Entrevista: D’Alva (2018)

entrevista por Pedro Salgado, de Lisboa

Na última vez em que falei com Ben Monteiro e Alex D’Alva Teixeira, o duo lisboeta tinha acabado de editar um álbum de estreia, “#batequebate” (2014), que trilhava o caminho do pop urbano e experimental, colocando o D’Alva numa posição singular no panorama da nova música portuguesa. Durante dois anos, os dois promoveram o disco e fizeram diversos shows. Para além disso, a dupla escreveu, compôs música e Ben produziu vários artistas até à atualidade. Abordando com a banda o novo álbum, numa conhecida esplanada lisboeta, ficou claro que a sua elaboração resultou da pressão que os dois músicos sentiram para dar continuidade ao seu trajeto e do entendimento sobre o rumo a seguir: “O novo trabalho não demorou a aparecer por falta de inspiração. Tudo passou pelo fato de nos encontrarmos individualmente e depois um com o outro. Quando isso aconteceu, percebemos logo o que queríamos e o álbum foi feito rapidamente”, explica Ben Monteiro.

Globalmente, “Maus Êxitos” (2018) é um disco variado, com pegada dançante, onde coabitam diferentes estilos sonoros. Nele, Alex e Ben abordam o pop colorido, introduzem referências oitentistas e incluem alguns momentos de romance e sensualidade de uma forma focada e eficiente. Em temas de pujança roqueira, como “Verdade Sem Consequência”, o duo utiliza um trocadilho entre “murais” (do Facebook) e “morais” (ligados à escala de valores éticos), defendendo a ideia de que existe atualmente um muro separando as pessoas, do qual as novas tecnologias são responsáveis. Sobre o papel do D’Alva como influenciador no social media, Ben Monteiro relativiza a sua importância: “Somos apenas músicos e se inspirarmos alguém terá de ser pela arte que criamos. Estamos falando nas canções somente aquilo que nos marca”.

Em face da especificidade sonora do conjunto, os dois músicos defendem que a afirmação do D’Alva demorará mais tempo e Alex D’Alva Teixeira sublinha a identidade do projeto: “Somos uma banda portuguesa, queremos triunfar no nosso país e sentimos que a internacionalização terá de ocorrer no momento certo e com a estrutura certa”. A vontade de mostrar o novo trabalho a um público alargado é acompanhada pela memória de boas experiências recentes: “Nas nossas atuações no Festival NOS Alive de 2014 e 2018 muitas pessoas diziam que não entendiam o que cantávamos, mas não conseguiam parar de dançar”, conta Ben Monteiro. Embora o Brasil esteja no horizonte do grupo, fruto dos laços familiares e das influências musicais, existem aspectos a consolidar: “Os músicos brasileiros que nos visitam têm uma ótima produção e dão muita atenção a todos os pormenores. Sinto que ainda temos algo a aprender e eu quero ir bem preparado para o Brasil”, conclui Alex D’Alva Teixeira. De Lisboa para o Brasil, o D’Alva conversou com o Scream & Yell. Confira:

