Entrevista: Beto Bruno e os desafios do recomeço

entrevista por Ananda Zambi

“Meu bem, só diga pra mim se além e depois do fim existe um lugar para renascer, para despertar a minha voz”. Assim questiona Beto Bruno, ex-vocalista da banda recém-extinta Cachorro Grande em “Depois do Fim”, single de seu primeiro disco solo, de mesmo nome, lançamento do 180 Selo Fonográfico. Após 20 anos, a banda de rock gaúcho teve seu fim consumado em dois shows lotados no dia 13 de julho em Porto Alegre e, logo depois, o passo-fundense lançou seu álbum de estreia.

Beto Bruno, Rodolfo Krieger, Gabriel Azambuja, Pedro Pelotas e Marcelo Gross eram os membros originais da Cachorro Grande. Hoje, Rodolfo, o baixista, mora em Lisboa; Gabriel “Boizinho”, o baterista, abriu um estúdio em Gramado; e Gross, o guitarrista, após deixar a banda em maio de 2018, passou a se dedicar à carreira solo, que já conta com dois discos. Por isso, não restou outra alternativa a Beto que não fosse trilhar um novo caminho artístico. Pelotas permanecerá como tecladista de Beto Bruno. Além dele, Gustavo X (guitarra) e Eduardo Schuler (bateria), que também tocaram com a Cachorro, continuam acompanhando o cantor.

“Depois do Fim”, o disco, é o resultado de 10 músicas feitas em um curto e intenso espaço de tempo. Ainda em choque com o anúncio do encerramento das atividades da banda, no início do ano, Beto estava tão triste e sozinho que, quando pegou o violão para tocar e se consolar, conseguiu compor 10 músicas em menos de 20 dias. Satisfeito com o resultado e precisando de um novo emprego, uniu o útil ao agradável e montou uma nova banda para gravar as novas canções e cair na estrada de novo.

Quem gosta de Cachorro Grande, certamente vai gostar do trabalho solo de Beto Bruno. A sonoridade de “Depois do Fim” é visivelmente influenciada pela extinta banda, e Beto não nega isso – aliás, tem até orgulho. Ou seja, tem muito de Beatles, Stones, Brian Wilson, Júpiter Maçã, rock sessentista e baladas psicodélicas. Destaco as músicas “Por Isso Meu Samba é Diferente”, “Não é Todo Mundo Que Tá de Boa Contigo”, “Porco Garrafa” e a própria “Depois do Fim”. O disco conta com produção e baixos de Rodrigo Tavares e, além dos já citados, com a participação de Henrique Cabreira (guitarra), Sebastião Reis (violões e arranjos), Martin Mendonça (Guitarra) e Duda Machado (Bateria). A capa é da artista plástica Denise Gadelha, também esposa do cantor.

Beto, com seu jeito franco de ser, contou mais detalhes sobre o processo de produção do disco, sobre o clipe e sobre as dores e as delícias de um recomeço, que não é do zero, é verdade, mas que não deixa de ser desafiador. Confira:

Qual é a sensação de estar em carreira solo?
Eu tô me acostumando ainda com essa situação. Não foi nada premeditado, aconteceu o inevitável, que foi o fim da banda, e eu não posso ficar sem trabalhar, né. Então acabei gravando o disco o mais rápido que pude, ao mesmo tempo em que montava uma banda, que gravou o disco e foi pra estrada comigo. Então não sei te dizer exatamente a sensação que tenho, é indefinida. Ainda tô um pouco perdido, um pouco baqueado, mas cada dia que acordo eu tô mais feliz com o meu disco, com minha banda nova e é isso que tá me mantendo com o astral pra cima, e tudo o que fiz com essa banda nova e com essas músicas novas me surpreendeu muito. Acabou que eu nunca estive tão feliz – nem dentro da Cachorro Grande – com o resultado que eu consegui. Então não sei que tipo de sensação que é, mas tô me sentindo muito bem, então é uma sensação boa. De liberdade também, que nunca imaginei que teria.

