Entrevista: Gabriel Thomaz Trio

entrevista por Bruno Lisboa

Gabriel Thomaz é um dos maiores exemplos de resistência quando o assunto é a música independente dos anos 90 para cá. Seja com Little Quail and the Mad Birds, com o Autoramas ou com o projeto Lafayettte e os Tremendões, sua trajetória acaba por simbolizar uma cena musical nacional que saiu das amarras das grandes gravadoras dando lugar a um mercado independente que, anualmente, desde então, segue em franca expansão.

Agora em 2019, Thomaz lançou “Babababa”, primeiro álbum de um novo projeto que ainda conta com o atual baixista do Autoramas, Jairo Fajersztajn, mais o baterista Bruno Peras. Trata-se do Gabriel Thomaz Trio, seu primeiro registro no qual o músico coloca o seu nome em evidência, ainda que o trabalho seja dividido coletivamente, trazendo muitas de suas referências musicais (que vão da surf music ao garage rock) em formato instrumental.

Na conversa abaixo, Gabriel conta como surgiu este novo projeto, explica que o Trio não é um projeto solo e fala da cena instrumental brasileira, o mercado musical, a repercussão da entrevista dada por Milton Nascimento, a parceria com o selo Hearts Bleed Blue, o trabalho ao lado do produtor Billy Comodoro além de suas aventuras pelas ondas do rádio e, agora, do Youtube e também como produtor. Confira o papo.

Por mais que você tenha protagonismo em grande parte dos projetos em que você se envolve, “BaBaBaBa” marca a primeira vez em que você utiliza o seu nome diretamente (salvo o EP com a Érika). Por que só agora você optou por se colocar mais a frente?
Em todos os discos do Autoramas sempre incluímos temas instrumentais. Temas que eu sempre gostei muito. Não só de gravar, mas também de tocar ao vivo, mas sempre foi difícil incluir essas músicas nos shows do Autoramas concorrendo dentro de um repertório tão vasto como o nosso. Fazer setlist de show sempre foi uma coisa complicada por termos tantas músicas que gostamos e que a galera pede. E as músicas instrumentais sempre ficavam pra trás. Teve uma época que resolvemos fazer uma série de shows 100% instrumentais, que foram muito legais, mas parte do público e das pessoas que contratam shows não entenderam muito bem, exigindo nossas músicas mais conhecidas, cantadas. Por isso, com essa experiência, resolvi fazer um outro projeto, com outro nome, para não haver mais confusão. E usei meu nome, pra que, mesmo assim, continue uma coisa relacionada a outra. Quem sabe um dia não faça algo verdadeiramente solo só com meu nome?

E como seria um disco solo seu?
A primeira demo do Autoramas eu fiz tudo sozinho, sem ninguém para dar opinião. Foi quando o Little Quail acabou, só fiquei eu, e a gente tinha uma grana para gravar músicas novas e eu fui lá e fiz tudo sozinho. Foi o começo de um projeto, e todo mundo que passou pelo Autoramas teve espaço para contribuir, sempre teve a coisa da banda. Eu não sei como seria um disco totalmente solo meu, teria que pensar, deixar rolar. Só queria deixar claro que o Gabriel Thomaz Trio é um trio em que todo mundo na banda opina, todo mundo fala. Não é um disco solo.

E essas canções do Gabriel Thomaz Trio se encaixariam no repertório do Autoramas então?
Se encaixariam perfeitamente. Inclusive tocamos temas instrumentais antigos do Autoramas nos shows do Trio, como: “Motocross”, “Multiball”, “Bahamas”, “PanAir do Brasil”. Nas músicas instrumentais, apesar de serem o mesmo estilo do Autoramas, consigo explorar mais melodias na guitarra, além de abusar de diferentes timbres e efeitos sem moderação. Mas a nova proposta é essa: músicas sem letras. E até na voz consigo explorar coisas de maneiras diferentes, como em “Babababa” e “Ecranoplano”. A galera que curte meu trabalho e estilo como guitarrista sempre me perguntou dos meus timbres e efeitos e como resultado disso a EFX Custom Effects lançou a Gabriel Thomaz Series, minha linha signature de pedais de efeito. Já saíram dois pedais: o Vibratoramas e o Fuzzoramas.

