Entrevista: Black Bell Tone canta sobre o amor em tempos de ódio

entrevista por Guilherme Lage

A Black Bell Tone decidiu cantar sobre o amor em tempos de ódio. Não só isso, a banda gaúcha mostrou em seu disco de estreia que os sentimentos discrepantes são artifícios poderosos para a expressão da revolta em épocas polarizadas pela incerteza política.

Formada em 2017 em Porto Alegre, a banda se afasta do DNA normalmente esperado do rock gaúcho, acrescentando uma noção musical diversificada que não se agarra apenas aos pampas do Rio Grande do Sul. O álbum de estreia, “Engenho Que Fabrica Opinião”, lançado em setembro, traz po  rções bem distribuídas de rock clássico, folk e pop rock. O disco, em essência, é um manifesto estruturado que une revolta a flower power com uma abordagem autenticamente brasileira sobre realidade, a nossa realidade.

Em conversa com o Scream & Yell, o guitarrista e compositor Nando Pontin falou sobre o rock gaúcho, a formação da banda e a composição do álbum que, além de um bom disco de rock, serve como um vistoso dedo do meio para o presidente Bolsonaro.

Podem falar um pouco sobre a história da banda? Como foi a formação? Como chegaram ao nome Black Bell Tone?
A Black Bell Tone se formou em março de 2017 a partir do final de três outras bandas aqui da cena independente do RS. O Taba Kuntz veio da Sandálias, eu (Nando Pontin) e o Lucas Pontin viemos da Dissométrica e o Fernando Paulista era da Wannabe Jalva. Cada uma dessas bandas já tinha uma longa estrada com EPs, discos e clipes lançados, shows pelo Brasil e no exterior e isso ajudou muito a gente ter objetivos bem definidos desde o primeiro dia de ensaio. A banda já nasceu focada em compor e gravar um álbum completo, mas sabíamos que o processo levaria um tempo, por isso decidimos lançar alguns clipes e singles ao longo dos primeiros dois anos pra já ir apresentando o trabalho pra diferentes públicos e também pra afinar o nosso processo como um todo. O nome Black Bell Tone na verdade tem uma história bastante curiosa contada em vídeo no nosso canal do Youtube. Algumas semanas depois de formar a banda, ainda sem nome, nós organizamos um “campeonato” de nomes de banda. Cada um de nós trouxe pelo menos dez sugestões e então votamos nos três melhores nomes de cada um. Saímos de um universo de mais de 50 sugestões para um total de oito e depois fizemos um chaveamento tipo quartas de final, semi-final e final. Black Bell Tone foi uma sugestão do Taba e que na época foi escolhido muito mais pela sonoridade, porém ao longo do tempo o “som do sino negro” foi completamente incorporado nos conceitos da banda e do disco como se tivesse sido criado sob medida. É difícil dizer o quanto também essa escolha, resultado de um método inusitado, nos influenciou a trilhar o caminho que percorremos a partir daí. Como se nome desse sentido a banda e não o contrário. Com o tempo e o desenvolvimento das nossas temáticas assumimos que “Black Bell Tone” é o som do último badalar de um sino negro antes do fim do mundo.

Podem explicar um pouco sobre o nome e o conceito do disco? O que o título reflete da música do álbum?
O nome “Engenho Que Fabrica Opinião” faz um paralelo entre os engenhos de cana onde os escravos fabricavam açúcar e o imenso “engenho” onde hoje escravos virtuais, sejam eles robôs ou humanos, “fabricam” opiniões. Essa frase está na letra do single de lançamento “Amor, Ordem e Progresso”:

Escravos digitais
Chicotes virtuais
Engenho que fabrica opinião
Vaidade dos senhores da razão

