Entrevista: Legacy of Kain

entrevista por Paulo Pontes

Formada em 2016 pelos guitarristas Karim Serri e Angelo Torquetto, em Curitiba, a banda Legacy of Kain tem se mostrado uma das grandes forças do metal nacional. A banda, que vira e mexe faz shows nos mais diversos países da América do Sul, vem trabalhando na divulgação de seu mais recente álbum, “Paralelo XI” (2019), que pode ser considerado, sem sombra de dúvidas, um dos grandes lançamentos nacionais do ano.

Abordando temas como depressão, suicídio, política, além de um violento massacre ocorrido com os índios da tribo Cinta Larga em 1963, a LOK pratica um metal moderno, pesado e cheio de groove. A banda já passou por algumas alterações em sua formação, hoje consolidada como um quarteto com Markos Franzmann nos vocais, Tiago Rodrigues na bateria, o baixista João Lavina, além de Karim Serri nas guitarras.

Na conversa que você confere abaixo, a banda fala sobre as composições do novo disco, que contou com a participação da vocalista Fernanda Lira (Nervosa), analisa o atual cenário do metal por aqui e decreta que trabalhar “intensamente com banda de metal no Brasil é para poucos, pouquíssimos”.

Desde a sua formação a banda passou por inúmeras mudanças: troca de vocalista, baixista, saída de integrantes, enfim. Como vocês avaliam o atual momento do Legacy of Kain e como essas mudanças influenciaram (se influenciaram) na sonoridade ou na forma como encaram os assuntos relacionados ao grupo?
Karim Serri: É, quando se trabalha com a intensidade que a LOK trabalha aqui no Brasil, corre-se esse risco. Quando começamos e a cada novo membro que entrou na banda foi conversado e explicado exatamente a forma e a maneira de trabalharmos e que os resultados apareceriam diariamente. Acho que na empolgação o cara pensa “nossa é tudo que eu queria de uma banda”, mas quando ele vive essa realidade no dia a dia e vê tudo que tem que sacrificar para que a banda funcione dessa maneira, quando ele vive a realidade de uma tour de 15, 30 ou 40 dias, ele se dá conta que as coisas não são tão bonitas e fáceis como parecem. Trabalhar intensamente com banda de metal no Brasil é para poucos, pouquíssimos. Dá pra contar nos dedos de uma mão as bandas que fazem esse tipo de trabalho que a LOK faz. A entrada do Markos influenciou no som da LOK, ele vem de uma escola bem mais moderna e puxa a gente nesse sentido.

Vocês já são músicos com anos de experiência, entretanto, é nítida a evolução que atingiram com o lançamento de “Paralelo XI”. Dá pra dizer que vivem o melhor momento de suas carreiras?
Karim: Claro, acho que estamos vivendo nosso melhor momento hoje tanto em termos de sonoridade quanto em termos de projeção, mas isso é até agora. Espero que a cada semana daqui pra frente estejamos vivendo nosso melhor momento. Ainda temos muito o que crescer e aprender.

Pra quem está há tanto tempo na estrada, quais são as principais diferenças? As coisas têm melhorado?
Karim: Em alguns pontos está muito mais fácil. Está mais fácil de gravar um disco e fazer contatos para tocar. A Internet ajudou muito nesse sentido. Por outro lado, está muito mais difícil de se destacar em meio a tantas bandas e conseguir se colocar no mercado. Mas no nosso meio eu acredito que hoje os fatores sorte, carisma e originalidade que eram suficientes antigamente, não bastam, as gravadoras e os empresários desse mercado não estão mais procurando “aquela banda”, eles querem uma banda que já esteja fazendo o seu trabalho, que necessite de um mínimo investimento para deslanchar. Ninguém mais tem dinheiro para investir do zero e sustentar uma banda até ela virar, ou você já está maduro e disponível, ou seja, “pronto” para encarar o mercado, ou você não tem chance nenhuma.

Vocês poderiam nos contar um pouco sobre a temática da faixa “Split in Half”, que conta com a ilustre participação da vocalista Fernanda Lira (Nervosa)?
Karim: É uma história vergonhosa do nosso passado. No chamado “Massacre do Paralelo XI”, ocorrido nos estados do MT e RO nos anos 60, em um dos vários episódios sangrentos e covardes, um grupo de grileiros e garimpeiros capturou uma índia da tribo dos Cinta Larga com seu bebê de colo, pendurou-a de cabeça para baixo e cortou-a ao meio a golpes de facão, depois matou seu filho. Acho que Fernanda destilou toda sua raiva quanto a essa história quando interpretou essa índia ao cantar “Split in Half”. Sensacional e emocionante.

A banda lançou nas plataformas digitais uma inusitada versão de “Get Lucky”, do Daft Punk, outra a contar com a participação da Fernanda Lira, que por sua vez colocou um também inusitado vocal limpo na faixa. Como surgiu a ideia de gravar essa versão? A Fernanda já era uma escolha para a faixa ou o convite veio após ela gravar a participação em “Split in Half”?
Karim: A gente tava com a ideia de gravar esse cover antes de pensar em qualquer participação, aí um dia estávamos conversando com o Marllon Matos, nosso assessor de imprensa, e ele veio com a ideia de chamar alguém para fazer essa ponta e fomos levantando nomes até que ele sugeriu a Fernanda Lira. Quando falamos com ela, ela adorou a ideia do cover e do vocal limpo. O papo fluiu tão de boa que resolvemos convidá-la também para a “Split in Half” e fizemos a letra dessa música já pensando na participação dela.

Tendo o Daft Punk como referência, quais outros estilos musicais ou artistas fora do metal e suas vertentes influencia vocês?
Karim: Puts, a lista é enorme. Vou falar por mim: gosto de Adele, David Bowie, Maroon 5, Sia e por aí vai.

