Faixa a faixa: “Harmonize”, Hamilton de Holanda Quarteto

Um acorde por dia na busca pela harmonia da vida, foi o que deu origem ao novo trabalho de Hamilton de Holanda. “Harmonize” (Brasilianos) é o 38° álbum do bandolinista e traz 10 músicas autorais. O projeto expõe a assinatura de improvisador e compositor do artista, refletida na sua maneira de traduzir ideias musicais e impressões sobre a vida com “o coração na ponta dos dedos”.

“Na música a gente sempre procura o acorde que harmonize perfeitamente com a melodia. O nome partiu daí, da composição de uma música que desenvolvi durante 31 dias. Fiz um acorde por dia, que significava a harmonia daquele momento, do que precisava ser feito. Inicialmente, era um estudo, depois acabou virando uma música, que deu nome ao disco”, explica Hamilton.

Com direção artística do bandolinista com seu empresário e parceiro criativo, Marcos Portinari, “Harmonize” foi gravado em quarteto com Daniel Santiago (violão), Thiago do Espirito Santo (baixo) e Edu Ribeiro (bateria). Juntos, eles formam o Hamilton de Holanda Quarteto. O novo disco conta ainda com a participação do acordeonista Mestrinho, na faixa “Samba Blues”.

“Harmonize” foi gravado no estúdio Da Pá Virada, em São Paulo, com engenharia de áudio de Thiago Rabello. A masterização é de André Dias. Todo o processo foi registrado em audiovisual com direção e edição de imagens de Dani Gurgel, responsável pela foto que também abre o texto – quatro desses vídeos ilustram o faixa a faixa especial abaixo, com Hamilton de Holanda contando o que inspirou cada uma das 10 faixa de “Harmonize”. Confira!

HARMONIZE
por Hamilton de Holanda

A gravação de um álbum deve ser como a vida real é, um processo de aperfeiçoamento e desapego. Depois dos últimos lançamentos homenageando Chico Buarque, Milton Nascimento e Jacob do Bandolim, veio a vontade de fazer um disco autoral.

01) Tá – É uma música com clima de “tá bem, essa é a realidade, então vamos viver, enfrentar as dificuldades e curtir os bons momentos”. Com letra de Thiago da Serrinha, a canção foi originalmente gravada no disco “Bossa Negra”, em duo com Diogo Nogueira, e diz: “Tenha honestidade pra ser, seja puro, aprenda a ceder, sedento aos caprichos de ser feliz”. A felicidade é a consequência de uma postura de resiliência e pró-atividade.

02) Canto da Siriema – Só a boa relação com a natureza e o entendimento de que ela é soberana e generosa me faz sentir bem. A Siriema é uma ave do cerrado, onde vivi boa parte de minha vida com meus pais e meu irmão. Aqui ela representa várias outras aves, como Periquito-rei, Jaó, Sabiá, Canário, Jacu, Uirapuru, Curió, Juriti, Gavião, Tuiuiu, Urubu, entre outras. Me encantam duas características básicas das aves: o canto e a liberdade de voar.

03) Nasceu o Amor – Toda vez que nasce uma criança, o mundo se renova e a esperança renasce. É o amor que não me deixa perder a fé na vida. Fiz essa música imaginando o som do bebê na barriga de sua mãe, prestes a nascer. É o eterno recomeço, é o sol me acordando, é a emoção que nunca esqueço, meus filhos nascendo, os filhos de meus amigos nascendo, meus afilhados, sobrinhos e toda a sensibilidade de reconhecer estar vivendo um momento inesquecível. É o desabrochar do mais importante sentimento da vida.

04) Harmonize – Harmonizar não significa que tudo sempre vai dar certo, mas que nunca desisto de ver a vida pela ótica do amor e da amizade. Cada dia tem uma novidade, notícias boas e ruins. Assimilo e sigo a intuição. Durante um mês, captei as sensações através de acordes com o objetivo de estudar e encontrar novos caminhos da harmonia no bandolim 10 cordas. Achei esses acordes em vários momentos diferentes: em jejum logo ao acordar, de manhã, à tarde, à noite, de madrugada. A brincadeira acabou virando uma música e dando nome ao disco.

