Em POa, Iron Maiden mostra seu grande espetáculo musical com pompa de teatro

Texto por Homero Pivotto Jr.
Fotos por Day Montenegro

O Iron Maiden talvez já estivesse destinado ao sucesso desde seu batismo. Afinal, Donzela de Ferro é alcunha consistente para uma banda do nicho heavy metal. Especulações à parte, a carreira bem-sucedida está fundamentada na discografia do hoje sexteto. Principalmente nos álbuns lançados durante a década de 1980, o foco da “Legacy of the Beast Tour”, que teve escala em Porto Alegre na última quarta-feira (9), na Arena do Grêmio, com público estimado em 40 mil pessoas. Ao vivo, o grupo inglês sustenta com propriedade o legado de ser um dos nomes mais influentes do som pesado mundial. E com a gira atual mostra não apenas um show eficiente e extremamente bem executado, mas um espetáculo musical com pompa de teatro. Não à toa o próprio Maiden coloca esta como a mais teatral de suas andanças pelo planeta em quase quatro décadas e meia.

Em cena, Bruce Dickinson (vocal), Steve Harris (baixo), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Nicko McBrain (bateria) são músicos e atores da exibição — que dura cerca de duas horas e aposta na troca de figurinos do vocalista e em cenários distintos para cada faixa tocada. Assistir em vídeo, como foi o caso da transmissão do Rock in Rio, na última sexta-feira (4), dá uma ideia do poderio de fogo — literalmente, já que há pirotecnia em certos momentos da apresentação — que o Maiden ainda tem. Porém, in loco, o impacto é muito maior. A comoção do público e a disposição dos caras em ação criam uma experiência emocionante, que contagia pela empolgação. E, claro, pela qualidade. Aí, vale lembrar que falamos de um conjunto com 44 anos de estrada e todos os integrantes sexagenários.

Apesar da previsibilidade do roteiro, é uma peça musicada tocante. Roteirizada, ainda assim encenada com vivacidade. E com vigor invejável! Não obstante, por mais que o repertório seja voltado aos anos de glória, quando foram lançados álbuns seminais — “The Number of the Beast” (1982), “Piece of Mind” (1983), “Powerslave” (1984) e “Somewhere in Time” (1986), por exemplo —, soa contemporâneo. Os temas históricos, muitos sobre conflitos bélicos e religião, colaboram para a atemporalidade da obra.

O setlist foi exatamente o mesmo de todas as apresentações anteriores que Iron fez até aqui durante a turnê. Da exibição no telão de um trailer do jogo Legacy of the Beast ao som de “Transylvania”, passando pela intro com “Doctor, Doctor” (do UFO), pela abertura com “Aces High” até o encerramento com “Run to the Hills”. Como já dito: tudo muito programado, mas não menos impressionante. A música foi a protagonista da misancene. Mesmo com todo o aparato cenográfico, o script lança luz sobre os sons, ressaltando composições e letras.

Quando o discurso de Winston Churchill, que dá início a primeira faixa do quinto disco do Maiden ecoou nos falantes, a comoção já era grande. Foi começar com jogo ganho, usando uma analogia do futebol — já que os acontecimentos aqui relatados se passam em um estádio (como, aliás, aconteceu na perna paulistana da tour). Ainda mais com a réplica de uma avião de guerra ao alto decorando o palco. O som nítido destacou a potência vocal de Bruce, que teve uma performance competente em todos os temas. A sequência veio com “Where Eagles Dare” e “Two Minutes to Midnight”. Em seguida, um dos destaques do evento: Bruce fazendo interpretação magistral para “The Clansman”, originalmente gravada na voz de Blaze Bayley. “Essa música é sobre liberdade”, resumiu o frontman antes de abrir a goela e atacar os pratos da bateria com uma espada. Assistir ao povo berrando “freedom” a plenos pulmões, em tempos nos quais liberdades são ameaçadas, foi forte e marcante.

À essa altura, o entrosamento dos músicos e a satisfação de estarem ali era clara. E deixavam a ocasião ainda mais épica, com o chefão Mr. Harris trabalhando em seu baixo galopante, McBrain tranquilo e certeiro reforçando a cozinha alinhada e o trio Smith, Gers (o mais acrobático da trupe) e Murray ganhando destaque, cada um a seu tempo, em solos e bases que são a trilha de gerações distintas. Mas foram os agudos e o pique de Bruce, que teve um câncer na língua em 2015 e saiu recuperado, que se evidenciaram.

Em “The Trooper”, o mascote Eddie se juntou à tropa enquanto a plateia entoava ÔÔÔôôôÔÔÔs acompanhando a linha base da canção. Em “Revelations”, a impressão que deu é que geral resolveu ir ao banheiro. Depois, foi a vez de explorar material lançado já neste século com “For the Greater Good of God” e “The Wicker Man”. Em seguida, “Sign of the Cross”, e mais uma excelente versão de Bruce para composição registrada com Bayley. Também rendeu uma das encenações mais bacanas da noite, com o vocalista cantando próximo a uma cruz decorada com luzes e até fazendo uma espécie de air guitar com o símbolo sagrado.

