Entrevista: Henrique Dantas fala de “Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar”

entrevista por João Paulo Barreto

O poeta, cantor e compositor Tiganá Santana, em seu depoimento no documentário “Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar” (2019), traz uma exata definição para Dorival Caymmi e sua relação musical entre o real e a beleza de composições que parecem vindas de outro lado dessa realidade. Tiganá afirma: “Caymmi é um lapidador do criar. Um homem que desvela descrições profundas do real. O belo dele parece vindo de um outro lugar. Parece surreal. Se a gente vai por tradições negras, a partir de uma leitura de religiões de matrizes africanas, não há efetivamente uma divisão entre dois mundos. Não há um cisma entre dois mundos. Um mundo invisível, um mundo espiritual o é a partir de um mundo tangível”, explica. Na sua exata análise acerca de Caymmi, Tiganá vai mais além: “Há, portanto, o outro lado. Não um outro mundo. Eu acho que Caymmi é um mediador a partir do criativo, das artes. Um mediador entre estes lados“, finaliza o músico.

É com essa apresentação que o norte do filme dirigido por Henrique Dantas, que tem sua estreia nessa sexta, dia 29 de novembro, na 52ª edição do Festival de Brasília, é definido. Cadenciado em suas imagens poéticas de elementos a representar o lendário Dorival Caymmi e sua relação com o mar e com o Candomblé como um ato de resistência, o documentário se equilibra de maneira precisa entre um desenhar imagético e uma estrutura de depoimentos que guia a plateia pela trajetória do artista, convidando-a para adentrar na profundidade daqueles objetos simbólicos de uma vida repleta de calma e parcimônia como foi a de Dorival. Da mesma maneira que se mergulha em um mar profundo e prístino.

Henrique Dantas explica que os objetos simbólicos que trouxe em seu longa vêm de um planejamento minucioso. “Quando começo um filme, uma obra de arte (sou artista visual de formação, mestre e professor em artes visuais), eu entro em um estado de atenção focada naquele universo que quero apresentar”, explica Henrique. “Ao me deparar com a história de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram obras biográficas feitas por pessoas que vivem no Sudeste do país e que desconheciam a história preta de Caymmi na Bahia”, salienta o diretor.

O cineasta e documentarista Henrique Dantas

O mar se faz presente em sons, imagens e camadas sob as quais se desenrolam causos inesquecíveis do que significa “dorivar” a vida durante aquele mergulho de pouco mais de 85min representado pelo filme de Henrique Dantas. E esse ritmo conduz a audiência do começo ao final de sua trajetória, tanto da vida do Homem que tanto cantou Janaina quanto da série de estórias que degustamos sob o olhar de pessoas que vivenciaram aquele mundo Caymmiano.

Desta maneira, em “Dorivando Saravá”, desde o começo, é perceptível essa ideia de trazer para a obra mais do que um simples contar de uma trajetória tão rica quanto a do músico através do olhar daqueles que a viveram junto com ele ou que admiram tal existência plena. Ao inserir os citados símbolos da religiosidade de Matriz Africana tão cantada por Dorival em suas canções, a obra coloca em discussão uma necessidade urgente de trazer a música do compositor baiano como um instrumento, também, de resistência contra a violência sofrida pelas religiões de Matriz Africana em um Brasil neo-pentecostal.

Deste modo, a obra dirigida por Dantas traça uma forma de perceber como o abismo de intolerância religiosa que o Brasil adentrou é perigoso. “O movimento neopentecostal no mundo é algo assustador. Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e nessas técnicas de convencimento e persuasão vão levando as pessoas como gado para onde elas quiserem. Estudei em colégio de freiras em Ilhéus, e, com isso, li muito a Bíblia e posso garantir que nesse livro não existe o ódio plantado por esses falsos profetas,” explica Henrique.

O cantor e compositor Tiganá Santana

Oriundo de uma época em que as religiões de Matriz Africana eram consideradas criminosas pela lei vigente no Brasil, Dorival Caymmi trouxe seu respeito por esse pilar representativo de boa parte do povo que vive no Brasil. Em tempos atuais, nos quais “cantoras” se recusam a falar o nome de Iemanjá em canções, olhar para o século XX e ver pessoas como Caymmi valorizando esse rico manancial de cultura e afeto dentro do Candomblé nos faz perceber como estar do lado certo da História é algo que devemos sentir orgulho por tal pertencimento.

