Boteco: Cinco países, Dez cervejas

por Marcelo Costa

Começando uma série de duas cervejas por cervejaria de países diferentes por Amsterdã com mais uma cerveja deliciosamente hipster da Oedipus Brewing. Desta vez, os holandeses chegam com a Polyamorie, uma Mango Sour Ale cuja receita combina o malte Pilsner com trigo malteado mais flocos de aveia e de trigo além de lúpulos Columbus, Sorachi Ace, Citra e Amarillo, levedura de abadia belga e adição de manga. Na taça, a Oedipus Polyamorie apresenta uma coloração amarela bem próximo do dourado com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, um aroma frutado cítrico remetendo primeiramente a maracujá e, então, manga e abacaxi. Há, ainda, sugestão de capim-limão e trigo (remetendo a feno). Na boca, a manga ganha maior destaque desde o primeiro toque, o maracujá dá uma sumida, mas o abacaxi permanece ao lado do capim-limão. O azedume é médio e interessante (não há amargor) e a textura, levemente efervescente. Dai pra frente, uma Kettle Sour mais arisca que as brasileiras, que praticamente não tem nada de sour, e bem gostosa. No final, acidez leve e bastante cítrica. No retrogosto, abacaxi, manga e refrescancia.

A segunda da holandesa Oedipus é a Thai Thai, uma Belgian Tripel provocante cuja receita combina malte Pilsner, lúpulos Columbus, Sorachi Ace e Citra, levedura Belgian Abbey e adição de capim-limão, raiz de galanga (o primo pobre do gengibre), pimenta Chilli, coentro e casca de laranja. De coloração amarela levemente turva e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Oedipus Thai Thai apresenta um aroma delicioso que combina sugestões frutadas cítricas (laranja e abacaxi) com intensa percepção de picância de pimenta, leve frescor de capim-limão e doçura maltada, tudo muito bem combinado e aparecendo de maneira bela na paleta aromática. Na boca, doçura cítrica no primeiro toque seguida de picância de pimenta, que não é tão assertiva quanto o aroma adianta (ainda bem), mas é facilmente perceptível. Há, ainda, doçura maltada e capim-limão. O amargor é baixo, 25 IBUs, e a textura levemente picante. Dai pra frente, uma cerveja incrível que acompanhada por um bom prato, só tende a melhorar ainda mais (ambos). No final, picância, mel e cítrico. No retrogosto, mais picância, mais doçura e mais frutado. Bela combinação.

Da Holanda para os EUA com duas Jolly Pumpkins! A primeira é a Madrugada Obscura, uma Dark Sour cuja receita combina os maltes Pilsner, Pale, Roasted Barley, Crystal 75, Munich 10, Black e trigo com os lúpulos Fuggle & Perle além de adição de açúcar e melaço, tudo isso descansando quatro meses em barricas de carvalho. O resultado é uma cerveja marrom escura praticamente preta com creme bege lindo e espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, um aroma interessantemente complexo que sugere ameixas pretas, azedume, leve avinagrado, cereja e balsâmico. Há, ainda, leve turfa e também sugestão de curral. Na boca, leve balsâmico no primeiro toque que se abre mais forte na sequencia trazendo consigo azedume, ameixas pretas (sem a doçura da calda), chocolate amargo, turfa sutil e um leve amadeirado. Esqueça amargor, o negócio aqui e azedume e avinagrado, intensos. A textura é suave, quase sedosa. Dai pra frente, uma Dark Sour desejando ser Flanders, mas longe disso, e, ainda assim, bastante interessante e provocante (com seus 8.1% de álcool). No final, azedume e leve pegada rustica. No retrogosto, azedume, turfa, chocolate amargo e ameixa. Provocante.

A segunda da Jolly Pumpkin é uma colaboração dos caras com a badalada Monkish Brewing, uma Saison que mais parece uma refeição indiana: na receita, maltes Pilsner e Munique 10 recebem a companhia de arroz de Jasmin e arroz selvagem, lentilhas verdes e açúcar. Há, ainda, adição de condimentos, um misto de curry com cominho, gengibre, sementes de mostarda, pimenta, coentro e feno-grego. E um único lúpulo: Wakatu. Essa mistura toda descansa quatro meses em barril, e o resultado é uma cerveja de coloração dourada translucida com creme branco de média formação e retenção. No nariz, doçura de açúcar, percepção de madeira, funky bem leve e curry. Na boca, doçura bem baixa no primeiro toque atropelada por madeira no segundo seguinte – ela domina a percepção com os condimentos (principalmente o curry) aparecendo aqui e ali. Não há amargor, mas há azedume, de médio para alto. A textura é cremosa e levemente picante. Dai pra frente, muito mais uma Sour do que uma Saison, com a condimentação intensa batendo ponto no final, remetendo a curry, coentro e cominho. No retrogosto, comida indiana. Provocante (2).