05) Alô Arlindo – Essa música tem um grande compositor como homenageado, Arlindo Cruz. Aqui ele representa o importante movimento musical que nasceu no Rio de Janeiro, o samba do Cacique de Ramos. Fundo de Quintal, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e a madrinha Beth Carvalho, entre outros bambas, inventaram um novo jeito de fazer samba que marcou definitivamente a história da música brasileira. Harmoniza bem com o Baile do Almeidinha. Alegria autêntica.

06) Samba Blues – O choro e o jazz são primo-irmãos. O samba e o blues, também. Nesse tema, rola uma pegada de choro no samba e de jazz no blues, e/ou vice-versa. É uma ode à mistura que construiu o Brasil e continua a construir – aliás, essa é uma das características do disco todo. Para dar mais um tempero a essa mistura, a sanfona nordestina de Mestrinho faz a festa conosco.

07) Tamanduá – É o elo entre esse trabalho e a série Brasilianos (1,2 e 3). Essa música é emblemática e foi gravada em 2008, no disco Brasilianos 2. Aqui é a afirmação de uma nova formação com os craques Daniel Santiago, Thiago do Espírito Santo e Edu Ribeiro, lembrando o que foi feito pelos craques André Vasconcellos, Gabriel Grossi e Marcio Bahia, nos discos fundamentais para a minha caminhada como músico e compositor. É a reafirmação de um conceito desenvolvido com o craque das ideias, Marcos Portinari, inspirados na antropofagia da Semana de Arte Moderna de 22. Moderno é tradição.

08) Deus é Amor Pra Tudo Que é Fé – Sempre o amor. No final, ele dá um jeito de resolver as coisas. Quando minha filha tinha sete anos, me perguntou: “Papai, qual a nossa religião?”. Fiquei sem saber muito bem como responder. Pensei um pouco e disse a ela: “Você tem uma vovó da Igreja Batista, um vovô de formação católica, o outro vovô é espírita e a outra vovó católica/espírita”. Ela disse: “Ah, então a gente é misturado!”. Cinara, minha mulher, complementou: “Nossa religião é o amor e a solidariedade”. Exatamente, Deus é amor pra tudo que é fé. E finalizei dizendo que, na vida, temos que agradecer mais do que pedir.

09) Chama – A arte de tocar um instrumento foi um presente e uma escolha em minha vida. Me ajuda a lidar com o sofrimento, superar os medos, fazer amizades e me deixa alerta para manter a chama da alegria de viver sempre acesa. É como se estivesse na floresta com pessoas, com uma única fogueira e sempre alguém precisando ficar acordado para manter o fogo aceso. Ou seja, procuro deixar a mente e o coração sempre acordados para produzir, estudar, aprender, educar, criar, aprimorar, construir e sempre melhorar a conexão com a música e com as pessoas. É a chama da inventividade, da empatia, do respeito, da tolerância e da curiosidade sempre abastecida e flamejante.

10) Meu Coração é Seu – A paz interna que se manifesta em forma de música. Rafaela e Gabriel como inspiração do papai. Beijos pro Bruninho. E pras crianças que trouxeram alegria pro disco: Bethania, Antonia, Valentina, Luiza, Téo e Rita. A vida pode ser boa!

E, pra finalizar, uma lista com artistas que ouvi antes e durante o processo de gravação, mixagem e masterização: Baden Powell, Vinícius de Moraes, Villa-Lobos, Pixinguinha, Chick Corea, Pat Metheny, John Coltrane, Wynton Marsalis, Bach, Debussy, Pedro Martins, Jacob Collier, Arlindo Cruz, Sean Kuti, Michael Jackson, Guto Wirtti, Daniel Santiago, Tom Jobim, Steve Wonder, Louis Armstrong, Gonzalo Rubalcaba, Chucho Valdés, Jacob do Bandolim, Milton Nascimento, João Nogueira, Djavan, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Joshua Redman, Astor Piazzolla, Raphael Rabello, Paco de Lucia, Radamés Gnattali, Bob Marley, Michel Petruciani, Bad Plus, Frank Sinatra, Duke Ellington, Chico Buarque, Beethoven, Rachmaninoff, Mahler, Erik Satie, Legião Urbana e muito mais…

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