Entrevista: 10 anos de Beach Combers

entrevista por Rafael Donadio

Quem já teve a oportunidade de assistir ao show da banda carioca Beach Combers, sabe o quão visceral são Paulo Emmery (baixo), Bernar Gomma (guitarra) e Lucas Leão (bateria) em cima do palco ou nas ruas do Rio de Janeiro. As músicas do trio ganham ainda mais intensidade e energia durante as apresentações. Exatamente por isso esse foi o formato escolhido para comemorar os 10 anos de união do grupo, com o álbum “Beach Combers Ao Vivo”, lançado no último dia 10 de maio, pela DeckDisc.

“Toda banda que a gente curte a gente quer ver e ouvir o ao vivo”, comenta Lucas Leão. “Gostamos de álbuns como ‘Live at Leeds’ (The Who), o ao vivo do Led Zeppelin, tanto os clássicos, como bootlegs (gravações de áudio ou vídeo de um artista realizadas diretamente de uma apresentação sem autorização do artista). Então, a gente sempre quis lançar dessa forma também, que é a forma mais real, visceral e orgânica possível”, completa.

Com 11 faixas gravadas no Festival Concertos Urbanos em maio de 2018, no Rio de Janeiro, o álbum traz sete composições do repertório da banda e quatro outras de bandas que os influenciam: “Hava Nagila” (canção folclórica hebraica que foi sucesso na voz de Harry Belafonte), “Substitute” (The Who), “Shape Of Things To Come” (da trilha sonora do filme “O Grito da Liberdade”, de 1968) e “Land Of 1000 Dances” (Wilson Pickett).

As canções foram todas captadas e pós produzidas da forma mais crua possível, mixadas e masterizadas pelos próprios integrantes, sem overdubs ou qualquer tipo de efeito. Como não poderia deixar de ser, a capa do disco mostra os três músicos vestindo o já famoso uniforme da Beach Combers: camisetas (com os sobrenomes de cada um) e bermudas vermelho e branco, no melhor estilo surfistas dos anos 1960 e 1970. Ou uma blusa, para quando o clima não é favorável.

Formada por Bernar em 2009, a banda teve outro grupo carioca como inspiração: The Pop’s, da década de 1960. Depois de pirar no som dos conterrâneos, Bernar comprou uma Giannini (guitarra) e um baguinho (amplificador) e começou a compor e fazer shows no underground carioca. Mas os “Beach Attacks” pelas ruas, calçadões e praças do Rio de Janeiro começaram só em 2013. A partir de então, passaram a ter mais reconhecimento e a tocar também em casas de shows, como Circo Voador e Imperator, e outras estados: São Paulo, Minas Gerais, Goiás (Goiânia Noise), Distrito Federal (PicNik) e Santa Catarina (Psicodália), entre outros.

Em 2016, gravaram o primeiro disco da carreira, “Ninguém Segura os Beach Combers”. Nesse período, já faziam também as “aberturas não oficiais” de grandes shows na porta do Maracanã: Rolling Stones, Foo Fighters, Roger Waters, Queens of The Stone Age etc. No Rock in Rio de 2017, aconteceu um dos episódios mais marcantes da banda: Zak Starkey (baterista do The Who, filho do Ringo Starr) os ouviu da cobertura do Hotel Fasano e desceu para tocar com eles no calçadão da Praia do Arpoador, e foi presenteado com uma Beach Jaqueta, que usou durante o resto da turnê do The Who.

Em 2018, foi lançado o álbum “Beach Attack” (2018), também pela DeckDisc, em vinil, CD K7 e em todas plataformas digitais. Agora, sempre transportados pelo Cremoso (Beach Fusca), pretendem comemorar a primeira década de união durante todo o ano de 2019. Conversamos com os três Beach Combers sobre o novo disco, importância de se tocar em espaços públicos, o encontro com Zak Starkey, começo da banda e outros assuntos. Confira.

Como surgiu a ideia de gravar um disco ao vivo?
Lucas: Lançar um disco ao vivo sempre foi um desejo nosso e agora pintou um motivo e uma oportunidade. Adoramos ouvir discos ao vivo das bandas que a gente curte, tanto as gravações mais clássicas quanto as mais obscuras, ouvir o bootleg do bootleg. Tipo, “você já ouviu essa versão?”. É a forma mais visceral de escutar uma banda – podemos dizer que esse filho nasceu de parto natural? E foi isso, registro de um show. Nós mesmos mixamos, masterizamos, sem overdub, sem maquiagem. Calhou de ser no “Concertos Urbanos”, um festival com uma estrutura legal, na rua, aberto ao público, coisa que a gente gosta. Não vou dizer que a gente estava cansado/praticamente virado, porque não existe isso no Beach Combers. Fizemos um show de madrugada em Cabo Frio (RJ) e fomos quase direto para o Rio de Janeiro (RJ) fazer o festival, com o cu na mão da gasolina do Cremoso (fusca) acabar, porque não tinha gasolina nos postos (por causa da greve dos caminhoneiros, no ano passado).