O novo álbum chama-se “Maus Êxitos” por vocês pretenderem desmistificar a ideia de sucesso comercial ou trata-se apenas de um jogo de palavras?
Talvez haja uma tentativa de nos descartarmos da ideia de sermos bem sucedidos naquilo que estamos fazendo. Mas, convém dizer que o nome surgiu depois dos elogios da crítica e do público ao álbum “#batequebate”, numa época em que tocamos bastante, com muita gente falando do D’Alva e onde havia receio de fazer o segundo disco. Para além da expectativa natural, também nos interrogávamos se seriamos capazes de compor músicas tão boas quanto as do primeiro álbum. No ano que precedeu a edição de “Maus Êxitos” estivemos a trabalhar com muitos artistas do pop mainstream. Eram pessoas que nunca suporíamos que conhecessem o D’Alva ou estivessem interessados na nossa forma de fazer música. Estamos falando de major labels, de artistas que têm milhões de streams ou plays e turnês esgotadas. A primeira colaboração que fizemos (com Virgul no tema “Só Eu Sei”) resultou num disco de platina. Ao fazer esse trabalho, tomamos contato com uma realidade que desconhecíamos, sentimos que aprendemos muita coisa e houve a tentação de seguir por esse lado. As probabilidades dessa via ser rentável financeiramente eram grandes, mas resolvemos fazer os “maus êxitos” para nós e os “bons êxitos” para os outros (risos). Se os sucessos do D’Alva não tiverem os mesmos números que esses músicos é irrelevante, porque são os nossos êxitos. De qualquer modo, à medida que o tempo passa, o título “Maus Êxitos” está se desdobrando em mais significados. Nós fizemos bastante dinheiro com as canções que compusemos para outras pessoas e provamos que conseguimos trilhar os dois caminhos. Mas, inicialmente, tivemos receio que esses artistas não entendessem o que estávamos fazendo. Para quem está fora do pop, a nossa música é perfeitamente assimilável e sentimo-nos confortáveis com o trabalho que desenvolvemos.

A diversidade sonora e a forma como vocês conseguiram ligar músicas dançáveis com temas de maior atratividade emocional definem o disco…
Existe uma expectativa sobre o som do D’Alva, que nós entendemos, mas também achamos que o álbum de estreia é muito variado sonicamente. Aliás uma das favoritas de muitas pessoas e dos novos fãs lembra as músicas do nosso primeiro disco (“Física ou Química”). Essa canção esteve para não entrar no álbum, mas depois sentimos que ainda nos representava. Se calhar houve uma reação inconsciente, ou seja, se vamos fazer algo mais agradável para os ouvidos teremos de contrabalançar isso com temas mais emotivos. Mas nada foi calculado, porque essas eram as conversas e as questões que colocávamos a nós próprios. Não forçamos nenhum aspeto. Ainda sim, no meio do processo, sentimos que as canções coloridas eram as mais densas quanto à sua temática. Um dos exemplos perfeitos dessa abordagem são as músicas da cantora sueca Robyn. Como é o caso do tema “Call Your Girlfriend”, que tem uma letra dura e séria, mas o beat é superdançável e resulta perfeitamente num clube. A faixa “Every Breath You Take”, do Sting, liricamente é negra, mas a música é inspiradora e faz-nos sentir bem. Quando essa dicotomia acontece de uma forma quase inconsequente, significa que existem mais camadas na criação, isso verifica-se em outros meios artísticos e enriquece o que estamos fazendo. Inicialmente, não tínhamos nenhuma intenção, mas quando percebemos que estava acontecendo deixamos o movimento continuar.

Nas faixas “Física ou Química” e “Mulher Versão” o pop colorido assume uma perspetiva animada, mas também hedonista. Agrada-vos a ideia de transmitir vários significados nas canções?
Bastante. Neste disco houve um empenho maior na escrita e procuramos fazer canções com qualidade. O foco foi nesses pontos e não tanto na produção. Em dado momento, olhamos para as letras (quase à lupa) e pensamos nos múltiplos significados que um vocábulo pode ter. Muitas palavras são simples e podemos gerar metáforas na sua utilização. No caso de “Mulher Versão”, a letra foi escrita por André Henriques (do Linda Martini) e nós fizemos a música. Enquanto “Físico Química” é da nossa autoria. Muitas vezes, parávamos o processo de escrita para ler qualquer coisa, ver um vídeo sobre um determinado tópico ou assistir a um determinado discurso. Estávamos fazendo música pop, mas houve essa preocupação. Em “Física ou Química”, enumeramos alguns filósofos, mas sem pretender mostrar que conhecíamos a figura ou a sua corrente de pensamento. Essas duas canções são as mais diferentes liricamente do resto do disco. A primeira, porque foi escrita por uma pessoa com quem nos identificamos e no tema “Física ou Química” tentamos contar uma história que não estivesse ligada aos integrantes do D’Alva. Mas acabou por abordar algumas dinâmicas de comunicação e o relacionamento entre duas pessoas bastante diferentes que se sentem atraídas uma pela outra.

