Entrevista: Gustavo Sá fala do Porão do Rock 2.1, curadoria e mercado

Introdução por Marcelo Costa
Entrevista por Leonardo Vinhas 

Produzir um festival não é fácil. Imagine então produzir 21 edições do mesmo festival, lutando ano a ano para manter a chama acesa enquanto tenta entender o quiproquó danado que é reunir um grupo grande de artistas debaixo de um mesmo guarda-chuva sem soar datado, novidadeiro, hipster e um tanto de outros adjetivos que não reconhecem o esforço de curadoria e produção para colocar um festival em pé. Gustavo Sá está nessa desde 1998, quando organizou o primeiro Porão do Rock, em Brasília, um dos festivais independentes mais famosos e antigos do país.

A história do Porão do Rock até já virou livro: “Já teve um, dois e três dias, gratuito e pago. Até a 20ª edição, apresentaram-se 458 artistas diferentes – sendo 237 do Distrito Federal, 186 de outros 17 Estados e 35 atrações internacionais – para um público total de mais de 1,1 milhão de pessoas”, resumia o release que apresentava o livro “Histórias do Porão: Os 20 anos do festival Porão do Rock”, de Pedro de Luna, lançado em 2018. Isso, porém, já é passado – a dor e a delícia do curador de festival é que assim que uma edição termina, outra começa no segundo seguinte. A roda precisa girar.

O Scream & Yell já esteve no Porão do Rock algumas vezes: “Papo reto: das últimas três edições do Porão do Rock em que o Scream & Yell esteve presente, esta edição de 2016 foi, disparada, a melhor. Sem concorrência. Nem que juntasse as edições de 2014 e 2015. A estrutura de palcos permaneceu a mesma, mas o que fez a diferença foi um line-up muito mais caprichado (com jovens promessas agarrando a oportunidade com vontade e medalhões surpreendendo”, comentava este que vos escreve após um dia intenso de grandes shows (e algumas mudanças).

Para 2019, o Porão precisou mudar de data, mas permanece na agenda: nos dias 25 e 26 de outubro, muita música vai rolar no Espaço (coberto) Arena Loungek, do Estádio Nacional Mané Garrincha, na Capital Federal. Em um papo honestíssimo com Leonardo Vinhas, o produtor Gustavo Sá fala dos desafios de fazer o festival, como funciona o esquema de curadoria e tanto a opção em reservar uma das datas para os “camisas pretas” quanto a de cravar Criolo como headliner no segundo dia. Papo bom e boas novas: “Acho que ainda tenho muita lenha pra queimar”, avisa Gustavo. Então, longa vida ao Porão!

Indo para 21 anos de atividade, você colocaria o Porão do Rock como o mais antigo festival dedicado ao estilo no Brasil?
Na verdade, não. O Abril Pro Rock e Goiânia Noise são mais antigos. E esses são rock mesmo, ainda mais que o Porão. A gente na verdade… Tá tendo uma grande movimentação em torno dos festivais no Brasil, e eles estão cada vez mais plurais. O Porão sempre flertou com essa pluralidade, mas manteve a essência de ser rock. Ao contrário, por exemplo, do Bananada, que tem rock eventualmente, mas não é essencialmente um festival de rock, de jeito nenhum. O COMA, que é um festival legal pra cacete aqui do DF, é mais recente e já nasceu sem ser rock.