Praticamente todas as músicas do disco foram compostas após a criação da banda, ou seja, já dentro de um contexto. No entanto esse processo levou dois anos e meio, ou seja, a mensagem foi sendo refinada e tornou-se mais focada ao longo do tempo. Desde o primeiro dia a gente buscou encontrar pontos de convergência para decidir pra onde iriam as nossas letras e a nossa mensagem. Acabamos percebendo um interesse geral sobre tecnologia, redes sociais, big data, manipulação de massas, política tanto em nível nacional como mundial e como hoje a gente vive na iminência de um apocalipse. Considerando que alguns líderes mundiais (cada vez mais radicais) têm arsenais nucleares a sua disposição, não nos parece ser uma questão de se, mas apenas de quando vai acontecer. Em um cenário alternativo, porém não menos dramático, teríamos governos autoritários controlando informações pessoais dos cidadãos e tendo em suas mãos o mais diverso aparato tecnológico para neutralizar quaisquer discursos de oposição. Nesse sentido, não é exagero pensar em robôs virtuais guiados por GPS prontos para apagar pessoas sob qualquer pretexto conveniente. A disputa pelo poder sempre foi podre, entretanto, as consequências da tecnologia nesse cenário recém começam a ser percebidas. O primeiro single “Wolfpacks Bay” ainda é fruto das experiências iniciais no estúdio, mas a partir de “All You Said Was Never True” e “Será Que Restou Alguém?” todas essas temáticas já ficam bem evidentes e isso acabou pautando todas as demais faixas do álbum.

A capa é absolutamente sensacional, como foi o processo de criação artístico?
Pode-se dizer que essa capa também é fruto de quase dois anos de desenvolvimento, pois o Leo Lage, artista visual que assina a obra, já vem trabalhando com a gente desde o primeiro single. O Leo tem uma longa carreira com grandes artistas e bandas aqui do RS como a Pública, Ultramen, Dingo Bells, Anaadi, entre tantos outros (https://leolage.org/). O Leo é um cara sensacional e ele não faz apenas uma arte pra ilustrar o teu single/disco, ele faz questão de cair pra dentro de todo o teu conceito, entender, ouvir as músicas, discutir e só então propor algo. Nesses dois anos de composição das músicas, o Leo esteve envolvido desde o início. Então, quando chegou a hora de criar a capa do álbum nós escrevemos um briefing de mais de dez páginas (!) tentando “organizar” as ideias e conceitos, mas em momento nenhum dissemos o que queríamos estampado na capa. Passados alguns meses, o Leo apareceu com essa imagem espetacular das mãos na posição “da paz”, porém feridas por um prego medieval. Não é exagero dizer que a capa ressignificou muita coisa no álbum. Assim como o nome da banda nos ajudou a estabelecer uma temática, a capa do álbum parece ter conseguido encaixar toda a narrativa, o contexto e a coerência que nós estávamos buscando. A impressão que nós tivemos é que ela amarrou todas as pontas soltas e criou uma mensagem extremamente coesa e poderosa. As mãos em oposição, uma para esquerda e outra para direita, uma preta e outra branca, fazem uma alegoria à polarização da sociedade, não só no Brasil, mas em quase todo mundo. Essa sociedade sangra em busca de paz, acredita que está muito distante, embora esteja praticamente no mesmo lugar. Além de todo esse poder de síntese que o Leo foi capaz de fazer em apenas uma imagem, o processo técnico de criação da capa também é impressionante e começou com um “rascunho” da imagem (layout). Depois de aprovado, o Leo, com assistência da Anne Fernandes, fotografou as próprias mãos na posição. Em seguida foram dezenas de processos e centenas de ajustes para que parecesse uma escultura em mármore desgastado (como em um apocalipse), porém viva. Incluí abaixo algumas imagens que eles foram postando ao longo da criação.

Em momentos como o de hoje, cantar sobre amor e revolta é uma das coisas mais rock n’ roll que podem ser feitas. Vocês concordam? Essa concepção ajudou vocês na composição do disco ou foi tudo mais orgânico?
Com certeza! O nosso clipe e single de lançamento “Amor, Ordem e Progresso” fala exatamente sobre isso em uma referência direta ao nosso cenário brasileiro. A inscrição na bandeira “Ordem e Progresso” foi escolhida tendo referência o lema do positivismo de Auguste Comte, que originalmente diz: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. Como é possível uma sociedade ter ordem e progresso sem o princípio mais fundamental de todos que é o amor? Nesse momento, nos pareceu um gancho perfeito para falar sobre a polarização da sociedade brasileira e como parece impossível a gente sair dessa sem empatia, conversa, entendimento e amor. O ódio e a polarização da sociedade não são um efeito aleatório ou um reflexo de sentimentos oprimidos que sempre estiveram ali. Muitos grupos políticos e econômicos se valem do “engenho que fabrica opinião” para fomentar essa cisão da sociedade em nome dos seus próprios interesses. Quanto antes as pessoas perceberem isso e voltarem a tratar os seus parentes e amigos como semelhantes que, no fundo, querem o mesmo bem comum, mais chances teremos de evitar essa escalada de governos autoritários ao redor do mundo. Precisamos reconhecer a nossa diversidade e saber lidar com isso. Não podemos reduzir a questão a um grupo político, a uma posição única e radical, na esperança de simplificar e resolver demandas de sociedades que, em contrapartida, estão se tornando cada vez mais complexas. Retirar o prego medieval que nos fere é dolorido, assim como é encontrar espaço e respeito entre todos que vivem nesta sociedade tão heterogênea. A mensagem final do nosso disco em “It’s All Right to Sense Again” trata exatamente desse processo de cura pelo qual a sociedade vai precisar passar pra voltar a avançar.