Qual é a principal mensagem deste trabalho?
“Maus Êxitos” demorou a sair por causa do medo de falhar. É algo recorrente no passado, quem estuda artes ou trabalha como criador encara esse fato. No teatro, se alguma coisa impede que façamos a nossa atividade (e é uma força avassaladora), então temos de fazer uma espécie de judô e usar essa força. Por isso, houve o receio de não corresponder às expectativas ou fazer algo melhor, bem como o medo de pensar se o primeiro disco teria sido só hype e questionar se tínhamos uma carreira pela frente. Curiosamente, na bíblia, o medo e o amor são antagônicos, mas é óbvio que pretendemos caminhar na direção do amor. As últimas canções do disco e em particular “Imensidão” falam disso. Em quase tudo o que fazemos, o medo está presente: “Não vou andar de avião, porque tenho medo de cair, etc”. Quando nos dirigimos para o medo estamos nos afastando do amor. Esse ponto onde queremos que todos estejam é o amor incondicional. Não é um lugar fácil. Mas, o verdadeiro amor advém de duas pessoas serem diferentes. Porque estar com alguém idêntico ou que tem uma postura igual é bastante fácil. O importante é decidir estar com essa pessoa e lutar por ela. A mensagem do disco é a seguinte: todos queremos a mesma coisa, mas estamos exatamente na direção oposta.

Vocês são filhos de mães cariocas. Em função dessa ligação familiar como avaliam a atual situação social e política do Brasil?
Acima de tudo sentimos uma grande tristeza e independentemente das caras que encabeçam os dois lados da barricada, o que está acontecendo em famílias que conhecemos é muito triste. Se as pessoas não conseguem encontrar, no seio familiar, uma forma de comunicar, tentando entender a opinião contrária e respeitando essa posição, então algo maior está por detrás disso tudo. No Rio de Janeiro coabitam as coisas mais belas e as mais feias e é preciso vestir uma capa de cinismo para apreciar aquilo que é bonito, fechando os olhos para outras situações. Essas realidades estão bem próximas: dois quarteirões à frente e estamos numa favela e dois quarteirões atrás no Leblon. Os cariocas convivem com isso, mas nós não estamos acostumados com esse cenário. Atualmente, as gerações mais novas têm de ser consequentes quando criticam os apoiantes de Bolsonaro e os partidários do Bolsonaro têm de admitir que houve alguma irresponsabilidade no passado, fazendo com que agora haja necessidade de recorrer à força bruta. O Brasil deveria parar de querer se comparar com o resto do mundo, assumindo e celebrando a sua identidade.

Ainda mantêm o desejo de atuar lá?
Claro que sim. Em Portugal o público mainstream adora a Ivete Sangalo e aprecia o fato de ela ser uma mulher sofisticada, bonita, uma espécie de Beyoncé, mas depois existe aquele lado selvagem que está inerente à cultura brasileira. A maneira como a Ivete está em palco, aquele abandono, o suor e aquele coloquialismo verbal dela atrai o português. Nós tentamos ser assim e estamos muito curiosos para saber como o público brasileiro irá reagir ao show do D’Alva. A nossa banda é fruto de muita cultura pop do Brasil e consumimos bastantes memes da Internet. No refrão de “P’ Ódio”, a estrofe “tem gente que fala, fala, fala, fala muito e não diz nada, lá no fundo é recalcada” é inspirada na nossa herança brasileira. Relativamente às parcerias, gostaríamos de colaborar com o Silva por uma questão de afinidade e temos muitos amigos em comum com ele. Também já pensamos em fazer um trabalho com o Rico Dalasam. O rap brasileiro é forte há muitos anos, a música queer está pujante lá e o baile funk está se enraizando na massa popular. Há pessoas escrevendo cada vez melhor na nova mpb e criando boas misturas sonoras. A Mahmundi está fazendo coisas sonicamente parecidas conosco e o Rubel compõe músicas bastante interessantes.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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