O processo de pesquisa acerca desse Caymmi negro, não embranquecido por uma sociedade racista e hipócrita, deu ao cineasta Henrique Dantas uma oportunidade de mergulho em sua própria vida e em um salientar do seu auto-reconhecimento como um homem negro.

“Meus filmes refletem muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso específico, passei por um processo de transformação muito pessoal onde percebi e reconheci a minha própria negritude. Não movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter passado por experiências modificadoras”, afirma Henrique Dantas. O cineasta, durante o processo de filmagem de “Dorivando Saravá”, integrou, ainda, uma equipe de curadoria que o ajudou nesse processo pessoal de reflexão. “Sim. Algo muito importante foi o convite para integrar a comissão de seleção da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situações que sofri minha vida inteira e não entendia que eram situações de racismo”, finaliza.

Temos na obra de Dorival Caymmi uma forma de nos reconhecermos como brasileiros, como oriundos de uma cultura rica, repleta de respeito e tolerância, que não cedeu nem cederá lugar para truculências oportunistas. Caymmi, que tanto trouxe a calma e o refletir como modo de vida, é alguém de urgente reencontro na sempre conectada, desatenta e fugaz rotina do século XXI. Permitir-se dorivar é algo que, curiosamente, se tornou urgente hoje em dia. “Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar” nos dá uma oportunidade única para tal intento.

O Scream & Yell conversou de forma expansiva com o cineasta Henrique Dantas. Abaixo, você confere mais acerca do processo de criação de “Dorivando Saravá” e o ritmo fugaz e acelerado do século XXI vs. a parcimônia e concentração de outrora, oriundo de uma geração de artistas pilares da música (Dorival), da escrita (Jorge Amado) e das artes plásticas Carybé. Boa leitura!

O mar se faz presente em praticamente todas as cenas do seu filme como uma das camadas que as imagens exibidas em tela captam. Da mesma forma como esse elemento da natureza fez parte da vida de Caymmi. Essa metáfora era intencional? Como se deu essa ideia?
Existem algumas perguntas que sempre me faço para saber se continuo ou não o processo de fazer um filme. São elas: por que faço esse filme? Para que faço esse filme? E para quem faço esse filme? Quando essas respostas aparecem dando um sentido a obra, eu continuo. Quando essas repostas não aparecem, eu desisto dos trabalhos. Quando começo um filme, começo uma obra de arte (sou artista visual de formação, mestre e professor em artes visuais) onde entro em um estado de atenção focada naquele universo que quero apresentar. Ao me deparar com a história de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram filmes biográficos, feitos por pessoas que vivem no Sudeste do país e que desconheciam a história preta de Caymmi na Bahia. Nenhum dos filmes apresentava histórias relacionadas às origens africanas e indígenas de Dorival. Somado a isso, ainda hoje temos pouquíssimos filmes brasileiros dirigidos por Pretxs, o que faz com que os recortes sejam realizados de um ponto de vista eminentemente branco, de classe média alta, evidenciando pontos de vistas, por vezes, semelhantes. Se observarmos a comissão do Festival de Brasília, temos três mulheres e dois homens, todos brancos. Como é que filmes feitos por pretos e sobre pretos terão olhares mais atentos aos nossos assuntos? Todos os filmes selecionados para a competitiva do festival são de diretorxs brancos. Com isso, não estou questionando resultados, nem obras ou pessoas, mas, sim, representatividades. (Vejo, inclusive, em parte do cinema aplaudido no Brasil problemas estruturais graves de racismo, que não são problematizados. E, normalmente, realizados por pessoas que se colocam como de esquerda. Mas isso seria outro assunto. Vamos voltar ao mar). Meus filmes refletem muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso específico, passei por um processo de transformação muito pessoal onde percebi e reconheci a minha própria negritude. Não movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter passado por experiências modificadoras. Dentre elas o convite para integrar a comissão de seleção da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situações que sofri minha vida inteira e não entendia que eram situações de racismo. Ou seja, nesse tempo em que estava fazendo o filme sobre Dorival, percebi que era um negro embranquecido por diversos fatores, incluindo a condição social. A leitura dos escritos de Antônio Olavo, seus filmes e minha amizade com ele contribuiu muito, também. O mar apresenta um tempo expandido, a cada onda, a cada maré, muito parecido com o tempo da espiritualidade presente no Candomblé, na Umbanda e em ritos Indígenas. É um tempo que não pode ser medido por relógio, apenas pelo sol e pela lua, assim como pela troca de folhas do Irôko. Com isso, defendo a ideia de que Caymmi não morreu. Ele, como afirmou em suas músicas, foi parar diretamente nos braços de Iemanjá, se transformando no mar. Por isso o mar está presente em todo o filme, seja em imagens, seja em sons.

