a um dos períodos mais imprevisíveis da história recente.

Você tem uma discografia bem grande em títulos. O que diferencia esse “Tutorial” do que você fez anteriormente? Ou não diferencia – é uma progressão continuada do que você vem construindo?
Dá pra encontrar uma continuidade do meu trabalho na vontade de soar cada vez mais claro em minhas intenções e também de fazer uma brincadeira com a forma. E isso acontece tanto na música quanto nos meus curtas de animação. O que tem de diferente é que essa brincadeira com a forma, que já usei bastante como metalinguagem nas letras, dessa vez também está sendo explorada nas próprias gravações, de buscar um sentido diferente de acordo com a maneira com que se ouve as canções. Nisso entram também alguns elementos eletrônicos, dos quais me aproximei dessa vez porque percebi que faziam mais sentido que em outras ocasiões.

Gostei muito do título do EP. Imagino que os robôs a que você se refere somos nós, certo? É a tecnologia que nos robotiza, ou nós que cedemos à tentação de fazer da ferramenta a nossa razão de viver?
O título na verdade vem de uma ironia com quem não se predispõe a se pôr no lugar dos outros. Tá, se meu parente ainda tá repassando essa notícia falsa pra frente sem pensar em quem está prejudicando, que tal se ensinássemos empatia aos robôs? Representa essa quebra do diálogo que está presente de algum modo em vários pontos desse trabalho. Mas se for ver a fundo é até uma maneira de dizer que precisamos das pessoas pra aprender essa empatia, que não vai ser possível sem elas. “Tio, precisamos de você”.

Você fala bastante dessa desconexão entre a sociedade de consumo e o “consumidor” – que na verdade é a pessoa. Desde o “pisando em flores para chegar na floricultura” aos versos de “i-subemprego”. Por que isso é tão presente no seu trabalho?
Porque o objetivo da sociedade de consumo é fazer dinheiro e acho que o objetivo de qualquer sociedade deveria ser o de buscar qualidade de vida para todos. Acho natural que cada um queira se sentir mais estável economicamente, mas em termos de sociedade é muito claro que isso deve ser questionado. Devemos sonhar outros mundos possíveis e consertar muita coisa, porque quando se descobre que um bilionário tem dinheiro para gastar pelo menos 5 mil dólares por dia por 500 anos – sendo que ainda não há herança para si mesmo em outra reencarnação – dá pra ver que é impossível dizer que nossa sociedade “deu certo”.

O disco foi composto e gravado pré-pandemia. Olhando agora, você acha que a gente vai começar a rever alguns dos comportamentos desumanizadores que você comenta nas canções do EP?
Até fiquei na dúvida do quanto as letras poderiam ficar datadas em tão pouco tempo, mas logo deu pra perceber que as coisas não mudaram muito. O mesmo trabalhador que já estava sofrendo com a informalidade agora é quem está se arriscando pra entregar coisas para quem está fazendo o distanciamento social. Com a pandemia, algumas coisas ficaram muito claras, como a necessidade de um sistema público de saúde como o SUS, por exemplo. Mesmo assim a distribuição de mentiras como se fosse informação consegue muitas vezes distorcer até evidências cristalinas como essa. Minha esperança é que algumas coisas mudem para melhor, mas a maior parte vai depender de uma longa reconstrução de uma sociedade mais coletivizada.

O “Canções sem Tempo” foi um projeto bem fora do comum. Como surgiu a ideia de fazê-lo?
Eu fiquei 10 anos tentando fazer o segundo disco com a banda, mas o tempo de todo mundo não se encaixava. Só resolvi fazer tudo sozinho e lançar o primeiro disco solo porque era o jeito de conseguir produzir. Aí o canções sem tempo foi pra sair um pouco da minha própria ilha. Chamar alguém aqui pra se dedicar intensamente a fazer música por um dia, uma pessoa por vez, desburocratizou as parcerias, sabe?

A última pergunta não é exatamente original, mas é sempre bom fazê-la: com um mercado viciado e as atenções pulverizadas na hiperdisponibilidade de música em tempo digitais, qual é a motivação de seguir gravando? A composição vem pelo ímpeto criativo, mas o ato de lançar já implica expectativa, investimento, trabalho duro. Qual o objetivo e a motivação que o levam a seguir?
Eu já nasci na cultura de massa e aprendi a falar sobre o mercado musical como se estivesse falando de música. Então Michael Jackson era bom porque vendia milhões de discos, fulano era bom porque assinou um contrato de não sei quantos milhões de dólares… Isso é mercado, não é arte. Eu sempre achei esse jeito de medir as coisas meio esquisito e sempre questionei isso, mas foi mais recentemente que percebi que apesar de ter desde muito cedo essa consciência, eu ainda estava impregnado por esse pensamento, principalmente em relação a mim mesmo. Pra mim, sempre foi tão emocionante e valioso ir a um show do Paul McCartney em um estádio lotado quanto ir a um show do Maurício Pereira, às vezes com 500, às vezes com 20 pessoas. Mas comigo mesmo ainda existia uma cobrança de “dar certo”, uma busca que é sobre dinheiro, não sobre comunicação entre pessoas. Em 2016, quando eu lancei meu primeiro disco solo, foi quando eu comecei a tentar mudar isso de uma maneira mais forte. Aceitei que fazer arte é o que me faz circular, é o que me dá voz, é onde eu conheço as pessoas mais incríveis com conversas estimulantes. Obviamente quero ser bem pago fazendo meu trabalho e quero ter na música o mesmo respaldo que consegui como animador profissional. Mas é importante ressaltar pra mim mesmo que a expressão e a grana são coisas separadas. Se a segunda parte às vezes entra, às vezes não, isso não pode anular a primeira.

“Tudo de Empatia para Robôs”, de Rodrigo EBA!, faixa a faixa por Leonardo Vinhas

01) 15 mil dias – é uma canção espaçada, que faz uso dos silêncios pra fazer um balanço sobre o tempo e a identidade. “Nunca me vi sem mim mesmo nas vezes que não me reconheço”.

02) solo | cerca | semente – a amargura da perda do diálogo está representada numa canção dividida: no lado esquerdo a música se desenvolve num compasso de 6 tempos e no lado direito em um compasso de 4 tempos. A junção dos dois lados forma uma canção latino-americana, com a tradicional polirritmia do estilo. Três versões em uma.

03) i-subemprego – Dançante e irônica, “i-subemprego” se coloca na pele dos trabalhadores precarizados do país, hoje mais de 40% no trabalho informal. Rodrigo EBA! põe pra dançar e pensar sobre o fenômeno e aproveita para dar uma espetada no discurso oficial que louva a meritocracia e finge que a ausência de condições mínimas é um lindo e saltitante empreendedorismo. A canção mistura funk e baião, com a personalidade meio pop/meio torta que o artista imprime em sua carreira musical.

04) robôs não vão ao cinema – Essa também tem mais de uma versão em uma. Em fones de ouvido ou caixas de som estéreo há a voz e a guitarra de Rodrigo EBA!. Ao ouvirmos em um celular sem fone ou sistemas de som mono aparece uma versão “livre de humanos”. É o submundo dos robôs de redes sociais tomando conta da canção.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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