Entre o anúncio do fim da Cachorro Grande e o lançamento do teu disco, eu achei que foi relativamente rápido. Como foi essa produção relâmpago? Por exemplo, como é que você conseguiu fazer um repertório pra um disco inteiro em tão pouco tempo?
Logo que foi anunciado o final da banda, logo que a gente decidiu não continuar mais, eu fiquei muito mal, muito muito muito deprê, muito pra baixo, e me tranquei em casa, sozinho, foi em janeiro, minha mulher tava viajando a trabalho, os amigos todos na praia… Fiquei eu e meus gatos em casa e recorri ao violão mais uma vez, e apareceu uma música bacana. Eu comecei a tocar mais outro dia, apareceram duas. Essas duas viraram cinco rapidinho. Cara, em menos de 20 dias eu tinha as 10 músicas prontas. Foi quando me senti na obrigação de montar uma banda nova pra cair no estúdio.

Eu vi na tua última entrevista com o Gastão Moreira que você mandou as suas músicas pra banda em versão voz e violão e no dia seguinte pediu pra que ela gravasse em estúdio. Isso realmente aconteceu?
Foi exatamente isso que aconteceu. Prefiro fazer assim porque não gosto de chegar com arranjos prontos, pré-definidos, no estúdio. Gosto e até prefiro que a mágica aconteça no estúdio, sabe. Ensaiar é coisa de banda de colégio.

Eu ouvi o disco e vi muitos sites falando que a sonoridade do “Depois do Fim” lembra muito o som da Cachorro Grande – achei que lembra um pouco o primeiro disco da banda, o “Baixo Augusta” também, talvez. Você acha que isso aconteceu mesmo? E foi intencional?
Sim, com certeza. Poxa, nunca vou deixar pra trás esse passado, em que eu aprendi. Afinal, foram 20 anos, 10 álbuns. Eu fui o mais presente em todos eles, eu fui o que mais ajudei a produzir, o que mais contribuiu com composições, com influências, então eu tô por trás também dessa sonoridade que ajudou a Cachorro Grande a ser o que é a Cachorro Grande, e nunca vou deixar isso de lado. Acho engraçado que quando os artistas saem em carreira solo, eles falam: “Olha, agora eu vou poder fazer o som que eu gostaria de fazer, que minha banda não deixava…” Eu sempre pude fazer o som que eu quis, independente de estar em gravadora grande ou não, e isso não ia mudar agora. E o tipo de som que eu gosto é o som que a Cachorro Grande fez a vida inteira. Claro, se tu for ouvir mais a fundo, tem algumas coisas ali que não pintavam nos discos da Cachorro – principalmente as letras são mais pessoais num disco solo, que é a grande diferença desse disco. Mas no final das contas eu continuo fazendo o que eu gosto, e isso é o mais importante e o único jeito de ter o público junto e fiel, porque se tu for verdadeiro com eles, eles vão te responder. Então, sim, com certeza. Cachorro Grande forever!

Pra finalizar esse assunto Cachorro Grande, eu vi que Pedro Pelotas e Gustavo X estão na tua banda, e eles também eram integrantes da Cachorro. Em algum momento você pensou em continuar com o nome “Cachorro Grande”?
Olha, não. Primeiro, vou fazer uma correção: o Gustavo X só substituiu o Gross, que é o guitarrista original, durante três meses. Não chegou a ser oficialmente da Cachorro Grande. Mas o Pedro foi parceiro bem na hora que eu apareci com as músicas, ele foi a primeira pessoa pra quem eu quis mostrá-las e o primeiro que quis ouvir. Daí ele apostou junto comigo. Eu já tinha desistido da banda quando comecei a compor as músicas pro meu disco. De maneira alguma pensei em levar o nome da Cachorro Grande, porque acho isso muita sacanagem com o ex-parceiros da banda e com o público também. Porque mesmo eu sendo o líder, o vocalista, eu não quero levar só as músicas da Cachorro pra estrada. Eu vou tocar meu disco, eu tô tocando meu disco inteiro. Muitos fazem isso, né, muitos vocalistas tão lá, a banda já trocou todo mundo e continua com o nome da banda, não vou nem citar os nomes. Mas não acho isso válido, acho meio feio, até. Todos os ex-membros da Cachorro Grande são meus amigos até hoje e vão continuar sendo. Nunca faria isso com eles.