Qual a importância desse álbum comemorativo de 10 anos de banda?
Lucas: A gente gosta de festa, então arranjamos um bom motivo para comemorar o ano inteiro, sem parar. Mas a real é que tem que comemorar mesmo, 10 anos não são 10 dias nem 10 meses. É um relacionamento duradouro – como dizem nas redes sociais, “relacionamento sério” – para uma banda de guerrilha, não mainstream e que é muito ativa. Estamos num momento muito especial e produtivo como banda, então é uma comemoração que até extrapola os 10 anos. A gente olha para trás e pensa lá na frente.

Bernar: É super importante. Quando comecei a banda, não tinha ideia de que tudo isso aconteceria. Sempre teve essa onda despretensiosa de ser instrumental, de andar na contramão, tocar na rua, vender fita K7 etc, mas ao mesmo tempo, sempre trabalhando duro e correndo atrás das paradas. Sempre legal receber o feedback positivo da galera que curte e acompanha, isso impulsiona muito a gente a fazer cada vez mais. Mas como o Zak Starkey falou: “It’s all about music”. E realmente é. A gente curte o som, e é o que nos une realmente.

Como foi essa primeira década de banda, tocando juntos?
Bernar: Entre trancos e barrancos (risos). Muitas pedras rolaram, muitos perrengues, conquistas e realizações também. E isso tudo acaba fortalecendo e unindo ainda mais o time. Sempre que sentamos para tomar uma (cerveja) sem compromisso, lembramos de várias situações hilárias. Quem sabe um dia não fazem um filme ou documentário com todas essas histórias, né?

Como surgiu a ideia de tocarem pelas ruas do Rio de Janeiro?
Bernar: Começou por acidente num show que faríamos em Cabo Frio, que caiu no mesmo dia da banda argentina Dominga Petrona, que já se apresentava nas ruas. Fomos para a praça principal da cidade, ligamos os instrumentos no poste e começou oficialmente a guerrilha. Desde então, vemos isso como uma maneira de formar público, ocupar artisticamente o espaço público, e, por consequência, aprendemos muito e ficamos muito mais entrosados musicalmente. A rua se tornou nosso palco, nossa escola, nosso laboratório de testes e nossa segunda casa.

Lucas: Pois é, a rua foi um divisor de águas pra gente. Existe o Beach Combers antes e depois da rua. Surgiu quando percebemos que era viável tecnicamente falando. Surgiu da vontade de expandir nosso público. Surgiu como uma experiência totalmente nova e de aprendizado em relação a ocupação do espaço público, a democratização da arte, de lidar com situações adversas e como uma forma de renda também.

Qual a importância de bandas se apresentarem gratuitamente em locais públicos da cidade, como vocês fazem?
Bernar: Extremamente importante! Vou dar um exemplo. Certa vez, tocando na (Rua do) Lavradio, uma criança com sua mãe, assistindo ao show, começou a interagir e dançar junto com um morador de rua, que também assistia ao show. A música une, transforma, incentiva e tem o poder de mudar a sociedade e o mundo. Tocar na rua democratiza a cultura.

Ultimamente, artistas e professores voltaram a ser tratados como subversivos e vagabundos, quase como bandidos, pelo governo Bolsonaro. Como é, para vocês, serem músicos e se apresentarem na rua neste momento?
Lucas: “É preciso estar atento e forte”, como diria Gal. Mas sempre teve essa galera “mal amada”, o problema é que agora eles estão legitimados por um governo de ideologia social fascista e anticultural. Mas, para além disso, estamos vendo pouco a pouco a cultura cair como desnecessária e isso não envolve só música e arte em geral, o sistema educacional está caindo junto.

Bernar: Pessoas que pensam assim não podem ser ignoradas, nem destratadas ou julgadas por isso. A gente faz música justamente para quebrar essa barreira, para mudar a opinião dessas pessoas, para saírem da sua bolha. Música é isso, quebrar barreiras e pré-conceitos, abrir a cabeça. Vamos nos unir, valorizar o que é nosso, nossos artistas, nossos espaços, nossos produtores, professores, vamos agregar, somar, criar, ocupar. E não separar.