Não somente este artifício, mas a utilização de outros elementos cênicos, como os objetos deixados na areia da praia a representar, cada um deles, uma relação com a vida de Caymmi, ditam um ritmo cadenciado para o documentário, impedindo que a obra caia em um formato clichê de simples cabeças falantes. Como foi esse planejamento?
Meus filmes documentais, a exceção de “Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano”, que foi o primeiro, são esteticamente experimentais e no campo dos experimentos eu aplico muito das minhas pesquisas no campo das artes visuais. Eles não se pautam por cabeças falantes, apesar de não abdicar do recurso da entrevista para a construção do discurso que escolho para cada filme. Em um documentário, eu, como autor, procuro um DNA da poética do filme, a partir das construções simbólicas que aquele assunto me provoca. Meu cinema é processual. Eu o vejo da mesma maneira que via as obras conceituais desenvolvidas na graduação e no mestrado. Busco a produção de um discurso político abraçado por um pensamento estético. Ao propor esses objetos, deslocados desses lugares, tentei imaginar quais deles certamente passaram pela vida de Caymmi, e fui me apropriando dos mesmos como um ReadyMade, que são os artefatos apresentados fora dos contextos em que são normalmente apresentados e transformados, com isso, em obras conceituais. Trata-se de um conceito desenvolvido por Marcel Duchamp. Assim, fui os apresentando no filme como uma fragmentação simbólica desses elementos pretos que Caymmi viveu em sua vida e que foram transformados em mar.

Tom Zé em cena do documentário

Há nas fontes entrevistadas um equilíbrio palpável entre as várias gerações influenciadas por Dorival Caymmi. De Gilberto Gil a Tom Zé; De Gerônimo a Lazzo, passando por Mateus Aleluia, Moraes Moreira, Adriana Calcanhoto, e novas gerações como BNegão e Tiganá Santana. Como você decidiu a escolha dos nomes que iriam compor o repertório de falas?
Os nomes foram escolhidos por três vieses distintos. O primeiro foram pessoas que mantiveram a tradição de cantar os Orixás na MPB. Aí, vamos de Gilberto Gil, passando por Matheus Aleluia, Tiganá Santana, Lazzo, Moraes Moreira, Gerônimo, pessoas que cantaram e cantam a Música Preta Brasileira. O segundo foram pessoas que tiveram relações afetuosas com Caymmi, os compadres e amigos, como Arlete Soares, Roberto Santana, Lucinha Mascarenhas, Lucas Santana, João Donato. Em terceiro lugar, pesquisadores e artistas que interpretaram as obras de Caymmi, sejam em músicas ou em textos, aí vamos de BNegão, Adriana Calcanhoto, Jussara Silveira; os pesquisadores Vitor Queiroz, Kleber Amâncio e Marielson Carvalho. No caso de Tom Zé, além de ser um amigo, é uma pessoa que tem uma maneira muito singular de apresentar os pensamentos. Isso já tinha me encantado desde que fiz “Filhos de João”, onde ele foi o condutor. Mas, alguns ficaram de fora. Não tenho essa moral toda para ser recebido por algumas pessoas e/ou espaços (risos). Acho isso super engraçado.