Dos Estados Unidos para a Sérvia com duas cervejas da Kabinet Brewery. A primeira delas é a Plavo, uma Belgian Blond Ale produzida com os lúpulos Saaz (República Tcheca) e Pacific Jade (Nova Zelândia) que apresenta uma coloração dourada levemente turva e creme branco de média formação e retenção. No nariz, sugestão deliciosa de doçura de mel, maçã caramelada saindo do forno, frutas cristalizadas e biscoito. Na boca, uma deliciosa reprise do que o aroma adianta, com a doçura melada chegando antes no primeiro toque sendo seguida de sugestão de frutas cristalizadas e maçã caramelada. O amargor é bem baixo, 26 IBUs que mais parecem 6, e a textura é suave com discreta picância. Dai pra frente, um conjunto bem saboroso, ainda que com a doçura um tiquinho acima do aceitável (e do arriscável para enjoar, o que não acontece, mas está ali). No final, maçã caramelada. No retrogosto, mel e biscoito.

A segunda Kabinet é a Wheat Me Up, uma Witbier mais para Blue Moon do que para Hoegaarden (com adição de semente de coentro e cascas de laranja). De coloração dourada translucida e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Kabinet Wheat Me Up apresenta um aroma que sugestiona frutado intenso remetendo a banana, condimentação com presença de coentro, cítrico distante e muita presença de cereais além de leve remissão a mel. Na boca, doçura de mel e de banana caramelada no primeiro toque seguida de leve condimentação, cereais e um amargor quase inexistente, 17 IBUs que parecem 7. A casca de laranja pouco aparece no conjunto. Já a textura é levemente picante. Dai pra frente, uma cerveja refrescante, cremosa e docinha. No final, coentro e leve cítrico. No retrogosto, refrescancia, doçura discreta, coentro, cítrico e banana.

Da Sérvia para Ellon, na Escócia, com mais duas cervejas da renomada Brewdog. A primeira delas é a Clockwork Tangerine, uma Session IPA que recebe infusão de suco de tangerina e cuja receita combina os lúpulos Ahtanum, Cascade, Chinook, Columbus, Mosaic e Simcoe com os maltes Crystal, Caramalt e Pale. O resultado é uma cerveja âmbar alaranjada com creme branco de média formação e retenção. No nariz, tangerina (e outras frutas cítricas parentes como laranja e bergamota além de balinha de laranja) desde que a lata é aberta, mas intensificada na paleta aromática sem dar espaço para quase nada. Na boca, a tangerina chega facilmente antes no primeiro toque, domina a sequencia, mas deixa um espaço para, enfim, o caramelo do malte mostrar sua presença. O amargor é eficiente, 30 IBUs que não assustam, mas marcam presença. A textura é levemente picante de lúpulo e de notas cítricas. Dai pra frente, uma Session IPA adorável, refrescante e repleta de tangerina (o que, talvez, prejudique o drinkability). No final, tangerina. No retrogosto, tangerina. 🙂

A segunda da Brewdog é a Cybernaut, uma New England Session IPA cuja receita combina os lúpulos tradicionais norte-americanos Chinook, Simcoe, Amarillo e dry-hopping de Mosaic com malte Pale Ale, trigo e aveia. De coloração amarelo turva puxado para o palha mais do que para o juicy e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Brewdog Cybernaut apresenta um aroma intensamente cítrico e delicioso, remetendo a laranja lima, limão siciliano, tangerina, toranja, abacaxi e lichia. Há, ainda, leve remissão a pão branco e feno. Na boca, suco de laranja adorável no primeiro toque seguido de uma leve remissão a limão e também a abacaxi. O amargor é bastante suave, 20 IBUs, e a textura é de leve para o suave com discreta picância sobre a língua. Dai pra frente, uma New England Session IPA apaixonante, leve como o estilo original pede, mas com todas as características juicy da nova escola NE. No final, laranja lima e limão. No retrogosto, laranja lima, limão e abacaxi.