“Flight of Icarus” colocou um Ícaro gigante ao fundo do palco, e realçou o potencial do cantor o apresentando com mais um brinquedo nas mãos além do microfone. No caso, um lança-chamas. Veio, então, “Fear of the Dark” e, com ela, mais comoção e ÔÔÔôôôÔÔÔs. Assim como na clássica “The Number of the Beast”, logo seguida por “Iron Maiden” e um Eddie em forma de diabo decorando o palco, ao fundo, fechando o primeiro ato.

Entre as músicas, não ficaram de fora os tradicionais “scream for me Porto Alegre” bradados pelo vocalista. O bis abriu com “The Evil that Man Do”, sucedida por um desempenho abençoado de “Hallowed be thy Name”. Bruce, com postura cinematográfica atrás de grades que simulavam uma prisão, cantando “I’m waiting in my cold cell / when the bell begins to chime / reflecting on my past life and it doesn’t have much time / ‘cause at 5 o’clock, they take me to the Gallows Pole” foi notável. Para fechar, “Run to Hills”, sem surpresas, mas surpreendente.

A produção com a qual Maiden passou pela terceira vez na capital gaúcha volta-se ao passado para buscar inspiração e sacudir o show business no presente. Mas revela também que a banda tem boa estratégia para se comunicar com o futuro. Dentre outras razões, porque explora as ferramentas disponíveis hoje em dia para dialogar com seguidores já convertidos e angariar outros mais jovens. O fato de que a turnê atual tem como tema o game de mesmo nome lançado em 2016 para interagir com a juventude reforça essa percepção. Sacada que comprova que, de besta, os caras não tem nada. Quer dizer, só títulos de músicas e a denominação da tour apresentada neste 2019.

Antes da atração principal

A abertura local foi da Rage In My Eyes. O conjunto tem uma história que, de certa forma, se cruza com a do Maiden: de 2009 a 2014, foi banda de apoio em shows solos do vocalista Paul Di’anno pelo Brasil, fazendo mais de 50 apresentações com o ex-vocalista da donzela. Misturando heavy com elementos de progressivo e da milonga (música tradicional no sul do país e em países fronteiriços, como Uruguai e Argentina), o Rage In My Eyes fez um set curto. Foram cinco músicas, além de uma intro, em cerca de 25 minutos. Teve até participação de um gaiteiro para realçar a proposta de juntar ritmos gaudérios com peso. O repertório privilegiou faixas do disco “Ice Cell”, que saiu em 2019. Entretanto, teve também composições mais antigas, ainda de quando a banda atendia por Scelerata. Uma delas foi “Enemy Within”, que encerrou a participação dos porto-alegrenses.

Depois, foi a vez da Raven Age, que tem como integrante o guitarrista e fundador George Harris (filho de Steve Harris). De sonoridade moderna, não apresentou nada inovador em uma apresentação morna. Há potencial ali, principalmente mercadológico, mas parece faltar autenticidade. Ao vivo, soou como um Avenged Sevenfold um pouco mais heavy.

Curiosidades e histórico do Maiden em solo gaúcho

Foi a terceira apresentação do Maiden em Porto Alegre — as anteriores rolaram em 1992 (na época do “Fear of the Dark’) e 2008 (com a “Somewhere back in time tour”). Fãs que prestigiaram a última visita, 11 anos atrás, talvez recordem que tocar em um estádio por estes lados era desejo manifestado pelo vocalista Bruce Dickinson durante a performance que ocorreu no Gigantinho (ginásio que fica na área do Beira-Rio, casa do Sport Club Internacional). Na ocasião, ele disse, em algum intervalo entre as músicas, que gostaria de voltar em breve. De preferência tocando em um estádio e para um público superior aos cerca de 15 mil presentes na década passada.

“Quem sabe ali”, brincou o cantor à época, apontando para o Beira-Rio. O desejo do frontman foi atendido, já que o espetáculo deste ano ocorreu no campo do maior rival do Inter, a Arena do Grêmio (um ponto de acesso um tanto complicado ao público) para cerca de 40 mil presentes. Bruce chegou a dizer, em determinado momento na última quarta-feira, que foi o maior público da banda na cidade.

Outra curiosidade da visita anterior é uma filmagem profissional bootleg (não oficial) da apresentação completa que passou a circular em DVD — o youtube ainda não era popular — ainda em 2008. Havia uma equipe da banda captando imagens do evento e, reza a lenda, o registro original teria sido roubado, passando a ser divulgado como material pirata — o que teria irritado o Maiden a ponto de não querer voltar a Porto Alegre, de acordo com rumores. Pelo jeito, era apenas boato mesmo. Tal vídeo pode ser conferido abaixo.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.
Day Montenegro é fotógrafa. Conheça seu trabalho: fb/photo.daymontenegro/

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