Entrevista: Vitor Pirralho

por Ananda Zambi

Vitor Pirralho é realmente um menino danado. O rapper e professor de literatura que dá aula a alunos do ensino médio chegou a catar o e-mail da Ellen Oléria em uma mensagem encaminhada e enviar uma mensagem privada, além de deixar uma demo do seu trabalho com a produção do Pedro Luís depois de um show do Monobloco. O resultado desses atos – um tanto corajosos – foi a concretização de duas das sete parcerias presentes no seu terceiro disco, “A Invenção é a Mãe das Necessidades” (2019) – download gratuito em www.vitorpi.com.br.

Meio alagoano meio pernambucano, Pirralho – que tem esse apelido por que era menor que seus colegas na infância e na adolescência – começou sua carreira quando ganhou um edital estadual, o Alagoas em Cena, em 2003, cujo prêmio era a gravação de um disco. Porém, por questões burocráticas, o primeiro CD de Vitor Pirralho e U.N.I.D.A.D.E., o “Devoração Crítica do Legado Universal”, só foi lançado em 2008. Em 2009 saiu seu segundo disco, “Pau-Brasil”, viabilizado através do Projeto Pixinguinha.

E foi nesse mesmo 2009 que aconteceu o momento mais importante da carreira do rapper até agora: sua aproximação com ninguém mais ninguém menos que Ney Matogrosso – acontecimento que Pirralho chama de “sorte”, já que ela se deu quando o ex-Secos e Molhados estava em Maceió e, por acaso, leu o caderno cultural de um jornal local que fizera uma matéria sobre o rapper. Ney se interessou pelo trabalho de Pirralho e escolheu a música “Tupi Fusão” para interpretar na sua turnê “Atento aos Sinais” e gravar em DVD, em 2013.

O trabalho de Vitor Pirralho tem forte influência do Movimento Antropofágico, manifestação artística modernista que consistia em devorar, metaforicamente, o inimigo ou o estrangeiro e ressignificar aquilo em uma cultura própria. Consequentemente, o cantor também aborda frequentemente a questão indígena. Em janeiro deste ano, o rapper lançou o clipe de “Rumos e Rumores”, que conta com a participação do Ney no papel de um pajé que recebe uma garrafa com um pen-drive dentro contendo várias informações e avisos sobre o futuro, representado pelo próprio Pirralho. “A Invenção é a Mãe das Necessidades” foi lançado em fevereiro e também conta com as participações de Zeca Baleiro, Tonho Crocco (Ultramen), Boby CH e Luiz de Assis.

Na entrevista abaixo, Vitor Pirralho fala com detalhes sobre sua relação com Ney Matogrosso (“É um cara incrível, fantástico, sensível e muito politizado”), explica o conceito do novo álbum (“Sempre gostei desse discurso de pegar a pop art, a world music e consumir aquilo não com subserviência, mas pra se tornar mais forte”), comenta sobre o rap nacional e nordestino (“O pessoal está se movimentando no Nordeste, tudo gente nova de 20 e poucos anos”), desabafa sobre conciliar a vida de músico com a de professor de literatura e define Chico Science como um antropófago. Confira:

Como começou sua relação com o Ney Matogrosso?
Foi sorte, a verdade é essa. Em 2009 – vê como as coisas são mais antigas até chegar nesse disco novo – ele veio fazer um show aqui (em Maceió). Coincidentemente, a gente tinha recém lançado o disco “Pau-Brasil”, nosso segundo disco, e o jornal Gazeta de Alagoas, o principal daqui, queria fazer uma matéria de capa do Caderno B, o caderno cultural, sobre o lançamento desse disco, já que ele foi viabilizado por causa de um prêmio nacional bastante conhecido, o Projeto Pixinguinha. A coincidência foi que o show do Ney Matogrosso foi numa sexta e no sábado saiu essa matéria, e no hotel em que ele estava hospedado aqui, o pessoal deixou no quarto dos hóspedes o jornal pra eles lerem. Ney foi direto no caderno cultural e estava lá minha cara. Ele se interessou porque dizia que era “rap antropofágico” e que o discurso das letras era no eu-lírico do índio, ou seja, a primeira pessoa era como índio. Ele leu aquilo comigo dizendo sobre o disco ser conceitual, baseado em Oswald de Andrade, nessa coisa da antropofagia da cultura indígena, devorar o inimigo para se tornar mais forte, a visão do disco tendo essa visão da primeira-pessoa do índio. Ele disse: “Pô, todo rap que eu vi até hoje, a primeira pessoa é o descendente africano, do africano escravizado”. O rap tem muito essa coisa né, da cultura negra, do sofrimento do negro e tal, que também é uma etnia importante, claro, na formação do povo brasileiro, só que quando tudo começou era o índio que estava aqui. Então decidi trazer essa visão que, a meu ver, pouco tinha sido trabalhada na música. Não inventei isso, mas pouco se trabalhava a visão de ter o índio como um representante nacional. O rap, de fato, é a representação da etnia negra, dos descendentes de toda a história vergonhosa da escravidão. Dai que quando o Ney leu a matéria, ele falou com a produtora local do show, e perguntou se me conhecia. Ela disse que sim e ele disse que queria me conhecer. Ela me ligou na hora avisando. Eu não tinha lido a matéria ainda, era sábado pela manhã, eu ainda ia sair de casa pra comprar o jornal. Fui lá e o conheci. Entreguei o disco, falei mais ou menos o que ele já tinha lido, bati um papo… Ele já estava ali esperando no saguão do hotel o carro vir buscá-lo pra ele ir pro aeroporto e ir embora, então foi tudo muito rápido. Uns três meses depois, ele me ligou dizendo: “Gostei demais do disco e… vou gravar”, sem dizer ainda qual faixa gravaria. Fiquei bem emocionado. A gente continuou desenvolvendo uma relação, sempre conversando, sempre trocando ideia. Quando ele começou a ensaiar e fazer o show novo – ele fez um show pra depois fazer o disco –, o Ney começou a me mandar os ensaios, e pra minha surpresa e pra surpresa de todo mundo foi “Tupi Fusão”.