Tudo bem que a pergunta é meio que discutir o sexo dos anjos, mas qual é a tua definição de rock?
Se você analisar… O Porão e o Abril Pro Rock e o Goiânia abrem espaço para bandas de metal. Há uns anos – 4 ou 5, não lembro de cabeça – passamos a dedicar um palco exclusivamente para o som pesado. Esse ano a gente tá fazendo um dia inteiro pesado, coisa que tinha feito anos atrás e voltamos agora. No primeiro dia, que é sexta, a banda mais leve é Raimundos. Tem Ratos, Project 46, Dead Fish, algumas bandas locais, Escape the Fate… É uma noite dedicada exclusivamente a isso. Na outra noite, a gente flerta com uma coisa diferente, tem outras coisas, tipo o Rincon Sapiência. Ficamos abertos a coisas que se misturem, mas que tenham uma pegada próxima do rock, como Supercombo, Rumbora, o próprio Marcelo Falcão. Ele era d’O Rappa, que era bem roqueiro, e solo ele está com um som mais aberto, mas que ainda tem porrada, tem guitarra, é rock. O meu lineup é de 80 por cento de bandas que estão ligadas ao rock. Mas veja que em outros anos eu trouxe o Hamilton de Hollanda, a Elza Soares. Acho que rock, por mais que seja batida a definição, é atitude. Tem muita banda que toca rock e não é rock e vice-versa. O show da Elza foi rock pra caralho. O Criolo, que está de headliner nesse ano, não é roqueiro, mas é rock na atitude, saca?

Essa abertura a outros estilos é uma necessidade de mercado ou uma opção estética sua?
Um pouco dos dois. A gente não pode fechar os olhos para as coisas que estão acontecendo. O Criolo tá num puta momento da carreira, tem uma atitude forte e fala coisas que a molecada tem que ouvir. E o rock e o hip hop estão juntos há muito tempo, se você for ver eles estão ali, lado a lado, a caminhada deles é próxima. O Porão rapidamente se tornou gigante. Hoje tá menor, por vários motivos. Nos primeiros anos, a gente era o Carnaval dos malucos: rolava uma vez por ano, concentrava todo o desejo do roqueiro e até das bandas, eramos o evento do ano no Distrito Federal. Era muito grande. Mas hoje em dia, com o advento da internet e toda essa movimentação do mainstream que ruiu, das gravadoras que quebraram, da venda de músicas pela internet que voltou a dar lucro pras gravadoras, apareceu uma linha de corte entre as bandas do mainstream nacional. Só tem banda velha no mainstream. E nós, como um festival de público grande, temos que ter headliners. Nós estamos nos vendo em dificuldade de ter esses headliners sem nos tornarmos um evento repetitivo. Você conta nos dedos de duas mãos os headliners de fato, que trazem 5 mil pessoas, 10 mil, para vê-las – isso para manter a identidade do evento. Então o Porão hoje está na encruzilhada de pegar artistas novos ou artistas gringos. Vamos pegar o Criolo como exemplo de novo. Não tenho a menor dúvida de que o público do festival vai gostar dele, ele é um cara foda, em termos de atitude e de som. Por isso eu tento procurar não ser repetitivo diante da escassez e também enxergar o que está acontecendo no mercado e que façam sentido estar no lineup.

Esse papo da renovação das bandas sempre vem à tona, mas não existe também uma dificuldade de renovar o público?
A molecada não quer pagar pra ver mais nada! Isso é um problema muito sério. Os eventos gratuitos – que são importantes para democratizar o acesso à cultura para quem não tem grana – agem contra o próprio mercado, porque com eles você não forma plateia. E a molecada tá com preguiça de pesquisar coisas. Quando eu era moleque, eu ia atrás da NME, Melody Maker, viajava pra comprar discos. Hoje, você é massacrado por informações e não quer ir atrás de comprar nada, pesquisar nada. E tudo fica muito fugaz: o que tá bombando hoje já não é mais nada amanhã, não gera um vínculo. Eu imagino até que o público que vai estar interessado no Criolo é a galera mais velha (ri). Mas o público do metal, do extremo, essa molecada é fiel. Porque é meio que um estilo de vida, né? O moleque anda e age como metaleiro, só ouve metal, e tem um vínculo maior. É uma molecada que se interessa mais, pesquisa mais e paga. Mas hoje tudo é tudo e nada é nada, né? Você vai em alguns festivais que têm tudo de tudo, e nem consegue definir se é de rock, de pop. Não acho isso errado, é a identidade deles. Só que é estranho para quem mais é velho, como nós.