A música instrumental brasileira é diversa, com bandas que exploram diversas matrizes sonoras, mas eu percebo que ainda há uma certa resistência de público para com bandas que apostam neste caminho. Como você vê a cena atual? E ainda: qual seria o melhor caminho para fazer com que a audiência torne-se ainda mais atenta a este formato sonoro?
Eu acho desde que nasci que as pessoas nunca foram tão abertas à música instrumental. Ao longo da minha carreira sempre tentei incluir e trabalhar temas instrumentais e sempre fui podado. Hoje vejo bandas conquistando plateias numerosas já em seus primeiros discos fazendo um som 100% instrumental. Tudo é tão livre hoje que até a música instrumental encontra sua galera e é incentivada. Imagina se há 20 anos atrás eu falasse que ia lançar um álbum instrumental as respostas que eu não ouviria…

Se o Brasil tem um mercado crescente quanto a música instrumental a impressão que eu tenho é que no exterior a recepção é bem diferente. O Autoramas já excursionou bastante pra fora. A partir do seu know-how você pretende levar o Trio pra fora do país? Vender um show neste formato difere muito do que você consegue com a banda?
O disco está saindo lá fora, isso já é um grande passo pro exterior. Mas ainda não temos nada marcado. Gostaria, sim, muito de fazer. Entre na nossa torcida você também.

Recentemente Milton Nascimento teve uma fala polêmica em entrevista onde afirmou que a música brasileira está uma merda. Depois ele veio a público se retratar dizendo que a sua afirmação era direcionada ao mainstream. Como músico/compositor como você recebeu esta declaração? Qual a sua opinião sobre o mesmo assunto?
(risos) Eu achei hilário, foi uma declaração bem anos 70 ou 80, quando as pessoas se controlavam menos pra falar porque a repercussão era milhões de vezes menor. O que achei mais engraçado foi que quando ele quis consertar a declaração citando artistas que ele considera bons, várias pessoas que eu conheço falaram “agora eu acho que ele tinha razão” (risos). A música brasileira sempre foi muito boa e também sempre foi uma merda. Por exemplo, as pessoas falam dos anos 80 como se só tivesse coisa boa, mas o maior vendedor de discos dessa época foi a Xuxa, e todos nós sabemos cantar as músicas dela. O que vejo hoje é que só há espaço pra dois tipos de música no rádio e na TV, um tem 95% do espaço e outro tem 5%, a ponto de um gênero totalmente comercial ser considerado de alguma forma “alternativo”. Eu vim e entrei no mundo da música através de um troço que se chamava “Rock Alternativo”, algo que pelo menos teoricamente não deveria ser medido em paradas de sucesso, portanto não sei se sou a pessoa certa pra opinar sobre esse assunto. Mas, já que você pediu, solto minha bombinha: acho que o Brasil é um supermercado musical, mas hoje só o açougue tem vitrine.

No disco você acompanhado por Jairo Fajer no baixo e Bruno Peras na bateria. Quais as contribuições ambos trouxeram para o resultado final?
Jairo entrou no Autoramas porque entendi que ele dominou o esquema do baixo no Trio, quando começamos a ensaiar em 2016 (ele já toca no Trio antes de entrar no Autoramas). É um esquema complicado, com pedais e efeitos, regulagens, volumes, relações entre sons que me fez ficar confiante no cara e chamá-lo pra tocar comigo em todos os projetos. Foi o Jairo que chamou o Peras pro Trio (nós sempre dizemos que o Jairo é o líder do Gabriel Thomaz Trio). Peras é multi-instrumentista e também vocalista. Seus arranjos na batera encaixaram e respeitaram a proposta da banda. E os dois, que são mais jovens que eu, me situam em várias situações da modernidade, acho que aprendemos muito uns com os outros.