Por que surpresa?
Porque ela é ou talvez seja a música mais legal do disco, e é a minha música de trabalho mesmo, tanto que tem um clipe de animação, de fato a gente apostou nela. Mas surpresa porque o refrão dela fala meu nome, eu me apresento na música. Eu falo “Vitor Pi, vim em tupi, pra entupir de ideia a cabeça de toda a trupe”. Eu pensei: “Essa está fora, não vai ser essa porque fala meu nome”. Entre os amigos e a família ficou meio que uma aposta, e, claro, todo mundo já tinha descartado essa. Mas foi essa.

E ele fala mesmo teu nome?
Ele disse: “Como no refrão você diz o seu nome, não posso dizer ‘Vitor Pi, vim em tupi’, como se fosse você, vou modificar uma palavra do refrão. Eu vou dizer ‘Vitor Pi, vive em tupi’. Tem algum problema?” Eu disse: “Problema nenhum”. Isso foi em 2009, quando ele começou a ensaiar e a sair em turnê pra depois gravar o disco. Quando ele gravou, era 2013. Ele escolheu compositores mais jovens – nesse disco não tem quase ninguém consagrado. Tem o Dani Black, a banda Tono, o Dan Nakagawa… Então assim, ele fez a turnê por esse tempo todo. Quando eu vi a possibilidade de fazermos um disco e um clipe novo – com quem ia conseguindo gravar, eu ia gravando e guardando – , contei a história a ele, qual era o conceito do disco “A Invenção é a Mãe das Necessidades”, a ideia que eu queria ter, e disse: “Tem uma música que quero compor pra você, pra você participar no meu disco e fazer um clipe com ela.” Contei a história do clipe (“Rumos e Rumores”) e ele se amarrou na ideia cinematográfica, gostou também porque falei que ele iria interpretar um personagem, que não ia ser clipe cantando pra câmera. Ele gostou porque, na verdade, o sonho da vida dele era ser ator, ele achava que cantar era um recurso pra atuar. Então rolou. Já faz 10 anos que a gente vem trocando essa ideia e o Ney é um cara incrível.

Mas vocês mantêm contato?
Mantemos. É um cara incrível, fantástico, sensível e muito politizado, gosta das coisas muito certas, é muito profissional, e também é um cara bastante normal.