E o trabalho de montagem? Muita coisa ficou de fora? Foi doloroso perder alguma fala que você pudesse julgar importante?
Existe um debate muito rico no cinema brasileiro sobre se o diretor deve ou não ser montador do próprio filme. Eu tenho uma maneira muito específica de fazer os filmes documentais e por isso os monto desde o primeiro momento. Quando sento na cadeira de montagem, é quando já estudei muito todas as entrevistas. É quando já criei parte das poéticas apresentadas (a outra parte sempre filmo durante a montagem) e, com isso, começo esse trabalho minucioso e minimalista de “Esculpir o Tempo” (termo criado por Andrei Tarkovski) a partir das imagens, sons e silêncios provocados pelo mar. Sempre tenho procurado estabelecer parceiros para esses processos de montagem, para que não seja um processo solitário e que tenha a possibilidade de colaboração de outro olhar. Mas tenho muita firmeza do que quero e de como quero as imagens. Tenho montado os filmes com parceiros distintos e quem conhece meu trabalho, percebe claramente a maneira parecida com que monto meus filmes desde de “Filhos de João”, buscando uma narrativa cadenciada pelos afetos. No “Dorivando” tive a colaboração da querida Luciana Queiroz que assina a montagem comigo e fez Assistência de Direção. O filme teve uma equipe muito feliz, com cinco diretores de fotografia (Pedro Semanovschi, Andréia Cebukin/Rio, Thaís Taverna/SP, Alberto Ianuzii e Hamilton Oliveira). A Direção de Produção é de Marcello Gurgel; a captação de áudio de Marcello Benedicts. “Dorivando” foi colorido por Tito Oliveira e eu assino a direção de arte e a produção executiva junto a Nena Oliveira. Os créditos foram construídos com Emílio Le Roux; a edição de som de Beto Santana; a trilha adicional de Orlando Bolão e colaborações maravilhosas de Léo Carvalho na arte do cartaz, Fabiana Fernandes nas traduções, entre outras pessoas que tiveram olhares e afetos pelo filme durante o processo. Gostaria de ressaltar a postura da família Caymmi junto a esse trabalho. Danilo Caymmi e seu filho, Gabriel, são pessoas muito sensíveis ao fazer artístico e têm tido uma postura muito positiva junto ao filme.

B Negão

Em um dos momentos da obra, há uma fala acerca da questão do tempo do homem vs o tempo da máquina. Vivemos uma época virtual, onde tudo é fugaz, sendo pouca coisa realmente aprofundada. Como você enxerga a obra de Caymmi para gerações futuras e tão, contraditoriamente, desconectadas do real e do poético?
A internet chegou como a solução para o mundo moderno e acabou se transformando na prisão individual de cada um. Impressiona como todos estão conectados 100% dos dias (inclusive eu) e como isso tem nos afastado de nós mesmos. Imagina que os robôs conseguiram eleger um presidente completamente incapaz, a partir do ódio implantado nas mentes vazias e sem leituras, que acabam sendo manipuladas por essas memórias fabricadas com base nas mentiras. A internet hoje é o grande monstro do sistema. Elegeu Trump, tem provocado Golpes de Estado e nós, como meros receptores, passamos a acreditar em tudo que nos apresentam como imagem. Na França, as escolas proíbem o celular durante o período de aula, para desintoxicar o jovem desse estado de alerta eterno. O tempo de Caymmi vai na contramão desse tempo da internet. Quando proponho o verbo “Dorivar” é uma maneira de chamar a atenção para isso. “Dorivar” é ver o mundo com respiro, com o espaço para a dúvida, com o tempo não amarrado com o próximo futuro imediato. Dorivar não é ter “preguiça”. A preguiça foi uma maneira racista criada pelos colonizadores para subjugar os negros e índios que eram espancados para trabalhar como máquinas. E como diz Gilberto Gil no filme, deve ser requalificada. Por isso o baiano é visto como preguiçoso, porque esse racismo é entranhado de tal forma que foi transformado erroneamente em um preconceito super escroto com quem é da Bahia. Já vi algumas vezes os sudestinos chegarem aqui para falar mal do baiano. Não sou bairrista, mas precisamos lutar contra esse racismo de todo o dia. Baiano trabalha pra caramba e esse tipo de classificação eu não aceito de ninguém. Agora o entendimento do tempo na obra de Caymmi é uma outra coisa, não tem nada a ver com preguiça. Um tempo que vai de encontro com a velocidade de resposta e conexão que a internet nos obriga a ter. Quanto as futuras gerações, eu cito um depoimento de BNegão onde ele relata a sua participação numa Festa de Iemanjá, quando ele cantou seus sucessos e de outros cantores como Otto sob a empolgação alucinada das pessoas. Quando ele cantou uma música de Caymmi, ninguém o acompanhou. E isso o deixou muito impressionado. Caymmi tem uma série de músicas que as pessoas cantam e não sabem que é uma criação dele. Por isso, a importância de um Museu com sua obra dele, assim como tem a Casa Jorge Amado. As pessoas precisam dar a devida dimensão simbólica dessas entidades que passaram pela terra e merecem todo o nosso reconhecimento. Eu canto Caymmi com meus filhos e toco algumas coisas no violão, mas tenho uma luta diária contra o tempo de conexão deles. As Tvs via streaming (as Flixs da vida), as redes sociais, toda essa nossa engrenagem de mutação em algoritmo, tem nos manipulado de maneira muito séria e perigosa. Hoje temos pessoas que são contra os Golpes que aconteceram no Brasil, mas bebem Coca, calçam Nike, comem em FastFood americano e não percebem que o real poder do indivíduo no “Capetalismo” é o consumo, ou seja, não adianta ser contra a situação política no Brasil e continuar abastecendo o carro em postos de gasolina da mesma bandeira que acabou com o Pré-sal e fez o pior acordo a um país na história do “Capetalismo Moderno”. O Brasil entregou um trilhão para essa empresa em forma de concha do mar e depois retirou o mesmo montante do povo brasileiro através da “Deforma” da Previdência. Mas nós, revolucionários, não conseguimos abdicar de consumir os produtos do Dragão da Maldade e depois apanhamos desses inimigos fortes que nós alimentamos como uma oração. No cinema, vivemos essas mesmas contradições, a maioria dos equipamentos que utilizamos são de empresas multinacionais que vivem da destruição do mundo.