O Paulo André (Abril Pro Rock) também diz que hoje, o festival sobrevive principalmente por causa dos “camisas pretas”.
E esse público de fato é fiel. Nós, que somos festivais essencialmente rock – eu, Paulo André e os Leos (Razuk e Bigode) do Noise – nós não combinamos, mas acabamos agindo da mesma forma: nos tornamos um pouco mais rock ainda. Nos posicionamos dessa forma. Já que muitos festivais não são rock, fizemos isso para fazer a diferença, assumimos mesmo. O COMA é um puta festival legal, mas já é multifacetado. Na janela de eventos aqui de Brasília que é o período da seca (habitualmente entre maio e setembro), fica tudo relativamente próximo, um evento muito perto do outro. Eu e o pessoal do COMA sentamos pra tomar um café e falar sobre lineup, para não chocar artistas de um evento com outro, e fazer com que os festivais somem, e não se dividam.

Aliás, a curadoria do festival é sempre sua?
Nunca é sempre só minha, né? Tem a galera da ONG que trabalha comigo (nota: a ONG Porão do Rock, dedicada a ações sociais e culturais), estamos sempre ouvindo coisas. Tem os grupos [de WhatsApp e redes sociais] de festivais, tem os festivais dos outros produtores [pelo Brasil]. Eu sou o que bota no papel, mas a curadoria é viva e tem a contribuição de várias pessoas. O Alf (Sá, artista solo e também do Rumbora), que é meu irmão, tá me dando toques legais, tem o pessoal da Casa da Val (nota: espaço de cultura e sustentabilidade do DF) que são meus colaboradores, também. Vamos todos trocando ideia, vendo qual show foi irado, e sempre atento a quem está circulando. Porque festival também é engraçado… O cara nos procura e fala: “olha, a banda tal tá voltando, e quer voltar no Porão”. A gente não é ressuscitador de banda, não! (risos) “Ah, é que essa banda tem 40 anos…”, o cara diz. Mas se com 40 anos na estrada não despontou, vai ser agora? Funciona pra um revival quando você tem um festival bombado, mas se você vai depender dessa banda pra por público ali… tá ferrado. A gente quer as coisas novas, que estão rolando, e deixar os headliners para ser o povo com mais estrada. A não ser os hypes, claro. A gente colocou, por exemplo, o BaianaSystem, mas não só porque eram ser hype. Teve gente nos criticando, disseram que era axé. E é axé o cacete, é um show energético, divertido pra caraio. E eu nunca imaginei que a Elza ia fazer o Porão bombar. O pensamento foi trazer uma coisa boa e diferente. A gente tem esse espaço pra coisas assim, sempre vai ter.

Então imagino que as redes sociais não sejam tanto seu termômetro…
Vou ser sincero: não me baseio por elas, não. Acho que são muito mentirosas – assim, são exageradas. Ali um vai na onda do outro, não é uma leitura precisa pra você se basear como produtor. Me baseio mais no nosso feeling mesmo. Tenho um filho de 17 anos que me mostra umas coisas, ouço os feedbacks de quem vai, temos outros canais para receber essa informação… Agora, obviamente, quando divulgamos o lineup, observamos a reação da galera para ver como é, funciona como um termômetro. Porra! A gente faz um post pra lançar o festival, e no corpo do texto a gente bota o dia, o preço, a hora, o local. E a primeira coisa que o filho da puta pergunta é. Quando vai ser? Quanto custa o ingresso? Ninguém mais quer ler.

Sei como é. Eu mesmo me pergunto quase sempre pra quem eu escrevo as matérias enormes que saem aqui no Scream & Yell.
É pra velho, pode ter certeza. Pra gente da nossa idade. Nego de hoje em dia quer ver: você põe o texto e tem 50 visualizações, e se põe um vídeo, tem 500 ou muito mais. Quanto mais moleque, mais visual. Meu moleque de 7 anos, a vida dele é o Youtube. Aprende tudo pelos tutoriais e tal. Não lê nada.