Como que despertou esse interesse pelo movimento antropofágico e pela questão indígena? Queria também que você falasse um pouco sobre o conceito do disco novo e do clipe de “Rumos e Rumores”, que mostra o cara do futuro tentando avisar sobre acontecimentos ao cara do passado pré-colonial, que é um pajé. Você não acha que essa questão vai pra além da causa indígena? Ou melhor, você não acha que o Brasil e o mundo também estão com esse mesmo problema?
Basicamente a ideia é essa, trazer esse conceito: o cara que está naquela distopia, que é uma distopia até real, pois a gente está vivendo o que vários caras escreveram na literatura, como George Orwell em “1984” e Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”, esses governos ditatoriais… então a ideia inicial do índio como o nativo que estava aqui (pelo menos no Brasil) antes de tudo isso acontecer, que eu já vinha trabalhando nos discos anteriores, (principalmente no “Pau-Brasil”), eu decidi fazer no clipe. Um pajé cuja casa e terra não tivessem sido invadidas ainda, e alguém que está nessa distopia, nesse futuro-presente, no agora, que manda uma mensagem pro pajé via pen drive, naquela imagem símbolo da garrafa com um pen drive dentro, como se fosse um pergaminho, como antigamente se fazia, aquela mensagem na garrafa no oceano: “Ó, tenta fazer alguma coisa porque tudo isso aqui que eu vou mandar de informação pra você, essa tecnologia toda vai consumir a porra toda aqui e ela vai se tornar bélica e as pessoas vão se matar.” É nesse ponto que entra, como você observou, o conceito além do indígena. Porque o nível é mundial. Eu tentei, a princípio, trazer essa questão nacional, do índio brasileiro que está recebendo essas informações, mas as imagens que são veiculadas no clipe são de guerra, de protestos, de bomba, de avião explodindo, essas coisas todas. Então realmente a coisa vai além da questão indígena apenas, mas tentei focar nessa ideia de quem estava no brasil antes da colonização e fiz esse recorte. Mas quando eu mando informação pro índio, eu mando informação no diálogo, do que tá acontecendo no mundo.

Entrando na questão do interesse pela antropofagia e do interesse indígena, é por formação mesmo. As minhas leituras lá de Pernambuco, por exemplo, quando eu morava lá, eu lia muito João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, etc. Curti muito o Chico Science – aquela época (anos 1990) foi muito fervorosa, culturalmente falando. Quando conheci Oswald de Andrade, me amarrei no conceito de antropofagia e eu vi aquilo no Chico Science, essa coisa de devorar o inimigo, o estrangeiro, a cultura estrangeira e se tornar mais forte. O que Chico fazia? Ele pegava hip hop, funk, rock e botava frevo, maracatu. O Oswald fazia isso, pegava o texto do Pero Vaz de Caminha e fazia um texto dele. Ele ia devorando, assim como o índio fazia. Essa coisa toda me chamou atenção. Tanto que no meu trabalho de conclusão de curso eu fiz essa ponte: coloquei que Chico Science praticava um novo modernismo na ponta final do século XX. Mesmo sem nunca ter mencionado ou falado sobre Oswald de Andrade, Chico com certeza o leu, e conectou essa antopofagia na música, como Oswald fez na literatura, no teatro e tal. Sempre gostei desse discurso de pegar a pop art, a world music e consumir aquilo não com subserviência, mas pra se tornar mais forte, como um processo identitário, de colocar a sua cara na parada. Então foi minha formação de leitura, musical e de adolescência. Oswald de Andrade usou como símbolo o índio antropófago, que estava aqui quando o estrangeiro chegou e comeu ele. Comecei a me interessar também pela causa indígena. Realmente, quem é o nativo do Brasil? Quem estava aqui antes de tudo?

Tua principal profissão é a de professor de literatura, né?
Não é a principal, é a única. Não pago minhas contas com música. Faço música e poesia porque é uma coisa fisiológica praticamente.

Por isso eu queria perguntar: o que você sente de dificuldade em ganhar dinheiro com música?
É o tipo de música, eu acho. Não tem nada em Maceió, por exemplo, com relação a casas de shows. Não tem casa de show pra convidar as bandas alternativas e autorais, principalmente. Ninguém se interessa por isso. Aqui tem muita música baiana, axé music, pagode, sertanejo universitário – tem muita banda que toca cover disso. Então é o que rola na noite, nas casas noturnas. Não tem espaço aqui (para música autoral), o negócio é esse. A minha vida toda eu viabilizei os meus produtos musicais – discos, shows – através de editais, festivais e concursos. Fico usando tudo o que está acontecendo. Todas as vezes que saí pra tocar foi sempre por edital – Itaú, Vivo, etc. São nessas coisas que fico prestando atenção. Por exemplo, esse ano já está garantido que a gente vai pro Rio de Janeiro lançar o disco via BNDES. Mas agora está ficando cada vez mais difícil, o nosso (atual) governo quer extinguir o Ministério da Cultura e fazer vários cortes de orçamento culturais. Se já era difícil, agora está ficando praticamente impossível. Então estou sempre antenado nessas coisas, porque pra viver disso eu teria que ser de uma dupla sertaneja, ou ser da swingueira, de um pagodão, tocar cover, as músicas do carnaval, do São João, das épocas né, pra você poder realmente viver fazendo cinco ou seis shows por semana. Não tem circuito pra rap, pra rock, aqui em Maceió, principalmente.