Um dos momentos que me chamou atenção no documentário foi a questão do embranquecimento de Dorival Caymmi, sendo que alguns exemplos de intelectuais negros brasileiros que passaram por processo semelhante em sua posteridade são citados no filme. Sendo um cineasta negro, e levando em consideração a imprescindível afirmação que seu filme já leva no título, como você coloca a resistência da obra de Caymmi em um país tão racista como o Brasil?
Esse filme dialoga muito com a minha vida. Eu fui embranquecido por minha família, por mim mesmo e pela sociedade. O embranquecimento é um processo cruel, perverso, onde você implanta um desejo oculto de ser diferente daquilo que você é. Você acaba não se reconhecendo como preto, acredita que seu cabelo é ruim, que seu nariz é grosso, como se isso fosse algo diferente do belo e passa a vida toda vivendo situações constrangedoras de racismo, mas prefere interpretar que foi outro tipo de preconceito. Hoje eu sou um negro não apenas por conta do meu olhar, da minha auto-declaração, mas pela percepção de como a sociedade me enxergou e me enxerga em vários momentos de minha vida. Caymmi, Machado de Assis, Lima Barreto, Juliano Moreira, são alguns dos nomes que a história embranqueceu porque acredita que, assim, é melhor para o projeto de nação. A questão racial, hoje, é um tema fundamental na sociedade. As pessoas precisam entender a necessidade de enfrentarmos o racismo estrutural que nos afoga. Steve Bikotraz tem um conceito de “Consciência Preta” que está sendo muito importante nesse meu atual momento de leituras. Aliás, a leitura de autorxs pretxs tem me levado a lugares muito interessantes nesse processo de re-identificação que tenho passado. Conhecer a obra de Conceição Evaristo, a autobiografia de Malcom X, os pensamentos de Frantz Fanon, tem me auxiliado muito nesse momento de afirmação. Todo o material de pesquisa que tive contato, o Caymmi apresentado, era um Caymmi Bossa Nova carioca, de Copacabana, que é lindo, também, mas o que eu busquei apresentar foi o Caymmi da esteira, das contas de Orixás, o Obá de Xangô. Voltando à sua pergunta, sim. Apresentar esse Caymmi preto é super importante nesse momento político de Idade Média, onde em nome de Deus, odiamos tudo aquilo que não reza na Bíblia e acabamos por fazer exatamente o contrário do que está escrito nos livros do Novo Testamento. Caymmi, antes dele, Humberto Porto, foram os primeiros a cantar os Orixás nas rádios brasileiras. E Caymmi segue fazendo isso até o fim da sua vida: cantando os Orixás.