O disco tem produção de Billy Comodoro. Se não me engano esta foi a primeira vez que trabalharam juntos. Como foi o processo de composição e gravação deste repertório?
Billy se ofereceu pra gravar o disco, montamos o equipamento dele na última salinha da Associação Cecília, em São Paulo, e mandamos brasa. Ele também mixou e masterizou. Foi tudo muito simples, direto e profissional: planejamento, registro e bola na rede.

O selo independente Hearts Bleed Blue tem sido um parceiro recorrente, não só quanto aos discos do Autoramas mas também deste projeto. Como se deu a aproximação e qual a importância de se manter este tipo de vínculo hoje no mercado musical?
Sim, a HBB é nosso selo. Estamos muito felizes em trabalhar com eles e nunca tive uma relação tão duradora com um selo ou gravadora. Todos que trabalham lá amam a música que está sendo lançada, são pessoas ultra competentes, apaixonadas e envolvidas com os trabalhos. Eles já haviam vindo com propostas e finalmente nos acertamos para lançar “O Futuro dos Autoramas ” em 2016, que eles já queriam ter lançado em 2015, mas acabou atrasando por conta de várias enrolações nossas. A cada lançamento que fazemos juntos conversamos sobre o que pode ser feito e o trabalho acaba sendo muito proveitoso. Eles também produzem com muita qualidade nosso material de merchandising, o que torna nossa relação ainda mais próxima e quase diária. Aproveito pra dizer também que o álbum sai em vinil (em duas edições diferentes, vinil preto e transparente) e cd na Europa pelo selo espanhol Snap!! Records.

Recentemente, você estreou no canal do Autoramas no Youtube uma nova série em vídeo. Do que se trata a “Discos, Discos e + Discos”? Como é essa coisa de Gabriel Thomaz Youtuber? 
Eu faço um programa de rádio, o Magnéticos, na Mutante Radio, desde 2016 (ouça alguns programas aqui). E, além disso, há sete anos faço o Premio Gabriel Thomaz de Música Brasileira, que foi a minha primeira incursão numa coisa internética. E, abrindo um parênteses, a banda que ganhou o meu prêmio em 2016, o Black Pantera, assinou com a Deck hoje. Três anos depois, tão ai com um compromisso sério. Fiquei muito feliz. Mas, voltando, eu comecei a fazer o Prêmio no Facebook, e deu tão certo e foi uma coisa tão legal que eu comecei a fazer a premiação, que é um evento em que todo mundo se diverte muito. E acho que o Discos, Discos e + Discos é a união dessas duas coisas: o rádio e a rede social, essa coisa da plataforma digital. As pessoas quem já me conhecem diziam: já que você está fazendo essas coisas (rádio e o Prêmio), falta um lance para o Youtube! E a ideia que veio foi falar sobre discos, que é uma coisa que faço o tempo todo, paro numa festa para conversar com alguém, e quando vejo já estou falando sobre algum disco – amigos já me pediam de ter um canal para falar dessas coisas. Eu tenho muitos discos interessantes e decidi começar a falar deles. Pra mim, não tem nada demais, mas comecei a perceber que as pessoas acham o maior barato. Eu amo meus discos, e gosto de falar sobre eles. Ainda estou me ambientando nessa coisa de falar sozinho, mas estou surpreso com a receptividade.

Quais são os planos futuros? Vocês pretendem excursionar com esse projeto? Quem sabe numa dobradinha com a agenda do Autoramas!
Sim, já estamos fazendo muitos shows! O lançamento em SP será dia 19 de outubro, na Associação Cecília, com abertura das sensacionais Time Bomb Girls. Já desbravamos os Estados de SP e MG, além de show em Brasília. Meu negócio é show e turnê. Fora o Gabriel Thomaz Trio, produzi dois singles para a Érika Martins que ficaram sensacionais. O primeiro, já liberado, foi “A Verdade Liberta”, música inédita do titã Sérgio Brito que a gente fez uma versão total grunge. O segundo ainda está para sair. Aguarde.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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