Fill your mind
And turn on all your chances
Set rewind
And give another dance
It’s ok
It’s all right to sense again

Vocês são do Rio Grande do Sul. O rock n’ roll feito aí é bem conhecido no resto do Brasil (Replicantes, Cachorro Grande, Bidê ou balde, etc…) como vocês avaliam a cena daí atualmente?
O termo “Rock Gaúcho” mais do que fazer referência ao rock feito no Rio Grande do Sul ao longo das décadas acabou se tornando praticamente um subgênero musical. Muitas bandas que surgiram nos anos 80 mostraram pro Brasil essa “cara” do rock feito aqui, principalmente o TNT, os Cascavelletes, Frank Jorge e etc. A Cachorro Grande, mais recentemente, acabou por reforçar esse estereótipo, embora eles tenham uma linguagem um pouco mais moderna. Nós somos “outsiders” nesse cenário. Praticamente nada do que a gente produziu como banda nos conecta com essa turma, embora algumas pessoas sintam similaridades principalmente por conta do sotaque gaúcho nas letras em português. A produção de música no RS hoje, na nossa modesta opinião, é a melhor de todos os tempos. O que também é uma obrigação da nossa geração, tendo em vista a facilidade que temos hoje pra produzir música e a dificuldade quer era fazer isso há 30, 40 anos atrás. A cada semana tem novos lançamentos de discos, clipes, singles das mais diferentes vertentes e dialogando com referências que vão muito além do dito “rock gaúcho”. Pra citar apenas alguns exemplos: a Dingo Bells é de longe uma das melhores bandas em atividade no Brasil hoje. Com dois discos impecáveis, produzidos pelo Marcelo Fruet, recheado referências que vão do Clube da Esquina a Steely Dan e performances ao vivo que são extremamente fiéis aos discos. Em outro segmento, a Rebel Machine faz hard rock 100% em inglês, também lançou dois discos que não devem nada “pros gringos”, abriram os shows do Slash e do Zakk Wylde aqui em Porto Alegre. Esses são apenas alguns dos caras que estão criando essa “nova cena” vinda do sul do Brasil e da qual temos muito orgulho em fazer parte.

Ser daí ajudou vocês a desenvolverem uma sonoridade mais única? Influenciou o som de vocês estarem em contato constante com a cultura/música daí?
Quando a gente começou a tocar, por volta do ano 2000, já se arranhava alguma coisa de internet e tínhamos ainda um bom conjunto de rádios alternativas em Porto Alegre que traziam sons de fora. Com certeza em algum grau, em algum ponto da nossa história, fomos influenciados pela música e pela cultura daqui, mas isso aparece pouco no trabalho da Black Bell Tone. Provavelmente contribuiu mais pra desenvolvermos uma sonoridade única a pluralidade de estilos individuais do que o fato de todos sermos da mesma cidade/estado. O Paulista por exemplo, veio de SP (por isso o apelido), mas já mora há quase 20 anos no RS. Ele é o cara que ouve os sons com mais groove, balanço, melodia, música brasileira e etc. Eu (Nando) me criei ouvindo Jimi Hendrix, Beatles, Pink Floyd, mas ao mesmo tempo sempre curti rock nacional: Planet Hemp, Skank, Rappa… O Lucas provavelmente é o mais mainstream de nós, tanto no Pop quanto no Rock, ele é o cara que traz de Coldplay a Foo Fighters passando por Muse e Bruno Mars. O Taba já trouxe bastante da sonoridade da cena punk/ska. Tudo isso – as nossas influências e a própria vivência e maturidade musical – foi se misturando e fazendo com que cada um contribuísse um pouco pra uma identidade própria da Black Bell Tone. A gente fica muito feliz quando alguém ouve o disco e acha difícil encontrar uma outra banda pra dizer que é similar. É um sentimento de “missão cumprida” e de que estamos em um bom caminho.