Neste mesmo viés, em um Brasil infelizmente neo-pentecostal e evangélico, cujos governantes perniciosos e oportunistas se valem de tal influência para consolidar podres poderes, temos na religião do candomblé algo maior que uma simples religião. Trata-se de uma resistência contra um esmagamento criminoso. A obra de Caymmi é, também, um símbolo do candomblé como algo que merece respeito. E “Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar” é um filme que coloca muito disso em evidência. Você pode falar um pouco dessa função de alerta que seu filme traz contra o que vem acontecendo no Brasil?
O movimento neopentecostal no mundo é algo assustador. Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e nessas técnicas de convencimento e persuasão vão levando as pessoas como gado para onde elas quiserem. Estudei em colégio de freiras em Ilhéus, e, com isso, li muito a Bíblia e posso garantir que nesse livro não existe esse ódio plantado por esses falsos profetas. Até porque são metáforas e o problema está nessas infinitas possibilidades de interpretação. Não existe na história de Cristo contada naquele livro nada sobre intolerância às mulheres, aos gays, aos pretos, aos índios. Na verdade, a intolerância de Cristo é contada apenas quando ele expulsa os falsos profetas, os vendilhões, ou seja, caso ele voltasse hoje ele botaria para fora grande parte dos pastores das igrejas que foram erguidas em seu nome. Hoje, me preocupo sobre “o que é” Deus. Porque quando entramos nessa briga de rato para saber “quem” é Deus, entramos no jogo deles e sempre perdemos. Acredito que muitos dos evangélicos não pensam dessa maneira intolerante, mas são poucas as vozes que se opõem dentro dessas igrejas contra a intolerância. Vozes como o pastor carioca Marcos Maia, que se levanta de maneira muito corajosa contra essa maneira fascista de enxergar Deus. Hoje vivemos com as igrejas neopentecostais a mesma coisa que as Cruzadas fizeram pelo mundo: mataram milhões em nome de Deus. Uma coisa que sempre me preocupa é a entrada das igrejas no Estado. Assumem prefeituras, governos, presidências e fazem desses lugares de servidão pública, como espaços ampliados de suas igrejas. Isso não pode estar certo. A eleição para presidente desse ano mostrou muito dessa hipocrisia dos milhões de brasileiros que frequentam as igrejas, julgam todos e todas, mas são pessoas ruins, preconceituosas, que frequentam a igreja apesar do ódio que carregam em si. Tenho conhecidos (porque os amigos que votaram em Bolsonaro foram embora) que votaram nessa coisa que se elegeu, que frequentam a igreja e rezam todo o dia, mas não conseguem enxergar problema algum em votar numa pessoa que ameaça exterminar esquerdistas, que apoia a tortura seguida de morte, que apoia o machismo feminicida, que apoia o racismo, que apoia a destruição da natureza, que apoia a milícia, que apoia essa “Deforma” da Previdência, mas que vivem tranquilamente na sua própria hipocrisia do dia a dia, rezando para um Deus que irá perdoar seus pecados, que destroem esse país. Tempos estranhos se avizinham e precisamos ter coragem.

Qual o legado da obra de Caymmi para você?
O legado da obra de Caymmi vai ficar sendo apresentado por tempos futuros longínquos, próximos à eternidade. Caymmi virou o mar e o mar, apesar de todo o óleo das privatizações do petróleo nacional, é eterno. Só nesses últimos anos foram realizados três outros filmes sobre Caymmi. Ou seja, a obra dele é imensa, imensurável. Mas trago uma reflexão sobre a importância desse legado preto especificamente para a Bahia. É inadmissível que a Bahia não tenha um espaço sagrado para a manutenção da obra de Caymmi. Um Museu Caymmi com toda a obra dele. Caymmi não foi apenas a pessoa mais importante do DNA da MPB, ele foi também um excelente pintor, que tinha um domínio das cores e que tentava passar com os quadros algo parecido com suas músicas. Precisamos de sensibilidade dos nossos governantes para entender que a Bahia existe não porque tem metrô, ponte, estrada, BRT, igreja, a Bahia existe porque tem Caymmi, Jorge Amado, Caribé, Verger, João Gilberto, Gilberto Gil, Novos Baianos, Tincoãs, Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Menininha, Mãe Stella, Mestre Didi, Mestre Pastinha, Mestre Bimba. Não posso deixar de comentar a apatia, a inconsistência dos trabalhos desenvolvidos pela Secretaria de Cultura do Estado e do Município. A Prefeitura, depois de estabelecer um diálogo promissor, tem dois anos que não realiza editais de audiovisual e acaba de conceder um apoio considerável a um projeto do Rio de Janeiro sem ter nenhuma espécie de apoio parecido com as produções locais. Em relação ao governo do estado, as inconsistências das conduções dos dois únicos editais da atual gestão são lamentáveis. No primeiro edital de audiovisual do atual governador, tivemos um susto quando nos deparamos com uma política clara de exclusão. Pessoalmente, tive projetos que foram desclassificados porque utilizei uma cor para cada etapa de produção. Nesse agora fui desclassificado pelo entendimento do governo que minha produtora, que apresentou todas as certidões negativas de débito, inclusive a municipal, não demonstrou que era uma empresa baiana e por isso não poderia participar do edital. Apenas um dado para reflexão: 47% das propostas apresentadas foram desclassificadas por motivos insignificantes como o que apresentei. É um recorde de exclusão na história dos editais no país. Finalizo salientando que “Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar” foi realizado com recursos do FSA em parceira com o Canal Curta e com a produção da Hamaca Filmes.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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