Você acha que em outro lugar seria diferente?
Não está fácil em nenhum lugar, na verdade, mas principalmente Maceió, baseado na minha experiência aqui. Mas, por exemplo, quando falo com meus amigos de Pernambuco, o pessoal fala que lá também está difícil. Por exemplo, sobre o lance do BNDES, quem nos deu uma força foi uma menina de lá do Rio de Janeiro, que também me falou a mesma coisa. Enfim, está foda em todo lugar, mas aqui é um dos piores lugares – posso falar porque estou aqui.

Mas ainda assim, vejo que o rap tá crescendo no Brasil. Pra você, por que isso aconteceu?
De fato, o rap no Brasil tem crescido. Tem um divisor de água aí: 2016. Dois caras se juntaram, o Baco Exu do Blues e o Diomedes Chinaski, um de Salvador e o outro de Recife, respectivamente, e fizeram uma música, a “Sulicídio”. Na faixa, eles disparam contra os atuais MCs e rappers da cena do Sul e Sudeste – os caras saíram dizendo os nomes deles na música, mandam xingamentos e dizem que não presta pra nada o som dos caras, que é tudo playboy de condomínio e tal, os caras detonam mesmo. Essa faixa deu uma zoada no Brasil de uma forma que todo mundo começou a responder, o pessoal que foi citado na faixa. Isso deu uma movimentada no rap, que é a tal da diss (disrespect song), que já acontecia nos Estados Unidos com aquela história famosa de Tupac e Notorious B.I.G, que acabou com os caras se matando. Aqui começou um monte de gente, com seus 21, 22 anos, que é a idade dos caras, a responder. Depois disso, deu uma visibilidade geral no rap, na nova geração, na new school, e está bombando. Tem também a coisa do acesso à tecnologia, você precisa só de um computador em casa pra fazer rap. Então tem um monte de beatmaker, né. E o que você mais tem hoje na internet é curso. Os caras inventaram agora de fazer curso de como fazer suas próprias bases, como ser MC, como fazer sua própria letra, a melodia, os trava-línguas e tal. Todo mundo começou a criar um mercado em cima do rap. E a produção audiovisual aumentou – aí a galera nova do audiovisual começa a fazer clipe, ou seja, criam-se empresas de clipe e de cinema que dão visibilidade a essas empresas e ao artista. E começaram a fazer marcas, roupas, enfim, criou-se um mercado de 2016 pra cá. Tem produtoras, estúdios de gravação, selos, só de rap. E Maceió acompanha esse movimento. Tem muita gente nova aparecendo nesses gêneros novos, no trap, nessa vertente do rap. Tem o Boby CH, o Quarentena Sonora, o PH, a Arielly, o Monster House, que é praticamente um selo e que trabalha só com isso… Ou seja, o pessoal tá se movimentando, tudo gente nova de 20 e poucos anos. Só que são eles mesmos que se juntam e fazem, não tem aquela coisa de um circuito. Eu acho que falta um espaço na cidade mesmo, mas a cidade em si, os integrantes, estão se movimentando no rap. É uma questão de espaço mesmo, e é mais a periferia que se movimenta.

Por que a invenção é a mãe das necessidades, e não o inverso, como diria Platão?
Eu penso que as necessidades humanas já foram supridas, apesar de não termos a distribuição correta. Tem gente ainda que está na miséria, tem países e pessoas, no Brasil mesmo, que passam necessidade e não têm acesso, mas tudo o que já podia ser feito na questão de necessidades básicas, o ser-humano já chegou num nível de produção e tecnologia que ele já supriu tudo. Então essa coisa básica de moradia, alimentação, conforto necessário, o básico de sobrevivência, de viver uma vida decente, já chegou num nível que ele consegue sobreviver sem precisar inventar mais muita coisa. Ou seja, a tecnologia ficou tão grande, tão avançada nos últimos 15, 20 anos que as invenções passaram a ditar as nossas necessidades. Então é aquela coisa: saiu um celular que tem um aplicativo a mais do que o seu – o seu está bonzinho, mas você já se sente na necessidade de ter aquele novo. “Porque o meu carro não tá suprindo mais a minha necessidade”, só que seu carro anda, faz tudo normal, não precisa de nada, mas você quer uma coisa que é uma inovação. Então eu vejo que os tempos em que a gente vive mudaram o ditado. O ditado acabou sendo, de fato, convertido, nessa outra situação. Ou seja, a gente se sente necessitado a consumir, é a época de consumismo. Por isso inverti o conceito. Eu não inventei, eu vi que a sociedade fez isso. Eu apenas nomeei, coloquei no papel que a invenção se tornasse a mãe das necessidades. É assim que a gente vive hoje, infelizmente.

Ananda Zambi (@anandazambi) é jornalista e editora do Nonada – jornalismo travessia. Nas horas vagas, também brinca de fazer música”. A foto que abre o texto é de Gabriel Moreira / Panam Filmes

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