Sobre o clipe de “Depois do Fim”: acho que nele tem uma reflexão muito interessante sobre a passagem do tempo. O que a máquina fotográfica, elemento importante no clipe, representa pra você?
Eu sempre fui apaixonado por fotografia, desde pequeno. Fotografia no cinema também, sou apaixonado por cinema de arte. Minha esposa é artista plástica, Denise Gadelha o nome dela, e ela expõe há mais ou menos o mesmo tempo em que eu tô na estrada. Acompanhando o trabalho dela, aprendi outras coisas, me aprofundei. A minha filha trabalha com cinema (Lina Justi). Então isso daí tá sempre rolando na minha vida, e eu quis levar isso daí pro clipe, de uma maneira mais artística, porque eu sempre achei que os clipes da Cachorro sempre eram uma coisa mais pop, uma coisa mais pra mostrar a banda tocando. Eu não queria um clipe necessariamente assim, mas eu queria que uma coisa unisse todos os músicos da banda, queria mostrar todos os músicos e que a gente se encontrasse nessa praça, que é muito perto de onde a gente gravou o disco aqui em São Paulo, e que a gente se comunicasse com as máquinas fotográficas. É uma grande besteira. Foi uma maneira barata e prazerosa de fazer um videoclipe. Então foi isso, não tem nada assim tão filosófico. É uma paixão por cinema, por fotografia, por músicas, e tem o momento feliz de ter encontrado essa banda nova, que me botou no caminho de novo. Então é uma curtição.

O que acontece depois do fim?
Depois do fim tem um novo começo. É um recomeço pra mim. Começar de novo uma carreira, só que dessa vez do meu jeito, da minha maneira. No meu tempo as coisas vão acontecer – o que pra mim é muito importante –, e assim com certeza eu vou ser mais verdadeiro, mais feliz. Vou, a partir de agora, só cantar músicas que eu escrevo –porque quando tu faz parte de uma banda, todos escrevem, mas é só o vocalista que vai lá e canta. Durante esses 20 anos eu cantei muitas letras que outros escreveram e eu não conseguia ser tão verdadeiro nesses momentos, né. O guitarrista vai lá e escreve uma música pra mulher dele, mas depois vou eu e canto. Não conseguia ser tão verdadeiro quanto eu tô conseguindo ser agora ou como quando eu cantava uma música que eu tinha escrito. Então é um recomeço, mas com toda essa estrada. Não é exatamente do zero porque eu sei o caminho, eu aprendi o caminho. Eu sei como quero me portar no palco – antes eu tava descobrindo –, sei como quero me portar no estúdio, sei do que quero falar. Então é isso: depois do fim é só o começo.

Queria destacar essa banda incrível que pintou na minha vida, um por um: o Pedro apostou; o Gustavo X, que já era meu amigo, parceiro, apostou; apareceu o Eduardo Schuler, o baterista, que me manteve no caminho do rock; junto com ele, veio o Henrique Cabreira, guitarrista também e entrou na banda como uma luva; Uma semana antes de começar a gravar, apareceu o Sebastião Reis, que me ajudou a gravar o disco, a arranjá-lo. Foi uma peça fundamental; o Theo, irmão dele, me ajudou a fazer a música “Depois do Fim”; e uma das coisas mais importantes, que é o estúdio do Esteban Tavares, ex-baixista da Fresno. A gente gravou o disco lá com total liberdade, naquele esquema que eu não conseguia fazer com a Cachorro, que é de chegar com nenhum arranjo preparado. Tudo foi feito dentro do estúdio, da mágica acontecer ali, isso foi muito importante; e o Tavares foi o cara que me ajudou a produzir, que abriu pra mim a casa dele, abraçou o disco de coração e foi o maior parceiro que poderia ter pintado. Eu tô encantado com essa banda nova, tô muito feliz. É isso que eu queria dizer.

– Ananda Zambi (@anandazambi) é jornalista e editora do Nonada – jornalismo travessia. Nas horas vagas, também brinca de fazer música.” A imagem que abre o texto é uma arte de Denise Gadelha.

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