Ao vivo em SP, Clarice Falcão mostra show leve, pra dançar, rir e enfrentar a bad trip

Texto por Renan Guerra
Fotos por Fernando Yokota

Clarice Falcão lançou recentemente “Tem Conserto”, disco em que se joga na pista de dança. Quando falamos dele por aqui, consideramos que essa mudança de rota poderia afungetar uma parcela de público. O que se viu na Casa Natura Musical, no dia 12 de setembro, foi o contrário: um público jovem e atento aos movimentos da artista, prontos para acompanhá-la nessa viagem aos beats.

Acompanhada no palco apenas de instrumentos eletrônicos e de seus parceiros Lucas de Paiva (synths e programações), DJ Guerrinha (synths e samples), Erica Alves (synths) e Rico (bateria eletrônica), Clarice abriu a noite de cara com “Dia D”, divertida faixa de refrão que diz “hoje eu vou dar”, seguindo com “Mal para Saúde”, ambas do novo disco. Depois disso, Clarice passa a revisitar seu passado em novas versões: “O que Eu Bebi”, “Capitão Gancho”, “Monomania”, “Eu Esqueci Você”, do primeiro disco “Monomania” (2013), e “Vagabunda”, do segundo, “Problema Meu” (2016), surgem todas envoltas em sintetizadores. É uma escolha interessante para uma artista que costumava fazer shows acompanhada de instrumentação mínima; e isso tem seu preço: há novas versões em que a voz de Clarice parece ser quase engolida pela instrumentação, quase se perdendo.

Em contraponto, Clarice ainda resgatou a faixa “Pra Ter o Que Fazer”, canção que ela já havia lançado na internet em voz e violão, em vídeo com cara de caseiro. Essa nova versão faz a faixa crescer e se mostra bem amarrada no novo universo eletrônico. Essa música é o prelúdio para o que Clarice gosta de chamar de “parte do show para chorar”, já que uma segunda parte é chamada de “parte do show para trepar”. Nesse ato, temos canções como “Morrer Tanto”, “Esvaziou” e “Bad Trip”, essa última é um single lançado ano passado sobre a figura de Bolsonaro – se Clarice escreveu isso em 2018, nem imaginava a grande bad que seria o nosso 2019.

Uma das incursões curiosas desse novo show de Clarice fica por conta de um cover de “Só Por Uma Noite”, do Charlie Brown Jr. – a cantora participou do programa Versões, do canal pago Bis – o mesmo programa que fez Silva cantar Marisa Monte e Qinho cantar Marina Lima – e lá remexeu na obra de Chorão e companhia, por isso mesmo ela resgata essa faixa em seu novo setlist. A divertida versão é seguida de “Eu Me Lembro”, também do primeiro disco da cantora; o que funciona como um intermezzo para que se comece o segundo ato, aquele “para trepar”. Tocam aqui então “Horizontalmente”, “CDJ” e “Só +6”, as faixas mais dançantes do novo disco e que mostram Clarice mais pronta para a pista, com sua voz enfim conversando de forma mais firme com as batidas eletrônicas.

O show se encerra com “Tem Conserto”, a faixa título que fecha seu novo disco, e também serve para que Clarice faça piadas sobre o mise-en-scène do bis, avisando “vamos sair, vocês vão gritar, a gente vai voltar e cantar faixas fingindo que são de improviso”. Esse tom de galhofa, inclusive, marcou todas as falas de Clarice, o que demonstra no palco o seu lado atriz e comediante, em que suas pequenas piadas parecem funcionar como um stand up. No tal bis, apesar da zoação de Clarice, ela ainda acabou cantando algo de improviso, a pedido dos fãs: “Banho de Piscina” ganhou versão a capella, acompanhada de um coro da plateia.

“Minha Cabeça”, faixa que abre o novo disco, também foi tocada no bis em versão forte e na qual a voz de Clarice parecia pela primeira vez realmente enfrentar os sintetizadores de frente, sem se deixar engolir por eles. “Irônico” e um reprise de “Dia D” ainda foram tocados, terminando a noite na Casa Natura Musical de forma animada. A nova empreitada ao vivo de Clarice tem suas arestas a serem aparadas, precisando de mais segurança e força, mesmo assim não deixa de ser divertido. É um show leve, pra dançar e rir, do tipo que faz bem a cabeça em tempos de bad trip.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

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