Qual a importância, para vocês, de fazer a releitura de “Substitute”, do The Who, uma das principais referências da Beach Combers. E qual a importância da liberação da música pelo The Who?
Lucas: Foi uma Beach Whomenagem e mais um episódio na nossa história de amor com o The Who. Só faltava a liberação de “Substitute” para o disco sair e, quando recebemos a notícia, foi mais um motivo para brindar e escutar The Who o dia inteiro. E se tratando de The Who, uma versão ao vivo faz mais sentido ainda.

Paulo: A gente sempre gosta de fazer esse desafio: tocar algo de forma instrumental e fazer com que seja legal e familiar, e além disso, colocar nossa cara na ideia. O fato de eles liberarem, provavelmente teve a ver com a interação viva que tivemos com a banda.

Teve o episódio em 2017, em que Zak Starkey (baterista do The Who, filho de Ringo Starr) tocou com vocês no calçadão da Praia do Arpoador e depois usou o casaco da Beach Combers em um show. Qual foi a sensação desse episódio todo?
Lucas: Quer a versão “full album”? Pois bem. The Who sempre foi inspiração pra gente, talvez a maior influência em comum de nós três. Não é difícil reparar isso nos shows. No dia seguinte (ao Rock in Rio) fizemos um Beach Attack num pub no Leblon, início da tarde. Quando acabou, decidimos esticar pro calçadão do Arpoador (lugar que a gente toca há anos) já que estávamos perto, com o Cremoso (fusca) e todo equipamento. Começamos a atacar e, logo na primeira ou segunda música, o Bernar reconheceu o Zak na cobertura do Fasano. Na música seguinte ele estava no meio da galera, na nossa frente, balançando a cabeça, curtindo o show. Cruzei o olhar com ele e ele mandou um “joinha”, fazendo biquinho, valorizando a expressão. Na música seguinte ele estava fazendo uma jam com a gente. Ainda fizemos um mini solo juntos na mesma bateria. Quando acabou, eu fui apertar a mão dele e ele me deu logo um abraço. Me disse umas coisas que me deixaram bem feliz e disse que gostou do meu casaco (nesse dia só eu estava com o casaco do uniforme). Quando começamos a desmontar as coisas, a gerente do Fasano veio falar que ele adorou o casaco e perguntou se a gente queria conversar com ele. Caralho! Fomos de dois em dois, porque um tinha que ficar com os equipamentos. Foram uns 40 minutos de papo, fotos, troca de casaco e abraços inesquecíveis. No final ele disse pra gente “It’s all about music”. Isso fez com que o The Who tivesse um significado ainda maior na nossa vida. No dia seguinte, a página oficial do The Who compartilhou o vídeo do Zak tocando com a gente. Fiz um comentário e eles responderam dizendo que são fãs de Beach Combers. Está enquadrado na minha parede. Depois recebi fotos, vídeos, áudios inesquecíveis dele usando meu casaco no show do The Who em Porto Alegre. Desde então a gente tem cara de bobo alegre eternamente.

Paulo: Tocar com ele foi ao mesmo tempo tocar com um ídolo e tocar com um brother que estava ali comemorando um grande feito sonoro. Se pudéssemos resumir, foi um grande encontro de entusiastas de uma mesma vertente, do som nu e real, sem definições classificativas, apenas com muita vontade de tocar e sentir a vivência que corre nas veias.

Com quem mais gostaria de tocar, caso um episódio como o que aconteceu com o Zak voltasse a acontecer?
Lucas: Tem muita gente que a gente gostaria de tocar, mas imagina o Beach Combers abrindo a tour do The Who?!

Bernar: Com o Pete Townshend (guitarrista do The Who), claro!

Quais os planos para 2019?
Lucas: Estamos lançando esse álbum ao vivo (já pensando no próximo), turnê pelo Brasil e a intenção é chegar aonde ainda não chegamos. Posteriormente, ainda sem data marcada, mas muito em breve, vamos lançar o disco em formatos físicos também, CD, K7, vinil. Dez anos, né? Tem que comemorar o ano inteiro, vão ser várias festas.

Bernar: Atendendo a inúmeros pedidos, vamos lançar nosso uniforme para venda. Agora em junho vamos sair em tour para SP e SC, entre otras cositas mas.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista maringaense…

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