Além da música, vocês têm outras atividades paralelas? Como é conciliar essas atividades com o trabalho da banda?
Nós seguimos trabalhando nos nossos empregos “normais”, além do trabalho com a banda. Esse é um tópico recorrente de discussão entre músicos, artistas e bandas: “largar tudo” e se dedicar 100% do tempo a carreira, ir migrando de uma situação para outra ou efetivamente ter duas vidas paralelas. Todas as situações têm vantagens e desvantagens e isso foi longamente debatido desde os primeiros dias de Black Bell Tone. É um dos grandes clichês do rock, mas “banda é como casamento”. Todo mundo precisa estar alinhado nas expectativas, objetivos, tempo, dedicação, investimento, etc. Para nós, na atual circunstância, essa configuração onde não dependemos financeiramente da banda para o nosso sustento, nos dá total autonomia para fazer exatamente o que quisermos em termos de arte, sem qualquer tipo de concessão ou preocupação em seguir uma tendência que vem dando certo para outros artistas. Hoje existe claramente um “midstream” formado por artistas independentes e festivais por todo o Brasil, reunindo público qualificado e aberto a novos sons e novas mensagens. Esse é o nosso grande objetivo para 2020: fazer parte dessa cena e mostrar o nosso trabalho para essa galera. Se um dia der pra “viver da banda”, ótimo, faremos isso, mas até lá estamos priorizando nossa capacidade de investimento e harmonia como amigos e família.

Vocês são bem críticos ao governo Bolsonaro. Como avaliam e enxergam esse momento em que a cena brasileira é bastante tomada por apoiadores do atual presidente?
A nossa crítica e preocupação vai muito além do governo Bolsonaro. Os mecanismos que ajudaram a eleger Bolsonaro seguem vivos e intactos e ninguém parece preocupado em combater esse mal pela raiz. Isso é parte da mensagem do “Engenho Que Fabrica Opinião”. Não há qualquer garantia que, se Bolsonaro terminar ou não o mandato, na próxima eleição não vamos ter exatamente as mesmas estratégias (fake news, financiamento empresarial disfarçado, caixa 2, etc) para eleger alguém igual ou pior. É importante deixar claro que a Black Bell Tone é e sempre será contra todo tipo de preconceito, discriminação e atentado às liberdades individuais, sejam eles promovidos por governos de direita, centro ou esquerda. A nossa bandeira é a da HUMANIDADE. Conciliar não significa tolerar absurdos. Pacificar não é o mesmo que calar-se. Estamos nesse processo de ódio e polarização há alguns anos, e seguir acusando os outros de serem idiotas, manipulados, estúpidos, racistas, misóginos e etc. não parece estar surtindo efeito, certo? Pelo contrário, só estamos empurrando pra mais longe pessoas que, com um pouco de conversa e informação, poderiam estar ao nosso lado. Antes de querermos formar uma consciência coletiva, precisamos nos entender mais como seres humanos, dentro da nossa própria noção de quem somos e o que estamos fazendo aqui. Ajudar o outro a expandir os limites da sua consciência individual, por si, já vai ajudar o desenvolvimento coletivo. Cada vez que eu tomo conhecimento de situações e problemas que antes eram estranhos a mim, eu ganho um pouco mais de subsídio coletivo. Eu posso não concordar, mas é meu dever respeitar e legitimar o discurso do outro. Essa empatia de reconhecer outro ser humano, por mais diferente que ele possa parecer, nos parece a chave para a convivência. Em um dia, alguém “abre a sua mente” e lhe mostra algo novo, em outro momento, é você quem está fazendo isso para outra pessoa. Informação, entendimento, empatia e cura. Pra nós, essa parece ser a única saída desse buraco onde nos enfiamos.

– Guilherme Lage (www.facebook.com/breadandkat) é jornalista e mora em Vila Velha, ES.

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