Falemos um pouco da cena de Brasília. Há algumas bandas bem boas de palco aí, como Joe Silhueta e Os Gatunos, mas os shows não chamam muita gente. Brasília, que sempre foi uma lançadora de bandas, parece estar meio ensimesmada. É isso mesmo?
Vou te dizer que o sertanejo tem uma parcela de contribuição bem grande pra isso, porque a invasão do sertanejo aqui no DF não é brincadeira, não. E isso é geral, em todas as faixas do público, do peão ao playboy de Ferrari. E aí tem um movimento muito louco: da mesma forma que a música eletrônica combinou vários estilos numa coisa só pra ser pop e conseguirem embalar pra vender mundialmente – EDM ou sei lá o nome que é – fizeram a mesma coisa com forró, sertanejo e axé. Se você olhar esteticamente, o Luan Santana, Safadão, essas duplas sertanejas e as bandas baianas, tá uma coisa só. Brasília sempre teve uma veia muito forte do axé, que eu odeio, acho um cocô. Milhares de amigos e amigas minhas iam, tinha a Micarecandanga que era gigante… Isso influenciou muito. Aí você soma ao sertanejo universitário, esse forró… ficou um pouco “terra arrasada”. Mas Brasília também tem uma coisa que… Cara, o brasiliense paga pau pra coisa de fora, até porque tem muita gente de fora. Brasília não é um lugar como outros, muitas pessoas que vivem na cidade não têm raízes aqui. O fato de Brasília também estar um pouco longe também não ajuda muito. As bandas tiveram que voltar a fazer algo que tinha parado por um tempo, que era morar em SP. O Rio de Janeiro acabou, né? Fiz dois eventos lá e nada, deu pra ver bem como está. É uma loucura: uma bateção de carteira, tudo tem jeitinho, é surreal. Aí você entende porque o Rio tá como tá. Praticamente não tem mais nada lá no cenário roqueiro. E São Paulo ficou meio que exclusivo para essa movimentação. Aí, cara, o que acontece em Brasília? A gente tá do lado da Meca do sertanejo. E existe uma coisa muito séria, que é a quantidade de músicos contratados pelo sertanejo, axé, e tals, que veio do rock é assustadora. Pra sobreviver, ele tem que tocar com esse tipo de artista. Mas tem coisas recentes ótimas, como a Joe Silhueta, que você falou, e que é performática, bem interessante; os Gatunos, que são uma festa. E tem outras coisas legais. Só que Brasília sempre gostou muito da música pesada, e a gente tem sempre ótimas bandas porrada. Vejo isso pelas seletivas. As pesadas, fica até complicado escolher quem vai ganhar, entre hardcore, metal, crossover. É até um dos motivos porque o estilo tem esse espaço todo no festival. O som pesado normalmente não aparece muito no circuito. É o Porão, Goiânia Noise e Abril Pro Rock. O mesmo acontece com rockabilly, surf e tals. Tem bandas bem legais desse estilo por aqui, mas todas que conheço já tocaram no Porão do Rock. Você não vê eles tocando muito nos outros festivais, não. Fora do universo porrada, psycho e surf music é segmentado. É lifestyle também. A galera sai, ouve, curte bastante isso, se veste, tem os carros, as motos. É quase seita! (risos) Tem todo um cenário.

Diante desse cenário e das dificuldades que o Porão enfrenta, o que te faz prosseguir? O que você almeja com o festival além de, é claro, ganhar a vida?
Eu faço outras coisas profissionalmente, outros eventos. O Porão surgiu como uma missão nossa de construir uma plataforma para uma cena que não tinha palco. No final dos anos 1990, tinha uma porrada de banda e não tinha onde tocar. A missão do Porão era mostrar as bandas de Brasília. Mais do que nunca, essa missão se reafirma. É mostrar pras pessoas que [aqui] é legal. Continuar levantando a bandeira do negócio. E o negócio da música é sazonal: de uma hora pra outra, o rock explode no mundo todo e a galera toda acorda roqueira (risos). É muito louco, mas é assim que é. Uma hora vai estar em voga de novo. Mas a gente continua fazendo nosso trabalho: com correria, com dificuldade, a crise fodeu todo mundo, mas é o que nos dá tesão e nos move e vou fazer até quando eu aguentar. Acho que ainda tenho muita lenha pra queimar.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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