Tanto no EP “Greta” (2016) quanto no álbum de estreia, “I.N.V.E.R.S.O” (2017), as letras eram todas em português, agora, em “Paralelo XI”, decidiram compor em inglês. A que se deve essa mudança?
Karim: Bom, em primeiro lugar, eu quero deixar claro que gosto demais de música no estilo que nós fazemos cantadas em português, mais do que em inglês. Até 2016 a gente tinha a esperança de que o mercado nacional iria mudar, com o crescimento de bandas como Project46, John Wayne, Ponto Nulo No Céu e mais aquela enxurrada de bandas boas cantando em português que teve nesse período. Tínhamos uma esperança muito grande que se formaria um circuito, uma cena forte e concreta de música pesada no BR. Expectativas frustradas e de volta à realidade, resolvemos desisitir de esperar por isso. Pensamos da seguinte forma, “bom as pessoas aqui no Brasil vão gostar se fizermos um disco em português ou em Inglês e as pessoas de fora vão gostar muito mais se fizermos um disco em Inglês”. Foi uma mudança fria mesmo, estratégica, visando o mercado como um todo. Nada poético nem derivado de uma grande inspiração.

As letras da banda são bem atuais e abordam temas relevantes no campo político/social. Percebe-se também uma preocupação em enxergar esperança em meio às necessárias críticas presentes em algumas faixas, correto? Como funciona esse processo de criação?
Markos: Todas as letras que fazemos abordam algumas histórias verídicas sobre o que sofreu nos anos 60/70 a tribo dos Cinta Larga por interesses externos, e nós vivemos algo parecido ou pior hoje. No meu ponto de vista, são interesses ocultos e talvez mais perigosos do tipo ONGs que dizem se preocupar com o povo indígena, mas no fundo ou estão desviando dinheiro público ou estão plantando uma semente para que nossa Amazônia um dia não seja mais patrimônio brasileiro. Abordamos outros assuntos como depressão, suicídio, política, muitas vezes de forma genérica para que o público possa interpretar as letras de acordo com o que estamos vivendo hoje. No último álbum tivemos a colaboração do Pedro Ferreira (Royal Rage) em várias letras do álbum. Temos um senso comum entre a banda sobre os nossos ideais em relação à política e outros assuntos que abordamos. Tudo é lido e discutido antes de ser aproveitado.

O Legacy of Kain já esteve em diversos países sul americanos, inclusive, retornaram recentemente de mais uma turnê pelos países vizinhos. Como tem sido a receptividade à banda fora do território brasileiro? Vocês têm encontrado boas estruturas para tocar fora do nosso país?
Lavinas: A receptividade fora do país, em geral, é incrível. Não sei se por sermos estrangeiros, mas dá pra notar uma certa diferença dos shows que acontecem aqui no Brasil. Um dos pontos mais diferentes é o distanciamento inicial do palco. Normalmente, no início dos shows, há uma distância do público com a banda, mas conforme vão se ambientando, o mosh rola solto. A respeito da estrutura, não vejo que há tanta diferença do que temos aqui no Brasil. Alguns lugares bons, outros nem tanto.

Markos: O Legacy sempre foi muito bem recebido em todos os rolês organizados em outros países. O público sul americano é muito acolhedor. Na segunda vez que fomos à Bolívia e Peru tivemos uma recepção mais calorosa ainda da galera que compareceu nos shows do que em 2017. As casas de shows nem sempre são bem estruturadas, assim como aqui no Brasil, mas às vezes esse é o melhor que eles podem proporcionar. A gente se adapta e tenta retribuir o carinho e a dedicação que eles têm com a gente em cada cidade que passamos

Vocês têm mais uma porrada de shows fora do Brasil agora no final do segundo semestre, entre eles um ao lado do Krisiun, um dos maiores representantes da música pesada do Brasil. Qual é a expectativa para esses shows e o que podemos esperar do Legacy of Kain nos próximos meses?
Markos: Estamos empolgados para essa segunda parte da turnê que acontecerá em outubro/novembro na Argentina, Paraguai e terminará no Chile. Será nossa primeira vez na Argentina, esperamos conquistar nossos hermanos com o nosso último trabalho, o “Paralelo Xl”. Até onde sabemos, há um público metaleiro considerável por lá. Não esperamos nada além de shows muito brutais.

Se tivessem que escolher três músicas da banda que a definem, quais seriam? Por quê?
Karim: “The Throne”, “Split in Half” e “Beneath The Mud” são as que eu acho que definem melhor musicalmente e ideologicamente o que é e o que será a LOK

Markos: Particularmente, gosto muita da ‘Distrito F_deral”. É uma música que representa muito o lado da revolta sobre nossa política como um todo, é uma música pesada em todos os sentidos. “Split in Half” representa a forma que a o Legacy gosta de relatar os problemas que vivemos no nosso país. Da forma mais nua e crua possível, a letra diz exatamente o sentimento da tribo Cinta Larga ao ver seu povo ser devastado por puro interesse comercial. Sentimento de dor e sede de vingança pelos que foram mortos naquela noite. A música “Disease”, a última faixa do álbum “Paralelo Xl”, conta uma história genérica sobre um sujeito que perdeu alguém muito próximo, e sua única vontade era encontrar essa pessoa novamente, nem que isso lhe custasse a própria vida. A letra foi baseada em situações que nós do Legacy passamos em nossas vidas. Perdi meu pai muito cedo, e isso reflete em minha vida até hoje. Nosso amigo Pedro Ferreira, que ajudou nas composições do disco, tem uma história parecida e resolvemos colocar isso de forma genérica para que o público pudesse adaptar sua própria história à letra dessa música.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash, assina a Kontratak Kultural e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

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