Da Escócia para o interior de São Paulo com mais uma receita provocante da Dádiva, a Funkyless Sight, uma Brett IPA que usa levedura Brettanomyces de cepa brasileira, mas não traz o funky tradicional do estilo, já que não houve envelhecimento e tempo para a levedura trabalhar. De coloração amarela com discreta turbidez e creme branco espesso de bela formação e média alta retenção, a Dádiva Funkyless Sight apresenta um aroma que combina notas frutadas cítricas (abacaxi e limão) com um leve herbal e, também, condimentação, algo de capim limão trazido, provavelmente, pela Bretta, que não acrescenta o funky característico pela ausência de envelhecimento, mas parece turbinar a receita de maneira bem saborosa. Na boca, abacaxi com capim limão no primeiro toque seguido de mais abacaxi e limão e capim limão. O amargor é baixo, a textura é suave (aumentando a sugestão herbal sobre a língua) e, dai pra frente, surge uma cerveja deliciosa e provocante, ainda que Brett apenas no nome (a levedura causa na receita, mas longe do que tradicionalmente se espera dela). No final, abacaxi e capim limão. No retrogosto, limão, abacaxi e refrescancia.

Para fechar essa série, a segunda versão de uma cerveja colaborativa entre a Dádiva e o Empório Alto de Pinheiros, o grande bar cervejeiro de São Paulo e do país, a Blueberry Imperial Porter. A primeira versão foi lançada em 2017, e nesta revisão a adição de mirtilo é dobrada, passando de 200 quilos para 400 na nova receita (e mantendo a adição de cacau). O resultado é uma cerveja de coloração marrom bastante escura, praticamente preta, mas com um avermelhado sutil presente, e creme bege escuro de boa formação e permanência. Se a versão 1 pecava por um certo desequilíbrio, essa versão 2 corrige o equivoco tendendo ao mírtilo, que se destaca no nariz deixando notas de chocolate na base, bem suaves, realçando a sugestão de floresta negra. Na boca, o mirtilo se destaca no primeiro toque e continua ditando as regras na sequencia, com o chocolate, sutil, em segundo plano. Não há amargor considerável (deve estar entre os 15 e 20 IBUs, que se apagam diante da doçura – nada enjoativa – do conjunto), e a textura é suave, achocolatada, sedosa (e nem sobre a língua é possível perceber os 10.3% de álcool!). Dai pra frente, uma cerveja de alto nível, que corrigiu os erros da primeira versão, e surge incrível, com blueberry e chocolate conversando maravilhosamente. No final, mais chocolate do que blueberry. No retrogosto, chocolate, blueberry e amor. Uou!

Balanço
Começando com o pé direito com a Oedipus Polyamorie, uma Sour com manga bem saborosa. A Oedipus novamente surpreende, agora com a Thai Thai, uma Belgian Tripel frutada e condimentada. Uma delícia. A Jolly Pumpkin Madrugada Obscura é uma provocante Sour enquanto a Jolly Pumpkin Problem no Problem é uma Saison meio Sour ainda mais provocante. A Kabinet Plavo é uma Belgian Blond gostosinha de beber, assim como a Kabinet Wheat Me Up, uma Witbier americanizada interessante. Das cervejas com adição de derivados da família das larajas, a Brewdog Clockwork Tangerine me soa uma das mais agradáveis, ainda que eu não sei se eu consiga beber mais do que duas seguidas. Já a Brewdog Cybernaut pode me mandar três conteiners para o verão! Eita Session NE deliciosa. A Dadiva Funkyless Sight é uma Brett IPA deliciosa, mesmo sem o funky da Brett. Já a Dadiva EAP Double Blueberry corrige (com mais mirtilo) a primeira versão resultando numa baita cerveja.

Oedipus Polyamorie
– Produto: Kettle Sour
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,37/5

Oedipus Thai Thai
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,79/5

Jolly Pumpkin Madrugada Obscura
– Produto: Dark Sour
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8.1%
– Nota: 3,61/5

Jolly Pumpkin Problem no Problem
– Produto: Dark Sour
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.6%
– Nota: 3,61/5

Kabinet Plavo
– Produto: Belgian Blond Ale
– Nacionalidade: Sérvia
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3,30/5

Kabinet Wheat Me Up
– Produto: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Sérvia
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3,21/5

Brewdog Clockwork Tangerine
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Escócia
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,33/5

Brewdog Cybernaut
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Escócia
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,90/5

Dadiva Funkyless Sight
– Produto: Brett IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.4%
– Nota: 3,90/5

Dadiva EAP Double Blueberry
– Produto: Imperial Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10.3%
– Nota: 4,01/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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