Três filmes: “Infiltrado na Klan”, “Green Book” e “A Favorita”

por Marcelo Costa

“Infiltrado na Klan”, de Spike Lee (2018)
Vencedor absoluto dos Melhores do Ano do Scream & Yell na categoria Filme Internacional com 57 votos (contra 39 de “Roma” em segundo e 36 de “Pantera Negra” em terceiro) e (inexplicavelmente) preterido no Globo de Ouro por “Bohemian Rhapsody” (2018), “Infiltrado na Klan” conta a história verídica do policial negro Ron Stallwort (baseado em sua autobiografia), que após começar a trabalhar no setor de investigações em uma delegacia do Colorado no começo dos anos 70, acaba se infiltrando no grupo local Ku Klux Klan, movimento defende correntes reacionárias e extremistas como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração, o anticatolicismo e o antissemitismo, entre outras barbaridades. Bem, Ron (interpretado por John David Washington) é negro e, por motivos óbvios, não pode frequentar as reuniões da KKK, por isso o chefe da delegacia local escala seu parceiro, o detetive (branco… e judeu) Flip Zimmerman (Adam Driver) para a operação, que terá Ron ao telefone acertando encontros com os membros da KKK ou mesmo debatendo temas com David Duke, presidente da organização, e Flip interpretando Don nos encontros com os membros extremistas. O grande diretor Spike Lee, inexplicavelmente indicado ao Oscar de Melhor Diretor pela primeira vez em sua carreira (ele ganhou um Oscar honorário pelo conjunto da obra em 2016 numa clara tentativa da Academia de se redimir de seus erros), aparou as arestas do roteiro e fez um filme extremamente hollywoodiano, para as massas, sem perder a elegância cinematográfica muito menos a força política – tudo que “Corra!” (2017) trouxe de implícito sobre racismo em seu premiado roteiro, “Infiltrado na Klan” explicita – mas ainda assim não tãoooo Spike Lee, ao menos até os cinco minutos derradeiros, em que ele brilhantemente conecta a história setentista de Ron com atos supremacistas atuais chocando impiedosamente e magistralmente a plateia com um dos finais mais fortes do cinema recente. Para ver e torcer (muito) por Spike (apesar de Cuarón).

Ps. O momento que intercala a fala arrepiante de Harry Belafonte com “O Nascimento de Uma Nação”, de D. W. Griffith, é uma das passagens mais fodas do cinema nesta década.

Nota: 8

“Green Book”, de Peter Farrelly (2018)
Donald Walbridge Shirley foi um renomado pianista de jazz norte-americano falecido em 2013, cujo período de maior fama data da virada dos anos 50 para os 60, época em que era convidado para tocar na Casa Branca e circulava pelo país mostrando sua destreza nas teclas. Para uma dessas turnês, Don Shirley precisava de um motorista, mas não só: ele precisava de alguém que pudesse resolver possíveis “problemas” durante o trajeto. Shirley era negro e sua enorme fama no meio do jazz e da música clássica não o livrava do racismo (e da solidão). Por isso, ao agendar uma turnê pelo Deep South, região que abriga os Estados Confederados da América (Texas, Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia e Louisiana), Don contratou o motorista ítalo-americano Tony Lip (tosco, falastrão e racista, como um carcamano), um brutamontes que vivia de bicos como segurança em boates e de grana de apostas para sustentar a família no Bronx nova-iorquino. “Green Book” é a história (“verídica”) do choque dessas culturas: a da erudição de um renomado homem negro numa América racista com a do tosqueira jeca de um descendente de italianos na terra das oportunidades. Cercado por polêmicas que envolvem o diretor Peter Farrelly (das comédias besteirol “Debi & Loide”, de 1994, “Quem Vai Ficar com Mary?”, de 1998, e “Eu, Eu Mesmo e Irene”, de 2000), o roteirista Nick Vallelonga, filho de Tony Lip (que usou entrevistas que fez com o pai – que tentou ser escritor e ator, tendo interpretado Carmine Lupertazzi em “Os Sopranos” – e com Don Shirley para o roteiro), e a família do pianista (que acusou o filme de ser um amontoado de mentiras), “Green Book” perdeu fôlego na corrida pelo Oscar (após ganhar o Globo de Ouro), mas, dentro da sala de cinema, segue impecável, tanto pela química incrível entre Viggo Mortensen (o chofer) e Mahershala Ali (o patrão pianista), indicados ao Oscar por suas atuações (principal e coadjuvante, respectivamente), tanto quanto pela história importante, que escancara uma América racista – desbravada por Don Shirley porque ele acreditava ser possível mudar a mente das pessoas com a música – num filme combativo e poético.

Ps. O livro “The Negro Motorist Green Book” era um guia turístico (publicado entre 1936 e 1966) para viajantes afro-americanos com dicas de dormitórios e restaurantes amigáveis.

Nota: 8.5

“A Favorita”, de Yórgos Lánthimos (2018)
Os olhares atentos de Hollywood já tinham flagrado o “auteur” grego Yórgos Lánthimos em 2010, indicado na categoria Melhor Filme Estrangeiro, por “Kynodontas”, seu segundo projeto. O terceiro, “Alpes”, ainda foi feito na Grécia, e é a partir do quarto que Yórgos inicia sua conquista do mundo: começa com o distópico e desapaixonadamente surreal “O Lagosta” (2015), segue com o violento e sem concessões “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017) e completa a façanha com “A Favorita” (2018), um drama de época virado do avesso, um “Ligações Perigosas” (1988) do mundo invertido, surpreendentemente e merecidamente indicado a 10 categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e Fotografia (o que já é um prêmio para a “fish eye”). Yórgos recria os bastidores da corte britânica da Rainha Anne (interpretada por Olivia Colman), a última das monarcas Stuart, conhecida como “rainha sem filhos” (ela perdeu 17 filhos entre abortos espontâneos, bebês que morreram no parto e quatro antes dos dois anos), e as disputas femininas que, paralelamente, influenciaram o rumo da nação. Melhor amiga, confidente, dama de companhia, duquesa e amante (influente) da Rainha, a imponente Lady Sarah (Rachel Weisz) mantém o castelo (e o reino) com pulso firme nos momentos de dúvida e dor da Rainha, constantemente adoentada. Porém, uma nova figura entra em cena, a prima Abigail (Emma Stone), que ascende rapidamente na escala social do castelo, seduzindo a rainha e deixando Sarah enciumada. Focando nesse trio feminino (os homens são personagens secundários, manipulados, tolos e dispensáveis), Yórgos dramatiza, satiriza e, principalmente, humaniza de maneira genial as relações de poder na corte britânica sem abandonar sua queda pelo grotesco, que fizeram de “O Lagosta” e “O Cervo” obras primas delirantes dentro de uma Hollywood viciada em fórmulas. O resultado é mais um filmaço de autor coroado por três grandes atuações femininas, as três indicadas ao Oscar (Colman na categoria principal, Weisz e Stone como coadjuvante) e… coelhos. Brilhante.

Ps. Ana reinou entre 1707 e 1714. Em seu reinado nasceu a Grâ-Bretanha com a união da Inglaterra com a Escócia. Winston Churchill nasceu no castelo construído por John e Lady Sara… Churchill.

Nota: 9

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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